Sunday, May 29, 2011

Alquimia

Cozinhar é uma das maiores alquimias possíveis na face da terra. Desde criança, penso que a junção de vários ingredientes que se transformam em algo totalmente novo e fundamental para a nossa existência, é um verdadeiro passe de mágica.

Ontem à noite eu agi como uma perfeita alquimista, transformando arroz em champignon no delicioso “Arroz Marquezin.” Como cobaias, a família, é claro. Confesso que já tinha cozinhado antes, mas coisas prosaicas e rápidas como omelete, miojo com requeijão (até então a minha especialidade). Nunca havia feito comida para outras pessoas.

E eu gostei. Não só porque minhas cobaias aprovaram, mas porque a simbologia de cozinhar sempre me atraiu. Além de, para mim, ser a representação do poder de transformação da natureza e do poder da intenção do ser humano, quer seja para agradar ou para atazanar uma pessoa.

Vejam por exemplo a palavra “comemorar”, que significa celebração de coisas boas, é muito difícil comemorarmos algo, sem ter alguma coisa para comer. A própria palavra ínsita essa ação nas suas duas primeiras sílabas.

Penso que tanto comer como comemorar, pedem mais pessoas para dividir esse momento e o alimento conosco. E talvez seja esse o segredo de uma boa receita.

Arroz Marquezin

Ingredientes:

½ cebola
Margarina
Arroz arbóreo
Vinho branco
Nata
Queijo ralado
Champignon (ou tomate seco, ervilha, brócolis...)
Caldo de galinho ou carne (opcional)

Modo de fazer:

Frite a cebola na margarina, coloque uma taça de vinho e deixe secar. Frite o arroz, vá colocando aos poucos água (com caldo de galinha), sempre mexendo. Quando tiver cozido, coloque o champignon, as duas colheres de nata e queijo ralado.

Sunday, May 22, 2011

Perdição

“O que tem de ser, tem muita força. Ninguém precisa se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde.” Caio Fernando Abreu

Sou uma louca por acreditar que eu ainda vou casar com você? E que vamos passar a nossa lua de mel nas Ilhas Canárias? E que um dia eu vou dar uma irmãzinha linda para o teu filho? Que você ainda vai me agradecer por não ter desistido?

Ou sou uma louca por que tenho medo da mulher amarga e recalcada que posso me tornar se deixar de acreditar no que eu sinto? Posso me tornar uma workaholic ambiciosa que só pensa em dinheiro ou uma intelectualóide que ninguém entende e todos sentem pena?

Não acho que vou me cansar de esperar você, mas tenho tanto medo de me perder no meio do caminho, já é tão difícil tocar o barco em frente. Às vezes eu sinto tanta falta de você e tanta impotência diante da vida, que tenho vontade de bater com a minha cabeça na parede, só para doer mesmo, para eu sentir outro tipo de dor que não seja a falta de você.

E se eu me perder, como vai ser? Vou acabar num hospício, como aquelas velhas loucas que passam o dia sentadas, olhando para o nada e esperando alguém voltar, alguém que todos acham que não existe? Eu sei que essas pessoas não são loucas, apenas se perderam... Por favor, vem logo, antes que eu me perca.

Saturday, May 21, 2011

Dedicatória

Ei, você, desculpa qualquer coisa, mas tenho que te dizer: eu não escrevo para você. Eu escrevo para mim. Para alimentar o vazio que me acompanha desde sempre. Para saciar meu ego. Para conter a vontade de dar um tiro na cabeça. Para me aliviar. Não é uma exposição. Escrevo, justamente, para me proteger. Meus textos são a minha defesa do mundo.

Nem pra ELE eu escrevo, embora ELE seja constantemente citado nas minhas palavras, que são sobre o que eu sinto por ELE. Quando escrevo para ELE, envio para ELE lê. ELE é o meu leitor preferido e a minha melhor inspiração. Agora, se nem para ELE eu dedico algo, você acha que escrevo para você?

Não. Mas não é nada pessoal. Apenas não gosto dessa mania que você tem de julgar. A maior herança que a família de malucos, que eu tenho, vai me deixar é a aceitar e não me meter na vida alheia.

Grande parte dos meus familiares usam drogas e eles nunca deixaram de ser bons pais, mães, filhos, tios, tias... Meu irmão não é um marginal por ser punk. Eu não sou uma alcoólotra porque gosto de ficar bêbada. Você não tem o direito de se meter na minha vida porque me lê.

Tampouco me importo se você gosta ou não dos meus textos. Minha excelentíssima mãe, não gosta e nunca me escondeu isso. Se ela ler esse post, vai ter certeza que é para ela, assim como você teve estar pensando, né?

Mas hoje vou abrir uma exceção, excepcionalmente a última frase deste texto, é dedicada a você. Um verso de uma letra de uma canção da nossa grande Música Popular Brasileira. Confesso que não a incluo nas minhas preferências, mas considero esse trecho uma verdadeira obra prima, um apelo de respeito em tempos de tamanha exposição e opinião alheia. Para você: “ado, ado, ado. Cada um no seu quadrado.”

Friday, May 20, 2011

Meio ano

Seis meses. Há exatos 182 dias eu estava morrendo. Morri durante a madrugada, confortável, deitada numa cama, de banho tomado, coberta com edredons e abraçada no homem que eu amo. Fiz muitas coisas nesses meses. E tudo não mudou o nada e o vazio que tomaram conta da minha vida.

Chorei. Rezei. Implorei. Me humilhei. Estudei. Viajei. Voltei. Me alegrei. Me decepcionei. Bebi. Fumei. Cherei. Li. Prometi. Menti. Não cumpri. Escrevi. Esperei. Me perdi. Perdi a fé. Mas nunca mais me enchi.

Pensei em ir embora, em nunca mais voltar, em sair por aí, em sair sem dar tchau. Pensei em ir para um convento, para um hospício, para um monastério, para um bordel, para um presídio. Eu quis me matar. Queria me enterrar.

Foi sendo levada sem sentir que cheguei até aqui. O corpo dói. Anestesia até. Respirar é difícil. Suspirei muito. Meu reflexo são frases pequenas e soltas. Fragmentos. Pedaços que lembro e junto os caquinhos para recordar a nossa história. Sem contexto. Sem sentido. Sem valor. Nada.

Não conto os dias da tua ausência, o que conto são os dias da minha sobrevivência. Há 182 dias, eu me tornava uma viva morta, sou um nada que respira.

Friday, May 13, 2011

Curta e grossa

Por que essa saudade dilacerante que eu sinto não me mata de uma vez, ao invés de ficar me torturando?

Sunday, May 08, 2011

Tormenta

Hoje é dia das mães e eu queria tanto escrever algo bonitinho, tipo uma homenagem. Mas discuti tanto hoje com a “mamuska” que perdi a vontade. Então pensei em escrever sobre como minha relação com a maternidade mudou, que um dia quero ser, como ando sensível em relações as crianças e como esses pequenos seres são as únicas coisas que conseguem me comover.

Como eu mudei né? “Nada é fácil de entender” diz o Renato Russo no rádio... Hoje também faz um ano que capotei de carro e perdi metade do meu cabelo. Aliás, a briga com a mãe foi sobre isso. Ela chegou em casa e eu estava um pouco alegre e disse “mãe hoje tu estaria na minha missa de um ano de morte.” Ela me olhou com cara feia e eu, na minha melhor intenção de bêbada, emendei. “E eu ia tá fazendo careta atrás do padre.”

Depois disso, discutimos e discutimos. Eu disse que não iria mais escrever para ela. Ela disse que tudo bem, porque acha meu blog muito triste. Também pensei em escrever sobre o acidente e a vida nesse tempo todo, mas tanta coisa aconteceu, e tanta coisa que me machucou que acho um tremendo azar aquele carro não ter capotado mais uma vez.

Tem dias que estou com uma ideia na cabeça, escrever sobre um cantor de bar, mas nunca consigo. Também seria ótimo se eu mexesse no tal “livro”, que há semanas, não ganha uma linha. Tantas coisas podem ganhar letras e virar história, mas não hoje. Hoje eu tô atormentada demais, vou deitar e chorar.

Happy hour




Nestas duas semanas que estou em casa, poucas coisas me deixam mais feliz do que sentar num boteco e tomar cerveja com os amigos. Sexta-feira fui no boteco do Natalício com a Juliana e a Giovanna e sempre que as vejo, entendo porque me matriculei numa pós-graduação no último dia de inscrição.

Aliás, cada vez me convenço mais que a única coisa que faz a vida valer a pena são as pessoas que encontramos pelo caminho. A Jú e a Gi são formadas em história, e penso que essa é uma das poucas semelhanças que elas têm, até porque nós três somos totalmente diferentes.

Sempre que nos encontramos, prometemos que isso será mais frequente (tômara), mas ainda bem, somos mulheres independentes e bastante ocupadas. Eu adoro os sermões que a Jú me dá, me lembra a minha mãe, hehehehe. Mas na última sexta quem deu show no sermão foi a Gi, hehehehe.

Tirando o fato das poucas opções de comida que tem no boteco, sempre é muito bom ir lá com as gurias e com as colegas de trabalho da Jú, que sempre me receberam muito bem quando eu vou lá ou quando vou tomar cerveja com elas.

Esses momentos são de grande importância pra mim, pela companhia, pela conversa, pelas risadas e principalmente porque dá uma amenizada nas dores da alma. Não diminui nada, não cura nada também, mas é o mais doce dos remédios.

Thursday, May 05, 2011

Nocaute

“Já tentei três vezes. Mas eu era muito jovem e faz muito tempo. Achava muito chique se suicidar aos 20 anos. Mas chique é sobreviver”. Caio Fernando Abreu

A instabilidade da vida me assusta, realmente, não sei como ainda respiro. Não sei o que fazer. Acho que nunca soube. O vazio e o nó na garganta voltaram. Mas agora não é um vazio sem sentido, ele tem sentido, eu sei o motivo da minha dor e isso a torna, infinitamente mais forte.

Eu já fiz planos, mas assim como as coisas que eu já acreditei, não passaram de desculpas esfarrapadas para continuar. Realizei muito dos meus planos e perdi pelo caminho minhas crenças.

Até alguns dias atrás, pensava que tinha o melhor de todos os motivos para viver, acreditar no amor. Mas o tal do Deus ou do Diabo, ou sei lá quem é que brinca de marionete com os seres humanos, tirou o chão dos meus pés.

Mais uma vez, desabei. Não agüento mais ser nocauteada pela vida, não há motivos para insistir e resistir. E eu nunca gostei de coisas chiques.

Monday, May 02, 2011

Hábito

Será que um dia eu vou me acostumar com a dor de não te ter? Será que um dia essa saudade vai ser tão normal que a dor que ela me provoca não me machucará tanto? Esse final de semana sai com algumas amigas, me diverti como há tempos não acontecia, mas em nenhum momento você deixou de me doer. E eu me pergunto se isso não é “se acostumar”?

A noite foi quase perfeita. Eu sai com as gurias e, depois de dois meses sozinha, isso teve um valor e um sabor, inexplicáveis. Tomamos champanhe boa parte da noite. Fomos nos arrumar na casa de uma das amigas, bem coisa de mulherzinha, bem coisa que mulher adora fazer. Se vestir de alvo, se vestir para ser o alvo, ir para a guerra...

Depois dancei a noite toda, vi aquelas cenas impagáveis que toda festa proporciona a percepção de uma bêbada. Um careca cabeludo se aproximando da nossa mesa, um senhor com idade para ser meu avô insistindo para tomar uma cerveja comigo. E o de sempre, uma amiga chorar, outra brigar com o ficante, outra ficar, outra não desgrudar do celular...

Eu levei uns pirulitos de maconha que trouxe de Amsterdam e foi o maior sucesso, virou pirulito comunitário e tinha até fila. Até quem nunca tinha colocado essas “porcarias” na boca, experimentou. Foi divertido e inesquecível. Foi uma noite e uma festa tão boas, só não foram perfeitas porque você não estava lá.

Olhava para a mesa e imaginava onde você estaria sentado, o que estaria vestindo... Eu seria a mulher mais feliz do mundo se pudesse dançar com você, tomar cerveja, te beijar entre um gole e outro e curtir a ressaca do outro dia nos teus braços.

