Monday, July 25, 2011

Sinais

Na estação aeroporto do trensurb entram dois rapazes. O trem está lotado, mas eles param perto de mim. Pela maneira como se tocam e pela cumplicidade que há em seus olhares, imagino que são namorados.

Um deles, o mais falante, ostenta uma pele bronzeada e tem na mochila a etiqueta de uma agência de viagem. O outro é mais quieto e não trás nenhuma bagagem, apenas um copo de milkshake do Bob’s vazio. Chovia muito, estamos todos um pouco molhados.

Na estação Niterói, a gente consegue sentar, eles num banco de frente para mim. O moreno olha para tudo com uma curiosidade de quem está em um lugar pela primeira vez, o outro tem um ar preocupado como se perguntasse “será que ele está gostando?”

Enquanto olho os pingos de chuva na janela, começo a pensar nos meus amigos gays e percebo que aquele casal é um sinal. Um sinal de vida, de que devemos ter esperança, de que as coisas vão dar certo.

O celular do “turista” toca e eu escuto um pouco da conversa: “sim, cheguei bem. Tá frio, bastante frio, mas o Giovani disse que esses dias estava congelante. Sim, sim estamos indo para a casa dele, vou passar para ele...”

Pergunto da onde ele é, me responde com um sorriso que é do Rio de Janeiro, o que explica aquele tom de pele lindo. Então, passo a ter certeza de que é um sinal. Num fim de tarde chuvoso, há um carioca sentado na minha frente, num trem lotado. Um carioca, como o homem que amo. E outro, chamando Giovani. É um sinal, eu sei que é. É a vida subjetiva me mandando mensagens subliminares.

Conversamos um pouco. Quando vou descer, eles olham para mim e me desejam “todo o amor do mundo”. Sim, agora não há dúvida, é um aviso de que tudo dará certo e que eu terei sim, todo o amor do mundo.

Wednesday, July 20, 2011

Enchendo os pulmões de ar

Medo. Estou com medo, apavorada na verdade. A vida está se encaminhando para algo que quero muito, mas com essa possibilidade veio, também, um medo danado.

De perder o controle antes da hora, de ter a faca e o queijo na mão e acabar me cortando ou pior, de deixar o queijo mofar. De me sabotar, de achar que não mereço tanto e jogar tudo fora. Sim, porque a maioria das pessoas abre mão de ser feliz, a maioria não tem a consciência de que merecemos ser felizes.

Existe um ditado árabe que diz: "quando Deus quer enlouquecer alguém, ele realiza todos os seus desejos". Então, estou há um passo da loucura, logo eu, que até Deus estou contestando. Mas se tudo der certo, vou me tornar a pessoa mais crédula do mundo e passarei meus dias louvando o senhor e, só isso, já será uma loucura total.

Não vou negar que esse medo dos últimos dias tem feito eu me sentir viva e penso que isso é bom. Sentir a adrenalina correndo pelo corpo, o coração acelerado... Preciso dar longas respiradas, enchendo bem os pulmões de ar, para conseguir realizar as tarefas banais do dia.

Me sinto em cima de um prédio bem alto, pronta pra me atirar na feliz adrenalina da loucura plena de viver um desejo realizado. Porém, se Deus realmente não existir ou não estiver disposto a se divertir comigo enlouquecida, desta vez, a queda vai ser fatal.

"E de pensar nisso tudo, eu, homem feito. Tive medo e não consegui dormir..." Legião Urbana

Friday, July 15, 2011

Dá pra voltar no tempo?

Tenho uma memória de elefante, sou capaz de reviver dias inteiros que já aconteceram, sei as datas e até horas. Por exemplo, recordo o dia 15 de junho de 1992, o dia que minha avó morreu, como se fosse ontem. Quando minha mãe foi fazer minha matrícula na primeira série e me levou junto para me mostrar a escola. Quando soube que tinha passado no vestibular e resolvi ir pra casa a pé, de tão feliz que estava. O dia da minha formatura, a missa da minha formatura, minha chegada em Barcelona, a noite que capotei de carro.

Claro que isso são coisas marcantes, mas tem as banais, os dias comuns que deixam suas digitais na eternidade. O dia que o tio Roni trocou de carro e levou todos os sobrinhos para tomar sorvete, ainda sinto a força dos meus dedos no banco quando ele falava: “gurizada, vou ligar o turbo!”

Uma noite na praia, caçando vagalumes com meu irmão. Uma brincadeira de esconde esconde na casa dos meus avós, que acabou porque uma prima pulou a janela do quarto e sujou toda a cama da vó, de barro. A bagunça na hora do almoço com os tios e primos de Florioanópolis, nas férias de inverno de 1994. Um luau na Guarda do Embaú, em 2004. Uma tarde na faculdade editando o programa de Tele II. Depois de anos, a subida até o Cristo Redentor, em 2009, (Gi, eu estava emocionadíssima!) O porre na festa do Congresso da CUT-RS. Coisas assim...

Acordo e penso: “bah hoje é 06 de fevereiro, em 1993 estava em Tramandaí e de noite eu ficaria deslumbrada diante de vagalumes dentro de um copo”. É assim, as coisas vem na garupa do elefante que é minha memória.

Agora são 15h30 e há um ano, em 15 de julho de 2010, eu estava feliz, muito feliz. Há essa hora estava saindo do trabalho, já tinha participado de uma reunião de funcionários da CUT e ido comprar TNT amarelo para a amiga Juliana colocar na mesa do chá de casa nova dela, que foi no final daquela tarde. Estava indo para um hotel no centro de Porto, onde encontraria o homem que amo.

Eu veria ele chegar, lindo. Iria para o chá da minha amiga com a Gi, arrumaríamos as mesas com a Ju, depois a Gi me ajudaria a ver quais salgadinhos não tinham carne. No início da noite, voltaria e sairíamos para beber. Lembro que enquanto a gente caminhava até um bar, pensava “não acredito que ele está aqui, comigo”. Ele me observou colocando as luvas e me disse: “tu é a segunda pessoa que conheço que usa luvas sem tirar os anéis.” E a gente riu. Eu estava feliz, ele parecia feliz.

Essa não foi a última vez que nos vimos, mas foi a última em que parecíamos felizes. É clichê se eu falar que se soubesse disso, teria abraçado mais, beijado mais? Eu morro de saudade dele, todos os dias eu morro um pouco e me supero muito.

Mas hoje, eu acordei com aquele desejo impossível de voltar no tempo de verdade e não através dessas lembranças tão próximas, tão densas e até palpáveis. Por favor máquina dos filmes da sessão da tarde, me leve de volta! Eu tenho pouco tempo para que esse milagre aconteça! Daqui um pouquinho, lá pelas 16h20, verei ele descendo do carro e estarei de novo no melhor lugar do mundo: os braços dele.

Assinale a justificativa correta

Eu ando de saco cheio de tudo, o que não é nenhuma novidade. Incrível é estar tranqüila porque sei que é o meu inferno astral. Daqui uns dias, assim que o sol ingressar em Leão, vai passar.

Caso no próximo mês, eu continue assim, não esquecem que agosto é o mês do cachorro louco, que a bruxa anda solta e todas as coisas que ouvimos a vida toda da cultura popular, acabam influenciando no nosso comportamento.

Com certeza, em setembro, com a chegada da primavera, tudo ficar mais ameno. Se bem que o pólen das flores solto no ar dá alergia e as pessoas acabam ficando meio de saco cheio até com a estação mais bonita do ano.

Mas assim eu vou e o tempo vai passando, busco desculpas esfarrapadas pra enfrentar a dor. Um dia quando eu me der conta, já terá passado muitos anos, muitos infernos astrais, agostos e primaveras. E eu terei sobrevivido.

E muito provavelmente não terei achado a justificativa correta para estar quase sempre de saco cheio. Minha vida está longe de ser monótona e tenho consciência da grandiosidade desse mistério que é a vida. Muito das minhas dores se devem ao fato de eu não querer e não achar normal viver uma vida pela metade. Ando tão de saco cheio porque viver me dói muito.

Wednesday, July 13, 2011

Casa de Nazaré

Há uns 10 anos atrás eu fazia trabalho voluntário com crianças, era um projeto da escola que estudava. Eu fazia o que mais gostava: ler. Eu lia histórias para crianças que ainda não estavam alfabetizadas e era o máximo. Lia de tudo, de Monteiro Lobato a Anne Frank, até o Mito da Caverna, do Platão eu li e acreditem, aquelas crianças de 5 e 6 anos entendiam muito bem.

Mas foram por alguns meses apenas e logo entrei na faculdade, porém nunca esqueci como me sentia bem com elas. E pensei muito nisso enquanto estive na Europa, não sei se porque estava totalmente sozinha ou porque me dava conta que eu poderia viajar pra qualquer lugar, eu não esqueceria certas coisas e nem deixaria sentimentos de lado. Então acreditava que quando voltasse, tinha que fazer coisas que me fizessem bem.

Eu pensei muito nisso, que conviver com crianças me faria bem. Na minha última semana lá fora, recebi um email de um ex chefe que dizia mais ou menos assim: “Quando tu volta? Tu vai voltar né? Me avisa, tem um lugar que quero que tu conheça, acho que tu vai gostar.” Uma semana depois que cheguei no Brasil, fui conhecer esse lugar, a Casa de Nazaré – Centro de Apoio ao Menor. Na outra semana comecei a trabalhar lá. É longe, na vila Nossa Senhora das Graças, no bairro Cristal, mas é incrível.

Quando esse amigo me enviou o email, a intenção era ver se eu topava fazer algum trabalho voluntário na entidade, só que nesse meio tempo, o funcionário que cuidava da administração do site da Casa saiu. Então, me tornei assessora de comunicação da Casa de Nazaré. Faço uma das poucas coisas que sei fazer e o melhor, rodeada de crianças.

A Casa de Nazaré atende mais de 500 crianças e jovens por dia. Há turmas de berçário, maternal e jardim, além das turmas de trabalho educativo que são para as crianças em idade escolar, que freqüentam a entidade no contra turno e os projetos sociais para os jovens de 12 a 16 anos, como teatro, violão, informática...

Há muito trabalho e pouca estrutura, mas é incrível saber que lá na ponta os beneficiados serão essas pessoas. Quase sempre almoço lá e outro dia ouvi de uma menina de 4 anos que “tem que comer repolho porque faz bem para pele”. Por mais que não esteja contando histórias para essas crianças, estou convivendo com elas, com centenas delas. E isso me faz um bem danado.

Eu que ando tão descrente de tudo, volto a ter esperança no ser humano, me faz acreditar que com tanta gente boa no mundo, é impossível as coisas não darem certo. Trabalhar lá não me faz esquecer da vida, muito pelo contrário, a realidade vem como um soco no estômago todos os dias.

Quando ouço uma criança falar, com a maior naturalidade, que o pai está preso e a mãe foi comprar crack. Quando entra uma educadora na minha sala perguntando se eu vou entrar na vaquinha para comprar um tênis para uma criança que apareceu de chinelo e meia, num dia que fazia 5ºC. Ou quando uma grávida de 13 anos me pergunta quantos filhos eu tenho e me olha horrorizada com a resposta negativa, porque essa é única realidade que ela conhece.

Não faço trabalho voluntário, sou funcionária e ganho por isso, embora quando fale para as pessoas o valor do meu salário, ouça gargalhadas e quase sempre a sentença: “isso é trabalho voluntário”. Mas eu ganho essa esperança que disse acima, quando entro no refeitório e tem dezenas de carinhas lindas, com a boca suja de feijão, me sorrindo. Tem alguns que entram na minha sala para me entregar um desenho, na maioria das vezes é eu que estou desenhada e quase sempre, não me reconheço. Quando a gente perde a fé, são gestos assim que nos sustentam.

