Monday, December 29, 2014

Obviedades do caminho



Quando você começou puxando meu tapete, pensei que não fosse aguentar. As passagens já pagas e os planos já traçados foram o mais fácil de desfazer, difícil mesmo foi perceber que sentimentos podem terminar em falta de respeito, traição e ameaças. Necessário foi compreender que não eu poderia maximizar uma primeira experiência e permitir que isso manchasse as possibilidades do futuro. As pessoas são diferentes. Eu estou diferente.
Viajar parecia arriscado demais, horas sentada em aviões e ônibus não eram o recomendado, mas não tinha o que fazer. Era correr o risco para me salvar, para dar uma chance de olhar as coisas por outro ângulo e principalmente me enxergar. Foi preciso um roteiro cheio de escalas, várias aspirinas, meia de compreensão e paciência com o ritmo do meu organismo. Todos esses cuidados não impediram que eu parasse no único posto de saúde de uma cidadezinha no interior de Goiás.
Mesmo não sendo do tipo que curte paixonites agudas em viagens e com a perna tão inchada a ponto de o tornozelo estar quase do diâmetro da coxa, curti muito aqueles três dias com o único médico de uma cidadezinha do interior, que havia se formado em Cuba, morado em Florianópolis, em Brasília, em Buenos Aires e no Peru, que estava em busca de sossego “porque viajar é muito bom, mas ficar se mudando toda hora cansa e a gente sempre deixa coisas pelo caminho.” Me dei conta que teriam outras pessoas. Constatei que paixonites de viagens são ótimas lembranças, mas são das coisas que a gente deve deixar pelo caminho. Qualquer movimento no sentido contrário é ilusão e invasão a uma realidade que a gente não leva quando estamos na condição de estrangeiro, turista ou viajante.
Foram muitas as vezes que tive certeza que não aguentaria o tranco, tamanha a quantidade de demandas, de gente pedindo, de matérias para escrever, atos para cobrir, boletins para diagramar. Iria da hospiciolândia direto para o hospital psiquiátrico São Pedro se alguns atos não fossem adiados, os prazos estendidos, o case mudado e as coisas se acertado. Não há clichê mais verdadeiro do que “trabalhe com o que ame e não terá que trabalhar um dia.”
Seria complicado, o ideal era não forçar muito a perna, pois uma Trombose Venosa Profunda é muito agressiva. Teria que pegar leve no Pilates e priorizar as caminhadas lentas. Mas em cada avaliação, permitiam que eu aumentasse a carga e quando me dei conta, estava correndo, dançando e ensaiando duas vezes por semana e tive a certeza de que me mexer é vital para minha sanidade. Consegui subir num palco de novo e dançar, sem a perna inchar. E já dá até para passar noites e dias em cima do salto, como se nada tivesse acontecido.
Havia decidido focar em mim, sem me interessar por alguém e criar expectativas. Cogitava até iniciar uma vida casta de freira. Mas prestei atenção no que já mexia comigo e me surpreendi e gostei e é bom sentir o arrepio que me dá só de lembrar. Notei que as pessoas despertam coisas diferentes, e mesmo quando sou invadida por um medo absurdo por me dar conta do que isso significa, sinto que isso me faz bem.
Eu tinha certeza que não aguentaria, que as coisas não teriam mais graça, que me afundaria na descrença, no pessimismo, na ideia terrível de que ninguém presta. Só que todo dia eu acordava leve, sem o peso das culpas pelas coisas que a gente se responsabiliza sem nem se dar conta, para se punir. Já me questionei muito se leveza é sinônimo de felicidade, ainda penso que não, mas com certeza, andam bem próximas.
Obrigada 2014, você não me deu nada do que esperava, mas foi muito melhor do que imaginei.

Sunday, December 28, 2014

Para o meu anjo de quatro patas

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante” - Antoine de Saint-Exupéry


Eu fiquei meses pensando na possibilidade de ter um gato e neste período, sempre ponderava que seriam cerca de 15 anos. Depois de decidida fui em busca do meu gato preto de olho amarelo. O Galileu veio tão pequeno que nem conseguia tomar água sozinho, antes dos saltos precisos, acompanhei os pulinhos desengonçados e o miado era tão fino que mal escutávamos. Vi desbravar meu quarto, a casa, o pátio, o telhado, a vizinhança e a rua. Mas claro, que a primeira conquista foi a minha cama, já que nunca deu bola para a dele.