Até quando vou conseguir sorrir e falar que está tudo bem, quando minhas amigas me perguntarem o por quê estou tão quieta? Será que um dia eu vou estar numa festa e não vou precisar me esconder no banheiro e chorar para me esvaziar de você?

Wednesday, April 27, 2011

E o pensamento lá em você...

Estou no aeroporto de Madrid agora, esperando meu vôo para o Brasil, são quatro horas de espera, mas eu já não me importo, pois é um tempo que eu tenho para pensar em você. Seja lembrar dos momentos que estávamos juntos, imaginar o que você estará fazendo ou projetar um futuro.

As imagens são frágeis como asas de borboletas, mas igualmente belas. Tem vezes que elas se fortalecem tanto que parece que você vai se personificar na minha frente, pois por momentos sinto o teu cheiro, o teu calor e chego a sorrir com a certeza de que posso te tocar.

Mas aí, a realidade puxa o tapete voador que eu estou, seja com o barulho do aspirador que limpa aeroporto, seja com a voz do alto falante, algo que cai, alguém que passa apressado para não perder o vôo, me fez perder você. E eu sinto raiva.

Já quando estou muito otimista, penso que tudo é um sinal positivo, o avião que risca o céu, uma pessoa estranha que me sorri, a música que começa a tocar em uma das lojas (uma música romântica!)

É um sinal sim. Até o fato de eu continuar respirando é um sinal de que viver por você vai valer a pena. A realidade começa sempre na nossa imaginação, no nosso pensamento. Um dia essas imagens serão tão reais que eu vou achar banal.

Inclusive você já foi imaginação. Tuas tatuagens, teu anéis cor de prata (como os meus), teus gostos, teus gestos, teus carinhos, teu corpo, tua história... Isso explica porque sempre me senti muito a vontade contigo, porque já te conhecia dos meus sonhos.

Saturday, April 23, 2011

Trilha sonoa

Sempre gostei dessa música, mas ela nunca fez tanto sentido para mim, como agora...

Por Enquanto
Legião Urbana

Mudaram as estações
E nada mudou
Mas eu sei
Que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente...
Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era prá sempre
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba...
Mas nada vai
Conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem...
Mesmo com tantos motivos
Prá deixar tudo como está
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta prá casa...

Finaleira

É meu último dia da minha viagem é acho que já posso fazer um balanço da experiência. Sem dúvida, o mundo é muito lindo e viajar é muito bom. Não sei se volto melhor ou pior, mas volto diferente. Almoçar bolacha com banana sentada numa praça, me pareceu um banquete em Amsterdam e um omelete foi a comida mais sem gosto que já comi na vida, mesmo em Paris, a beira do rio Sena.

Poderia ter aproveitado melhor Barcelona. Caiu a ficha e eu passei a me dar conta do que estava vivendo depois do email do homem que amo. Aliás, percebi o quanto as pessoas são de fato, importante para mim. Teve dias, que eu daria minha vida para enxergar um rosto conhecido.

A aventura que é ter três minutos para trocar de trem, cheia de malas, numa cidadezinha no interior da Alemanha, poderia ser muito engraçada se eu tivesse alguém compartilhando a viagem comigo. Mas eu não tive e fui obrigada a me aturar, principalmente, o meu silêncio.

Não lembro a última vez que conversei com alguém, mas isso já não me incomoda. No começo incomodava, sim. Depois vem a raiva de ter se metido nisso sozinha e por fim, a resignação. O silêncio não incomoda mais, a gente começa a conversar com estranhos como velhos conhecidos.

Penso que depois desses dois meses dou mais valor para as pessoas que convivem comigo, pois, senti muito a falta delas, mas sobrevivi à saudade e a distância. Portanto, por mais que ame todos vocês, dá para viver longe.

Também penso que estou menos desconfiada. Viajando sozinha, passei por situações que fui obrigada a confiar em estranhos. Seja nas pessoas que pedia informação na rua ou nas estações de trem, quando deixava toda a minha bagagem sozinha e ia no banheiro.

Tem coisas que aprendi e serviram de lição, outras vou fazer diferente e algumas, espero nunca ter que repetir. Estou louca pra voltar para casa sim, para minha cama, colocar roupas limpas, sair sem mapa e não me perder com tanto freqüência. Também estou louca para sentar num bar com minhas amigas, abrir uma cerveja e conversar e conversar e conversar.

Volto com esperança de dias melhores. Aconteceram coisas muito boas enquanto estive aqui e elas, podem não estar, ainda, do jeito que eu sonho, mas me dão esperança e vontade de viver, considerando que eu sou uma pessoa que tem muita vontade de morrer, ter vontade de viver é algo para se comemorar.

Então, posso dizer que estou voltando com vontade de viver, com esperança, com alguns quilos para engordar sem encanar, com histórias para contar e já pensando nas próximas férias.

Espécie humana

Morando um tempo no exterior e estudando numa escola que recebe alunos de todos os lugares do mundo, pude conhecer pessoas totalmente diferentes de mim e uma das outras. Mas o mais incrível é perceber como, de uma certa maneira, somos iguais.

O mesmo percebi no mês que fiquei viajando pela Europa. Sem dúvida, as pessoas foram o mais interessante. É estranho é ao mesmo tempo, acolhedor, ter conhecido uma alemã que também adora o Jostein Gaarder. O mesmo senti ao saber que meu professor, Samuel, também lê os livros da Rosa Monteiro.

Eu tive uma colega eslovena, a Jana, que se parece muito com minhas amigas. Muito divertida, adora uma cerveja, ri alto, é inteligente e despachada. Poderia ser uma grande amiga, se vivesse mais próxima de mim.

Viajando, percebi que por mais clichê que seja, nossos sonhos são iguais, todo mundo deseja amor e paz, todo mundo quer ser feliz. Todos ficam estarrecidos com tragédias naturais como o terremoto do Japão ou barbaridades humanas como o absurdo que aconteceu na escola do Rio de Janeiro.

Em todos os lugares que fui, havia fila no banheiro feminino e mulheres do mundo todo reclamavam e perguntavam por que no banheiro masculino nunca há filas. Há placas para não pisar na grama e há as pessoas que pisam. Há lojas de marcas oficiais e ambulantes vendendo cópias idênticas na praça central.

Os mendigos também andam com cachorros do lado. Há liquidações de fazer filas em frente às grandes lojas. Tem pessoas estúpidas que furam fila, fumam em lugares proibidos, sentam nos lugares destinados para os idosos e são arrogantes em todos os lugares.

Às vezes encontrava um vegetariano e noutras, pessoas que me perguntavam como é possível viver sem carne. Conheci católicos, ateus, espíritas, protestantes e gente que se identifica muito com o budismo. Em muitas praças do mundo, há ciganas que querem ler a sorte e beatas que nos entregam panfletos com salmos escritos.

Nos postes de Barcelona, Paris, Berlim e Milão também há placas de cartomantes e afins que prometem trazer o nosso amor em três dias. Há lixos pelas ruas e ruas mal iluminadas. Há pais com filhos nos parques, aos domingos, aproveitando o sol e o tempo livre. Nos mesmos parques, há adolescentes aproveitando uma pseudo liberdade e fumando maconha embaixo das árvores mais distantes. Como os pais já fizeram, como os filhos irão fazer.

Há gente reclamando do tempo, da economia, do preço das coisas, dos políticos, dos jovens, dos velhos, do número de adolescentes grávidas, do trabalho, da escola. Conheci jovens do mundo inteiro e todos reclamaram do alto custo que é fazer uma faculdade, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou na Coréia.

Viajar, também é caro, mas no mundo todo há pessoas que se lançam nessa aventura e acabam conhecendo não só o mundo, mas o melhor é o pior dele, a espécie humana.

Wednesday, April 20, 2011

Melhor lugar do mundo

Eu passei a noite num trem, numa cabine minúscula, onde só cabia uma cama, uma mesinha e as minhas malas. Era possível ficar em pé e com cinco passos, eu percorria toda a cabine. É um trem de uma companhia russa, os camareiros mal falam inglês e pedir um café foi uma novela.

O fato é que pensei tanto em você, o que não é nenhuma novidade. Mas também, não deixa de ser insólito, alguém pensar em você num trem russo, a caminho de Milão. Falando da Itália, esse teu sobrenome italiano combina perfeitamente com o meu nome.

As paisagens que estou vendo da janela são lindas, está amanhecendo e o céu está alaranjado. Acho que agora vamos passar por uma área residencial, pois o trem reduziu a velocidade... O mundo é tão lindo, isso que só vi uma pequena parte dele. Bom, ninguém melhor do que você para saber do mundo e suas belezas.

Apesar dos solavancos do trem nos trilhos e do barulho, eu peguei no sono e até sonhei com você, que estávamos em um aeroporto. Talvez seja um sinal que ainda vamos viajar muitas vezes juntos.

Nossa tem um morro imenso do lado de fora, com uma cachoeira, bem bonito. No alto do morro é possível ver a torre de uma igreja. Um cenário lindo. Estou passando por uma cidade no norte da Itália, chamada Trento. A próxima estação será em Verona, local onde se passou a história de Romeu e Julieta.

Queria tanto que você tivesse aqui, ou a menos, gostaria de poder te ligar e contar tudo que vejo, tudo que estou fazendo e dizer que sim, o mundo é incrível, mas o melhor lugar que eu já estive, foi nos teus braços.

Thursday, April 14, 2011

Crónica del desamor

Acabei de ler o primeiro livro da escritora espanhola que adoro, Rosa Monteiro, Crónica del Desamor, que nunca encontrei no Brasil. Então comprei em Barcelona, numa feira de livros e antiguidades que acontece todo domingo no mercado de Sant Antoni e aproveitei para treinar o espanhol.

Publicado em 1979, conta a história de Ana, uma jornalista de seus 30 e poucos anos, que tenta escrever um livro, porém se debate na dúvida se os seus escritos, a maioria vivências próprias e de amigos, renderia uma publicação.

Rosa Monteiro também é jornalista e esse não foi o primeiro livro que li com essa história, só pra citar duas escritoras que como a Rosa, trabalham com comunicação e escreveram sobre isso: Fernanda Young e Claúdia Tajes, por coincidência, foram seus primeiros livros.

Uma das minhas promessas de ano novo de 2011 foi tentar escrever um romance, ou ao menos, algo com mais fôlego do que aqui no Mosaico. E adivinhem sobre o que é a história? Uma jornalista que tenta escrever um livro.

Isso não é falta de criatividade ou plágio, é natural que uma pessoa que goste de escrever, faça isso sobre o seu umbigo, o que tampouco é egocentrismo. É segurança e, muitas vezes, com boas doses de insegurança. É mais fácil escrever sobre o que a gente conhece e vivência.

Poderia contar uma história sobre um médico ou um promotor de justiça, mas o que eu sei sobre a rotina desses profissionais? Nada, teria que pesquisar e por falta de experiência, correria o risco de fazer apenas um estudo científico.

Por isso, é mais fácil percorrer um caminho conhecido, acredito que com o tempo, experiência e um pouco mais de segurança, outros enredos vão surgindo. Lembro de uma entrevista da Claúdia Tajes, onde ela contou que em um de seus livros o editor pediu para tirar um determinado capítulo, por considerá-lo inverossímel demais. Mas, segundo ela, todo o capítulo tinha sido real, era uma história que aconteceu com a própria Claúdia.

Coisas da vida, coisas de pessoas que gostam de escrever, histórias da vida que viram coisas escritas. Clichê? Talvez, mas a vida, assim como os romances, são cheias de clichês e alguns, surpreendentes, que rendem ótimas histórias.