Eles não entendem o que faz uma assessora de imprensa, me chamam de tia, de profe, de sora, de Rê ou de ingrata (graças ao Latino). Eles também não entendem porque eu trabalho na sala da direção (o rapaz que cuidava do site era instrutor de informática). Devo ser uma grande incógnita para eles e para muita gente que acha absurdo eu acordar de madrugada, pegar trem e ônibus para trabalhar numa creche. Mas com certeza, a maior beneficiada nessa história toda, sou eu.

“Eu fico com a pureza da resposta das crianças”- Gonzaguinha

Friday, July 08, 2011

Seguindo a canção

Eu estou tentando com todas as minhas forças mas, às vezes, viver me exige tanto esforço. E daí se meus problemas por causa de um coração partido são ínfimos perto de problemas mundiais como fome, violência e miséria? São meus problemas! E muitas vezes não me deixam dormir e continuar caminhando e cantando e seguindo a canção.

Acredito que eu querer ficar bem e buscar objetivos para continuar já é uma grande coisa, mesmo tendo abandonado a terapia e jogado os remédios o lixo. Cansei de tomar droga liberada e com receita, para ser feliz. Como diz minha mãe, a gente tem que caminhar com as próprias pernas, e estou fazendo isso. Vou tropeçando, reclamando, chorando, mas vivendo, no final das contas.

Estou me focando, mais do que nunca, em juntar grana para comprar um apartamento ano que vem. É um plano bem real e aceitável, o que mostra a minha maturidade. A infantilidade vem quando eu penso que preciso de um apartamento com dois quartos e me pego pensando como vou mobiliar esse quarto que será para o enteado lindo e fofo que um dia eu vou ter.

Boa parte de mim sabe que isso é uma ilusão. Mas é justamente a parte iludida que me faz querer continuar, viver e ficar bem. Porque quando ele voltar e ele vai voltar, vai me encontrar melhor do que eu era. Sim, é só por ele que eu sigo ensaiando a canção de todo dia.

Wednesday, June 29, 2011

François

François é um tipo raro e inesquecível. Conheci numa noite dessas em algum boteco da Cidade Baixa. Ele, o rei da República e da João Alfredo e da Lima e da João Pessoa... Uma amiga apareceu com o tipo a tira colo. Estão se pegando, os dois.

François, com esse nome, parece francês né? Mas não é, embora se apresente assim: “François, francê”. Nasceu na Restinga o moço, filho da Grace Kelly e do Michel Jackson, irmão mais velho de Ian Nick (outro tipo bastante peculiar)... Como vocês podem perceber, uma família de exemplares ímpares.

Nasceu com a democracia e influenciado por referências culturais estadunidenses. Contemporâneo do Plano Real, dos Mamonas Assassinas e do É o Tchan. Chorou muito até ganhar do Papai Noel um Atari e acordava cedo para ver a Xuxa descer da nave espacial cor de rosa. No começo, tinha medo de computadores, mas viu o advento da internet, da globalização, dos emails, dos chats, das conversas instantâneas e hoje é dependente de toda e qualquer rede social que existe.

Mas, quando François era aluno de uma escola pública da zona oeste da capital, não havia bullying, nem crianças hiperativas e disléxicas. Apenas garotos problemas. E antes de tocar terror na Cidade Baixa e arredores, François tocou terror na Restinga e nos colégios por onde passou.

Ele não era assim, um aluno exemplar, mas sempre possuiu uma inteligência apurada e um comportamento diferenciado, capaz de marcar todas as jovens professorinhas que passaram por ele. Muito prestativo, sempre se candidatava a ajudante do dia, assim tinha acesso fácil à sala dos professores, e as bolsas das mesmas. Sim, ele “roubava” dinheiro delas.

Porém a vida escolar de François se divide em antes e depois da maior cagada de sua vida infantil. Inteligente o suficiente para conquistar a simpatia dos professores, sempre tinha defensores. Até o dia que percebendo o sistema de merda que é a sociedade, ele resolveu realizar um protesto solitário e ousado. Durante vários dias, ele cagou em cima das mesas das professorinhas. Foi uma decepção para elas, quando o mistério escatológico foi resolvido, mas nesse momento morria o garoto problema e nascia o mito.

E o mito, eu garanto para vocês, é gente boa, faz o estilo sujinho de all star, cavanhaque e dreads nos cabelos. Nunca concluiu uma faculdade, mas se formou na escola da vida. Nada mal para quem poderia estar roubando, estar matando ou ainda pior, pedindo voto.

Tuesday, June 28, 2011

Escrevinhadora

Quando era criança, queria ser escritora quando crescesse. Primeiro veio a necessidade de ter uma profissão que me possibilitasse escrever, para depois escolher pelo jornalismo. Na escola e no cursinho pré vestibular ganhei alguns concursos de contos e afins... No início da adolescência, sempre presenteava as amigas com histórias e minha primeira fonte de renda foi a venda de redações para os colegas durante os três anos do ensino médio.

Provavelmente uma das melhores ofertas de emprego que tive, eu recusei porque não escreveria com a freqüência que gostaria. Logo depois de formada, trabalhei como free lancer num jornal conhecido da região metropolitana. Após um tempo, fizeram a proposta de me contratar como diagramadora. Apenas diagramadora. O salário, na época, era o dobro do que ganho hoje e, eu recusei. Por mais que goste de montar quebra cabeças em páginas de jornal, tenho certeza que se aceitasse, logo me transformaria numa profissional insatisfeita e com inveja dos colegas que escreviam.

Resumindo, ainda quero ser escritora quando eu crescer. Tá, já cresci, eu sei. Além disso, dizem que os livros estão com os dias contados e que são raras as editoras que topam lançar novos nomes num mercado cada vez mais tecnológico. Pior que isso, o Brasil tem um dos menores índices de leitura do mundo.

Apesar de tudo, o mais estranho é que de todos os meus sonhos, desejos e plano esse é o único que não tenho nenhuma pressa de realizá-lo, isso se um dia realizá-lo. E eu não sei explicar o motivo. Essa é a única questão em que “deixo a vida me levar”. Claro, que nenhum editor irá bater na minha porta pedindo para eu publicar algo.

Às vezes justifico esse meu “marasmo” com o fato de quase sempre escrevo na primeira pessoa e isso gera algumas confusões, mas também é um baita recurso de proximidade com qualquer leitor. Quem lê, também lê na primeira pessoa. E muitas vezes, o nosso umbigo reflete o umbigo alheio.

Volta e meia alguém me pergunta sobre um possível livro e isso me deixa lisonjeada, embora eu nunca saiba ao certo o que responder. Talvez me falte fôlego para escrever uma história coerente, ou vontade, ou disciplina... Provavelmente, um dia não irá bastar escrever notícias no trabalho, reflexos no blog, frases curtas no twitter e loucuras no meu diário (sim, eu tenho diário). Mas com certeza, vou ser escritora quando eu crescer!

“Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi.” Caio Fernando Abreu

Sunday, June 26, 2011

Bola pra frente

O blog está quase criando mofo, não por falta de vontade, há muito que falar, mas às vezes nossos maiores silêncios são justamente, fruto de grandes gritarias internas. Eu gosto muito de escrever, penso que essa é a maneira que melhor me expresso e tenho textos prontos, porém não consigo postá-los. Não sem antes, colocar as palavras que estão há dias tentando sair. Parece uma traição se eu postar algo que não sinta no momento.

Eu estou melhor, muito melhor, porém isso não significa que estou feliz ou infeliz. O último ano foi muito intenso, principalmente de emoções. Conheci uma das pessoas mais importantes da minha vida e tive que aprender a viver sem ela. Muitas vezes, desejei egoistamente, que ele tivesse morrido, assim seria mais fácil de aceitar.Também estive muito perto de me matar por não querer continuar sem ter a chance de viver o que eu sentia.

Ironicamente, foi no meio disso tudo que eu fui viajar. Conhecer a Europa sempre foi um sonho. E ter realizado um sonho quando o que eu mais queria era morrer, me ensinou muitas coisas. Hoje eu penso que eu só não me matei porque eu tinha essa viagem pra fazer, mesmo tendo entrado no avião torcendo para que ele caísse.

Abre parênteses: eu não tenho problema nenhum em falar de suicídio. Não foi a primeira vez que pensei nisso e pelo meu histórico, sei que provavelmente vou ter essas crises outras vezes ao longo da vida. Talvez um dia eu consiga me matar ou talvez eu sempre supere essas crises. Fecha parênteses.

Voltando ao o que eu quero dizer e está tão difícil. Eu estou visualizando uma vida daqui pra frente, mesmo sem ele, mesmo correndo o risco de me tornar uma mulher amarga. Eu quero comprar meu apartamento ano que vem, já estou louca pra viajar de novo, vou voltar a estudar espanhol, voltei a levar a sério a dança do ventre e ando pensando num mestrado no exterior, mas num lugar próximo para eu não morrer de saudade. Estou com dois empregos bacanas que me ocupam o suficiente para eu chegar em casa podre de cansada.

Eu não estou feliz, como disse antes, apenas estou vivendo! Continuo amando esse homem, chorando de saudade, enxergando ele em todos os lugares, sentindo o seu perfume, vendo o filho dele em todas as crianças que cruzam por mim na rua. Ainda guardo um livro que trouxe para ele de Barcelona, cuido da sua camiseta como quem cuida do maior tesouro do mundo. E tenho certeza absoluta que o dia mais feliz da minha vida, foi quando recebi um email dele. Sim, eu trocaria qualquer apartament no meu nome, mestrado noo exterior e viagens para poder dormir e acordar do lado dele.

Agora são quase 21h, estou escrevendo esse texto desde às 18h30, acho que vou estar mais leve quando terminá-lo. Tanto esforço, físico e mental, para dizer que no momento, quero viver, que não deixei de amar esse homem, mas talvez seja justamente vivendo, que um dia ele volte, mais maduro e pleno ou eu me torne merecedora de viver o que sinto.

Tenho consciência de que a vida foi muito boa comigo, eu sempre tive dois sonhos: ser jornalista e viajar. Já realizei os dois. Sei que não preciso ser rica para viajar e minha timidez nunca foi empecilho para a minha profissão. Nesses meus 20 e poucos anos já tive algumas boas surpresas e amar esse homem foi sem dúvida, a maior e melhor de todas.

Aquele filme “Show Bar”, de uma moça que sonha em ser cantora e vai para cidade dançar em cima das mesas de um bar, enquanto batalha a gravação de um CD, termina com uma pergunta: “o que se faz quando os sonhos se realizam?” Sempre que assistia esse filme eu respondia: “Começa a sonhar sonhos novos!” É isso, e agora está claro, eu voltei a sonhar.

“Você me pergunta “sairei do buraco?”. Sairá, sim. Sairá brilhantemente. As coisas agora vão começar a acontecer, é meio tipo ímã, uma coisinha vai magnetizando outra e outra e outra, você vai ver.” Caio Fernando Abreu

Sunday, June 12, 2011

Só por hoje...

