Monday, February 29, 2016

Realize um desejo e se faça feliz

 Uma das coisas mais importantes que aprendi depois de começar a estudar PNL e fazer os cursos de desenvolvimento humano foi isso: que para sermos felizes temos que realizar os nossos desejos. A frase do título virou mantra e não podemos negar que isso é bem óbvio.

O problema é que muitas vezes, colocamos os nossos desejos há léguas de distância e inconscientemente, fazemos tudo para não alcança-los. O que aprendi de fato, foi a valorizar os nossos pequenos desejos e desde então quase todos os dias eu tenho sido feliz.

Há anos, antes de dormir faço uma lista das coisas que tenho que dar conta no dia seguinte, mandar o email que estou enrolando, terminar tal texto, finalizar a diagramação do jornal, arrumar os livros, passar no banco... Nada de mais, de extraordinário.

Só que muitas vezes, essa lista ia para o lixo sem nem ao menos eu ver o que tinha feito e geralmente, pouco ou nada tinha sido realizado. Até me dar conta que aquilo eram desejos, talvez não tão grandiosos quanto andar de balão. Mas desejos e não realizá-los significava repetir a lista no dia seguinte e ir dormir com aquela sensação de não conseguir fazer nada, sem me sentir feliz.

E feliz neste caso, não precisa ser aquela felicidade transbordante, mas a sensação de missão cumprida, de satisfação por ver tarefas (sejam elas do tamanho e da importância que forem), realizadas. Com isso, a vida flui e a energia não fica estagnada. As coisas passam a acontecer com uma sincronicidade absurda.

Nem sempre consigo realizar todas as minhas tarefas diárias, que hoje as chamo de desejos diários, é verdade. Mas fico bastante feliz quando chego no fim do dia e vou riscando a minha lista. Aprendi a olhá-la e geralmente tem mais desejos realizados e sendo realizados do que ao contrário.

Com isso, também acabei fazendo um caderninho da gratidão, foi meio inevitável agradecer no final do dia ao ver a lista de desejos diários sendo riscada. Outra coisa que passou a acontecer foi me dar conta das surpresas no dia a dia. O almoço inesperado, não ter se atrasado, o encontro com pessoas queridas, o elogio que surpreende, a paisagem que salta aos olhos, a maneira como as coisas se encaixam para tudo dar certo...


Ficou claro que quando a gente faz a nossa parte, o universo faz o dele. E esse texto está aqui, justamente hoje, porque o 29 de fevereiro é um dia extra para realizar um desejo e se fazer feliz!

Tuesday, February 16, 2016

Erro médico

Ele senta constrangido em frente ao homem alto e careca. Não sabe se o chama pelo nome ou por doutor. Para quebrar o gelo, o médico pergunta o que lhe traz ali. Fui indicado a procurar terapia, mas acho que houve um engano, eu não preciso de psiquiatra... Me fale de você, indaga o médico. Tenho uma vida bastante normal, sou o mais certo da minha família... Então me fale como é a sua família, induz o terapeuta. Ele encara o médico, suspira longamente e começa.

Ah doutor tem de tudo, gay, lésbica, crente, maconheiro, velhos hippies que parecem que chegaram do Woodstock ontem e até político, mas todos trabalhadores, boas pessoas. Meu cunhado artesão, vive de vender em feiras, estava tão chapado que confundiu Ijuí com Chuí e atravessou o estado para o lado errado. Não achou a feira, mas ao expor os brincos de arame que ele faz, conheceu a sua esposa.

Minha irmã Cristina sempre deu trabalho para a família. Quando casou, achamos que fosse se aquietar, mas já no casamento houve o buxixo que ela havia se encantando com o irmão mais novo do noivo, que morava no sul de Minas. Não deu outra, depois de 10 anos casada com o Gabriel, dois filhos e uma vida aparentemente feliz, ela fugiu com o Micael, o irmão caçula, numa das férias que passou em Minas. Só deixou um bilhete, dizendo que antes de alguém criticá-la, devemos lembrar que ela terá direito à herança duas vezes. Pensa a confusão na cabeça dos meus sobrinhos.

Mas pior ainda, acho que é minha filha. Estudava Engenharia, estava quase se formando quando largou tudo. Foi morar na Guarda do Embaú e cursar astrologia. É uma boa pessoa apesar de não comer carne e ser meio distraída, esquecida... Meu filho afirma que é por causa dos chás que ela toma. Ah, meu filho nasceu prematuro, mirradinho, mas vingou. É um rapagão com quase 100 quilos, tatuado, usa jaqueta de couro com rebites, camiseta do Marx e canta no coral da igreja do bairro.


Não entendo essa gente, isso que não citei nem um terço da árvore genealógica. E entendo menos ainda por que eu, logo eu, preciso de psiquiatra. Deve ser porque  Deus perdoa e Freud explica, não é doutor? 

Monday, February 01, 2016

José e João

José e João cresceram juntos. Tem o mesmo sobrenome, Silva, quando crianças moravam na mesma rua numa cidade do interior. Dividiram brincadeiras, merendas, xingões de professores, descobertas e inquietações da adolescência, conquistas amorosas, porres e festas.

Decidiram juntos ter a mesma profissão e foram cursar jornalismo na capital, onde dividiram um quarto numa pensão, mesas de bar, rodas de violão e mais conquistas amorosas. Juntaram grana para a festa de formatura e planejaram uma carreira brilhante. José é João nunca brigaram, nem por um ser gremista e o outro, colorado. Até que o jornalismo dividiu o caminho dos amigos.

Os dois se tornaram referência na área, seguiram estudando e hoje dão aulas em grandes faculdades do Brasil. José fez carreira nos principais veículos de comunicação da mídia tradicional. Escreveu para os maiores jornalões do país, foi correspondente internacional e fez doutorado em marketing nos Estados Unidos. Aprendeu a ver a notícia como um produto. Dizem que cobra caro para dar palestras em universidades privadas ou para empresários que gostam de ouvir como a mídia é subserviente.

Desde a faculdade, João trabalhou com os meios alternativos. Fez carreira escrevendo para ONGs, sindicatos, movimentos sociais e pastorais de igrejas. Implantou a Rede Brasil de Comunicação Popular que engloba programas em rádios comunitárias, uma revista e um jornal que devido aos poucos recursos financeiros não tem a tiragem que gostaria, mas investe pesado no portal de notícias da internet. João é dono do blog mais lido do país e fez doutorado em Sociologia da Comunicação, na França. Aprendeu a reconhecer o que há oculto em cada notícia. Quando dá palestras para o seu povo, fala sobre uma comunicação livre, poderosa e revolucionária. Dizem que cobra apenas a passagem.

João percorre o país defendendo a democratização da mídia, o fim dos monopólios e a criação de um conselho nacional de comunicação. José, quando indagado sobre o assunto é taxativo: isso é censura! Seguidamente, eles trocam farpas públicas sobre as ideias que defendem. Outro dia, o grande grupo para qual José trabalha, demitiu dezenas de colegas e coube a ele dar explicações para a turma do sindicato, liderados por João, que protestava em frente ao prédio.


Quando eles se encontram em algum evento social não se olham, não se cumprimentam e não se conhecem. Todos pensam que são inimigos, mas nos momentos em que cada um relembra sua trajetória e recordam com saudade os meninos que foram, se perguntam em que momento o amigo, tão inteligente, se perdeu.

Conto publicado no livro "Caminhos da imprensa Rio-Grandense"