“Piensa Ana que estaría bien escribir un día algo. Sobre la vida de cada día. Sobre Juan y ella. Sobre Curro y ella. Sobre la Pulga y Elena. Sobre Ana María, que ha perdido o tren en alguna estación y ahora se consume calladamente em la agonía de saberse vejia e incapaz de. Sobre Julita, muñeca rota tras separarse del marido. Sobre manos babosas, platos para lavar, reducciones de plantilla, orgasmos fingidos, llamadas de teléfono que nunca llegan, paternalismos laborales, diafragmas, caricaturas y ansiedades. Sería el libro de las Anas, de todas y ella misma, tan distinta y tan uma.” (Rosa Monteiro – Crónica del Desamor)

Quando um email vira felicidade

Nessas viagens de trem, que tenho feito, às vezes com mais de 5 ou 6 horas, tenho me permitido pensar sobre a minha viagem e como muitas vezes estive alheia a ela. Antes de vir, minha falta de preocupação era absurda e muitas vezes em Barcelona, passava as tardes no Port Vell, sem fazer absolutamente nada. Nem pensar, eu pensava. Ficava lá, apenas esperando o tempo passar.

Eu sempre quis viajar, essa experiência é a realização de um sonho, mas nos últimos meses a vida me surpreendeu mostrando como nossos sonhos podem se tornar menores pertos de certos sentimentos.

Tanto que a melhor coisa que aconteceu na minha viagem, veio lá do Brasil. Um email curto e engraçado, enviado do interior do Rio Grande do Sul. Foi o dia mais feliz, o céu de Barcelona esteve mais azul, o clima mais quente e eu, mais presente, mais consciente das coisas ao meu redor.

Foi também o dia que mais me diverti, li esse email no meio da tarde, aí falei para o Kevin, o americano que morava comigo, e fomos no mercadinho da esquina comprar cerveja pra comemorar meu estado de graça. Era um menino indiano que cuidava desse estabelecimento e depois de cinco anos em Barcelona, o pouco espanhol que falava era misturado com o catalão e o inglês. Mas ele entendeu que eu estava feliz e acabamos nos três sentados no cordão da calçada, bebendo cerveja.

Foi o maior porre, entramos noite a dentro bebendo, no final, até eu já estava atendendo no mercadinho. Algumas cervejas o indiano não cobrou em consideração a comemoração, outras o Kevin pagou em consideração a minha alegria e, outras eu paguei, porque afinal, eu que tinha convidado. Essa foi a minha última noite em Barcelona e a melhor de todas, graças à um email.

Não sei explicar direito, mas o simples fato dessa pessoa, que amo tanto, ter me escrito e ter se preocupado comigo, me tornou mais consciente, mais presente.

Naquela noite, a ficha enfim caiu, eu me dei conta de onde estava, da viagem que estava fazendo, de que uma etapa que tinha se acabado em Barcelona e da outra, que iria começar no dia seguinte.

Até agora, de todas as lembranças que tenho dessa trip, essa é única que quando recordo sinto de novo as sensações daquele dia. Sartre, muitas vezes, defendeu que a gente só guarda na lembrança as coisas que vivemos inteiramente, de corpo e alma e são essas coisas que quando recordadas, nos proporcionam as mesmas emoções. Eu acredito, porque quando lembro daquele email, da alegria que senti, fico feliz de novo, sentada num cordão da calçada, bebendo com um americano e um indiano.

“A formação da lembrança é contemporânea à da percepção; é ao tornar-se representação, no momento mesmo em que é percebida, que a imagem-coisa-sensações tranforma-se em lembrança” (Jean-Paul Sartre, em A Imaginação)

Monday, April 11, 2011

Espanha X Alemanha

Eu estou em Berlim agora. Durante o tempo que estive na Espanha sempre ouvi falar muito dessa cidade e da Alemanha, como um todo. Os espanhóis são muito orgulhosos do seu país, mas também, bastante críticos. Acham que são o pior país da Europa, reclamam da corrupção, da falta de respeito dos governantes, que o serviço público não tem qualidade, do número de mendigos na rua, do ônibus que atrasa, das ferrovias mal conservadas, da falta de políticas públicas para a educação...

Para os espanhóis, um modelo de perfeição é a Alemanha, onde tudo funciona bem e as pessoas não reclamam porque não tem motivos para tal coisa. Muitas vezes, nas aulas de cultura, eu e outros colegas, defendiamos que pensar que no seu país as coisas não funcionan direito e que há outros lugares melhores, é universal. Mas os nossos professores eram categóricos: “na Alemanha tudo é perfeito e eles não reclamam.”

Pelo visto, a mania de achar a grama do vizinho mais verde é mundial. Cheguei em Berlim hoje a tarde e apenas, dei uma volta pelas redondezas do hotel para me localizar, nessa pequena caminhada vi um terreno baldio cheio de lixo e na hora lembrei dos professores e pensei: “eles não sabem que o serviço de recolhimento de lixo não funciona muito bem aqui.”

Mas também fiquei pensando, será que se não tivesse ouvido tantas maravilhas sobre a Alemanha, eu teria percebido o lixo no terreno? Amanhã eu vou pegar o metrô e circular pela cidade e estou duvidando que nada vai atrasar ou que eu não vá encontrar um nativo que reclame daqui.

Ah sim, o taxista que me trouxe da estação até o hotel, me falou coisas muito boas sobre Berlim, mas ele é da Argélia, na África. Quando eu perguntei se ele gostava de viver aqui, suspirou e disse: “aprendi a gostar e a não reclamar”. Tá explicado.

Anne Frank

“Hei-de publicar um livro depois da guerra. (...) Ao escrever esqueço-me de tudo, a minha tristeza dissipa-se e o meu espírito revigora! Mas, e essa é a grande questão, será que alguma vez consiguerei escrever algo de grandioso?” (Anne Frank, 5 de abril de 1944)

Quando fechei o roteiro da minha viagem, a única cidade que não abriria mão era Amsterdam, por causa do museu da Anne Frank, na casa que serviu de abrigo para ela e mais sete pessoas durante a Segunda Guerra Mundial.

“Contos do Esconderijo – O diário de Anne Frank” foi o primeiro livro de “adulto” que li. E lembro muito bem desse primeiro contato. Minha mãe e eu estavamos na casa da minha madrinha, elas no quarto falando sobre espíritos – assunto que na época me dava medo. Então fui para sala mexer na estante, até que achei o livro, gostei da capa e do que li, quando abri aleatoriamente. A Anne falava sobre como espiava a lua por um buraco da cortina preta, ela só podia ver a lua naquela determinada fase, que era quando a posição lunar cabia no furo do tecido.

Eu tinha 11 anos na época e desde então esse livro está comigo (pedi emprestado para a minha dinda e nunca mais devolvi, nem vou) e muita coisa já li e pesquisei sobre essa menina. Visitar a casa dela era questão de honra para mim.

Infelizmente não é possível tirar fotos no interior do museu. Felizmente a fila estava imensa (grande Anne!). A visita toda é planejada, não é possível passar o dia perambulando por lá como eu gostaria. O roteiro dura pouco mais deuma hora e passa por toda a casa, na parede há trechos do diário e em cada pessa, uma explicação do que era na década de 40.

Mas a casa da Anne não é um ambiente pesado, muito pelo contrário, é cheio de vida.
Há fotos de todos os refugiados no esconderijo, tirados pela própria. As marcas feita pelo seu pai, Otto Frank, para medir o crescimento das filhas, ainda estão na parede. O quarto que era de Anne, contem as fotos e postais de cinema colados por ela “o que concedeu ao quarto um aspecto mais alegre”.

Porém, a medida que a visita continua, o ar se torna pesado, as pessoas ficam em silêncio, não para assistir aos vídeos de depoimentos, mas porque se dão conta do que aconteceu ali. Andando pela casa, vendo e lendo partes do diário daquela adolescente a gente se sente culpado, não pela sua morte, mas pelos anos roubados, os anos escondidos, pela repressão que ela sofreu por causa da inexplicável intolerância humana.

No final do museu, há uma sala ampla, com um telão no meio, onde mostra depoimentos de pessoas, nos dias de hoje, que lutam contra qualquer tipo de preconceito e há um livro com o nome de todos o judeus mortos durante a Segunda Guerra.

Anne Frank viveu no esconderijo de maio de 1942 até agosto de 1944, quando o lugar foi descoberto e todos deportados para o campo de concentração de Westerbork, depois, para Auschwitz. Anne morreu de tifo, em março de 1945, aos 15 anos.

Seu pai foi o único sobrevivente da família Frank e quando teve acesso aos diários da filha, resolveu abrir a casa que serviu de esconderijo para visitação, não apenas para que sua filha não seja esquecida, mas para que histórias como essa não se repitam.

“Uma única Anne Frank comove-nos mais do que a quantidade infindável do todos aqueles que sofreram tanto como ela, mas cujas imagens permaneceram nas sombras. Talvez tenha que ser assim: se pudéssemos experimentar o sofrimento de todos eles, seria impossível continuarmos a viver”. (Primo Levi, escritor e sobrevivente de Auschwitz).

Monday, April 04, 2011

Rumo a Paris

Estou com dor no corpo todo. Hoje parti da Espanha. Ou melhor, vou parti, porque estou no aeroporto. Acordei às 6h para terminar de arrumar minhas malas. Tinha combinado com um casal de colegas brasileiros de irmos até Figueires, uma cidade que fica no máximo duas horas de Barcelona num trem de alta velocidade. E fomos, mas não sem antes eu errar a linha do metrô, quase morrer correndo, chegar na estação para Figueires, toda suada e irritada.

Não havia mais passagens para o trem de alta velocidade, fomos com um “pinga-pinga”, levamos quase quatro horas. Encaramos uma fila enorme no museu do Dalí, tivemos que correr porque no final, tinhamos pouco mais de uma hora para ver um museu com 22 salas! Na volta pegamos o trem certo, os amigos ficaram em Girona.

Eu tinha que sair de onde estava hospedada até às 17h, quase morri correndo de novo, ficando toda suada e irritada, porque cheguei em Barcelona 17h10. Queria ter tomado um banho, mas como já tinha passado do horário, não foi permitido. Só me restava partir, peguei minha grande mochila e minha mala. Não sabia que as poucas comprar que fiz pesavam tanto! Mal conseguia caminhar. Bom, vou passar esse mês sozinha, tendo que carregar tudo isso, então o jeito é encarar. Dava dois passos e parava pra descansar. Senti muita falta de ar e fiquei com medo da pneumonia voltar. Depois de andar uma quadra estava toda suada, irritada e com dor nas costas.

No ônibus que me trouxe ao aeroporto, tive que comprar um ticket extra para deixar minha mala no bagageiro. Cheguei no aeroporto às 19h, meu vôo é às 7h15 da manhã. Agora são 6h e eu passei a noite dormindo numa cadeira do aeroporto. Meu corpo todo dói.

Ontem, em Figueires, almocei um croassant, de tarde, comi uma banana. Estava faminta, assim que abriu o restaurante do aeroporto que serve café da manhã, pulei pra dentro. Paguei 20E por um café da manhã, mas quase morri comendo.

Fui despachar minha bagagem, tive que pagar exceço de peso e uma taxa por levar dois itens, a companhia aceita só um iten por passageiro. Ah sim, durante a madrugada eu usei a rede wire less por pouco mais de 30 minutos. Também tive que pagar. No total a facada foi de 200E! Me arrependi de ter tomado café da manhã, tô enjoada e já não sei se o que dói mais: meu corpo ou meu bolso.

Acabo de ver que o vôo tá atrasado. Queria postar esse texto agora, mas a internet tá cara. Sei lá quando vou entrar na internet... Precisava ler meus emails! Coisas importantíssimas acontecem no Brasil, milagres acontecem e eu aqui. Queria estar lá. Bah, anunciaram agora que o avião está previsto pa decolar daqui uma hora e meia. E a bateria do note tá acabando, não vai dar nem pra escrever mais.

Bom vou tentar me concentrar em Paris, nos três incríveis dias que vou passar lá. Vou chegar na cidade luz e fazer o que eu mais quero: tomar um banho e dormir por uns três dias seguidos. Tá fico com medo porque penso que vou gastar muito de taxi até o hotel, com as dores que estou não há a manor condição de pegar ônibus ou ir caminhando. Agora eu estou cansada e irritada, mas não tô suada. Não precisava passar por nada disso. Mas afinal, o que é tudo isso perto do que pode me esperar no Brasil.

Friday, April 01, 2011

Partindo

Depois de um mês em Barcelona, amanhã, bem cedo parto para Paris. Claro que foi uma experiência impar e já estou com saudades desta cidade extremamente cultural, de tomar uma cerveja na Plaza Catalunya e do céu azul.