Só por hoje eu não vou chorar.
Só por hoje eu não vou acordar pensando em você.
Só por hoje eu não vou imaginar como seria viver com você para a viagem de trem passar mais rápido.
Só por hoje eu vou me concentrar no trabalho e fazer tudo direitinho.
Só por hoje eu não vou deixar que a saudade vire estupidez e eu brigue com alguém.
Só por hoje eu vou sair com as minhas amigas e vou falar amenidades, sem me dar conta de como eu queria que você estivesse ali.
Só por hoje eu vou vestir a roupa que eu quiser sem pensar se você iria gostar.
Só por hoje eu vou caminhar pelas ruas sem desejar dar de cara com você numa esquina qualquer.
Só por hoje eu não vou imaginar como vai ser se um dia eu te encontrar, só para meu coração acelerar e me sentir viva.
Só por hoje eu não vou desejar sonhar com você.
Só por hoje eu não vou entrar no teu Orkut. Nem no site do IGP. Nem no de Santa Maria.
Só por hoje eu não vou te ligar só pra escutar você dizer “alô”.
Só por hoje eu não vou falar de você para as minhas amigas.
Só por hoje eu não vou lamentar que passei um dia sem notícias suas cada vez que deitar na cama.
Só por hoje eu não vou beber até me sentir anestesiada.
Só por hoje eu vou conseguir olhar para o lado e enxergar um exemplar do sexo oposto e vou achar esse ser bonito.
Só por hoje eu não vou tomar remédio pra dormir.
Só por hoje eu não vou falar mal de Deus, nem do Diabo.
Só por hoje eu vou acreditar em qualquer coisa que me faça bem.
Só por hoje eu não vou ficar olhando tua foto.
Só por hoje eu não vou correr cada vez que meu celular tocar, torcendo pra ser você.
Só por hoje eu não vou pensar no que você estará fazendo cada vez que olhar no relógio.
Só por hoje eu não vou lembrar do teu filho cada vez que eu vê uma criança na rua.
Só por hoje eu não vou entrar no meu email a cada cinco minutos só para ver se você mandou algum email.
Só por hoje eu não vou pensar em me matar.
Só por hoje eu vou fingir que tá tudo bem.

Wednesday, June 08, 2011

Carta Anônima

"Os sobreviventes" é o conto do Caio Fernando Abreu que mais gosto. O segundo é esse, "Carta Anônima". Reproduzo o texto abaixo, porque hoje o li inúmeras vezes, acho de uma beleza tão singela. Amo a capacidade que o Caio tinha de descrever situação tão banais com uma riqueza de detalhes e uma percepção única. Segue a carta:


Carta Anônima

"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.

Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.

Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo."

Caio Fernando Abreu

Sunday, June 05, 2011

A elegância do ouriço

Nas longas horas que eu passei no aeroporto de Madrid, quando voltava ao Brasil, comprei alguns livros e nunca uma obra me foi tão recomendada quanto “La elegancia del erizo”, de Muriel Barbery. O livro já foi traduzido para o português, mas eu nunca tinha ouvido falar.

Comprei por pura curiosidade, simplesmente, todas as pessoas que estavam na loja falaram bem do livro! Bom, a história se passa em um edifício luxuoso de Paris e é contada por Paloma, uma menina de 12 anos e por Renée, a zeladora do prédio.

Penso que esse livro é a prova que o que sustenta uma história é suas personagens. Paloma e Renée vivem em universos diferentes. A menina é a caçula de uma família rica, filha de político. A zeladora é quarentona, viúva e solitária.

Mas ambas são inteligentíssimas e dividem uma visão ímpar do mundo, ora terna, ora ácida, e há também, o amor pelas artes, filosofia e as letras. Enfim, são personagens complexas e ricas e como todas as pessoas que se sentem a margem da realidade que vivem, elas tentam ao máximo passar sem serem notadas. Renée é de pouquíssimas palavras e acha que a vida nunca vai surpreendê-la. Paloma está decidida a se suicidar, já que pensa que na vida não há sentido.

São essas duas mulheres que contam uma história, de vida, delas mesmas. Separadas e entrelaçadas, as observações, as idéias, o vazio e a riqueza interior de ambas encantam e machucam. Se o leitor já percebe as semelhanças entre elas logo, as personagens passam a conviver de fato, quando o japonês bem-humorado Kakuro Ozu, se muda para o edifício.

Eu li o livro em espanhol e essa semana quero ver se o encontro em português. Vale a pena e eu recomendo, são poucos os livros que é necessário um tempo para assimilar o que se leu e esses, são justamente os melhores.

Ah sim, o título do livro é por causa do ouriço, o animal mesmo, porque lá pelas tantas, Paloma compara Renée com o bicho e explica: por baixo da aparência dura e estranha, os ouriços são um dos animais mais dóceis e inteligentes do mundo.

“'A vida tem um sentido que os adultos conhecem' é a mentira universal que todos crêem por obrigação. Quando nos tornamos adultos, compreendemos que isso não é verdade e já é muito tarde. O mistério da vida permanece intacto, porém faz tempo que gastamos toda a nossa energia em atividades estúpidas. Já não resta mais nada, a não ser nos anestesiarmos perante a vida e fazer de conta que tudo tem um sentido, enganando assim, nossos próprios filhos e os outros para tentar convencer a nos mesmos.” Muriel Barbery

O grito

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

Deu. Às vezes eu preciso dar um grito pra aliviar um pouco a saudade.

Tuesday, May 31, 2011

Dose

Tenho tentado, juro. Saído, me divertido, estudado, bebido, finjindo que está tudo bem.

Hoje até cantei, a tarde toda no serviço. Escutava música, cantava e chorava. Ninguém reclamou, não sei se por medo ou pena. Logo eu né? Que não cantava nunca. Quer dizer, sussurrava “Menino do Rio” no seu ouvido. Você sorria, me beijava e essa era a melhor maneira de falar que eu não canto nada.

Mas tenho tentado, de verdade. Fiz um curso de diagramação em In Design e logo quero fazer um de Photoshop. Viu? Tenho ocupado minha cabeça. Arrumei mais um emprego, numa ONG com centenas de crianças e pasme, estou a-do-ran-do, queria todas para mim. Elas me lembram o teu filho.

Mudei? É uma tentativa. Podem ser doses muito pequenas de vida sem você, onde a sua falta é a única coisa que sobra, mas é melhor assim do que sucumbir. Acho que antes eu era melhor, porém morrer é fundamental para continuar vivendo.

Antes eu não bebia todos os dias. Eu não sentia tanta preguiça. Antes eu não comia um xis e uma hora depois uma porção de polenta, nem pizza três vezes na semana. Antes eu não pedia cigarro para minhas amigas. Antes eu não perdia a paciência por tão pouco. Antes eu não era tão distraída. Antes eu não chegava atrasada.

Realmente, antes eu era uma pessoa melhor, mas não sabia abrir uma garrafa de vinho.

Sunday, May 29, 2011

Alquimia

Cozinhar é uma das maiores alquimias possíveis na face da terra. Desde criança, penso que a junção de vários ingredientes que se transformam em algo totalmente novo e fundamental para a nossa existência, é um verdadeiro passe de mágica.

Ontem à noite eu agi como uma perfeita alquimista, transformando arroz em champignon no delicioso “Arroz Marquezin.” Como cobaias, a família, é claro. Confesso que já tinha cozinhado antes, mas coisas prosaicas e rápidas como omelete, miojo com requeijão (até então a minha especialidade). Nunca havia feito comida para outras pessoas.

E eu gostei. Não só porque minhas cobaias aprovaram, mas porque a simbologia de cozinhar sempre me atraiu. Além de, para mim, ser a representação do poder de transformação da natureza e do poder da intenção do ser humano, quer seja para agradar ou para atazanar uma pessoa.

Vejam por exemplo a palavra “comemorar”, que significa celebração de coisas boas, é muito difícil comemorarmos algo, sem ter alguma coisa para comer. A própria palavra ínsita essa ação nas suas duas primeiras sílabas.

Penso que tanto comer como comemorar, pedem mais pessoas para dividir esse momento e o alimento conosco. E talvez seja esse o segredo de uma boa receita.

Arroz Marquezin

Ingredientes:

½ cebola
Margarina
Arroz arbóreo
Vinho branco
Nata
Queijo ralado
Champignon (ou tomate seco, ervilha, brócolis...)
Caldo de galinho ou carne (opcional)

Modo de fazer:

Frite a cebola na margarina, coloque uma taça de vinho e deixe secar. Frite o arroz, vá colocando aos poucos água (com caldo de galinha), sempre mexendo. Quando tiver cozido, coloque o champignon, as duas colheres de nata e queijo ralado.

Sunday, May 22, 2011

Perdição

“O que tem de ser, tem muita força. Ninguém precisa se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde.” Caio Fernando Abreu

Sou uma louca por acreditar que eu ainda vou casar com você? E que vamos passar a nossa lua de mel nas Ilhas Canárias? E que um dia eu vou dar uma irmãzinha linda para o teu filho? Que você ainda vai me agradecer por não ter desistido?

Ou sou uma louca por que tenho medo da mulher amarga e recalcada que posso me tornar se deixar de acreditar no que eu sinto? Posso me tornar uma workaholic ambiciosa que só pensa em dinheiro ou uma intelectualóide que ninguém entende e todos sentem pena?

Não acho que vou me cansar de esperar você, mas tenho tanto medo de me perder no meio do caminho, já é tão difícil tocar o barco em frente. Às vezes eu sinto tanta falta de você e tanta impotência diante da vida, que tenho vontade de bater com a minha cabeça na parede, só para doer mesmo, para eu sentir outro tipo de dor que não seja a falta de você.

E se eu me perder, como vai ser? Vou acabar num hospício, como aquelas velhas loucas que passam o dia sentadas, olhando para o nada e esperando alguém voltar, alguém que todos acham que não existe? Eu sei que essas pessoas não são loucas, apenas se perderam... Por favor, vem logo, antes que eu me perca.

Saturday, May 21, 2011

Dedicatória

Ei, você, desculpa qualquer coisa, mas tenho que te dizer: eu não escrevo para você. Eu escrevo para mim. Para alimentar o vazio que me acompanha desde sempre. Para saciar meu ego. Para conter a vontade de dar um tiro na cabeça. Para me aliviar. Não é uma exposição. Escrevo, justamente, para me proteger. Meus textos são a minha defesa do mundo.

Nem pra ELE eu escrevo, embora ELE seja constantemente citado nas minhas palavras, que são sobre o que eu sinto por ELE. Quando escrevo para ELE, envio para ELE lê. ELE é o meu leitor preferido e a minha melhor inspiração. Agora, se nem para ELE eu dedico algo, você acha que escrevo para você?

Não. Mas não é nada pessoal. Apenas não gosto dessa mania que você tem de julgar. A maior herança que a família de malucos, que eu tenho, vai me deixar é a aceitar e não me meter na vida alheia.

Grande parte dos meus familiares usam drogas e eles nunca deixaram de ser bons pais, mães, filhos, tios, tias... Meu irmão não é um marginal por ser punk. Eu não sou uma alcoólotra porque gosto de ficar bêbada. Você não tem o direito de se meter na minha vida porque me lê.

Tampouco me importo se você gosta ou não dos meus textos. Minha excelentíssima mãe, não gosta e nunca me escondeu isso. Se ela ler esse post, vai ter certeza que é para ela, assim como você teve estar pensando, né?

Mas hoje vou abrir uma exceção, excepcionalmente a última frase deste texto, é dedicada a você. Um verso de uma letra de uma canção da nossa grande Música Popular Brasileira. Confesso que não a incluo nas minhas preferências, mas considero esse trecho uma verdadeira obra prima, um apelo de respeito em tempos de tamanha exposição e opinião alheia. Para você: “ado, ado, ado. Cada um no seu quadrado.”

Friday, May 20, 2011

Meio ano

Seis meses. Há exatos 182 dias eu estava morrendo. Morri durante a madrugada, confortável, deitada numa cama, de banho tomado, coberta com edredons e abraçada no homem que eu amo. Fiz muitas coisas nesses meses. E tudo não mudou o nada e o vazio que tomaram conta da minha vida.