Gostava de imaginar tudo que poderia acontecer na minha vida em 15 anos: mestrado, doutorado, casamento, viagens, filhos, as mudanças, as permanências, os perrengues e as bênçãos. E quando tivesse com 40 e poucos anos, iria me lembrar que com 28 eu fui até a zona sul de Porto Alegre buscar o meu gatinho, que antes de ser Galileu, chamei de Gaya, que usava uma coleira com guizo, que tinha pelinhos na ponta das orelhas, que era muito peludo, que gostava de tomar água na pia... Perceberia ele em vários momentos da minha vida, ronronando, engordando, apostando corrida comigo, me impedindo de ler o jornal, suspirando (eu não sabia que gatos suspiravam). O Galileu estaria lá, enquanto a minha vida mudaria e envelheceríamos cúmplices.  

Sempre achei tristes esses gatos de apartamentos, os seres que querem gozar de sua liberdade devem ir ver o mundo. Ele queria e eu nunca o privei, saia e voltava quando quisesse (porque sempre reconhecemos o lugar para onde devemos voltar). O único cuidado foi castrá-lo e a minha única preocupação sempre foi atropelamentos (seria intuição?), sabia que de cachorros, gatos brabos e pessoas, ele se safaria. Um dia, vi o Galileu atravessando a rua (uma avenida bastante movimentada), todo lindo, dono de si, livre. Não seria eu que o impediria de viver isso. Sabia do preço que poderia pagar e que agora, pago.

Porém, nunca imaginei que seria tão rápido, não foram nem nove meses com o meu gatinho e isso foi cruel. Fico me perguntando como ele não viu a roda? Onde estava a atenção dele? Em algum inseto, numa folha, num lixo jogado no chão... Como todos os gatos, o Galileu era muito curioso, mas era o MEU gato. Um lorde, um galã, minha mini pantera negra e selvagem e por isso, dói. Por outro lado, acho irônico ele ter vindo e ido em 2014, ainda mais para mim que nunca fui fã de gatos. Refletia muito sobre por que quis ter um felino e gostava de pensar que esse era um momento de transição, mais maduro, leve e com consciência. Agora percebo que até para as mudanças internas, o meu gato preto (e lindo) é uma referência.

Algumas pessoas me criticaram, que ele deveria ter sido criado preso, só dentro de casa. Com algumas discuti sobre o conceito de amor e liberdade. E não me arrependo, ser vivo é para viver e eu que aguente no osso a saudade. Pior seria, estar chorando daqui 15 anos e me culpando por não ter deixado o Galileu livre. Até a cocota aqui de casa vive com a gaiola aberta.

Lembro de uma noite, depois dele estar elétrico e mexer em tudo e bagunçar tudo, ele deitou do meu lado e suspirou e eu entendi aquele suspiro como “essa vida é tão boa.” E isso me consola, porque tenho certeza que a breve vida dele foi muito boa, cheia de amor e aventura. Como ele se divertiu na noite do dia 24, o Galileu adorava gente, casa cheia, bagunça.

Curte o céu dos bichos meu gatinho, que deve ser bem melhor que o dos humanos. Pula bastante de nuvem em nuvem, balançando teu sininho e quando achar a vida muito boa, suspira, que neste momento eu vou estar aqui neste mundo cão, sorrindo porque lembrei de ti. Um dia, quando eu te encontrar, vou te abraçar por mais de 15 anos, só para tirar o atraso e não adianta miar, porque eu não vou soltar.

Sunday, December 21, 2014

Gaveta cheia


Pulseira de miçanga que nunca usei. Convite para formatura. Cartão de Natal do cirurgião plástico que colocou meus peitos há anos. Rolha. Joaninhas. Passagens para Santa Maria. Ingresso para o show do Paul McCartney. Canetas. Marca páginas. Bilhetes. Papel com número de telefone que eu não faço ideia que de quem seja. Cartão de aniversário das colegas de trabalho. Registro do horário no cartão ponto do serviço. Release de uma entrevista coletiva. Ingressos para festivais de dança do ventre. Pen drive. Ingresso para teatro. Passagem para Brusque. Fotos. Cartão de visita. Pílulas anticoncepcionais. Uma caixa vazia de pílula do dia seguinte. Convite para chá de fralda. Lembrança de aniversário de um aninho. Imã de geladeira. Ingresso para o show do Roger Waters. Cartão de crédito que eu não pedi e não desbloqueei. Origami de bêbada em guardanapo de bar. Mapa de Montevidéu. Comprovante de passagem de ônibus de Varadero para Trinidad, em Cuba. Folha de cheque. Imagem de São Jorge. Comprovante de depósito de pagamento para curso de astrologia. Email com confirmação de reserva de pousada no Rio de Janeiro. CDs com músicas árabes. Uma fita cassete com “pijamas místicos” gravados. Ingressos para show do Fito Paez. Lixa de unha. Cartão com horário da terapia. Carteirinha de vacinação do Galileu. Bilhete do ex. Receita com o grau dos meus óculos. Recado da melhor amiga. Dorflex. Endereço da costureira. Desenho para uma tatuagem que nunca fiz. Entrada para o museu do Rodin, em Paris. Cartão de ônibus de Barcelona. Blocos de anotação. Calculadora. Etiqueta de roupa. Vidros de florais. Propaganda de cartomante. Receita de mouse de chocolate escrito atrás da folha de pagamento de setembro de 2011. Bula. Autorização para exame médico. Manuel de instruções de celular. Um livro de Salmos. Cabo USB. Credenciais de imprensa. Lembranças de casamento. Oração de Santo Expedito. Certificado de conclusão de oficina em dança egípcia. Inscrição para curso de comunicação sindical. Mensagem do biscoito da sorte. Desenho feito pelo afilhado, anos atrás. Tabela com os horários e projetos da Casa de Nazaré – Centro de Apoio ao Menor. Chaveiros. Amostra grátis de creme hidratante. Poemas. Surpresa com a quantidade de mim que há em uma gaveta.