Nesse tempo, às vezes tão curto e noutras, tão lento, conheci pessoas do mundo todo. Me perdi no bairro Gótico. Tive uma professora que sonha em morar em Porto Alegre. Esqueci a chave do apartamento e tive que esperar duas horas até que alguém chegasse. Traduzi a música “Se” do Djavan para um americano. Emagreci dois quilos.

Fui para Valência. Estive em muitos museus. Tomei cerveja com uma eslovena. Comi Tapas com um chinês. Morei num apartamento. Conheci brasileiros. Fui para Granada. Peguei o ônibus errado. Desci na estação certa depois de três erradas. Me chamaram de “guapa”. Me apelidaram de “La italina”.

Assisti a um show de flamenco. Tomei Sangria. Fui no cinema. Peguei chuva, muita chuva. Aprendi a gostar de Kiwi. Comi muito pão e pouco doce. Chorei no telefone, de saudade e lendo emails. Estranhei o fuso horário. Me atrasei. Não entendi o que a professora falou. Fiquei muito mal ao ver um colega japonês chorando porque toda a sua cidade foi destuída com o terremoto.

Tive pneumonia, tosse e muita febre. Fiquei dois dias de cama. Fui no hospital. Discuti com o médico. Fiz aulas particulares. Teve dias, que o que mais queria era ver alguém conhecido. Almocei torta de batata. Viajei de noite, cheguei de manhã e dormi um dia inteiro. Aprendi algumas palavras de catalão. Dei muita risada com uma colega árabe. Fui no cinema com uma alemã. Quase fui atropelada. Me perdi do guia numa excursão. Não aprendi a alugar as bicis. Fui elogiada na aula.

Falei com um grego na Sagrada Família. Visitei a casa de uma russa. Comprei livros em espanhol. Estudei. Matei aula. Senti raiva. Comprei uma camiseta do Barça. Pedi informação. Dormi até mais tarde. Conheci um artesão árabe que adora o Brasil. Uma alemã que viveu anos na Guatemala. Acordei super cedo. Procurei por novelas brasileira na TV. Quis voltar para o Brasil. Quis morar aqui muitos anos. Quero vim para Barcelona muitas vezes.

São Jorge

O nosso conhecido São Jorge, o santo guerreiro, é padroeiro da região de Catalunya. É possível ver a influencia dele em muitos locais de Barcelona, das obras do Gaudí aos prédios do governo. Além disso, há uma lenda muito bonita aqui sobre o “Sant Jordi”

A lenda conta que um feroz dragão tinha aterrorizados aos habitantes do reino, queimava os bosques, comia ao granado, destroçava os cultivos... Decidiu-se então que tinha que dar fim a essa ânsia destruidora e negociaram um acordo com o bicho guloso.

O pacto consistia que todos os dias entregariam ao dragão uma pessoa para saciar o apetite do monstro. Assim estiveram um tempo e pouco a pouco o reino se foi ficando com poucas pessoas. Para que não tivesse problemas, a vítima era escolhida através de uma eleição.

Um dia, foi a filha do rei quem deveria ser entregada ao dragão. Contra a vontade do rei, deixaram a princesa no lugar combinado e todo o povoado acompanhou o dragão chegando. Quando ele estava pronto para come-lá, um cavalheiro, montado num cavalo branco, atacou ao dragão. Esse guerreiro era São Jorge, que protegia a biblioteca do rei.

Brigaram por um longo momento e num dos lances do combate, São Jorge, fincou sua lança no ventre do dragão, matando-o no ato. Da ferida produzida no monstro, emanava muito sangue que quando entrou em contato com o solo, se converteu em rosas. São Jorge pegou uma daquelas fabulosas rosas e presenteou à princesa, aos gritos de alegria do povo.


Como no Brasil, 23 de abril é comemorado o dia de São Jorge, porém aquí é tradição, os homens presenteiam uma rosa as mulheres que lhe são importantes e elas, dão livros a eles.

Há muitas referências ao santo e à essa lenda na cidade de Barcelona, até mesmo na bandeira da Catalunya, que é vermelha e amarela. Contam que São Jorge, ainda com as mãos sujas de sangue, as passou em uma parede amarela, formando listras vermelhas, originando assim a bandeira da Catalunya.

Lendas à parte, eu adoraria que se celebrassem o dia de São Jorge assim no Brasil e com certeza ainda vou passar algum dia 23 de abril aqui em Barcelona.

Thursday, March 31, 2011

El Raval

De todos os bairros de Barcelona, sem dúvida o meu preferido é o El Raval, por toda a história e o que representa para a cidade. Além de ser do lado do bairro que eu vivo e quase todos os dias, passo por ali.

El Raval é um dos bairros mais antigos de Barcelona. Quando a cidade era cercada por muralhas medievais, que protegiam os nobres, os pobres chegavam e se instalavam ao lado dessas muralhas, foi isso que deu origem a esse bairro, que ainda hoje tem uma má fama na cidade.

Num de seus limites está a famosa La Rambla, ou seja, o bairro é muito bem localizado. Nasce na beira do porto e se estende até o prédio da Universidade de Barcelona, na Gran Via, uma das principais avenidas da cidade. Os nativos dividem esse bairro em três, o mal, o que está em processo de revitalização e o bom El Raval.

Esse sempre foi um lugar de prostituição e de fácil acesso às drogas, principalmente perto do porto. É possível enxergar marcas de sapatos nas paredes do início das Ramblas, que são marcas dos calçados com salto usados pelas prostitutas, ao longo de muitos anos, que se escoravam nesses prédios, que existem desde a época das muralhas.

Ainda se vê muitas garotas de programa e traficantes nas ruas próximas ao porto, esse é o El Raval mal, que nenhum cidadão aconselha um turista a conhecer.

A área de revitalização é o centro do bairro, que liga a parte boa e a má. Nessa região foi construída a Rambla de El Raval e é onde está um dos gatos do artista Fernando Botero. Há nas sacadas dos prédios, faixas escritas em catalão com frases do tipo: “somos um bairro digno” e “dignidade para El Raval”.

Mais ou menos nessa altura, porém com frente para a Rambla de Catalunya, está o mercado “La Boquería”, que o mercado público da cidade e um ponto turítico
superconhecido.

Atualmente, o bairro continua sendo morada de muitos imigrantes que chegam em Barcelona e eles se localizam, na sua maioria, nessa faixa do El Raval. Nas suas ruas podem ver-se comércios de todas as nacionalidades, tanto que durante muitos anos, foi popularmente conhecido como o Bairro Chinês. Porém, nos últimos anos, por causa da grande população paquistanesa, é chamado também Ravalkistão.

Na parte alta do El Raval, próximo à Gran Via, há uma das maiores concentrações de jovens, por causa dos prédios de diversos cursos da Univesidade de Barcelona, que estão situados no bairro, além da biblioteca pública.

Uma das faculdades está instalada no prédio que foi um hospital na época da Barcelona com muralhas e ele foi construído ali, porque os nobres não queriam doentes dentro de suas muralhas, sobrou então para El Raval.

O lindo Museu de Arte Contemporâneo de Barcelona também está nesse bairro. O MACB é um prédio de quatro andares, todo branco, que contrasta com todas as cores ao seu redor.

No El Raval bom, há muitos bares e restaurantes e, na minha opinião, as melhores lojas da cidade, são muitos os estabelecimentos de música, livrarias e lojas alternativas. Numa das ruazinhas do bairro está o conhecido bar “Ovelha Negra”, reduto de estudantes universitários e turistas, que leva esse nome por causa de sua localização.

As pessoas da Catalunya tem o hábito de preservar a história do lugar onde vivem, seja ela boa ou má. Há muitas tentativas para que essa história não seja esquecida. No final do bairro de El Raval, há no prédio que é o Centro de Cultura, uma parede toda espelhada, mais alta que sobe além do prédio e no final faz uma curva, como se fosse um arco partido no meio.

Com esses espelhos, de uma certa altura da praça que tem em frente, é possível enxergar todo o bairro de El Raval, até o mar. Essa é a maneira das pessoas que passam por ali não se esquecerem da história marginalizada que sempre teve esse local, do seu incrível poder de transformação e da importância que sempre teve para Barcelona.

Wednesday, March 30, 2011

Quando será que passa

Hoje você me doeu muito, demais da conta. Estou sempre pensando em você, mas já estou tão acostumada com a dor de não de ter, que nem lembro dela.

Estávamos brincando do jogo da garrafa na aula, para treinar o uso pretérito perfeito, até que minha professora perguntou se eu já tinha amado, “mas amar de querer passar o resto da vida junto, com tudo de bom e ruim.”

Por um momento tive vontade de dizer que não, mas ficaria visível que estaria mentira. Disse que sim, e claro que me perguntaram como tinha sido essa experiência e aí não sabia o que falar. Não sei como, me ouvi dizendo que não sabia, pois ainda doía.

Os colegas tentaram me ajudar. O Igor falou que viajar é uma ótima saída para deixar de amar, a Júlia disse que antes de eu me casar, sara. E a professora me garantiu, por experência própria, que sim, um dia passa.

Tem sido assim: às vezes escuto tua voz me falando sobre Barcelona, sinto teu perfume no ar. Quando vou atravessar a rua e para um homem do meu lado, geralmente penso que é você. Vejo um homem com óculos e reparo se o modelo é parecido com os teus, se um fumante segura o cigarro do mesmo jeito... E a dor tá lá, anestesiada.

Mas às vezes, quando acontece alguma coisa ou escuto palavras como amor, saudade, dor... Ela acorda, é como se arrancasem a casquinha da ferida e sangrasse de novo. Hoje eu sangrei muito de dor.

Logo depois desse jogo, a aula acabou. Eu não senti o gosto do sanduíche que almocei, não ouvi uma palavra do que foi falado na aula de cultura e chorei muito enquanto caminhava até o porto de Barcelona.

Gosto muito de passar as tardes no lá, vendo os barcos chegando e partindo, além do mar azul. Hoje fiquei lá até anoitecer e pensando se algum dia eu vou acordar sem que você me doa tanto.

Rumo ao Sul

“Um forasteiro chora duas vezes no sul: quando chega e quando vai embora.” (Bienvenido ao Sur)

Assisti ao filme italiano “Bienvenido ao Sur”, do director Luca Miniero. Infelizmente, penso que vai ser bastante difícil encontrar esse filme no Brasil, porém aqui na Espanha está passando nos cinemas de todo o país, com direito a propaganda em ônibus e tudo.

O filme conta a história de Alberto, um gerente de uma agência dos correos de uma cidade do norte da Itália, que quer conseguir uma tranferência para Milão. Mas acaba sendo mandado para uma cidade no sul do país, para desespero da sua esposa e dele.

Alberto, como todo bom cidadão do norte é cheio de estereótipos dos habitantes do sul, como em todos os países. Ele deve viver sozinho na nova cidade por dois anos, logo que chega acontecem inúmeras confusões por causa do julgamento que faz dos sulistas e vice-versa.

Claro que Alberto acaba gostanto da cidade e se adaptando, até melhor do que esperava. Mas esse filme me fez pensar sobre essa imagem que temos de pessoas de determinados lugares.

Como toda boa gaúcha sou tri bairrista, acredito que tudo no nosso Estado é melhor. Mas acredito, também, que cariocas, goianos, pernanbucanos e paranaenses também pensam que vivem no melhor Estado do Brasil.

Aqui na Espanha, isso não é diferente, cada região se denomina "a melhor". Nas aulas de cultura aprendemos que os sulistas, o povo da Andaluzia são os mais “vagabundos” e festeiros do país, isso porque vivem na praia e lá faz mais calor... Como no Brasil, lugar geográfico é um argumento para se “julgar” quem vive lá.

Ter ido pra Granada me vez perceber essa diferença entre o nordeste e o sul da Espanha. Os sulistas são, realmente, mais falantes e barulhentos. No filme, os Italianos do sul também tem essa fama de festeiros. Já no Brasil, a fama de festeiro não cabe aos gaúchos... Será por causa do nosso litoral sem formas?