Chorei. Rezei. Implorei. Me humilhei. Estudei. Viajei. Voltei. Me alegrei. Me decepcionei. Bebi. Fumei. Cherei. Li. Prometi. Menti. Não cumpri. Escrevi. Esperei. Me perdi. Perdi a fé. Mas nunca mais me enchi.

Pensei em ir embora, em nunca mais voltar, em sair por aí, em sair sem dar tchau. Pensei em ir para um convento, para um hospício, para um monastério, para um bordel, para um presídio. Eu quis me matar. Queria me enterrar.

Foi sendo levada sem sentir que cheguei até aqui. O corpo dói. Anestesia até. Respirar é difícil. Suspirei muito. Meu reflexo são frases pequenas e soltas. Fragmentos. Pedaços que lembro e junto os caquinhos para recordar a nossa história. Sem contexto. Sem sentido. Sem valor. Nada.

Não conto os dias da tua ausência, o que conto são os dias da minha sobrevivência. Há 182 dias, eu me tornava uma viva morta, sou um nada que respira.

Friday, May 13, 2011

Curta e grossa

Por que essa saudade dilacerante que eu sinto não me mata de uma vez, ao invés de ficar me torturando?

Sunday, May 08, 2011

Tormenta

Hoje é dia das mães e eu queria tanto escrever algo bonitinho, tipo uma homenagem. Mas discuti tanto hoje com a “mamuska” que perdi a vontade. Então pensei em escrever sobre como minha relação com a maternidade mudou, que um dia quero ser, como ando sensível em relações as crianças e como esses pequenos seres são as únicas coisas que conseguem me comover.

Como eu mudei né? “Nada é fácil de entender” diz o Renato Russo no rádio... Hoje também faz um ano que capotei de carro e perdi metade do meu cabelo. Aliás, a briga com a mãe foi sobre isso. Ela chegou em casa e eu estava um pouco alegre e disse “mãe hoje tu estaria na minha missa de um ano de morte.” Ela me olhou com cara feia e eu, na minha melhor intenção de bêbada, emendei. “E eu ia tá fazendo careta atrás do padre.”

Depois disso, discutimos e discutimos. Eu disse que não iria mais escrever para ela. Ela disse que tudo bem, porque acha meu blog muito triste. Também pensei em escrever sobre o acidente e a vida nesse tempo todo, mas tanta coisa aconteceu, e tanta coisa que me machucou que acho um tremendo azar aquele carro não ter capotado mais uma vez.

Tem dias que estou com uma ideia na cabeça, escrever sobre um cantor de bar, mas nunca consigo. Também seria ótimo se eu mexesse no tal “livro”, que há semanas, não ganha uma linha. Tantas coisas podem ganhar letras e virar história, mas não hoje. Hoje eu tô atormentada demais, vou deitar e chorar.

Happy hour




Nestas duas semanas que estou em casa, poucas coisas me deixam mais feliz do que sentar num boteco e tomar cerveja com os amigos. Sexta-feira fui no boteco do Natalício com a Juliana e a Giovanna e sempre que as vejo, entendo porque me matriculei numa pós-graduação no último dia de inscrição.

Aliás, cada vez me convenço mais que a única coisa que faz a vida valer a pena são as pessoas que encontramos pelo caminho. A Jú e a Gi são formadas em história, e penso que essa é uma das poucas semelhanças que elas têm, até porque nós três somos totalmente diferentes.

Sempre que nos encontramos, prometemos que isso será mais frequente (tômara), mas ainda bem, somos mulheres independentes e bastante ocupadas. Eu adoro os sermões que a Jú me dá, me lembra a minha mãe, hehehehe. Mas na última sexta quem deu show no sermão foi a Gi, hehehehe.

Tirando o fato das poucas opções de comida que tem no boteco, sempre é muito bom ir lá com as gurias e com as colegas de trabalho da Jú, que sempre me receberam muito bem quando eu vou lá ou quando vou tomar cerveja com elas.

Esses momentos são de grande importância pra mim, pela companhia, pela conversa, pelas risadas e principalmente porque dá uma amenizada nas dores da alma. Não diminui nada, não cura nada também, mas é o mais doce dos remédios.

Thursday, May 05, 2011

Nocaute

“Já tentei três vezes. Mas eu era muito jovem e faz muito tempo. Achava muito chique se suicidar aos 20 anos. Mas chique é sobreviver”. Caio Fernando Abreu

A instabilidade da vida me assusta, realmente, não sei como ainda respiro. Não sei o que fazer. Acho que nunca soube. O vazio e o nó na garganta voltaram. Mas agora não é um vazio sem sentido, ele tem sentido, eu sei o motivo da minha dor e isso a torna, infinitamente mais forte.

Eu já fiz planos, mas assim como as coisas que eu já acreditei, não passaram de desculpas esfarrapadas para continuar. Realizei muito dos meus planos e perdi pelo caminho minhas crenças.

Até alguns dias atrás, pensava que tinha o melhor de todos os motivos para viver, acreditar no amor. Mas o tal do Deus ou do Diabo, ou sei lá quem é que brinca de marionete com os seres humanos, tirou o chão dos meus pés.

Mais uma vez, desabei. Não agüento mais ser nocauteada pela vida, não há motivos para insistir e resistir. E eu nunca gostei de coisas chiques.

Monday, May 02, 2011

Hábito

Será que um dia eu vou me acostumar com a dor de não te ter? Será que um dia essa saudade vai ser tão normal que a dor que ela me provoca não me machucará tanto? Esse final de semana sai com algumas amigas, me diverti como há tempos não acontecia, mas em nenhum momento você deixou de me doer. E eu me pergunto se isso não é “se acostumar”?

A noite foi quase perfeita. Eu sai com as gurias e, depois de dois meses sozinha, isso teve um valor e um sabor, inexplicáveis. Tomamos champanhe boa parte da noite. Fomos nos arrumar na casa de uma das amigas, bem coisa de mulherzinha, bem coisa que mulher adora fazer. Se vestir de alvo, se vestir para ser o alvo, ir para a guerra...

Depois dancei a noite toda, vi aquelas cenas impagáveis que toda festa proporciona a percepção de uma bêbada. Um careca cabeludo se aproximando da nossa mesa, um senhor com idade para ser meu avô insistindo para tomar uma cerveja comigo. E o de sempre, uma amiga chorar, outra brigar com o ficante, outra ficar, outra não desgrudar do celular...

Eu levei uns pirulitos de maconha que trouxe de Amsterdam e foi o maior sucesso, virou pirulito comunitário e tinha até fila. Até quem nunca tinha colocado essas “porcarias” na boca, experimentou. Foi divertido e inesquecível. Foi uma noite e uma festa tão boas, só não foram perfeitas porque você não estava lá.

Olhava para a mesa e imaginava onde você estaria sentado, o que estaria vestindo... Eu seria a mulher mais feliz do mundo se pudesse dançar com você, tomar cerveja, te beijar entre um gole e outro e curtir a ressaca do outro dia nos teus braços.

Até quando vou conseguir sorrir e falar que está tudo bem, quando minhas amigas me perguntarem o por quê estou tão quieta? Será que um dia eu vou estar numa festa e não vou precisar me esconder no banheiro e chorar para me esvaziar de você?

Wednesday, April 27, 2011

E o pensamento lá em você...

Estou no aeroporto de Madrid agora, esperando meu vôo para o Brasil, são quatro horas de espera, mas eu já não me importo, pois é um tempo que eu tenho para pensar em você. Seja lembrar dos momentos que estávamos juntos, imaginar o que você estará fazendo ou projetar um futuro.

As imagens são frágeis como asas de borboletas, mas igualmente belas. Tem vezes que elas se fortalecem tanto que parece que você vai se personificar na minha frente, pois por momentos sinto o teu cheiro, o teu calor e chego a sorrir com a certeza de que posso te tocar.

Mas aí, a realidade puxa o tapete voador que eu estou, seja com o barulho do aspirador que limpa aeroporto, seja com a voz do alto falante, algo que cai, alguém que passa apressado para não perder o vôo, me fez perder você. E eu sinto raiva.

Já quando estou muito otimista, penso que tudo é um sinal positivo, o avião que risca o céu, uma pessoa estranha que me sorri, a música que começa a tocar em uma das lojas (uma música romântica!)

É um sinal sim. Até o fato de eu continuar respirando é um sinal de que viver por você vai valer a pena. A realidade começa sempre na nossa imaginação, no nosso pensamento. Um dia essas imagens serão tão reais que eu vou achar banal.

Inclusive você já foi imaginação. Tuas tatuagens, teu anéis cor de prata (como os meus), teus gostos, teus gestos, teus carinhos, teu corpo, tua história... Isso explica porque sempre me senti muito a vontade contigo, porque já te conhecia dos meus sonhos.

Saturday, April 23, 2011

Trilha sonoa

Sempre gostei dessa música, mas ela nunca fez tanto sentido para mim, como agora...

Por Enquanto
Legião Urbana

Mudaram as estações
E nada mudou
Mas eu sei
Que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente...
Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era prá sempre
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba...
Mas nada vai
Conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem...
Mesmo com tantos motivos
Prá deixar tudo como está
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta prá casa...

Finaleira

É meu último dia da minha viagem é acho que já posso fazer um balanço da experiência. Sem dúvida, o mundo é muito lindo e viajar é muito bom. Não sei se volto melhor ou pior, mas volto diferente. Almoçar bolacha com banana sentada numa praça, me pareceu um banquete em Amsterdam e um omelete foi a comida mais sem gosto que já comi na vida, mesmo em Paris, a beira do rio Sena.

Poderia ter aproveitado melhor Barcelona. Caiu a ficha e eu passei a me dar conta do que estava vivendo depois do email do homem que amo. Aliás, percebi o quanto as pessoas são de fato, importante para mim. Teve dias, que eu daria minha vida para enxergar um rosto conhecido.

A aventura que é ter três minutos para trocar de trem, cheia de malas, numa cidadezinha no interior da Alemanha, poderia ser muito engraçada se eu tivesse alguém compartilhando a viagem comigo. Mas eu não tive e fui obrigada a me aturar, principalmente, o meu silêncio.

Não lembro a última vez que conversei com alguém, mas isso já não me incomoda. No começo incomodava, sim. Depois vem a raiva de ter se metido nisso sozinha e por fim, a resignação. O silêncio não incomoda mais, a gente começa a conversar com estranhos como velhos conhecidos.

Penso que depois desses dois meses dou mais valor para as pessoas que convivem comigo, pois, senti muito a falta delas, mas sobrevivi à saudade e a distância. Portanto, por mais que ame todos vocês, dá para viver longe.

Também penso que estou menos desconfiada. Viajando sozinha, passei por situações que fui obrigada a confiar em estranhos. Seja nas pessoas que pedia informação na rua ou nas estações de trem, quando deixava toda a minha bagagem sozinha e ia no banheiro.

Tem coisas que aprendi e serviram de lição, outras vou fazer diferente e algumas, espero nunca ter que repetir. Estou louca pra voltar para casa sim, para minha cama, colocar roupas limpas, sair sem mapa e não me perder com tanto freqüência. Também estou louca para sentar num bar com minhas amigas, abrir uma cerveja e conversar e conversar e conversar.

Volto com esperança de dias melhores. Aconteceram coisas muito boas enquanto estive aqui e elas, podem não estar, ainda, do jeito que eu sonho, mas me dão esperança e vontade de viver, considerando que eu sou uma pessoa que tem muita vontade de morrer, ter vontade de viver é algo para se comemorar.

