Wednesday, February 29, 2012

Like a virgin...

touched for the very first time (Madonna)

Doeu, ardeu, sangrou. Não consegui parar de pensar, um minuto que fosse, no que estava fazendo. Era bom e eu queria, estava bem segura, mas isso não me impediu de pensar, na hora da dor, o motivo de estar ali.

Terminar antes da hora? Nem me passou pela cabeça, sabia que o final seria bastante prazeroso. E em alguns momentos a dor diminuía e eu até curtia. Era grande e era bom ser grande, mas pensava o tempo todo se o tamanho era o causador da dor e da ardência que sentia.

Ainda bem que ele era experiente, sabia o que estava fazendo e ao mesmo tempo, era preocupado e cuidadoso. Me perguntava se estava doendo ou muito rápido, se queria trocar de posição para ficar mais confortável...

Eu só mudava se ele pedisse, mas quando ia muito rápido e meu corpo se contraía por causa da sensação da pele estar rasgando, pedia para diminuir o ritmo. Às vezes, as mãos dele pareciam leves como plumas na minha pele, noutras, bastante pesadas e arranhavam, isso quando não colocava todo o seu peso em cima de mim. Tinha certeza que as dores no corpo no outro dia seriam inevitáveis.

Tentei prestar atenção nos barulhos, nas vozes e carros na rua, nos latidos perdidos de algum cachorro dos prédios próximos, na respiração dele, na trilha sonora que era bastante anos oitenta. Tocou Like a virgin, da Madonna, e fiquei pensando nos momentos que nos remetem as nossas primeiras experiências. Aquele era um.

Não era minha primeira vez. Comecei cedo, com 15 anos, aconteceu logo depois do meu aniversário. Mas foi só essa semana, onze anos e quase vinte tatuagens depois que me dei conta do quanto se tatuar pode ser dolorido e sofrido.

Wednesday, February 15, 2012

Voltas

Para ler ouvindo Eu Não Entendo, do Nenhum de Nós

“Você até parece um vício. Que largar é quase impossível. Exige muito sacrifício. E quando eu me considerava limpo. Vem você pra me oferecer mais.”


O improvável aconteceu e agora a vida está aí, se divertindo com o nosso amadorismo diante dela. Falar que não quer? Como? Se isso foi o que mais se desejou. Segundo alguns, o querer foi tanto que chegou a beirar a obsessão.

É bastante difícil levar a vida adiante quando a gente tem um sentimento que parece uma âncora. E é muito triste ter que se conformar e pensar como terminadas histórias mal resolvidas.

Esses casos mal terminados pesam a alma, povoam de pontos de interrogações lembranças banais e sempre serão recordadas com dor, por mais que o tempo pareça ter amenizado.

Agora que eu já estava no estágio de não mexer na casca da ferida para não provocar dor, de não falar, de não perguntar, de desviar caminhos, de ter certeza que nunca mais... Numa dessas voltas da vida, eis que o improvável, ou talvez o mais provável, aconteceu.

E veio com o sorriso mais lindo e a voz firme de quem quer impor a sua vontade. Chegou a hora de falar de coisas mal resolvidas, de parar de carregar âncoras e esperar que a vida permita que eu pinte as asas de um anjo que eu conheci.

Wednesday, February 08, 2012

O Palhaço




Finalmente, consegui assistir ao filme “O Palhaço”. Adoro filmes brasileiros, temas prosaicos, conflitos internos e enredos que se desenrolam sem presa, em longos planos sequencias, como a vida. E sim, sou fã do Selton Mello diretor, desde o Feliz Natal.

No filme, Benjamim (Selton Mello) e o pai, Valdemar (Paulo José) são a dupla de palhaços Pangaré & Puro Sangue do Circo Esperança (reparem no nome). Mais do que isso, eles que administram o circo. Só que para Benjamin, a vida está sem graça e além de ter que fazer graça para os outros, ele tem que se preocupar com o adiantamento dos músicos, o alvará da prefeitura, o sutiã para a Dona Zaira, o terreno arenoso e os documentos (identidade, CPF e comprovante de residência), que ele não tem e o impedem de comprar um ventilador, o que ao longo da história vira uma obsessão.

Logo no começo, fica claro a insatisfação do personagem. Porém, ele passa boa parte do filme adiando uma mudança, uma conversa, uma tentativa, um olhar pra si. E não agimos na vida assim, também? A maior parte do tempo fingindo estar tudo bem, outra boa parte criando coragem para sair da zona de conforto e alguns momentos, mudando...

E Benjamim muda, ou melhor, deixa de se mudar com o circo. Fica numa cidadezinha qualquer do interior, mora num quarto de hotel, tira os documentos, arruma um emprego, pega ônibus cedo, passa gel nos cabelos todos os dias, compra um ventilador, observa a vida de outro ângulo e volta. Volta porque na vida cada um faz o que sabe e ele saber ser palhaço.