Tuesday, March 29, 2011

Granada

Quien no ha visto Granada. No ha visto nada. (Provérbio espanhol)

Passei o último final de semana em Granada, uma pequena cidade universitária no sul da Espanha. Granada tem uma população aproximada de 270.000 e está localizada na Serra Nevada. Além disso, foi uma das primeiras cidades da Europa colonizada por árabes e uma das últimas a ser dominada pelos católicos.

Granada é de fato, uma cidade muito pequena, mas linda. Há muitos bares e restaurantes e padarias e pizzarias e sorveterias e eu comi mais em três dias lá, do que em um mês em Barcelona. Além disso, no sul faz mais calor. Muitas vezes pensei que tinha errado de cidade, quando decidi vir para cá.

O melhor foi ver a influência árabe que estava presente no mercado de artesanato, na arquitetura (inclusive da catedral), na comida... Eu quase enlouqueci com a quantidade de lenços para dança do ventre e CDs de música árabe, turca, marroquina e egípcia. Várias vezes, enquanto caminhava pela cidade foi possível escutar música árabe vindo das lojas.

E havia muitas, mas muitas ciganas nas ruas de Granada. Era impossível chegar em um ponto turístico sem ter que passar por no mínimo, dez delas. Claro que elas queriam ler “la suerte”, mas não se vestiam como no Brasil, num primeiro momento e impossível diferenciar as ciganas das outras mulheres.

Alhambra

Mas o principal motivo que me levou a Granada, além de sua história, foi a Alhambra (que significa "a Vermelha" em árabe.) A Alhambra é um conjunto de construções feita pelos árabes que formavam uma cidade, que deu origem a Granada. Boa parte dos edifícios são de tijolos vermelhos, daí vem seu nome.

Em 1984, a UNESCO declarou a Alhambra como Patrimônio Cultural Mundial, mais do que merecido, pois trata-se de um rico e impressionante complexo, que tem palácios, mesquitas, castelos, fortaleza e jardins, muitos jardins, um mais lindo que o outro.

Claro que a maioria dos elementos que vemos lá são de origem árabe, mas também é possível perceber algumas características essencialmente cristãs, devido as muitas intervenções em edifícios e jardins, ao longo dos séculos.

Eu passei uma tarde na Alhambra e comprei o ingresso, pela internet, duas semanas antes, é muito difícil conseguir entradas para o mesmo dia. Fiquei deslumbrada com os palácios, principalmente os detalhes, as janelas, os pilares todos desenhados, é lindo demais. Fora isso, a Alhambra está construída em cima de uma montanha, de lá é possível ver a cidade e a serra nevada. Sem dúvida, foi um dos lugares mais bonito que já conheci.

Andaluzia

A Andaluzia é a região sul da Espanha que muitos acreditam ser a mais bonita, por cuasa da natureza exuberante. Cidades conhecidas como Granada, Sevilla, Málaga, Cádiz e Córdoba são da Andaluzia. Tradições como o flamenco, a paella e a siesta vem dessa região.

Dizem que o nome provém de Al-Andalus, nome que os muçulmanos davam à Península Ibérica no século VIII. Mas há também outra versão, não oficial, pois na região sempre houve muitos ciganos e quandos eles mudavam de lugar, levavam algumas tochas com fogos para iluminar o caminho, por isso “anda luzes”, que com o tempo se tornou Andaluzia.

Não sei qual versão é a correta, de qualquer forma, isso mostra bem a mistura que é o sul da Espanha, tanto que seu povo é considerado, ao mesmo tempo, o mais bairrista e os mais aberto. Contradições espanholas...

Wednesday, March 23, 2011

Comida, ônibus e outras coisas rotineiras

Tem muita gente me perguntando como é a comida aqui em Barcelona e a vida, em geral no dia a dia. Bom, a comida, tem muita variedade, mas quase tudo com carne ou com jámon, que é o presunto da Espanha. Então para mim, sobram poucas opções. Tem bares que vendem “bocadillo” em todas as esquinas, o bocatillo é o nosso baguete. Um dos mais famosos é o bacatillo de patata, que é pão com recheio de batata.

As tortillas de patatas também são super comuns aqui, que são umas tortas quentes de batata. Além disso, tem as tapas, que nada mais são do que os nossos aperitivos, e tem todos os tipos de tapas que se pode imaginar. Batata frita é uma tapa, por exemplo. E eles comem bastante saladas e frutas, mas tudo com muito óleo e fritura...

Tem inúmeras linhas de metrô e ônibus que cortam a cidade, em todas as paradas ou estações, há uma lista das linhas que passam por ali e os horários. Nas estações, há relógios avisando quantos minutos faltam para o próximo trem. É possível adquirir bilhetes com um número determinado de passagens, que vale tanto para ônibus ou para o metrô. Eu achei super prático, só é difícil se localizar nas estações que tem cruzamento de várias linhas, mas com o tempo fica mais fácil.

Aqui, as motos andam por cima das calçadas. Claro que até eu me dar conta disso, perdi a conta de quantas vezes quase fui atropelada. Mas as calçadas são largas e há espaço para todo mundo, demarcados por listas no chão, em horário de grande movimento, ninguém invade o espaço do outro. Em quase todas as esquinas há uma banca de revistas, que vendem de tudo, de cigarros a gravatas, menos revistas e jornais. A cidade é bastante limpa, incluindo os parques.

Em muitos lugares, por toda a cidade, há os postos de “bicing”, aonde é possível alugar uma bicicleta por algumas horas ou dia. Eu ainda não fiz isso porque não sei como se faz, já li as instruções várias vezes, mas não sei onde compro a tarjeta para pegar a minha bici. Bom, ainda tenho alguns dias para descobrir.

E há também alguns postos que alugam motos, onde teoricamente, qualquer pessoa como eu, que não sabe nem onde se liga uma moto, pode ir lá e alugar uma. As motos são mais fácis, tem uma banquinha onde assinamos um terno de resposabilidade e pegamos a chave da moto.

É isso, quando eu descobrir como se aluga uma bicicleta eu escrevo, caso eu não descubra, pensei em comprar um jogo de chaves de fendas e desaparafusar uma delas, já andei analisando os parafusos... Ou alugo uma moto mesmo.

Tuesday, March 22, 2011

Fiesta de las Fallas







No último final de semana estive em Valência, uma cidade ao sul de Barcelona. Dia 19, dia de São José, é celebrada a Fiesta de las Fallas, uma comemoração incrível que os valencianos fazem para festejar a chegada da primavera.

Os moradores da cidade se organizam durante todo o ano para construirem dezenas de gigantes esculturas de madeira e papel, geralmente sátiras de pessoas e animais, conhecidas como "fallas". Estas esculturas, construídas por equipes chegam alcançar mais de vinte metros de altura e são de encher os olhos, tamanha a beleza e perfeição.

As principais fallas ficam expostas nas praças e nos principais cruzamentos da cidade durante uma semana. No dia 19, uma miniatura de cada é levada para o museu das fallas, pois durante a noite, as esculturas principais serão queimadas.

Durante o dia 19, de hora em hora, há queima de fogos de artifício e a cidade fica cheia de turistas e moças com trajes típicos, “as falleras”. Eu vi inúmeros pais com seus filhos, jogando petardos (pequenos foguetes que estouram no chão), todos até muito tarde na rua. Às 22h acontece a “Cabalgata del fuego”, onde simbolicamente inicia a queima das fallas.

À 1h da manhã é queimada a última falla, na praça do Ayuntamiento, onde estão reunida todas as autoridades locais. Antes há um show pirotécnico lindíssimo e os fogos se mistura com as chamas das fallas, é um espetáculo lindo de se ver. Claro que dá pena de ver escultura tão lindas e bem feitas, muitas custam milhões de euros, acabar em poucos minutos.

Mas o clima em torno é de celebração, seja dos turistas que ficam impressionados diante do que veem ou dos moradores da cidades que cultivam essa tradição e acreditam que assim estarão iniciando uma nova etapa do ano, mais leves, com o espírito renovado.

Além das cores, vou ficar com a lembrança do cheiro de pólvora, das estrondosas explosões, das enormes torres em chamas, o cheiro das barraquinhas de “buñelos” e principlamente, da alegria das pessoas nas ruas.

Sunday, March 20, 2011

Notícias de um domingo que prometia

Eu fui para Valência ontem, numa excursão com a escola. Voltei hoje pela manhã, às 8h30, descia do ônibus em Barcelona. E tinha sol e céu azul, o domingo parecia que prometia. Só parecia, pois eu cheguei e fui dormir.

Eram 9h quando me deitei e sabem que horas sai da cama? Às 20h! Coisa boa, um dia a menos. Tá não caminhei no sol como eu gosto, mas também não passei frio e tive bons sonhos. Com minha família, minha professora de dança, até o Nando Reis apareceu no meu sonho para me animar.

Nem me dei o trabalho de arrumar minha cama hoje, pois daqui alguns minutos é para ela que eu vou voltar. Eu sei que se não estivesse tão doente, eu poderia estar me divertindo mais. Mas nada tira minha alegria quando risco um dia do calendário e penso “menos um”. Às vezes tenho vontade de pegar o primeiro avião e voltar!

Friday, March 18, 2011

Medo da bola

Estava lendo a coluna da Maria Ribeiro na TPM desde mês, onde ela fala sobre a sua infância e lá pelas tantas diz que tinha medo da bola nas aulas de educação física. Foi tão bom ler isso, tão bom saber que eu não fui a única a ter medo da bola.

Eu fui o pesadelo dos professoras de educação física que tive e essa disciplina, uma tortura para mim. Não sei porque cargas da água, essas aulas consistiam em: meninos jogando futebol e meninas jogando vôlei. Sim, eu não podia jogar futebol, para a minha tristeza. Mas vôlei também não jogava, por uma total falta de competência.

Era horrível, cada vez que via a bola vindo na minha direção, só pensava em sair correndo, nunca entendi o motivo das tais rotações e só acertei um único saque em toda a minha vida. Belo currículo, não? Foi na quinta série e lembro direitinho, porque saquei e ouvi gritos (coisa que meu colegas não faziam, porque já sabiam que eu iria errar) e depois a professora que eu não lembro o nome (às vezes, trauma gera o esquecimento), parou o jogo e nos deu uma aula sobre a importância de acreditar no impossível!

Claro que eu sempre matei muito as educações físicas, mas até chegar a esse ponto, muita história eu inventei. Eu estava sempre com cólica, sempre menstruada, sempre com dor de garganta, de dente... Só tive um professor que às vezes deixava a gente escolher o que quisesse jogar, o Chico, e aí eu jogava futebol.

Mas um dia ele chegou e disse: “hoje todo mundo joga volei.” Eu deveria ter uns 12 anos e não pensei duas vezes na hora de inventar alguma desculpa, fui até ele e disse que não poderia participar da aula porque estava com uma doeça raríssima, cancêr na próstata.

Pensei que tivesse acreditado, porque o “sor Chico” foi mais ator que eu e não riu, apenas me deixou ficar sentada os dois períodos. O tempo passou, veio as férias e graças a Deus, me livrei das aulas de educação física.

Um pouco antes de vim para Barcelona, encontrei o Chico, sua esposa e sua filha de três anos num supermecado, em São Leopoldo. Nos falamos e ele me disse bem sério que sua filha tinha uma doeça raríssima, que nunca poderia fazer educação física. Eu acreditei e lamentei, perguntei que doença era essa. “Câncer na próstata”, me disse. E mais de 10 anos depois, rimos muito dessa história.

Simplesmente July

Tenho uma amiga que conheci na pós-graduação, a Juliana, formada em história e funcionária do Incra, entre outras coisas. Às vezes, a Jú me dá cada puteada, dignas da minha mãe, mas não me importo, ela é uma das pessoas mais íntegra e correta que conheço.

Um tempo atrás, ela me ligou preocupada com as citações muito depressivas que eu estava colocando no Mosaico, as frases do Caio Fernando Abreu, e disse por fim, que não gostava dele e pronto. Ainda me mandou ler algo que me fizesse bem.

Mais um tempo depois, a Jú me liga pedindo nomes de livros do Caio, porque de tanto eu falar nele, ela foi atrás na internet e claro, adorou. E eu também, mais uma fã de Caio F. no mundo.