Então, posso dizer que estou voltando com vontade de viver, com esperança, com alguns quilos para engordar sem encanar, com histórias para contar e já pensando nas próximas férias.

Espécie humana

Morando um tempo no exterior e estudando numa escola que recebe alunos de todos os lugares do mundo, pude conhecer pessoas totalmente diferentes de mim e uma das outras. Mas o mais incrível é perceber como, de uma certa maneira, somos iguais.

O mesmo percebi no mês que fiquei viajando pela Europa. Sem dúvida, as pessoas foram o mais interessante. É estranho é ao mesmo tempo, acolhedor, ter conhecido uma alemã que também adora o Jostein Gaarder. O mesmo senti ao saber que meu professor, Samuel, também lê os livros da Rosa Monteiro.

Eu tive uma colega eslovena, a Jana, que se parece muito com minhas amigas. Muito divertida, adora uma cerveja, ri alto, é inteligente e despachada. Poderia ser uma grande amiga, se vivesse mais próxima de mim.

Viajando, percebi que por mais clichê que seja, nossos sonhos são iguais, todo mundo deseja amor e paz, todo mundo quer ser feliz. Todos ficam estarrecidos com tragédias naturais como o terremoto do Japão ou barbaridades humanas como o absurdo que aconteceu na escola do Rio de Janeiro.

Em todos os lugares que fui, havia fila no banheiro feminino e mulheres do mundo todo reclamavam e perguntavam por que no banheiro masculino nunca há filas. Há placas para não pisar na grama e há as pessoas que pisam. Há lojas de marcas oficiais e ambulantes vendendo cópias idênticas na praça central.

Os mendigos também andam com cachorros do lado. Há liquidações de fazer filas em frente às grandes lojas. Tem pessoas estúpidas que furam fila, fumam em lugares proibidos, sentam nos lugares destinados para os idosos e são arrogantes em todos os lugares.

Às vezes encontrava um vegetariano e noutras, pessoas que me perguntavam como é possível viver sem carne. Conheci católicos, ateus, espíritas, protestantes e gente que se identifica muito com o budismo. Em muitas praças do mundo, há ciganas que querem ler a sorte e beatas que nos entregam panfletos com salmos escritos.

Nos postes de Barcelona, Paris, Berlim e Milão também há placas de cartomantes e afins que prometem trazer o nosso amor em três dias. Há lixos pelas ruas e ruas mal iluminadas. Há pais com filhos nos parques, aos domingos, aproveitando o sol e o tempo livre. Nos mesmos parques, há adolescentes aproveitando uma pseudo liberdade e fumando maconha embaixo das árvores mais distantes. Como os pais já fizeram, como os filhos irão fazer.

Há gente reclamando do tempo, da economia, do preço das coisas, dos políticos, dos jovens, dos velhos, do número de adolescentes grávidas, do trabalho, da escola. Conheci jovens do mundo inteiro e todos reclamaram do alto custo que é fazer uma faculdade, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou na Coréia.

Viajar, também é caro, mas no mundo todo há pessoas que se lançam nessa aventura e acabam conhecendo não só o mundo, mas o melhor é o pior dele, a espécie humana.

Wednesday, April 20, 2011

Melhor lugar do mundo

Eu passei a noite num trem, numa cabine minúscula, onde só cabia uma cama, uma mesinha e as minhas malas. Era possível ficar em pé e com cinco passos, eu percorria toda a cabine. É um trem de uma companhia russa, os camareiros mal falam inglês e pedir um café foi uma novela.

O fato é que pensei tanto em você, o que não é nenhuma novidade. Mas também, não deixa de ser insólito, alguém pensar em você num trem russo, a caminho de Milão. Falando da Itália, esse teu sobrenome italiano combina perfeitamente com o meu nome.

As paisagens que estou vendo da janela são lindas, está amanhecendo e o céu está alaranjado. Acho que agora vamos passar por uma área residencial, pois o trem reduziu a velocidade... O mundo é tão lindo, isso que só vi uma pequena parte dele. Bom, ninguém melhor do que você para saber do mundo e suas belezas.

Apesar dos solavancos do trem nos trilhos e do barulho, eu peguei no sono e até sonhei com você, que estávamos em um aeroporto. Talvez seja um sinal que ainda vamos viajar muitas vezes juntos.

Nossa tem um morro imenso do lado de fora, com uma cachoeira, bem bonito. No alto do morro é possível ver a torre de uma igreja. Um cenário lindo. Estou passando por uma cidade no norte da Itália, chamada Trento. A próxima estação será em Verona, local onde se passou a história de Romeu e Julieta.

Queria tanto que você tivesse aqui, ou a menos, gostaria de poder te ligar e contar tudo que vejo, tudo que estou fazendo e dizer que sim, o mundo é incrível, mas o melhor lugar que eu já estive, foi nos teus braços.

Thursday, April 14, 2011

Crónica del desamor

Acabei de ler o primeiro livro da escritora espanhola que adoro, Rosa Monteiro, Crónica del Desamor, que nunca encontrei no Brasil. Então comprei em Barcelona, numa feira de livros e antiguidades que acontece todo domingo no mercado de Sant Antoni e aproveitei para treinar o espanhol.

Publicado em 1979, conta a história de Ana, uma jornalista de seus 30 e poucos anos, que tenta escrever um livro, porém se debate na dúvida se os seus escritos, a maioria vivências próprias e de amigos, renderia uma publicação.

Rosa Monteiro também é jornalista e esse não foi o primeiro livro que li com essa história, só pra citar duas escritoras que como a Rosa, trabalham com comunicação e escreveram sobre isso: Fernanda Young e Claúdia Tajes, por coincidência, foram seus primeiros livros.

Uma das minhas promessas de ano novo de 2011 foi tentar escrever um romance, ou ao menos, algo com mais fôlego do que aqui no Mosaico. E adivinhem sobre o que é a história? Uma jornalista que tenta escrever um livro.

Isso não é falta de criatividade ou plágio, é natural que uma pessoa que goste de escrever, faça isso sobre o seu umbigo, o que tampouco é egocentrismo. É segurança e, muitas vezes, com boas doses de insegurança. É mais fácil escrever sobre o que a gente conhece e vivência.

Poderia contar uma história sobre um médico ou um promotor de justiça, mas o que eu sei sobre a rotina desses profissionais? Nada, teria que pesquisar e por falta de experiência, correria o risco de fazer apenas um estudo científico.

Por isso, é mais fácil percorrer um caminho conhecido, acredito que com o tempo, experiência e um pouco mais de segurança, outros enredos vão surgindo. Lembro de uma entrevista da Claúdia Tajes, onde ela contou que em um de seus livros o editor pediu para tirar um determinado capítulo, por considerá-lo inverossímel demais. Mas, segundo ela, todo o capítulo tinha sido real, era uma história que aconteceu com a própria Claúdia.

Coisas da vida, coisas de pessoas que gostam de escrever, histórias da vida que viram coisas escritas. Clichê? Talvez, mas a vida, assim como os romances, são cheias de clichês e alguns, surpreendentes, que rendem ótimas histórias.

“Piensa Ana que estaría bien escribir un día algo. Sobre la vida de cada día. Sobre Juan y ella. Sobre Curro y ella. Sobre la Pulga y Elena. Sobre Ana María, que ha perdido o tren en alguna estación y ahora se consume calladamente em la agonía de saberse vejia e incapaz de. Sobre Julita, muñeca rota tras separarse del marido. Sobre manos babosas, platos para lavar, reducciones de plantilla, orgasmos fingidos, llamadas de teléfono que nunca llegan, paternalismos laborales, diafragmas, caricaturas y ansiedades. Sería el libro de las Anas, de todas y ella misma, tan distinta y tan uma.” (Rosa Monteiro – Crónica del Desamor)

Quando um email vira felicidade

Nessas viagens de trem, que tenho feito, às vezes com mais de 5 ou 6 horas, tenho me permitido pensar sobre a minha viagem e como muitas vezes estive alheia a ela. Antes de vir, minha falta de preocupação era absurda e muitas vezes em Barcelona, passava as tardes no Port Vell, sem fazer absolutamente nada. Nem pensar, eu pensava. Ficava lá, apenas esperando o tempo passar.

Eu sempre quis viajar, essa experiência é a realização de um sonho, mas nos últimos meses a vida me surpreendeu mostrando como nossos sonhos podem se tornar menores pertos de certos sentimentos.

Tanto que a melhor coisa que aconteceu na minha viagem, veio lá do Brasil. Um email curto e engraçado, enviado do interior do Rio Grande do Sul. Foi o dia mais feliz, o céu de Barcelona esteve mais azul, o clima mais quente e eu, mais presente, mais consciente das coisas ao meu redor.

Foi também o dia que mais me diverti, li esse email no meio da tarde, aí falei para o Kevin, o americano que morava comigo, e fomos no mercadinho da esquina comprar cerveja pra comemorar meu estado de graça. Era um menino indiano que cuidava desse estabelecimento e depois de cinco anos em Barcelona, o pouco espanhol que falava era misturado com o catalão e o inglês. Mas ele entendeu que eu estava feliz e acabamos nos três sentados no cordão da calçada, bebendo cerveja.

Foi o maior porre, entramos noite a dentro bebendo, no final, até eu já estava atendendo no mercadinho. Algumas cervejas o indiano não cobrou em consideração a comemoração, outras o Kevin pagou em consideração a minha alegria e, outras eu paguei, porque afinal, eu que tinha convidado. Essa foi a minha última noite em Barcelona e a melhor de todas, graças à um email.

Não sei explicar direito, mas o simples fato dessa pessoa, que amo tanto, ter me escrito e ter se preocupado comigo, me tornou mais consciente, mais presente.

Naquela noite, a ficha enfim caiu, eu me dei conta de onde estava, da viagem que estava fazendo, de que uma etapa que tinha se acabado em Barcelona e da outra, que iria começar no dia seguinte.

Até agora, de todas as lembranças que tenho dessa trip, essa é única que quando recordo sinto de novo as sensações daquele dia. Sartre, muitas vezes, defendeu que a gente só guarda na lembrança as coisas que vivemos inteiramente, de corpo e alma e são essas coisas que quando recordadas, nos proporcionam as mesmas emoções. Eu acredito, porque quando lembro daquele email, da alegria que senti, fico feliz de novo, sentada num cordão da calçada, bebendo com um americano e um indiano.

“A formação da lembrança é contemporânea à da percepção; é ao tornar-se representação, no momento mesmo em que é percebida, que a imagem-coisa-sensações tranforma-se em lembrança” (Jean-Paul Sartre, em A Imaginação)

Monday, April 11, 2011

Espanha X Alemanha

Eu estou em Berlim agora. Durante o tempo que estive na Espanha sempre ouvi falar muito dessa cidade e da Alemanha, como um todo. Os espanhóis são muito orgulhosos do seu país, mas também, bastante críticos. Acham que são o pior país da Europa, reclamam da corrupção, da falta de respeito dos governantes, que o serviço público não tem qualidade, do número de mendigos na rua, do ônibus que atrasa, das ferrovias mal conservadas, da falta de políticas públicas para a educação...

Para os espanhóis, um modelo de perfeição é a Alemanha, onde tudo funciona bem e as pessoas não reclamam porque não tem motivos para tal coisa. Muitas vezes, nas aulas de cultura, eu e outros colegas, defendiamos que pensar que no seu país as coisas não funcionan direito e que há outros lugares melhores, é universal. Mas os nossos professores eram categóricos: “na Alemanha tudo é perfeito e eles não reclamam.”