Entre o enredo todo, é possível perceber as mudanças no humor do Benjamim pelas cores das cenas. As tomadas das apresentações do circo explodem em cores, muito vermelho, muito laranja, como as risadas que explodem da platéia, cada vez menor, mas que dão a certeza para as personagens e para os telespectadores (do circo e do cinema), que o picadeiro cumpre muito bem, a sua função.

Encerrado o espetáculo, a vida em torno do circo é marrom, bege, cinza, apática com o tempo passando indolente. Nas imagens amplas, que pegam todo o circo, este sempre se encontra no meio de grandes vales, com verde em volta, a cor que para muitos representa a esperança, lembram do nome do circo?

Já nas viagens entre uma cidade e outra, a monotonia e os rostos cansados dos artistas contrastam com movimento típico de uma mudança. São talvez, as cenas onde haja mais silêncio, as personagens só conversam se algo interrompe o trajeto.

Outra coisa que achei fantástica: a primeira cena é de uma mulher (artista do circo) que sai do picadeiro e vai até onde o Benjamim se maquia. A última é de uma menina (artista do circo) que também sai do picadeiro e vai até o “quarto” de Benjamim. Cenas iguais, mas totalmente diferentes, a do início remetia ao fim, ao fim de um espetáculo, de um tempo, de uma relação, de uma etapa de vida. A cena do final remete a tudo que ainda está por vir, novos ânimos, novos sorrisos, novos lugares, novos artistas e espetáculos.

O filme O Palhaço emociona. Pode não fazer dar gargalhadas, nem chorar, mas incomoda e na última cena, quando a menina entra no quarto, o sol vai junto e encontra as lantejoulas coloridas das roupas, a câmera capta isso e para ali, o filme acaba quando o sol refletido sai da tela, entra pela retina e o telespectador é obrigado a fechar os olhos. Talvez para assimilar o que se viu, talvez porque O Palhaço parecia não surpreender, talvez para olhar para si...

Friday, February 03, 2012

Característica incompatível com perfil exibido

Estava almoçando hoje com três colegas quando disse "gurias, vocês assistiram Mulheres Ricas esta semana?" Todas pararam e me olharam sem acreditar no que haviam ouvido. “Vocês não olham? Ah tem que ver, eu adoro, dou muita risada", continuei...
Pasmas, elas falaram que era absurdo uma pessoa como eu assistir a esse programa e pior ainda, gostar.

Mulheres Ricas é exibido nas segundas, às 22h30, na Band. É um reality show em formato documental que mostra o cotidiano de cinco mulheres milionárias. O programa estreou este ano e vem sendo bastante criticado por causa da ostentação das cinco mulheres num país tão desigual como o nosso. Mas convenhamos, isso não é problema delas. Mulheres Ricas está longe de ser um programa inteligente, mas vende e vende bem.

Agora qual é o problema de eu gostar desse programa fútil, inútil, por vezes, vazio? Por que não é o que esperam de mim? Uma das minhas colegas disse: “se fosse eu, que gasto mais do meu salário em roupas de marcas, seria normal, mas tu Rê! Ah, o mundo tá virado.”

Só que o mundo não tá virado. Tanto que ela, que teria tudo para ser fã, não assiste, o que é uma característica incompatível com perfil exibido pela minha colega. O que me surpreende também. Por que temos essa mania inconveniente de querer que o outro seja da maneira que nos percebemos?

Tenho uma amiga que é repórter de esportes num jornal de Porto Alegre e também tem um blog, onde escreve de tudo. Um dia, postou um texto falando sobre sua paixão por esmaltes (ela tem mais de 1.000, coleciona mesmo) e o povo reclamou, porque gostar de esmaltes não combina com aquela moça que entende tudo de futebol e faz kite surf nas horas vagas.

Somos um universo tão grande que certas características ou atitudes não deveriam incomodar ou constar no pacote “isso não combina com você”. Tudo combina com seres que são livres, certo? E tudo deveria ser considerado aceitável quando se tem consciência da liberdade, nossa e do outro.

Assisto TV muito pouco. Faz anos que não tenho uma no meu quarto e não faz falta. Notícias, acompanho pela internet, o tempo todo. Filmes, no cinema, computador e quase sempre, nos finais de semana estou sozinha em casa, com três televisões para escolher.

O único programa que não perco é Mulheres Ricas. Assistir uma atração com o único objetivo de me divertir, de não pensar, não vai mudar em nada minha opinião sobre as coisas. Não assistir por achar que não combina comigo, aí sim, mudaria e aí sim, não seria eu.