Sunday, October 12, 2014

Você deveria ser escritora



Sempre ouvi que escrevo bem. De muita gente e gente diferente (que bom!). Na terceira série, a professora me chamou questionando quem tinha escrito a minha redação sobre a chuva, não sei se ela se convenceu que realmente tinha sido eu, mas foi a primeira vez que ouvi “você escreve muito bem.” Minha mãe questionava da onde eu tinha tirado aquilo ao ler algum texto meu e a resposta sempre era: de dentro de mim.

Na época do vestibular estava em dúvida entre história, ciências sociais e jornalismo. O fator decisivo foi que gostar de escrever, de contar histórias, sempre tive certeza que teria prazer em passar o resto dos meus dias fazendo isso. Durante toda a minha vida escolar (do pré ao ensino superior) meus textos eram elogiados, lidos e recebiam prêmios...

Numa disciplina do último semestre da faculdade, o professor que já tinha me dado aula nas matérias de redação disse após fazer a chamada no primeiro dia de aula: “A Renata tem um dos melhores textos que já li, tem tudo para ser uma ótima cronista.” Tomara! Meu terapeuta já afirmou que eu deveria mesmo levar a sério o lance de escrever, pois eu “abraçaria muita gente com os meus textos.”

E no serviço, volta e meia, depois de alguma matéria publicada, vem um e outro diretor na minha sala falar que escrevo bem. Teve um, depois de uma reunião, onde quase nada podia ser divulgado, que disse que eu tirava leite de pedra. Que seja, escrever é alquimia! Mas é tudo bem separado, a jornalista está numa caixinha bem organizada. A mulher que gosta de escrever e escreve num mosaico está em outra caixinha, essa bem maior, mais complexa, livre de regras, cheia de sensações e por vezes, bagunçada.

Já vendi redação no colégio, já escrevi poesia, já me inscrevi em concursos literários, já fiz cartas para a namorada de primo (como se fosse ele), já criei abertura de mostra de dança e tenho alguns enredos perdidos no desktop do meu note. Um sobre suicídio, outro para contar a história de um cara que procura uma antiga paixão e descobre que ela morreu quando fazia um aborto (de um filho dele), tem também sobre um idoso que no hospital repensa sua vida e resolve contar para os familiares as “pequenas” atitudes dele que acabaram alterando o rumo da vida de todos e claro, um enredo realista-fantástico inspirado na minha família.

Escrever é paradoxal. Me alegra, me entristece, me comove, me move, me acalma, me tumultua. É bem normal, dar risada ou chorar enquanto escrevo. Elaboro a vida escrevendo, me entendo assim, me traduzo, evito transbordamentos e repressões desnecessárias. Não sei se um dia eu vou ser escritora mesmo, mas confesso que gostaria.

Sunday, September 07, 2014

Eternas são as nuvens


Infelizmente esse texto não é meu. Infelizmente, porque ficaria muito orgulhosa de escrito algo tão simples e sábio sobre relacionamentos, sempre um assunto complexo.
Vou ficar devendo o sábio. Peguei esse texto no face de um amigo paulistano, que se deu o trabalho de digitar tudo, pois tinha encontrado a obra numa "revista de mulherzinha" na sala de espera de um consultório médico.
Independente de como vai a nossa vida amorosa, acho difícil não concordamos com o texto, ou boa parte dele. É lindo. Boa leitura.
Eternas são as nuvens

Para onde vai tudo que se vive? Para onde vai a mágica de certos instantes? A comunhão que se viveu, a cumplicidade de dividir tempo, espaço, experiências inaugurais? Para onde vão o carinho, a parceria, a entrega? Para onde vai o conhecimento, pessoal e intransferível, que se tinha do outro? Para onde vai o que só vocês viram e experimentaram: o nascimento de um filho, a morte de um amigo, a notícia daquele emprego, o assalto, a compra da casa, o diagnóstico ameaçador, a noite no acampamento, aquele show em Londres? Para onde vai a consciência que você tinha, de, com apenas um olhar, saber se ele estava feliz, deprimido ou ansioso? Para onde vai a absoluta intimidade que se teve com o outro?