Pelo visto, a mania de achar a grama do vizinho mais verde é mundial. Cheguei em Berlim hoje a tarde e apenas, dei uma volta pelas redondezas do hotel para me localizar, nessa pequena caminhada vi um terreno baldio cheio de lixo e na hora lembrei dos professores e pensei: “eles não sabem que o serviço de recolhimento de lixo não funciona muito bem aqui.”

Mas também fiquei pensando, será que se não tivesse ouvido tantas maravilhas sobre a Alemanha, eu teria percebido o lixo no terreno? Amanhã eu vou pegar o metrô e circular pela cidade e estou duvidando que nada vai atrasar ou que eu não vá encontrar um nativo que reclame daqui.

Ah sim, o taxista que me trouxe da estação até o hotel, me falou coisas muito boas sobre Berlim, mas ele é da Argélia, na África. Quando eu perguntei se ele gostava de viver aqui, suspirou e disse: “aprendi a gostar e a não reclamar”. Tá explicado.

Anne Frank

“Hei-de publicar um livro depois da guerra. (...) Ao escrever esqueço-me de tudo, a minha tristeza dissipa-se e o meu espírito revigora! Mas, e essa é a grande questão, será que alguma vez consiguerei escrever algo de grandioso?” (Anne Frank, 5 de abril de 1944)

Quando fechei o roteiro da minha viagem, a única cidade que não abriria mão era Amsterdam, por causa do museu da Anne Frank, na casa que serviu de abrigo para ela e mais sete pessoas durante a Segunda Guerra Mundial.

“Contos do Esconderijo – O diário de Anne Frank” foi o primeiro livro de “adulto” que li. E lembro muito bem desse primeiro contato. Minha mãe e eu estavamos na casa da minha madrinha, elas no quarto falando sobre espíritos – assunto que na época me dava medo. Então fui para sala mexer na estante, até que achei o livro, gostei da capa e do que li, quando abri aleatoriamente. A Anne falava sobre como espiava a lua por um buraco da cortina preta, ela só podia ver a lua naquela determinada fase, que era quando a posição lunar cabia no furo do tecido.

Eu tinha 11 anos na época e desde então esse livro está comigo (pedi emprestado para a minha dinda e nunca mais devolvi, nem vou) e muita coisa já li e pesquisei sobre essa menina. Visitar a casa dela era questão de honra para mim.

Infelizmente não é possível tirar fotos no interior do museu. Felizmente a fila estava imensa (grande Anne!). A visita toda é planejada, não é possível passar o dia perambulando por lá como eu gostaria. O roteiro dura pouco mais deuma hora e passa por toda a casa, na parede há trechos do diário e em cada pessa, uma explicação do que era na década de 40.

Mas a casa da Anne não é um ambiente pesado, muito pelo contrário, é cheio de vida.
Há fotos de todos os refugiados no esconderijo, tirados pela própria. As marcas feita pelo seu pai, Otto Frank, para medir o crescimento das filhas, ainda estão na parede. O quarto que era de Anne, contem as fotos e postais de cinema colados por ela “o que concedeu ao quarto um aspecto mais alegre”.

Porém, a medida que a visita continua, o ar se torna pesado, as pessoas ficam em silêncio, não para assistir aos vídeos de depoimentos, mas porque se dão conta do que aconteceu ali. Andando pela casa, vendo e lendo partes do diário daquela adolescente a gente se sente culpado, não pela sua morte, mas pelos anos roubados, os anos escondidos, pela repressão que ela sofreu por causa da inexplicável intolerância humana.

No final do museu, há uma sala ampla, com um telão no meio, onde mostra depoimentos de pessoas, nos dias de hoje, que lutam contra qualquer tipo de preconceito e há um livro com o nome de todos o judeus mortos durante a Segunda Guerra.

Anne Frank viveu no esconderijo de maio de 1942 até agosto de 1944, quando o lugar foi descoberto e todos deportados para o campo de concentração de Westerbork, depois, para Auschwitz. Anne morreu de tifo, em março de 1945, aos 15 anos.

Seu pai foi o único sobrevivente da família Frank e quando teve acesso aos diários da filha, resolveu abrir a casa que serviu de esconderijo para visitação, não apenas para que sua filha não seja esquecida, mas para que histórias como essa não se repitam.

“Uma única Anne Frank comove-nos mais do que a quantidade infindável do todos aqueles que sofreram tanto como ela, mas cujas imagens permaneceram nas sombras. Talvez tenha que ser assim: se pudéssemos experimentar o sofrimento de todos eles, seria impossível continuarmos a viver”. (Primo Levi, escritor e sobrevivente de Auschwitz).

Monday, April 04, 2011

Rumo a Paris

Estou com dor no corpo todo. Hoje parti da Espanha. Ou melhor, vou parti, porque estou no aeroporto. Acordei às 6h para terminar de arrumar minhas malas. Tinha combinado com um casal de colegas brasileiros de irmos até Figueires, uma cidade que fica no máximo duas horas de Barcelona num trem de alta velocidade. E fomos, mas não sem antes eu errar a linha do metrô, quase morrer correndo, chegar na estação para Figueires, toda suada e irritada.

Não havia mais passagens para o trem de alta velocidade, fomos com um “pinga-pinga”, levamos quase quatro horas. Encaramos uma fila enorme no museu do Dalí, tivemos que correr porque no final, tinhamos pouco mais de uma hora para ver um museu com 22 salas! Na volta pegamos o trem certo, os amigos ficaram em Girona.

Eu tinha que sair de onde estava hospedada até às 17h, quase morri correndo de novo, ficando toda suada e irritada, porque cheguei em Barcelona 17h10. Queria ter tomado um banho, mas como já tinha passado do horário, não foi permitido. Só me restava partir, peguei minha grande mochila e minha mala. Não sabia que as poucas comprar que fiz pesavam tanto! Mal conseguia caminhar. Bom, vou passar esse mês sozinha, tendo que carregar tudo isso, então o jeito é encarar. Dava dois passos e parava pra descansar. Senti muita falta de ar e fiquei com medo da pneumonia voltar. Depois de andar uma quadra estava toda suada, irritada e com dor nas costas.

No ônibus que me trouxe ao aeroporto, tive que comprar um ticket extra para deixar minha mala no bagageiro. Cheguei no aeroporto às 19h, meu vôo é às 7h15 da manhã. Agora são 6h e eu passei a noite dormindo numa cadeira do aeroporto. Meu corpo todo dói.

Ontem, em Figueires, almocei um croassant, de tarde, comi uma banana. Estava faminta, assim que abriu o restaurante do aeroporto que serve café da manhã, pulei pra dentro. Paguei 20E por um café da manhã, mas quase morri comendo.

Fui despachar minha bagagem, tive que pagar exceço de peso e uma taxa por levar dois itens, a companhia aceita só um iten por passageiro. Ah sim, durante a madrugada eu usei a rede wire less por pouco mais de 30 minutos. Também tive que pagar. No total a facada foi de 200E! Me arrependi de ter tomado café da manhã, tô enjoada e já não sei se o que dói mais: meu corpo ou meu bolso.

Acabo de ver que o vôo tá atrasado. Queria postar esse texto agora, mas a internet tá cara. Sei lá quando vou entrar na internet... Precisava ler meus emails! Coisas importantíssimas acontecem no Brasil, milagres acontecem e eu aqui. Queria estar lá. Bah, anunciaram agora que o avião está previsto pa decolar daqui uma hora e meia. E a bateria do note tá acabando, não vai dar nem pra escrever mais.

Bom vou tentar me concentrar em Paris, nos três incríveis dias que vou passar lá. Vou chegar na cidade luz e fazer o que eu mais quero: tomar um banho e dormir por uns três dias seguidos. Tá fico com medo porque penso que vou gastar muito de taxi até o hotel, com as dores que estou não há a manor condição de pegar ônibus ou ir caminhando. Agora eu estou cansada e irritada, mas não tô suada. Não precisava passar por nada disso. Mas afinal, o que é tudo isso perto do que pode me esperar no Brasil.

Friday, April 01, 2011

Partindo

Depois de um mês em Barcelona, amanhã, bem cedo parto para Paris. Claro que foi uma experiência impar e já estou com saudades desta cidade extremamente cultural, de tomar uma cerveja na Plaza Catalunya e do céu azul.

Nesse tempo, às vezes tão curto e noutras, tão lento, conheci pessoas do mundo todo. Me perdi no bairro Gótico. Tive uma professora que sonha em morar em Porto Alegre. Esqueci a chave do apartamento e tive que esperar duas horas até que alguém chegasse. Traduzi a música “Se” do Djavan para um americano. Emagreci dois quilos.

Fui para Valência. Estive em muitos museus. Tomei cerveja com uma eslovena. Comi Tapas com um chinês. Morei num apartamento. Conheci brasileiros. Fui para Granada. Peguei o ônibus errado. Desci na estação certa depois de três erradas. Me chamaram de “guapa”. Me apelidaram de “La italina”.

Assisti a um show de flamenco. Tomei Sangria. Fui no cinema. Peguei chuva, muita chuva. Aprendi a gostar de Kiwi. Comi muito pão e pouco doce. Chorei no telefone, de saudade e lendo emails. Estranhei o fuso horário. Me atrasei. Não entendi o que a professora falou. Fiquei muito mal ao ver um colega japonês chorando porque toda a sua cidade foi destuída com o terremoto.

Tive pneumonia, tosse e muita febre. Fiquei dois dias de cama. Fui no hospital. Discuti com o médico. Fiz aulas particulares. Teve dias, que o que mais queria era ver alguém conhecido. Almocei torta de batata. Viajei de noite, cheguei de manhã e dormi um dia inteiro. Aprendi algumas palavras de catalão. Dei muita risada com uma colega árabe. Fui no cinema com uma alemã. Quase fui atropelada. Me perdi do guia numa excursão. Não aprendi a alugar as bicis. Fui elogiada na aula.

Falei com um grego na Sagrada Família. Visitei a casa de uma russa. Comprei livros em espanhol. Estudei. Matei aula. Senti raiva. Comprei uma camiseta do Barça. Pedi informação. Dormi até mais tarde. Conheci um artesão árabe que adora o Brasil. Uma alemã que viveu anos na Guatemala. Acordei super cedo. Procurei por novelas brasileira na TV. Quis voltar para o Brasil. Quis morar aqui muitos anos. Quero vim para Barcelona muitas vezes.

São Jorge

O nosso conhecido São Jorge, o santo guerreiro, é padroeiro da região de Catalunya. É possível ver a influencia dele em muitos locais de Barcelona, das obras do Gaudí aos prédios do governo. Além disso, há uma lenda muito bonita aqui sobre o “Sant Jordi”

A lenda conta que um feroz dragão tinha aterrorizados aos habitantes do reino, queimava os bosques, comia ao granado, destroçava os cultivos... Decidiu-se então que tinha que dar fim a essa ânsia destruidora e negociaram um acordo com o bicho guloso.

O pacto consistia que todos os dias entregariam ao dragão uma pessoa para saciar o apetite do monstro. Assim estiveram um tempo e pouco a pouco o reino se foi ficando com poucas pessoas. Para que não tivesse problemas, a vítima era escolhida através de uma eleição.

Um dia, foi a filha do rei quem deveria ser entregada ao dragão. Contra a vontade do rei, deixaram a princesa no lugar combinado e todo o povoado acompanhou o dragão chegando. Quando ele estava pronto para come-lá, um cavalheiro, montado num cavalo branco, atacou ao dragão. Esse guerreiro era São Jorge, que protegia a biblioteca do rei.