Semana passada, estava falando com ela no MSN, quando me disse estava pensando em fazer um blog. E fez, o Simplesmente July. E eu fiquei toda feliz, mais uma blogueira no mundo. No primeiro post, fala que foi eu que a inspirei, querida!

A última vez que falei com ela, alguns dias atrás, me disse que não pensava em outra coisa, a não ser escrever. É assim mesmo Jú e também, terá épocas que não saíra uma vírgula, por mais que você tente. Às vezes, o blog ficará jogado às traças, em outras ocasiões não irá nem acumular pó, de tanto que você irá escrever.

Seja lá como for, te desejo sorte e inspiração. Vida longa ao Simplesmente July.

Wednesday, March 16, 2011

I miss him

Estava jantando agora com a minha família espanhola. É divertido, dois espanhóis, um americano, um chinês e eu fazendo de conta que somos uma família, sem preconceitos, é claro. Assim, como em todos os lares, tem um membro antissocial, é a nossa hermana coreana não janta com a gente. E hoje teve “pasta” para agradar a brasileira com cara de italiana da família.

Conversamos um pouco em espanhol e um pouco em inglês e isso é sim, muito divertido. Até que o Kevin me perguntou: “Ruenata como és that word que so tien in portuguuuese?” Me faço de desentendida, abaixo a cabeça é falo: “What? No comprendo...” Aí o chinês fala com um inglês tão perfeito que todo mundo se surpreeende: “That word about a felling?” Continuo me fazendo de louca e enfio um monte de massa na boca. Roger e Montse percebem meu desconforto e falam que hoje estou faminta e mudam de assunto. Vamos hablar da chuva que não para!

Porém agora, a massa que estava uma delícia, se tornou amarga e trancou minha garganta. Meus olhos ficaram mareados, uma bateria de escola de samba surgiu na minha cabeça, tentei tossir, mas algo me trancou e só consegui enxergar o banheiro e vomitar até a alma. Depois tremi e fiquei com vergonha. Até a coreana apareceu para falar que isso era culpa do meu comportamento ocidental.

Kevin disse que foi o vinho que tomamos antes da janta. Montse me preparou um chá enquanto tomava banho, Roger saiu para comprar remédios. O chinês assistiu a tudo com seus olhos pequenos arregalados. Ele saiu do meu quarto agora pouco, veio saber se eu estava bem e me disse se esforçando para que eu entendesse: “It was because the word that only exist in portuguese”. Si, yo dije. I miss him.

Tuesday, March 15, 2011

Primeira série

Se tem uma coisa que eu recomendo para qualquer pessoa, de qualquee idade, é aprender um novo idioma. Pode ser apenas por alguns meses, mas estude pra valer, a gramática, os verbos, os pronomes, essas coisas chatas que tem em todas as línguas. Sim, é chato e cansativo.

Mas serve, justamente, para isso, para que percebemos o quanto temos que aprender. A sensação ao final de uma frase com sujeito, verbo e objeto é de objetivo alcançado. Hoje na aula, escrevi meu primeiro texto em espanhol, obviamente está digno de uma primeira série.

Publico ele abaixo. É bobinho, claro. Era para usar os verbos no pretérito indefinido. Está com todos os errinhos que cometi, não me importo, fiquei orgulhosa do meu primeiro texto. Até ganhei um "muy bien" da professora. Sim, começar a estudar um idioma é entrar de novo, na primeira série.

El fin del mundo

Año pasado, yo y tres amigos fuimos hasta Ushuaia, uma pequeña ciudad em sur del Argentina, conocida como “el fin del mundo”. Salimos del aeroporto de São Paulo hasta Buenos Aires. Después, cogemos al tren hasta Ushuaia. El viaje fue em um día porque nevó muchíssimo y el tren tuve que parar muchas veces.

Cuando llegamos a Ushuaia nos alojamos em um albergo juvenil, pero no tenía calefación y tuvimos mucho frío. Además, quedamos dos días dentro del albergue porque hubo una nevada, una gran parte de la ciudad quedo cerrada.

Solamente, em el tercer día salimos y jugamos em la nieve. Tambien anduvimos em el teleferico y practicamos esqui. iNos divertimos mucho!

Al outro día, tuvimos que volver a Brasil. Pasamos um día más dentro del tren hasta Buenos Aires. Allí paramos para comer churros y perdemos el avión. Por fin, después de “el fin del mundo”, pasamos uma noche em las calles da capital Argentina. Volvimos a Brasil em autobus, llegamos dos días después.

Monday, March 14, 2011

"Passantes"

No curso de espanhol tenho colegas da Itália, da Alemanha, da França e da República Tcheca. Apesar de inúmeras diferenças, somos parecidas, já que por algum tempo estamos vivendo longe de nosso país e de nossas casas. Sei pouca coisa delas e elas tão pouco sabem de mim.

Não penso que são pessoas as quais possa ter um grande amizade, embora vá me lembrar para sempre delas. Talvez daqui alguns anos vá forçar a memória para me certificar se a Jana era a loira eslovena ou a alemã morena.

E já percebi que essas pessoas, que sem fundamento nenhum denomino como passantes, pois estão como eu, passando por uma baita e diferente experiência de vida e estão passando pela minha vida, logo são passantes. Então os passantes são muito comuns numa situação como essa.

Outro dia sai sozinha para ver um show de Flamenco e terminei a noite na mesa de um bar com mais oito pessoas, todas estrangeiras, todas passantes. Erámos homens e mulheres que nos comportamos durante algumas horas como velhos amigos.

Bebemos, brindamos, conversamos e brincamos. E nunca tínhamos nos vistos antes. Nos despedimos com beijos e abraços e cada um vai embora sem saber nada do outro, sem compromissos de novos emcontros nem nada, no melhor estilo viver o momento.

No domingo estava olhando o mapa, procurando o Parque da Ciutadela, dentro do ônibus, quando chegou uma passante da Grécia, me perguntando onde descia para o mesmo parque. Acabamos indo juntas para o local, antes ainda paramos para almoçar. Chegando na Ciutadela, cada uma foi para um lado. Devo ter passado por ela no parque, mas não a vi.

Nesses encontros e despedidas não há lamentações ou coisas do tipo, sabemos e aceitamos a nossa condição de viajantes e de passantes. No começo, pensei que isso era orgulho ou até mesmo, arrogância, mas agora já sei que não é, é apenas resignação.

Tem uma professora que todo dia faz uma brincadeira com a gente. Todos os dias temos que nos apresentar, acrescentando uma nova informação. Ela diz que é para a gente praticar o vocabulário, se conhecer mais e não esquecermos uma da outra. Eu já penso que é para nos mesmas, não nos esquecermos de quem somos. Do que há de permanente enquanto passamos.

Sunday, March 13, 2011

Primeiras impressões: de Barcilo até Barcelona

Depois de uma semana em Barcelona já deu para sentir um pouco da cidade. Barcelona é capital da Catalunha e a segunda maior cidade da Espanha, perdendo apenas para Madrid. Com uma população de cerca de 1.621.537, a cidade é banhada pelo Mar Mediterrâneo.

Considerada capital européia do movimento modernista, a cidade abriga obras incríveis de Gaudí e Miró, além do museu Picasso, que conta com o maior acervo do artista. E também, em menos de uma hora de trem, se chega a Figueres, terra do Salvador Dalí, que abriga um museu em sua homenagem.

A cidade é antiga, mas soube dosar a medida certa de modernidade, avanço e preservação da sua história. Sua origem é do período da dominação romana e a grande Barcelona era apenas uma pequena colônia chamada Barcino.

O belo museu de História da Cidade de Barcelona (MHCB) ainda conseva numerosos vestígios da antiga colônia romana, como alguns fragmentos da muralha que circundava a cidade, o templo de Augusto, a necrópolis e restos de estruturas que se podem observar no subsolo do museu. No elevador do museu, escolhemos em qual século queremos desembarcar...

No século 13, com aconstrução da catedral da cidade, o vilarejo viveu um grande apogeu e se estendeu para além das grandes muralhas que o cercavam. Foi nesse época que Barcelona encontrou o mar e se tornou uma cidade de mercadores, navegantes e comerciantes.

O mais incrível disso tudo, é que as muralhas, as ruelas estremamente esrteitas, as fortalezas e os palácios medievais estão muito bem preservadas, ainda hoje. O bairro Gotic e o La Ribera formam o eixo da chamada “cidade velha”. Nessas ruazinhas a gente mal enxerga a luz do sol e a umidade prevaleçe, carro também não entra.

O bom mesmo foi andar a pé por esses bairros e me perder a vontade. Não tem como não se sentir um personagem épico nessa parte da cidade.

As igrejas de Barcelona

É impossível passar por Barcelona e não visitar ao menos três igrejas: a catedral, a igreja de Santa Maria del Mar e a Sagrada Família, todas são verdadeiras obras de arte.

A catedral abriga em torno do altar, inúmeras capelas, uma para cada santo que é popular na Espanha. Parece ser várias igrejas diferentes dentro de uma só. Além disso, a catedral tem um pátio e um jardim que são deslumbrante, com direito a patos andando soltos e fonte de São Jorge.

A igreja de Santa Maria del Mar fica dentro do labirinto que é o bairro de La Ribera, em frente tem uma pequena praça, onde os turistas fazem malabarismos para conseguir enquadrar na foto, a torre da igreja, que é imensa. Eu só consegui fotografar, há três quadras de distância. A torre é alta, pois também servia de farol para os pescadores.

Já a Sagrada Família se encontra no bairro de mesmo nome, já na parte “moderna” da cidade. Gaudí passou os últimos anos de sua vida se dedicando a essa construção, a obra está até hoje inacabada. E ainda assim é de uma grandeza assustadora. Toda a riqueza de detalhes e esculturas que temos na fachada não é um terço da beleza que se encontra dentro da obra.

Num primeiro momento, a Sagrada Família é clara e até um pouco fria por dentro. Pintada com cores suaves transmite uma sensação de sepúlcro, de um lugar de fato, sagrado, parece como toda igreja. Mas a Sagrada Família tem vitrais, muitos vitrais e eles estão dispostos de tal maneira, frente a frente, que quando a luz do sol bate numa das janelas, reflete em outra e assim por diante.

A igreja fica repleta de cores e sombras coloridas, deixando de ser sagrada para se tornar divina. O silêncio, que antes era pesado, fica leve, tamanha a leveza daquelas cores e genialidade daquela obra. Eu fui visitar uma igreja e me senti dentro de um arco-íris.

Para mim, essas igrejas são a cara de Barcelona. A representação perfeita dessa cidade de arquitetura fantástica. Medieval, intacta, moderna, prática, colorida e surpreendente.

Saturday, March 12, 2011

Estopim

Tenho tanta coisa para escrever sobre Barcelona, sobre os lugares que fui, a impressão dessa cidade, as pessoas únicas que já conheci... E cadê que eu escrevo? Sempre que começo, dou voltas e voltas e acabo sempre no mesmo lugar, com a tela em branco.

Amanhã faz exatamente uma semana que cheguei e desde então, não tinha derramada uma lágrima. Além disso, tenho dormido incrivelmente bem. A insônia que sempre me pega pela mãe e me leva noite a dentro tirou férias.

Porém, mais cedo ou mais tarde, eu ia desabar. E estou desabada agora, justo hoje, quando há um ano atrás te conhecia. Estou há horas olhando para esse note e tentado escrever alguma coisa, nem que seja pra você, quem sabe assim, eu consigo escrever o resto?

Quem sabe seja necessário um estopim? Você é meu estopim, porque você é meu tudo. E daí que estou na Europa? Que graça tem? Tudo o que eu faço, penso que é tão triste não poder te contar. Logo para você, que iria entender tão bem.

Ontem eu fui no porto, passei a tarde lá, sentada olhando o mar Mediterrâneo e os barcos passarem. Tenho consciência que sou uma pessoa de sorte por estar realizando esse viagem e mais, por ter sonhado com isso desde sempre.

Mas ontem, no porto, me peguei dando gargalhadas sozinha. Que ironia, eu que sempre quis viajar, trocaria tudo isso por um abraço. Um abraço! E poderia passar o resto dos meus dias em qualquer província, que seria a mulher mais feliz do mundo e você, o homem mais amado.