Acredito que isso tudo fica em algum lugar interno, como um site, uma espécie de nuvem onde armazenamos tudo o que vivemos. Tão reais e etéreos como o iCloud, temos os nossos weClouds, que podemos acessar ou que nos acessa, algo que fica preservado, e que, mais do que nos fazer lembrar coisas, nos acolhe e ratifica. O weCloud guarda o essencial, o que ficou depois da ruptura, da tempestade, o rescaldo de um tempo, um a dois permanente, que sobrevive aos acordos rompidos, às bênçãos desfeitas, às juras esquecidas. No weCloud, ficam o sumo, o substrato, a força do projeto um dia compartilhado. No weCloud, ficam o afeto espontâneo, o registro das intenções sinceras, da vontade de acertar e de tudo o que foi verdadeiro.
Os relacionamentos podem acabar, mas não o vivido. Não se trata de memória, nem de detalhes tão pequenos de nós dois. Não se trata de viver no passado, nem de não aceitar os fatos. Não se trata de sublimar dores e porradas ou se refugiar num mundo alegrinho de autoajuda e negação. Não se trata de dourar a pílula e contar para si uma história diferente. Trata-se de vida bem vivida que não pode nem deve ser perdida. Tudo o que vivemos e sentimos vira acervo, fonte, ferramenta; é nosso para sempre.
Quando estamos com alguém, somos, em alguma instância, uma pessoa única, que só aquele companheiro conhece. Maria é para João uma Maria que ela nunca será para Pedro, que é um Pedro para Maria, que nunca será o mesmo para Ana. Maria poderá ser muito mais feliz com Pedro do que com João, mas ela terá sempre sido a Maria do João e haverá sempre um lugar onde Maria e João se reconhecerão, mesmo que nunca mais se encontrem. 
Somos o que vivemos, e não podemos abrir mão disso. É fundamental que cuidemos da nossa história, que saibamos acolher nossas experiências com generosidade e entendamos que certas vivências, emoções e descobertas foram únicas e estarão sempre produzindo algum efeito em nós.
Todo fim de relacionamento pede tempo. Tempo para o luto, para a saudade, para a cura, para o distanciamento, para a neutralidade, para o recomeço. Existe um caminho a percorrer que vai do fundo do poço ao fórum, do desespero ao terapeuta, da perplexidade à aceitação, do abandono à libertação. Há que fazer faxinas: roupas, livros, fotos, palavras mal ditas, mágoas, decepções. Há que separar papéis, propriedades, planos, sonhos. Há que separar, acima de tudo, o trigo do joio, o passado do futuro, o extinto do eterno. Há que guardar as coisas que não cabem em malas nem cofres, aquilo que não se quantifica nem se elenca em formais de partilha e declarações de renda. Há que amar o perdido. 
Só quem tem passado tem futuro. Escolher a bagagem que se carrega é decisivo para seguir adiante. Entre fardo e combustível, asas e correntes, você decide. Entre salvar e deletar, você decide. Conjugar sem medo o pretérito imperfeito para viver o futuro do presente.
Depois de um tempo, as dores passam... Sim, elas se cansam de nós e, se somos saudáveis, nos cansamos delas também, seguimos em frente, voltamos para nós mesmas, dispensando o que não nos serve mais, garimpando minúsculas preciosidades, recolhendo luminosidades, cheias de preguiça de sofrer, prontas para recomeçar, de novo, mais uma vez.
Um belo dia você se pega pensando naquele nós, que deixou de existir, sem a fisgada de saudade, nem ressentimento, nem raiva. Você pensa com serenidade. Você pensa não mais no ex, mas no companheiro de vida: sai o ex, fica o amigo. 
É quando você o abraça no velório do pai e sabe como ele está se sentindo e ele também sabe que você sabe como ele se sente, e isso é muito íntimo e confortante e está lá, na tal nuvem, para sempre. 
É quando você recupera em DVD seus filmes em Super 8 e fitas em VHS, com todas as fases e faces queridas da sua vida, e faz uma cópia para ele, porque sabe que aquilo tudo é parte da vida dele também, e você se sente grata por compartilhar.
É quando você recebe um presente sem cartão: um disco de vinil de um show que você foi com um certo namorado. Pronto, lá está o para sempre: os anos 70, a avidez de descortinar o mundo, a larica, a revolução, o incrível mundo das primeiras vezes, compartilhado com entrega e inocência. O cartão é desnecessário, pois só você e ele sabem quem vocês eram naquele dia-tempo e o que significou estar ali naquele concerto de rock. 
É quando você encontra numa caixa esquecida rolhas de champanhe e sementes de romã, que fazem você lembrar quem você era e como você se sentia quando estava totalmente apaixonada por aquele cara na Itália. 
É quando você escreve um livro sobre maternidade e manda em primeira mão para o pai dos seus filhos, porque ninguém mais do que ele sabe como você ficava quando estava grávida, pois só ele viu seu estado de graça e, talvez, antes mesmo de você, ele viu você virar mãe.
Lá estão vocês, no weCloud, sócios de experiências transformadoras, parceiros de sonhos, realizados ou não, amigos que cresceram juntos, cúmplices dos pequenos crimes contra o amor, vítimas dos mesmos desgastes da convivência, ungidos por bênçãos comuns, coautores e personagens do mesmo livro.
Maria não é mais a mesma que foi com João, mas, para ser a Maria que está com Pedro, ela teve que ser a Maria do João, e João, para ser o companheiro de Ana, teve que ser antes o de Maria. Somos o que nascemos e o que escolhemos viver, somos o que ganhamos, o que perdemos, o que boicotamos e o que nunca alcançamos.
É muito libertador fazer as pazes com nossa história. Do que nos serve ter rombos na linha do tempo? Negar, bloquear, tornar inacessíveis as lembranças, impossibilitar um resgate saudável do vivido? Do que nos serve chamar ex-companheiros de falecidos ou equívocos? É injusto conosco. É empobrecedor. Temos essa mania de achar que só o que dura para sempre é um sucesso.
Durabilidade nunca foi sinônimo de segurança, assim como o efêmero não é sinônimo de fracasso. Uma jaula é segura e nem por isso um lugar feliz, da mesma forma que viagens são fugacidades maravilhosas que se perpetuam dentro de nós. Nenhuma história é vã. Nada é. Nossa alma-memória, aquela que nos identifica, define e referencia, é como uma colcha de retalhos; alguns retalhos são mais bonitos que outros, mas todos são necessários.