Brigaram por um longo momento e num dos lances do combate, São Jorge, fincou sua lança no ventre do dragão, matando-o no ato. Da ferida produzida no monstro, emanava muito sangue que quando entrou em contato com o solo, se converteu em rosas. São Jorge pegou uma daquelas fabulosas rosas e presenteou à princesa, aos gritos de alegria do povo.


Como no Brasil, 23 de abril é comemorado o dia de São Jorge, porém aquí é tradição, os homens presenteiam uma rosa as mulheres que lhe são importantes e elas, dão livros a eles.

Há muitas referências ao santo e à essa lenda na cidade de Barcelona, até mesmo na bandeira da Catalunya, que é vermelha e amarela. Contam que São Jorge, ainda com as mãos sujas de sangue, as passou em uma parede amarela, formando listras vermelhas, originando assim a bandeira da Catalunya.

Lendas à parte, eu adoraria que se celebrassem o dia de São Jorge assim no Brasil e com certeza ainda vou passar algum dia 23 de abril aqui em Barcelona.

Thursday, March 31, 2011

El Raval

De todos os bairros de Barcelona, sem dúvida o meu preferido é o El Raval, por toda a história e o que representa para a cidade. Além de ser do lado do bairro que eu vivo e quase todos os dias, passo por ali.

El Raval é um dos bairros mais antigos de Barcelona. Quando a cidade era cercada por muralhas medievais, que protegiam os nobres, os pobres chegavam e se instalavam ao lado dessas muralhas, foi isso que deu origem a esse bairro, que ainda hoje tem uma má fama na cidade.

Num de seus limites está a famosa La Rambla, ou seja, o bairro é muito bem localizado. Nasce na beira do porto e se estende até o prédio da Universidade de Barcelona, na Gran Via, uma das principais avenidas da cidade. Os nativos dividem esse bairro em três, o mal, o que está em processo de revitalização e o bom El Raval.

Esse sempre foi um lugar de prostituição e de fácil acesso às drogas, principalmente perto do porto. É possível enxergar marcas de sapatos nas paredes do início das Ramblas, que são marcas dos calçados com salto usados pelas prostitutas, ao longo de muitos anos, que se escoravam nesses prédios, que existem desde a época das muralhas.

Ainda se vê muitas garotas de programa e traficantes nas ruas próximas ao porto, esse é o El Raval mal, que nenhum cidadão aconselha um turista a conhecer.

A área de revitalização é o centro do bairro, que liga a parte boa e a má. Nessa região foi construída a Rambla de El Raval e é onde está um dos gatos do artista Fernando Botero. Há nas sacadas dos prédios, faixas escritas em catalão com frases do tipo: “somos um bairro digno” e “dignidade para El Raval”.

Mais ou menos nessa altura, porém com frente para a Rambla de Catalunya, está o mercado “La Boquería”, que o mercado público da cidade e um ponto turítico
superconhecido.

Atualmente, o bairro continua sendo morada de muitos imigrantes que chegam em Barcelona e eles se localizam, na sua maioria, nessa faixa do El Raval. Nas suas ruas podem ver-se comércios de todas as nacionalidades, tanto que durante muitos anos, foi popularmente conhecido como o Bairro Chinês. Porém, nos últimos anos, por causa da grande população paquistanesa, é chamado também Ravalkistão.

Na parte alta do El Raval, próximo à Gran Via, há uma das maiores concentrações de jovens, por causa dos prédios de diversos cursos da Univesidade de Barcelona, que estão situados no bairro, além da biblioteca pública.

Uma das faculdades está instalada no prédio que foi um hospital na época da Barcelona com muralhas e ele foi construído ali, porque os nobres não queriam doentes dentro de suas muralhas, sobrou então para El Raval.

O lindo Museu de Arte Contemporâneo de Barcelona também está nesse bairro. O MACB é um prédio de quatro andares, todo branco, que contrasta com todas as cores ao seu redor.

No El Raval bom, há muitos bares e restaurantes e, na minha opinião, as melhores lojas da cidade, são muitos os estabelecimentos de música, livrarias e lojas alternativas. Numa das ruazinhas do bairro está o conhecido bar “Ovelha Negra”, reduto de estudantes universitários e turistas, que leva esse nome por causa de sua localização.

As pessoas da Catalunya tem o hábito de preservar a história do lugar onde vivem, seja ela boa ou má. Há muitas tentativas para que essa história não seja esquecida. No final do bairro de El Raval, há no prédio que é o Centro de Cultura, uma parede toda espelhada, mais alta que sobe além do prédio e no final faz uma curva, como se fosse um arco partido no meio.

Com esses espelhos, de uma certa altura da praça que tem em frente, é possível enxergar todo o bairro de El Raval, até o mar. Essa é a maneira das pessoas que passam por ali não se esquecerem da história marginalizada que sempre teve esse local, do seu incrível poder de transformação e da importância que sempre teve para Barcelona.

Wednesday, March 30, 2011

Quando será que passa

Hoje você me doeu muito, demais da conta. Estou sempre pensando em você, mas já estou tão acostumada com a dor de não de ter, que nem lembro dela.

Estávamos brincando do jogo da garrafa na aula, para treinar o uso pretérito perfeito, até que minha professora perguntou se eu já tinha amado, “mas amar de querer passar o resto da vida junto, com tudo de bom e ruim.”

Por um momento tive vontade de dizer que não, mas ficaria visível que estaria mentira. Disse que sim, e claro que me perguntaram como tinha sido essa experiência e aí não sabia o que falar. Não sei como, me ouvi dizendo que não sabia, pois ainda doía.

Os colegas tentaram me ajudar. O Igor falou que viajar é uma ótima saída para deixar de amar, a Júlia disse que antes de eu me casar, sara. E a professora me garantiu, por experência própria, que sim, um dia passa.

Tem sido assim: às vezes escuto tua voz me falando sobre Barcelona, sinto teu perfume no ar. Quando vou atravessar a rua e para um homem do meu lado, geralmente penso que é você. Vejo um homem com óculos e reparo se o modelo é parecido com os teus, se um fumante segura o cigarro do mesmo jeito... E a dor tá lá, anestesiada.

Mas às vezes, quando acontece alguma coisa ou escuto palavras como amor, saudade, dor... Ela acorda, é como se arrancasem a casquinha da ferida e sangrasse de novo. Hoje eu sangrei muito de dor.

Logo depois desse jogo, a aula acabou. Eu não senti o gosto do sanduíche que almocei, não ouvi uma palavra do que foi falado na aula de cultura e chorei muito enquanto caminhava até o porto de Barcelona.

Gosto muito de passar as tardes no lá, vendo os barcos chegando e partindo, além do mar azul. Hoje fiquei lá até anoitecer e pensando se algum dia eu vou acordar sem que você me doa tanto.

Rumo ao Sul

“Um forasteiro chora duas vezes no sul: quando chega e quando vai embora.” (Bienvenido ao Sur)

Assisti ao filme italiano “Bienvenido ao Sur”, do director Luca Miniero. Infelizmente, penso que vai ser bastante difícil encontrar esse filme no Brasil, porém aqui na Espanha está passando nos cinemas de todo o país, com direito a propaganda em ônibus e tudo.

O filme conta a história de Alberto, um gerente de uma agência dos correos de uma cidade do norte da Itália, que quer conseguir uma tranferência para Milão. Mas acaba sendo mandado para uma cidade no sul do país, para desespero da sua esposa e dele.

Alberto, como todo bom cidadão do norte é cheio de estereótipos dos habitantes do sul, como em todos os países. Ele deve viver sozinho na nova cidade por dois anos, logo que chega acontecem inúmeras confusões por causa do julgamento que faz dos sulistas e vice-versa.

Claro que Alberto acaba gostanto da cidade e se adaptando, até melhor do que esperava. Mas esse filme me fez pensar sobre essa imagem que temos de pessoas de determinados lugares.

Como toda boa gaúcha sou tri bairrista, acredito que tudo no nosso Estado é melhor. Mas acredito, também, que cariocas, goianos, pernanbucanos e paranaenses também pensam que vivem no melhor Estado do Brasil.

Aqui na Espanha, isso não é diferente, cada região se denomina "a melhor". Nas aulas de cultura aprendemos que os sulistas, o povo da Andaluzia são os mais “vagabundos” e festeiros do país, isso porque vivem na praia e lá faz mais calor... Como no Brasil, lugar geográfico é um argumento para se “julgar” quem vive lá.

Ter ido pra Granada me vez perceber essa diferença entre o nordeste e o sul da Espanha. Os sulistas são, realmente, mais falantes e barulhentos. No filme, os Italianos do sul também tem essa fama de festeiros. Já no Brasil, a fama de festeiro não cabe aos gaúchos... Será por causa do nosso litoral sem formas?

Tuesday, March 29, 2011

Granada

Quien no ha visto Granada. No ha visto nada. (Provérbio espanhol)

Passei o último final de semana em Granada, uma pequena cidade universitária no sul da Espanha. Granada tem uma população aproximada de 270.000 e está localizada na Serra Nevada. Além disso, foi uma das primeiras cidades da Europa colonizada por árabes e uma das últimas a ser dominada pelos católicos.

Granada é de fato, uma cidade muito pequena, mas linda. Há muitos bares e restaurantes e padarias e pizzarias e sorveterias e eu comi mais em três dias lá, do que em um mês em Barcelona. Além disso, no sul faz mais calor. Muitas vezes pensei que tinha errado de cidade, quando decidi vir para cá.

O melhor foi ver a influência árabe que estava presente no mercado de artesanato, na arquitetura (inclusive da catedral), na comida... Eu quase enlouqueci com a quantidade de lenços para dança do ventre e CDs de música árabe, turca, marroquina e egípcia. Várias vezes, enquanto caminhava pela cidade foi possível escutar música árabe vindo das lojas.

E havia muitas, mas muitas ciganas nas ruas de Granada. Era impossível chegar em um ponto turístico sem ter que passar por no mínimo, dez delas. Claro que elas queriam ler “la suerte”, mas não se vestiam como no Brasil, num primeiro momento e impossível diferenciar as ciganas das outras mulheres.

Alhambra

Mas o principal motivo que me levou a Granada, além de sua história, foi a Alhambra (que significa "a Vermelha" em árabe.) A Alhambra é um conjunto de construções feita pelos árabes que formavam uma cidade, que deu origem a Granada. Boa parte dos edifícios são de tijolos vermelhos, daí vem seu nome.

Em 1984, a UNESCO declarou a Alhambra como Patrimônio Cultural Mundial, mais do que merecido, pois trata-se de um rico e impressionante complexo, que tem palácios, mesquitas, castelos, fortaleza e jardins, muitos jardins, um mais lindo que o outro.

Claro que a maioria dos elementos que vemos lá são de origem árabe, mas também é possível perceber algumas características essencialmente cristãs, devido as muitas intervenções em edifícios e jardins, ao longo dos séculos.

Eu passei uma tarde na Alhambra e comprei o ingresso, pela internet, duas semanas antes, é muito difícil conseguir entradas para o mesmo dia. Fiquei deslumbrada com os palácios, principalmente os detalhes, as janelas, os pilares todos desenhados, é lindo demais. Fora isso, a Alhambra está construída em cima de uma montanha, de lá é possível ver a cidade e a serra nevada. Sem dúvida, foi um dos lugares mais bonito que já conheci.

Andaluzia

A Andaluzia é a região sul da Espanha que muitos acreditam ser a mais bonita, por cuasa da natureza exuberante. Cidades conhecidas como Granada, Sevilla, Málaga, Cádiz e Córdoba são da Andaluzia. Tradições como o flamenco, a paella e a siesta vem dessa região.