Ao menos chorando, a saudade sai para fora um pouco e quem sabe assim, eu consiga escrever.

Monday, March 07, 2011

Primeira noite

Seis de março de 2011

Tinha sete anos quando dormi fora de casa pela primeira vez, passei uma semana na casa dos meus padrinhos, na rua de trás da minha. E na época, foi uma aventura e tanto! Depois, tinha 22 quando dormi fora do meu país, pela primeira vez. Foi em Buenos Aires e foram apenas três noites, estava de excursão para o show da Madonna.

Essa é minha primeira noite em Barcelona e a situação é outra. Vou passar dois meses fora de casa. Sempre imaginei como seria a primeira noite que estaria em um país distante, não apenas por passeio, mas para morar por um tempo. Pois, em março, o meu endereço será Calle Calábria, 86, 3-2. Ah, estou morando num apartamento.

Minha família, um casal, são professores universitários. Tem um rapaz americano e um coreano, também de intercâmbio. Meu quarto tem as paredes rosas, um espelho imenso, um roupeiro branco e uma janela minúscula, que dá para a parede do apartamento da frente. Ainda bem que tenho uma luminária, porque a luz é bem fraquinha.

Ainda assim, acho que vou passar muito tempo dentro desde quarto, espero que minhas vistas não cansem. Hoje, Já me perguntei várias vezes, porque trouxe apenas três livros? Espero deitar e dormir, hoje. Estou cansada e com dor de cabeça, faz bastante frio aqui e acho que logo estarei gripada.

Estou resistinto bravamente para me deitar. Quer coisa mais íntima que a cama da gente? Eu estou num país que não é o meu, numa família que não conheço e o pior, num colchão que não tem a forma do meu corpo e com travesseiro que não ter as marcas das minhas lágrimas.

Na casa dos meus padrinhos, aos sete anos, eu chorei e acabei passando as outras noites no quarto com as minhas primas. Em Beunos Aires, eu estava eufórica e já um pouco bêbada. E agora? Na primeira noite na Espanha e eu estou como estava antes da viagem... Apenas estou. Não tenho vontade chorar, não tenho vontade de rir. Estou aqui, só.

Sete de março de 2011

Acordei a pouco e para minha surpresa, dormi a noite inteira. Sem choros, sem perguntas do tipo “o que estou fazendo aqui?”, sem medos e inseguranças. Devo ter deixado a menininha covarde que mora em mim no Brasil.

Cheguei até a sonhar, com a minha vó e a minha prima. Achei estranho sonhar com as duas únicas pessoas, mais próximas de mim, que já morreram da minha família. Se bem que, por serem espíritos, elas são as únicas que podem me acompanhar aqui na Europa. Pensando nisso agora, me sinto muito bem acompanhada e pretegida, entendi porque não chorei.

Em trânsito

Estou escrevendo dia 05 de março de 2011, no aeroporto internacional de Garulhos, em São Paulo, indo para dois meses na Europa. Minha mãe já encheu os olhos d’água quando me deu tchau. Meu pai com o otimismo de sempre, só falava pra eu aproveitar cada segundo. Meu irmão saiu e nem me deu tchau, típico dele.

Amanhã, um primo e a namorada dele estão de partida para a Irlanda, onde ficarão por um ano, trabalhando e estudando. Na segunda, outro primo (irmão desse que vai para Irlanda), vai para uma missão religiosa, onde ficará por dois anos num país, que ele ainda não sabe qual é. Seu único contato com o mundo que será permitido é escrever uma carta por semana.

Quando lhe perguntei se ele não achava isso ruim, disse que não, que apenas se distanciando do meio e vivendo novas experiências, saberá o que de fato quer da vida. Durante um bom tempo, não vai ter tanta graça ir para Florianópolis, sem meus primos lá. E espero que quando retornarmos para o Brasil, estejamos mais certos do que queremos, mais verdadeiros, mais corajosos e principalmente, com o coração mais aberto.

Às vezes, é necessário ir para longe, em busca de nós mesmos. Não importa que essa busca se esconda atrás de um belo motivo: um tour na Europa, a busca de melhores condições de vida, a missão de divulgar o que se acredita. Chega um momento, que é necessário nos conhecer e quanto mais longe e distante de todos, melhor. Só com nós mesmos vamos nos enxergar.

Provalvelmente, quando conseguir postar esse texto, já terão se passados alguns dias e, quando menos esperarmos, chegará a hora de voltar e espero essa experiências tenha nos ternado melhores. Pessoas com olhares diferentes e, se permetir essa viver longe de tudo, já é um grande passo para se enxergar.

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

Friday, March 04, 2011

Considerações antes de partir

Não mudou em nada o que eu sinto por você. Te amo do mesmo jeito ou até mais, se você não sentisse algo por mim, teria ido me ver, pois seria muito fácil ir, me comer e continuar tudo igual. Mas não né? Você não foi. Sabe que não me senti tão mal como pensei que ficaria?

Só de saber que eu estava na mesma cidade que você, que você anda pelas ruas que eu estava andando, nossa, já agradeço ao mundo por essa oportunidade. Não tem problema nenhum eu ter ficado quase 20 horas trancada num quarto de um hotel muquifo, esperando um homem que eu sabia que não iria. Tem vezes que me odeio, mas já aprendi a me suportar, então encarei isso como uma boa oportunidade de pensar.

E como eu pensei. E não, não vou desistir de você. Desistir de você, seria desistir de mim.



Eu sempre imaginei que o dia que eu fosse viajar, estaria eufórica, que seria a pessoa mais feliz do mundo. Mas não. Daqui poucas horas estou embarcando para a Europa e não sei o que sinto em relação a isso.

Desde criança, sonho em viajar, mas nos últimos meses não pensava nisso como o sonho que iria realizar. Essa viagem era só uma desculpa para ver se eu continuava tocando o barco. Foi uma muleta. Algo que “inventei” para ter o que pensar.

Agora essa muleta é real e ainda não assimilei o que vai acontecer. Não estou indo para fugir de ninguém, nem de nenhuma situação, talvez eu esteja indo pra ver se consigo o distanciamento necessário e entender tantas coisas que acontecerem na minha vida no último ano.

Mudei muito. E só consegui realizar esse sonho de viajar agora, quando percebo que o que move minha vida não são os lugares para onde irei. O que move minha vida é o amor que eu sinto.



Estou indo para a Espanha amanhã. Fico lá até dia 02 de abril, depois faço um tour pela Europa e volto no final de abril. Sempre que possível, estarei escrevendo, gostaria muito de escrever coisas sobre os lugares para onde irei, mas não sei se vou conseguir, geralmente eu escrevo para sobreviver.

Monday, February 21, 2011

Percepções

Eu tô mole. Tontinha, com aquela sensação que temos depois de uns copos de caipirinha, cerveja... Mas não, ainda não tô bêbada, tenho uma noção distorcida das coisas, mas tenho consciência ainda. Algo está mais lento, mais devagar, não sei se sou eu ou o mundo.

Mas como sou metida a intelectualóide, quando bebo ou faço qualquer outra coisa que me tire da realidade, me sinto íntima do Aldous Huxley e quase entrando nas tais portas da percepção. Uma vez, tomei chá de cogumelo e vi o mundo verde e brilhante e isso era tão mais interessante do que vejo normalmente...

Ai, eu acho que deveria estar na praia com todo mundo e não gastando meu dinheiro numa lan house. Prefiro beber o meu dinheiro. Ai, eu tenho que viajar e não sei nem onde enfiei minha mala e nem meu passaporte. Ai, eu já fui mais organizada. Ai, será que vendem cerveja na lan house?

Tá, vou escrever sério agora. Acho que só inventei de viajar para pensar em algo, sei lá, pra ter uma porra de um objetivo qualquer. Mas depois de você, tudo é tão pequeno, que trocaria a Europa inteira por um abraço teu. O mundo todo por você. Merda, vou começar a chorar. Azar, bêbado chora mesmo. Pedi pro menino que atende comprar Smirnoff pra mim.

Estão achando que estou bebendo muito? Odeio gente moralista! Pensem que sou uma grande escritora, que nesse momento está digitando esse texto dentro de um quarto repleto de ursinhos de pelúcia, vestindo um pijama rosa. Até porque eu não bebo né? Ah, e sou virgem também. Estou me guardando como guardo as cervejas no fundo da geladeira.

Tá? Agora vou escrever sério de verdade. Eu bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo e não esqueço!

“Se for falar mal de mim, me chame! Sei coisas terríveis a meu respeito”. Clarice Lispector

Wednesday, February 16, 2011

Espero. Esperança. Esperando

Há momentos ou até mesmo dias, que sou tomada da mais genuína esperança. Mais do que isso, de uma certeza absurda e absoluta que um dia, assim do nada, você vai me mandar um email. Vai ligar. Vai falar que também sente saudade.

E eu vou poder olhar novamente dentro dos teus olhos e preencher tuas tatuagens com meus dedos. Espero você voltar pra gente discutir a arquitetura de Barcelona, pra falar sobre uma possível viagem à Turquia. Pra te dar colo. E te ninar. E te amar.

Isso não é viver de lembranças, é projetar um futuro. Isso não é falta de amor próprio, é excesso de amor. Porque eu te amo tanto, mas tanto, que não cabe em mim, não cabe num texto. Posso escrever o resto da vida pra você e, ainda assim não seria nem uma frase inteira.

Posso ficar te esperando para sempre porque sei que você vem. Isso não é ilusão, se fosse eu não teria certeza de que essa espera é necessária. Não sentiria o arrepio que sinto no meu corpo quando penso que vou te abraçar, de novo. E eu vou te abraçar!

"A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.” Arthur Schopenhauer

Sunday, February 13, 2011

Praia

Como a maioria dos gaúchos, ir para a praia no verão é um programa de bando, seja esse bando, de família ou amigos. Esse ano estou revivendo aquela função de alugar casa, ir com a família, esperar os trabalhadores da mesma no final de semana, dormir no chão, casa lotada, bagunça, o nosso nordestão e o mar chocolate.

Quando criança, as casas eram lotadas de tios e primos, o que parecia muito divertido. Porém, a gente cresce, prefere passar as férias com os amigos viajando para alguma praia de Santa Catarina. Mas este verão, está me fazendo refletir ao me deparar de novo com minha família numa casa alugada no reto litoral norte gaúcho.

Algumas coisas mudaram, os tios deram lugares a cunhadas e sobrinhos, primos continuam lá, mas agora com filhos. Percebo que por maior que seja uma casa, sempre tem alguém que vai dormir no chão. Meu irmão não vomita mais quando sente o cheiro do camarão e quem vai dormir na cama de cima do beliche, ainda é motivo de briga entre as crianças.

Ah e agora, estou dando o devido valor ao nosso litoral, pois como uma trabalhadora, encaro a Freeway na sexta de noite e no domingo de tardezinha, lamentando muito os finais de semana com chuva. A maconha e as cervejas continuam como itens principais nas férias da minha família, mas nesse verão, especialmente, a bêbada oficial sou eu!

Meu pai continua reclamando porque tem que sair da praia mais cedo pra ir buscar um frango assado para o almoço. A frase que minha mãe mais repete é: “não vim pra praia para cozinhar”, meu irmão continua passando o tempo todo dentro do mar, pegando jacaré, furando onda e ainda parece ser o único que se diverte, mesmo nos dias de chuva.

Foi, justamente, observando meu irmão que me dei conta disso. Fazia anos que não íamos para uma praia juntos e ele continua furando onda do mesmo jeito que fazia com 5, 6 ou 7 anos. Vendo essa cena no final de semana passado, fui transportada para o passado e também para o futuro.

Como as coisas mudam, daqui uns anos eu vou ser aquela tia, dos filhos do meu irmão, que chega nos finais de semana, bebi e tumultua a casa da praia. Mas como nem tudo muda, meu irmão vai continuar furando onda do mesmo jeito e se divertindo até nos dias de chuva.

Tuesday, February 08, 2011

Cara ótima

Parece que ando com a cara boa, ao menos é que andam dizendo por aí, meus amigos e até a psicóloga. Outro dia ela me disse que eu estava “mais leve, sem o peso do mundo nos ombros”.