Amar o perdido deixa confundido o coração (Drummond) porque é amar o intangível, o que, não sendo mais, ainda resiste, insiste e ressignifica o que antes tinha outro nome e valor. Amar o perdido é reconhecer que muito tempo, energia e as melhores intenções foram investidas, empenhadas e depositadas numa relação, num incrível voto de confiança no outro e na Vida. Sim, mesmo os grandes erros e as falências retumbantes têm histórias comoventes e belas. Amar o perdido é entender que nada se perde.
Amar o perdido só é possível quando você volta para a casa dentro de você. Melhor que dar avolta por cima, é voltar para si mesma. Nessa hora você se sabe inteira, apaziguada, de bem com sua história. Aí, você entende o weCloud e lembra de Quintana dizendo: eternas são as nuvens, e você se comove com a certeza de que um certo para sempre existirá, pois as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão (CDA).
É isso, não fica o que é lindo. Fica o que finda. Fica de um jeito real. Não fica lindo só porque finda. Fica, porque finda, e, quando finda, fica o que foi de verdade, o que nunca finda.
As coisas findas ficam. Perdidas, talvez, mas para sempre nossas. Eternas, como só as nuvens podem ser.

Wednesday, July 02, 2014

Expectadora


 “Filhos servem de marcadores de tempo escancarados, impossíveis de ignorar, indicando a marcha incessante da vida que de outro modo pareceria um infinito mar de minutos, horas, dias e anos.” - John Grogan, em Marley & Eu


Acredito que uma das coisas mais bacanas de estar vivo é ser expectadora da vida de quem se gosta. O meu primo Júnior é pai. Se tornou pai esses dias. Eu que assisti o Júnior criança, adolescente, estudante, namorado, filho, membro de uma família muitas vezes problemática, agora vou acompanhar, o pai.


Ele é como se fosse meu irmão e se, de fato fosse, poderíamos ser gêmeos, já que apenas três semanas separaram o nascimento de ambos. Sou mais próxima dele do que dos primos que moram na minha rua, talvez o fato de morarmos em estados diferentes seja um dos motivos para nos darmos bem. A distância geográfica trás todo um encanto, ainda mais quando se é criança, férias para mim era sinônimo da visita dos tios e do Júnior.


Então a gente tinha que aproveitar e brincar muito, tudo o que não fazíamos no restante do ano. E sempre tínhamos muitas novidades e assuntos sérios, que iam de como enrolar o Fi e o Marcello ao como desenterrar o cachorro enterrado no quintal. Lembro da gente com uns 7 anos, pensando na área lá de casa, que se o Rio de Janeiro ficava logo depois dos morros que avistávamos (conforme ele afirmava, porque no Rio também tinha morros), por quê a viagem de ônibus era tão longa?