Dizem que o nome provém de Al-Andalus, nome que os muçulmanos davam à Península Ibérica no século VIII. Mas há também outra versão, não oficial, pois na região sempre houve muitos ciganos e quandos eles mudavam de lugar, levavam algumas tochas com fogos para iluminar o caminho, por isso “anda luzes”, que com o tempo se tornou Andaluzia.

Não sei qual versão é a correta, de qualquer forma, isso mostra bem a mistura que é o sul da Espanha, tanto que seu povo é considerado, ao mesmo tempo, o mais bairrista e os mais aberto. Contradições espanholas...

Wednesday, March 23, 2011

Comida, ônibus e outras coisas rotineiras

Tem muita gente me perguntando como é a comida aqui em Barcelona e a vida, em geral no dia a dia. Bom, a comida, tem muita variedade, mas quase tudo com carne ou com jámon, que é o presunto da Espanha. Então para mim, sobram poucas opções. Tem bares que vendem “bocadillo” em todas as esquinas, o bocatillo é o nosso baguete. Um dos mais famosos é o bacatillo de patata, que é pão com recheio de batata.

As tortillas de patatas também são super comuns aqui, que são umas tortas quentes de batata. Além disso, tem as tapas, que nada mais são do que os nossos aperitivos, e tem todos os tipos de tapas que se pode imaginar. Batata frita é uma tapa, por exemplo. E eles comem bastante saladas e frutas, mas tudo com muito óleo e fritura...

Tem inúmeras linhas de metrô e ônibus que cortam a cidade, em todas as paradas ou estações, há uma lista das linhas que passam por ali e os horários. Nas estações, há relógios avisando quantos minutos faltam para o próximo trem. É possível adquirir bilhetes com um número determinado de passagens, que vale tanto para ônibus ou para o metrô. Eu achei super prático, só é difícil se localizar nas estações que tem cruzamento de várias linhas, mas com o tempo fica mais fácil.

Aqui, as motos andam por cima das calçadas. Claro que até eu me dar conta disso, perdi a conta de quantas vezes quase fui atropelada. Mas as calçadas são largas e há espaço para todo mundo, demarcados por listas no chão, em horário de grande movimento, ninguém invade o espaço do outro. Em quase todas as esquinas há uma banca de revistas, que vendem de tudo, de cigarros a gravatas, menos revistas e jornais. A cidade é bastante limpa, incluindo os parques.

Em muitos lugares, por toda a cidade, há os postos de “bicing”, aonde é possível alugar uma bicicleta por algumas horas ou dia. Eu ainda não fiz isso porque não sei como se faz, já li as instruções várias vezes, mas não sei onde compro a tarjeta para pegar a minha bici. Bom, ainda tenho alguns dias para descobrir.

E há também alguns postos que alugam motos, onde teoricamente, qualquer pessoa como eu, que não sabe nem onde se liga uma moto, pode ir lá e alugar uma. As motos são mais fácis, tem uma banquinha onde assinamos um terno de resposabilidade e pegamos a chave da moto.

É isso, quando eu descobrir como se aluga uma bicicleta eu escrevo, caso eu não descubra, pensei em comprar um jogo de chaves de fendas e desaparafusar uma delas, já andei analisando os parafusos... Ou alugo uma moto mesmo.

Tuesday, March 22, 2011

Fiesta de las Fallas







No último final de semana estive em Valência, uma cidade ao sul de Barcelona. Dia 19, dia de São José, é celebrada a Fiesta de las Fallas, uma comemoração incrível que os valencianos fazem para festejar a chegada da primavera.

Os moradores da cidade se organizam durante todo o ano para construirem dezenas de gigantes esculturas de madeira e papel, geralmente sátiras de pessoas e animais, conhecidas como "fallas". Estas esculturas, construídas por equipes chegam alcançar mais de vinte metros de altura e são de encher os olhos, tamanha a beleza e perfeição.

As principais fallas ficam expostas nas praças e nos principais cruzamentos da cidade durante uma semana. No dia 19, uma miniatura de cada é levada para o museu das fallas, pois durante a noite, as esculturas principais serão queimadas.

Durante o dia 19, de hora em hora, há queima de fogos de artifício e a cidade fica cheia de turistas e moças com trajes típicos, “as falleras”. Eu vi inúmeros pais com seus filhos, jogando petardos (pequenos foguetes que estouram no chão), todos até muito tarde na rua. Às 22h acontece a “Cabalgata del fuego”, onde simbolicamente inicia a queima das fallas.

À 1h da manhã é queimada a última falla, na praça do Ayuntamiento, onde estão reunida todas as autoridades locais. Antes há um show pirotécnico lindíssimo e os fogos se mistura com as chamas das fallas, é um espetáculo lindo de se ver. Claro que dá pena de ver escultura tão lindas e bem feitas, muitas custam milhões de euros, acabar em poucos minutos.

Mas o clima em torno é de celebração, seja dos turistas que ficam impressionados diante do que veem ou dos moradores da cidades que cultivam essa tradição e acreditam que assim estarão iniciando uma nova etapa do ano, mais leves, com o espírito renovado.

Além das cores, vou ficar com a lembrança do cheiro de pólvora, das estrondosas explosões, das enormes torres em chamas, o cheiro das barraquinhas de “buñelos” e principlamente, da alegria das pessoas nas ruas.

Sunday, March 20, 2011

Notícias de um domingo que prometia

Eu fui para Valência ontem, numa excursão com a escola. Voltei hoje pela manhã, às 8h30, descia do ônibus em Barcelona. E tinha sol e céu azul, o domingo parecia que prometia. Só parecia, pois eu cheguei e fui dormir.

Eram 9h quando me deitei e sabem que horas sai da cama? Às 20h! Coisa boa, um dia a menos. Tá não caminhei no sol como eu gosto, mas também não passei frio e tive bons sonhos. Com minha família, minha professora de dança, até o Nando Reis apareceu no meu sonho para me animar.

Nem me dei o trabalho de arrumar minha cama hoje, pois daqui alguns minutos é para ela que eu vou voltar. Eu sei que se não estivesse tão doente, eu poderia estar me divertindo mais. Mas nada tira minha alegria quando risco um dia do calendário e penso “menos um”. Às vezes tenho vontade de pegar o primeiro avião e voltar!

Friday, March 18, 2011

Medo da bola

Estava lendo a coluna da Maria Ribeiro na TPM desde mês, onde ela fala sobre a sua infância e lá pelas tantas diz que tinha medo da bola nas aulas de educação física. Foi tão bom ler isso, tão bom saber que eu não fui a única a ter medo da bola.

Eu fui o pesadelo dos professoras de educação física que tive e essa disciplina, uma tortura para mim. Não sei porque cargas da água, essas aulas consistiam em: meninos jogando futebol e meninas jogando vôlei. Sim, eu não podia jogar futebol, para a minha tristeza. Mas vôlei também não jogava, por uma total falta de competência.

Era horrível, cada vez que via a bola vindo na minha direção, só pensava em sair correndo, nunca entendi o motivo das tais rotações e só acertei um único saque em toda a minha vida. Belo currículo, não? Foi na quinta série e lembro direitinho, porque saquei e ouvi gritos (coisa que meu colegas não faziam, porque já sabiam que eu iria errar) e depois a professora que eu não lembro o nome (às vezes, trauma gera o esquecimento), parou o jogo e nos deu uma aula sobre a importância de acreditar no impossível!

Claro que eu sempre matei muito as educações físicas, mas até chegar a esse ponto, muita história eu inventei. Eu estava sempre com cólica, sempre menstruada, sempre com dor de garganta, de dente... Só tive um professor que às vezes deixava a gente escolher o que quisesse jogar, o Chico, e aí eu jogava futebol.

Mas um dia ele chegou e disse: “hoje todo mundo joga volei.” Eu deveria ter uns 12 anos e não pensei duas vezes na hora de inventar alguma desculpa, fui até ele e disse que não poderia participar da aula porque estava com uma doeça raríssima, cancêr na próstata.

Pensei que tivesse acreditado, porque o “sor Chico” foi mais ator que eu e não riu, apenas me deixou ficar sentada os dois períodos. O tempo passou, veio as férias e graças a Deus, me livrei das aulas de educação física.

Um pouco antes de vim para Barcelona, encontrei o Chico, sua esposa e sua filha de três anos num supermecado, em São Leopoldo. Nos falamos e ele me disse bem sério que sua filha tinha uma doeça raríssima, que nunca poderia fazer educação física. Eu acreditei e lamentei, perguntei que doença era essa. “Câncer na próstata”, me disse. E mais de 10 anos depois, rimos muito dessa história.

Simplesmente July

Tenho uma amiga que conheci na pós-graduação, a Juliana, formada em história e funcionária do Incra, entre outras coisas. Às vezes, a Jú me dá cada puteada, dignas da minha mãe, mas não me importo, ela é uma das pessoas mais íntegra e correta que conheço.

Um tempo atrás, ela me ligou preocupada com as citações muito depressivas que eu estava colocando no Mosaico, as frases do Caio Fernando Abreu, e disse por fim, que não gostava dele e pronto. Ainda me mandou ler algo que me fizesse bem.

Mais um tempo depois, a Jú me liga pedindo nomes de livros do Caio, porque de tanto eu falar nele, ela foi atrás na internet e claro, adorou. E eu também, mais uma fã de Caio F. no mundo.

Semana passada, estava falando com ela no MSN, quando me disse estava pensando em fazer um blog. E fez, o Simplesmente July. E eu fiquei toda feliz, mais uma blogueira no mundo. No primeiro post, fala que foi eu que a inspirei, querida!

A última vez que falei com ela, alguns dias atrás, me disse que não pensava em outra coisa, a não ser escrever. É assim mesmo Jú e também, terá épocas que não saíra uma vírgula, por mais que você tente. Às vezes, o blog ficará jogado às traças, em outras ocasiões não irá nem acumular pó, de tanto que você irá escrever.

Seja lá como for, te desejo sorte e inspiração. Vida longa ao Simplesmente July.

Wednesday, March 16, 2011

I miss him

Estava jantando agora com a minha família espanhola. É divertido, dois espanhóis, um americano, um chinês e eu fazendo de conta que somos uma família, sem preconceitos, é claro. Assim, como em todos os lares, tem um membro antissocial, é a nossa hermana coreana não janta com a gente. E hoje teve “pasta” para agradar a brasileira com cara de italiana da família.

Conversamos um pouco em espanhol e um pouco em inglês e isso é sim, muito divertido. Até que o Kevin me perguntou: “Ruenata como és that word que so tien in portuguuuese?” Me faço de desentendida, abaixo a cabeça é falo: “What? No comprendo...” Aí o chinês fala com um inglês tão perfeito que todo mundo se surpreeende: “That word about a felling?” Continuo me fazendo de louca e enfio um monte de massa na boca. Roger e Montse percebem meu desconforto e falam que hoje estou faminta e mudam de assunto. Vamos hablar da chuva que não para!

Porém agora, a massa que estava uma delícia, se tornou amarga e trancou minha garganta. Meus olhos ficaram mareados, uma bateria de escola de samba surgiu na minha cabeça, tentei tossir, mas algo me trancou e só consegui enxergar o banheiro e vomitar até a alma. Depois tremi e fiquei com vergonha. Até a coreana apareceu para falar que isso era culpa do meu comportamento ocidental.

Kevin disse que foi o vinho que tomamos antes da janta. Montse me preparou um chá enquanto tomava banho, Roger saiu para comprar remédios. O chinês assistiu a tudo com seus olhos pequenos arregalados. Ele saiu do meu quarto agora pouco, veio saber se eu estava bem e me disse se esforçando para que eu entendesse: “It was because the word that only exist in portuguese”. Si, yo dije. I miss him.