Talvez seja verdade, ou pode ser culpa do álcool e da cevada que ando ingerindo diariamente, sábio quem falou: “decepção não mata, ensina a beber”. Estou saindo mais também, procurando os amigos, falando, dando risadas...

E daqui a pouco chega a viagem né? Então também estou ocupada pensando nessa grande realização. E tenho bastante trabalho no serviço, hoje o dia foi puxado e apesar de tudo, minha cara está ótima!

...

Mentira. Tudo mentira. Eu tive que me segurar para não chorar de saudade no terraço do Palácio Piratini, no pátio da Assembleia Legislativa, dentro do carro do meu chefe, quando liguei o rádio e tocava Pink Floyd e quando deu o teu nome para o personagem do texto que fiz na aula de espanhol.

Eu queria tanto te abraçar! Ainda amo tanto você. Ainda paro no meio de um texto pra chorar. Ainda dói tanto. Ainda fico arrepiada quando me lembro de ti. Ainda passo as noites acordada, pensando se você pensa em mim. Ainda não sei que fim dar no meu corpo.

Mas apesar de tudo isso, eu estou com uma cara ótima.

“De algum secreto lugar me vem a força para erguer a xícara, acender o cigarro, até sorrir quando alguém me diz: ‘Você hoje está com a cara ótima’, quando penso se não doeria menos jogar-me de um décimo primeiro andar” Lya Luft

Wednesday, February 02, 2011

Não lembrar

Estava ouvindo a música Doesn’t remind me do Audioslave, escutava e prestava atenção na letra, que enumera várias coisas que não o faz lembrar de nada. As situações citadas são bem simples como observar as pessoas, ver o colorido das roupas no sol, andar por um lugar desconhecido, ouvir rádio...

Fiquei pensando como às vezes é necessário não lembrar e isso não é de forma alguma, esquecer. É apenas, por alguns instantes, não lembrar, é desviar um pouco o foco do nosso cérebro, da nossa vida, do alvo principal, é quando o mundo exterior invade o nosso interior e nos leva para fora.

Acredito que essas “invasões externas” são bastante comuns na vida de todo mundo, mas penso que é muito difícil nos darmos conta disso. Como quando estamos caminhando apressados e de repente, num vôo rasante, uma mosca azulada quase bate no nosso nariz. Neste instante, a gente não lembra de nada, nem para onde estávamos indo. Mas também não nos damos conta disso, pois para isso é necessário pensar e estamos ocupados demais lembrando de coisas, que muitas vezes, gostaríamos de esquecer.

Eu desejava listar algumas coisas que quando me invadem me fazem não lembrar de nada, mas não me veio nada na cabeça, a não ser, a tal mosca azul. É muito ruim quando tudo nos faz lembrar algo ou alguém que ainda nos dói, a gente pensa em como seria bom inverter esse processo de invasão. Ao invés de não lembrar, trazer a lembrança para a realidade.

Monday, January 24, 2011

O gato por dentro




Quando eu voltei de Santa Maria, na manhã seguinte da minha morte, tinha um homem, um Policial Militar sentado do meu lado. Ele percebeu o meu choro contínuo e por vezes, alto.

Logo que ele se sentou, tirou um livro da mochila, O gato por dentro. Um livro pequeno no tamanho, no número de páginas, nos capítulos. Uma obra fácil de ler nas quatro horas que duraria a viagem, mas ele não conseguiu, não deve nem ter passado da metade. Ele ficava vários minutos olhando para a mesma página e ouvindo o meu choro.

Várias vezes, ele me ofereceu o livro. Noutras, lia para mim, uma ou outra parte e me olhava e desistia e voltava a olhar para as páginas, sem ver. Apenas no viaduto que dá acesso a rodoviária de Porto Alegre, que o homem falou comigo. Disse que o autor do livro, William Burroughs, tinha sofrido muito, mas que conseguiu reverter isso e escreveu obras primas. Eu respondi que não conhecia esse escritor e que não gostava de gatos, muito menos, de livros sobre gatos.

O fato é que eu tinha certeza que nunca ia me esquecer desse livro, nem da capa, nem dos trechos que aquele homem lia para mim, embora não lembre do rosto dele e nem ter movido uma palha para achar esse livro.

Na madrugada do último sábado, estava pegando uns livros da Fabi, no quarto dela. Já tinha selecionados uns dois, quando ela puxa um da pilha e fala “esse é ótimo, tu vai adorar!” Era O gato por dentro e na hora meu porre passou. Fiquei de cara. O gato de olhos verdes, desenhado na capa, me encarava enquanto eu sentia o nó na garganta apertar. Expliquei para a minha amiga que já nos conhecíamos e contei a história.

Agora, esse livro está aqui na minha frente, ao lado do monitor do computador. Faltam poucas páginas para eu terminá-lo, mas às vezes demoro muito, fico olhando perdida para uma mesma página, ouvindo um choro de dois meses atrás. Pensando sobre esse pequeno livro, lembro que ele me velou, o gato foi minha única testemunha e agora, voltou, trazendo flores para o meu túmulo.

“Uma esperança. Uma chance. A oportunidade perdida. A esperança morrendo. Um grito que persegue o único que pode ouvi-lo quando já está longe demais para ser escutado, uma tristeza dolorosa e arrebatadora. Este é um sofrimento sem testemunhas. ... Esse sofrimento pode matar.” (O gato por dentro, William Burroughs)

Wednesday, January 19, 2011

Tatuagens

Eu tenho mais tatuagens do que anos de vida. São 13 estrelas, quatro frases, seis borboletas, uma fada, uma lua, um sol, o símbolo do infinito e a palavra liberdade. Não me imagino sem elas, muito pelo contrário, penso em fazer mais. Provavelmente, as próximas serão o Pequeno Príncipe, no braço, e o Yin Yang, na nuca.

A primeira, a fada, eu fiz alguns dias antes de completar 15 anos, foi presente de aniversário e minha mãe me acompanhou até o estúdio. Meus pais não têm tatuagens e meu pai, nem gosta muito, mas eles nunca me proibiram de fazer. E eu nunca tive problema nenhum por causa delas.

Desde criança me imaginava com tatuagens, sempre achei lindo, seja em homem ou em mulher. Claro que tem alguns desenhos que eu não faria, mas isso vai da pessoa... Por isso, acho absurdo que no mundo que vivemos ainda haja esse tipo de preconceito. Fico pensando se há alguma atividade que uma pessoa tatuada não possa executar, por influência da tatuagem, e não identifico nenhuma.

Tem gente que diz que é agressivo. Novamente, vai de cada um, mas penso que há coisas como a violência gratuita, os casos de pedofilias, a impotência do serviço público diante da imposição da natureza, que agridem muito mais do que desenhos e cores na pele alheia.

Se existem ainda alguns redutos profissionais que não aceitam, de modo algum, a tatuagem, aí cabe à pessoa decidir se irá se tatuar ou não e, arcar com as conseqüências.

Agora, no caso dos salva vidas que desencadeou toda essa discussão, acho absurdo, beirando o ridículo. Tem lugar melhor para exibir as tatuagens do que a areia da praia? E há melhor lugar para um dragão tatuado do que o braço de um salva vida sarado?

Thursday, January 06, 2011

Histórias de novela

Nunca fui das mais noveleiras, mas como no Brasil basta ler as capas de revistas para a gente saber o que acontece nas novelas, sempre sei o que se passa. Algum tempo atrás eu costumava caminhar de tardezinha, aí até chegar em casa, tomar banho, comer... Eu só dava uma olhada na novela das 20h, que começa às 21h.

Agora como não tenho feito nada de útil na minha vida e cansei até de caminhar, tenho olhado mais assiduamente as obras primas da Rede Globo e é incrível como em todas tem várias histórias de amor ditas como impossíveis. Na Araguaia, a que menos acompanho, sei que tem um triângulo amoroso entre o mocinho, a mocinha rica e uma índia que sofre pra caramba.

Na outra, a Tititi, tem a adolescente que perdeu a virgindade e se apaixonou pelo galinhão. Tem a modelo que largou o namorado para seguir a carreira, mas ainda morre de amores por ele. Tem uma loirinha apaixonada por um rapaz comprometido com uma moça que trata ele mal. E o cara que brigou com a namorada, passou meses em Londres e acabou voltando porque não conseguia esquecer a guria.

E a Passione então? O que é o velhinho que passou mais de trintas anos amando a mulher que abandonou ele no altar? E eles se encontraram anos depois em outro país. E tem a italianinha, garota de programa, que atravessou o oceano para encontrar o cara que ela ama. A Felícia que passou anos fechada para a vida, amando seu primeiro e único namorado, eles também se encontraram anos depois e estão tentando continuar... E Melina que a vida toda amou o Mauro, viajou, voltou, casou com outro, separou, aprontou horrores só para ter uma chance com ele.

Essas são apenas as histórias que eu lembro. Na Malhação deve ter mais um monte de exemplos desse enredo, versão teen. Nas novelas do SBT, Record, Band, nas mexicanas, nas que acabaram e nas que virão, também. E é claro que todos vão acabar bem e felizes para sempre, nas novelas todo mundo acaba junto de quem se ama.

Por mais idiota que seja, me dá um aperto no peito quando assisto essas cenas. Minha história daria um bom enredo de novela, mas infelizmente é vida real e na vida real nem sempre o final é feliz.

Monday, January 03, 2011

Foi só um sonho

Na primeira noite de 2011, quer dizer, primeiro dia, porque fui dormir depois que o sol já tinha nascido, tive um sonho lindo. Sonhei que estávamos eu, a Daiani (a outra jornalista da CUT) e alguns dirigentes da Central em algum lugar que eu não sei qual é, para cobrir um ato, uma manifestação, uma reunião ou sei lá o que...

Os dirigentes entraram em uma sala e quando eu olhei para dentro dessa sala, ele estava lá, lindo, com o uniforme do Instituto Geral de Perícias. E no sonho eu pensei em como ele é perfeito. Aí ele veio na minha direção, já sem o uniforme, mas com uma camiseta azul que realçava a pela morena dele.

Ele sorria. Aquele sorriso que eu tanto amo, porque o deixa com ares de menino. Enquanto ele vinha, eu sentia meu coração saltar pela boca. Então ele me abraçou e ficamos abraçados o sonho todo, às vezes, mudávamos de posição, mas não nos desgrudávamos. E fazíamos carinho um no outro. Às vezes, a Daiani vinha, falava alguma coisa com a gente e nós ríamos muito. Estávamos felizes.

Mas o sonho não tinha som. Ao menos não enquanto ele estava comigo, ali o sentido principal era o tato. Porque eu sentia o calor da pele dele, a espessura da camiseta, o suor no pescoço quando eu mexia minha cabeça... Não sei quanto tempo durou o sonho, mas o abraço durou mais da metade do sonho. Até na hora que ele explicava alguma coisa sobre a máquina fotográfica do serviço, eu estava colada nele...

Nisso apareceu um dos secretários da CUT, chamando a imprensa. A gente se despediu, ele me beijou e desejou bom trabalho. Eu e a Daiani entramos para cobrir o ato, a manifestação, a reunião ou sei lá o que... O sonho acabou e eu ainda dormi mais um pouco.

Quando acordei, assustada, não lembrava onde estava (na casa de praia de uma amiga). Mas ainda podia sentir ele e logo comecei a chorar de saudade quando me dei conta que fora só um sonho. Sonhar com quem se ama assim é tão bom e tão cruel.

Se é verdade que nos sonhos os espíritos se encontram, eu tive o melhor sonho que eu poderia ter, porque nem que seja em outro plano, a gente esteve junto e ele estava feliz. E eu passei o dia com o peito apertado de saudade. Lembrando desse abraço tão real, mas que nem aconteceu.

Será que ele também sonhou comigo? Será que a Daiani sonhou com nós? Será que o abraço foi de despedida ou reencontro? Não sei... Só sei que ganhei o melhor abraço de ano novo que poderia ganhar e desde então, quando deito na cama e fecho os olhos, lembro dele vindo, lindo e sorrindo, na minha direção. Vai que eu tenha sorte e um dia desses, ele venha de novo, me abraçar.

“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.” Clarice Lispector