Contava pra todo mundo na escola que meu primo morava onde sempre era verão e tinha artistas como vizinhos. Demorei para entender que o nome dele é Miguel, achava que Júnior era o primeiro nome. Depois na adolescência, quando a vida escancara a realidade na cara da gente, nos divertíamos nas praias e nos Planetas Atlântidas e sabíamos onde o calo da realidade apertava. Perceber os indivíduos da nossa família poderia ter sido uma experiência solitária e dura, mas penso que conseguimos lidar com isso de uma maneira mais leve. Sempre falamos como se fosse uma grande comédia, sem dramas, por mais que eles tenham existido.


Quando ele começou a namorar a pessoa que hoje é a mãe do filho dele, fiquei muito preocupada com a possibilidade de não gostar dela ou ela de mim, porque seria um problema perder o parceiro. Mas isso durou até eu encontrar eles lá na Guarda do Embaú, ela estava com um sorrisão no rosto, aquele sorriso de gente verdadeira e desarmada. Eu tinha acabado de ganhar uma prima, a versão feminina do Jú.


E nestes últimos anos, foi muito bom acompanhar a vida dos dois, faculdade, perrengue com empregos, estada na Irlanda, procura de apartamento, casamento... É bom ver quem se gosta VIVENDO! Não nos distanciamos como acontece com muitos primos, na maioria das famílias. E agora que somos adultos (!) é mais fácil se ver, além de ter as redes sociais, que facilita muito o acompanhar a vida dos outros. E pensar que eu e o Júnior trocávamos cartas! De papel e enviadas pelo Correio!


O melhor é que ainda enxergo nele o meu primo querido que vinha passar as férias em São Leopoldo. Acho possível a gente ter 50 anos e terminar alguma frase dizendo “não conta para a minha mãe.” Uma coisa ótima que essa relação de primos permite é ser sempre meio criança, por mais que o tempo passe. Vamos envelhecer comendo negrinho, planejando férias e rindo dos mais velhos.


E agora tem o San. Lindo, cheio de personalidade, todo durinho, coisa mais amada. Dá um orgulho bobo desses dois, que agora são três, e é impossível não pensar na vida e no tempo... Estive com eles no último feriado e dá para ver que serão uns paizões, que bela família nasceu. Para vocês, meus primos queridos, desejo muita serenidade para aceitar todo o aprendizado e responsabilidade dessa nova etapa da vida.


Para o San, desejo todas as potencialidades presentes no mundo, recheadas de doces, banhos de mar, gargalhadas e a inocência de quem vê o mundo pela primeira vez. Respeito e gratidão pelos pais que ele tem para que nunca deixe de identificar o heroísmo nos seres humanos que o colocaram no mundo. E uma cabeça aberta para aceitar todas as lembranças da árvore genealógica de que ele é herdeiro.


No chá de fralda dele, teve um momento que o meu primo veio com o prato cheio de doces, sentou do meu lado e disse “que loucura, né?” e saiu para resolver alguma coisa de pai e de marido. E o bom de fazer parte dessas vidas é compartilhar a certeza de que essa loucura que é a vida é tão óbvia quanto o fato do Rio de Janeiro ser ali, logo depois dos morros que avisto da minha casa.

Wednesday, June 18, 2014

De Gaya a Galileu


“Todo gato é um pequeno leão”



Quando eu era criança, uma gata já adulta apareceu lá em casa e foi ficando, demos o nome de Xuxa e aconteceu de tudo com ela. Não tinha dentes por causa de uma pedrada, se metia em brigas, sumia por dias, foi atropelada... Enfim, usou e abusou das suas setes vidas até morrer definitivamente. E essa foi minha única experiência com felinos. Até agora.

Sempre preferi cachorros, pois são mais solar, brincalhões e engraçados... Mas de um tempo para cá passei a considerar a ideia de ter um gato e isso amadureceu. Feitas todas as considerações em relações à cachorra Saira, decidi que tinha que ser um gato, macho e todo preto, já tinha até nome: Monet.

Foram alguns meses de procura, até que a gata Meg da amiga Graciela pariu meu futuro pet. Logo veio a informação: é fêmea. Depois de muito pensar num nome, escolhi Gaya. Junção de Gaia, pelo significado, e com Y por causa do Goya (queria nome de algum pensador, artista, político que goste). E principalmente pela sonoridade: gata Gaya! Lindo. Comprei brinquedos, cama, ração, areia, erva do gato... Tudo pronto para a mítica gata Gaya.

Primeira impressão

Quando ela tava com 50 dias, aproveitei um sábado e “viajei” até a zona sul de Porto Alegre para me tornar dona de gato. Nos primeiros minutos da nossa relação, ela conseguiu escapar e se esconder embaixo do banco do carro, miava loucamente. Em plena avenida Wenceslau Escobar, eu estava de bunda pra cima, com o carro mal estacionado, tentando resgatar o bichano.

Nos dois primeiros dias de casa e família nova, ela desbravou lugares nunca antes habitados, como qualquer fresta entre os móveis que ela encontrou pelo caminho. Arrisco que a única que conhece todos os cantos da casa é a gata Gaya.

Logo as pessoas começaram a comentar que a gata deveria ser mansa e calma, não elétrica, curiosa, brava e agitada como eu relatava. Sim, ela não para quieta.

Galileu

Com duas semanas de convivência veio uma descoberta e a explicação para o bicho ser tão ativo, a gata Gaya é na verdade, um macho. Depois da surpresa, de ter essa confirmação de três pessoas diferentes e das fotos de genitália de gato/gata que procurei no Google-sabe-tudo, recolhi meus butiás do bolso e dei muita risada.

A essa altura, sabia que aquele ser não podia ser Monet, não combinava. Pensei em Goya, mas só Goya também não combinava. Gata Gaya era tão sonoro! Até que alguém em casa falou: Galileu, já que ele é doido como o Galileu Galilei. Pronto, a Gaya virou Galileu.


Hoje, faz um mês que temos um gatinho em casa e ainda bem, ele e a Saira convivem de maneira bastante harmoniosa entre mordidas, corridas e brincadeiras. Já tivemos muitas DRs devido o seu comportamento temperamental e hiperatividade. Também já me acostumei com o seu ronronar e com peso em cima das minhas cobertas. E principalmente, percebi que gatos não são domesticáveis.

Thursday, May 08, 2014

Hiatos

Períodos de silêncio e de interiorização são fundamentais na vida de qualquer um, e muitas vezes, necessários para gente assimilar o que a vida nos apresenta. Esses hiatos se apresentam de inúmeras maneiras, algumas vezes são planejados, em outras se tornam a única saída.  


Tinha decido me dedicar mais à escrita e escrevi muito desde janeiro. Aconteceram coisas que me fizeram transbordar e as palavras me ajudaram a passar por isso, não vou dizer que sai ilesa da turbulência, mas me tornei mais forte, penso que amadureci, pois me conheço mais. E o processo é doloroso.



Porém, escrevi muito no meu diário - ainda tenho diário. E pesei o fato de não querer me expor, não querer maximizar o que não precisa e por as pessoas e as situações no seu devido lugar. Uma parte da minha vida, uma etapa, um ciclo que se fechou.


Sempre tão passional eu não tive outra saída, a não ser racionalizar. E parece que até raciocinei melhor com isso. Percebo que meu luto está chegando ao fim e quero sim, ir publicando o que escrevi neste período. Quem sabe mudando algumas coisas, dando ares de ficção para a realidade. E no futuro, quando o meu olhar se voltar sobe o hoje, ter a certeza de que foi sofrido, mas foi o melhor que poderia ter acontecido.


Que venham os ciclos e as histórias novas. E publicáveis.

Tuesday, April 01, 2014

TAG: 50 coisas sobre mim


Tem tempo que vejo essa TAG rolando por aí, em diversos blogs, uns meses atrás rolou algo parecido no facebook e três pessoas me indicaram para responder. Como penso que é muita exposição nas redes sociais, respondo pelo Mosaico que o número de leitores é restrito, hehe...

1 – Escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer.

2 – Tenho um diário.

3 – Jasmins são as flores que mais gosto.

4 – Tenho várias tatuagens.

5 – Tenho dois piercings.

6 – Faço terapia desde a adolescência.

7 – Tirei a CNH com 18 anos, mas tenho pavor de dirigir.

8 - Sou colorada. 

9 – Tenho pânico, PÂNICO de barata.

10 – Meu sonho é voar de balão.

11 – Já saltei de asa delta e foi uma das melhores coisas que fiz na vida.

12 – Amo viajar.

13 – Fico vermelha por qualquer coisa.

14 – Sou vegetariana há 11 anos.

15 – Tenho uma égua.

16 – Faço dança do ventre há 10 anos.

17 – Adoro astrologia.

18 – Curto tarô, I ching, runas... Todas essas coisas esotéricas.

19 – Sou espírita.

20 – Adoraria morar no meio do mato.

21 – Adoro filme lado B.

22 – Como brigadeiro todos os dias.

23 – Não como coco, de jeito nenhum.

24 – Tive sarna (de cachorro) quando era criança.

25 – Cresci ouvindo que eu era um milagre, porque a mãe teve um AVC quando estava grávida de mim e isso complicou as coisas.

26 – Considero o meu pai a pessoa mais generosa e bondosa que eu conheço.

27 – Adoro andar com os pés descalços.

28 – Fui em fonoaudiólogas até meus 13 anos, pois falava muito, muito errado.

29 – Por causa do item de cima, eu tenho um baita orgulho de ter feito uma faculdade que tem “comunicação” no nome.

30 – Ganhei vários concursos de redação no colégio.

31 – Tive uma trombose com 28 anos, por causa do uso da pílula anticoncepcional.

32 - Sou muito ansiosa, do tipo que sofre por antecipação.

33 – Meu primeiro beijo foi com 16 anos. Sim, 16!

34 – A primeira vez foi com 20, na escadaria de um prédio.

35 – Já fui num show do Back Street Boys.

36 – Gosto de Laura Pausini e Fábio Jr. (podem rir da confissão brega).

37 - A minha avó (mãe da mãe) morreu quando eu tinha 6 anos, mas até hoje a lembrança dela é muito viva e presente.

38 – Só tem doido na minha família (irmão punk, primo caretão, primo galinha, prima metida a burguesa, tio riponga, tio convertido, tio metido, gente chata para caramba e gente do bem para caramba).

39 – Sou tri família, mesmo com o item acima.

40 – Só tive um namorado sério até hoje.

41 – Já fui traída.

42 – Passei dois meses viajando sozinha pela Europa.

43 – Fiz uma tatuagem em Cuba.

44 – Sempre ouvi que sou muito responsável e velha para a minha idade.

45 – Por outro lado, sempre ouvi que não aparento a idade que tenho. Que pareço ter bem menos.

46 – Não me considero consumista, sou até pão dura.

47 – É difícil alguém me ver sem esmalte ou com as unhas por fazer.

48 – Tenho uma dificuldade imensa para falar sobre o que sinto, mas sou tri sensível.

49 – Tento lidar com a solidão da melhor maneira possível.

50 – Achei que seria muito difícil escrever 50 coisas sobre mim. Não foi.

Tuesday, March 11, 2014

A dor do não saber


Saber o motivo das coisas dói menos. Acredita que antes de saber, eu até te defendia? Ele está confuso, quer pensar, quer ter certeza do que quer... E cheguei a pensar que isso poderia ser bom, afinal, demonstrava maturidade e cuidado comigo e com todas as mudanças que estávamos propondo para as nossas vidas.
A dor do não saber é angustiante e abstrata, pois ainda há esperanças e expectativas. A dor da certeza é concreta e bem definida, onde não cabem esperanças. Passamos a enxergar o óbvio e a entender principalmente, que vai doer e sim e devemos deixar, para não haver feridas mal cicatrizadas.
Claro que traição dói, a rejeição de quem se ama é dilacerante. “Ser trocada” afeta com a estima de qualquer um. Outro dia eu disse que “levei um pé na bunda” e acharam estranho uma mulher falar isso assim, direto, sem se sentir constrangida, como se não doesse nada, falaram que isso não era comum.
Penso que para superar as coisas não dá para maquiar a realidade. Foi isso, foi um pé na bunda e falar assim, faz doer menos. Não preciso lembrar, recordar (com a cabeça e com coração), formular rápido uma explicação do tipo “acabou porque não deu certo... não estávamos no mesmo momento”, essas coisas que se fala para não se expor.
Escancarar os motivos assim não me envergonha, ao contrário, me protege. Os outros se calam. Saber o real motivo me poupa da dor da incerteza. Choro pelo fim de algo e não por um futuro que talvez acontecesse. Saber é libertador.

Saturday, January 04, 2014

Intenções


Brincando, brincando, já estamos em 2014. Ainda dá pra falar sobre 2013 e fazer planos? Sobre o ano passado, a coisa mais bizarra na minha opinião, foi aquele tradutor de linguagem dos sinais no funeral do Nelson Mandela. Sério, achei inacreditável, o fato e as entrevistas do cidadão... Sem mais.
E sobre 2014. Não vou me alongar com wish lists. Além de saúde (para todos) e grana para  poder viajar, quero escrever. Escrever e ler, na verdade, porque essas  coisas tornam a vida mais fácil pra mim. O que eu não quero de jeito nenhum: me deparar com algum coágulo em algum local do meu corpo. Valeu a experiência em 2013 e agora passo a vez.

De resto, penso que o ano de Júpiter promete. Júpiter é um ótimo planeta, de expansão, de colheita, de progresso. Portanto, ótimos caminhos para todos nós!

Mosaico
O pacote “escrever mais” engloba escrever no trabalho e aqui no blog J. Prometo que vou aparecer mais vezes, que vou me organizar e disciplinar para manter o Mosaico cheio de reflexos. E isso é por mim, porque escrever me faz muito bem.

Tanto que mudei o layout e ainda pode ter mais alguns ajustes por esses dias, até ficar do jeito que eu quero. Espero que gostem!

Feliz 2014!