Precisamos trocar o carpete. Estranho
como essa kitnet vazia me parece grande agora. Quantas vezes batíamos nos
poucos móveis e reclamamos da falta de espaço? Por todos os lados haviam os
nossos desejos, nas fotos coladas na parede, nos guias de viagens, na lista de
treino colocada na porta da geladeira: primeiro as plantas, depois os animais
de estimação e por último, os filhos. Quando as plantas morreram por falta de
cuidado já deveríamos ter entendido o nosso futuro. E as roupas guardadas em
malas? A falta de espaço já denunciava a essa história não seria permanente. Agora
só nos resta dividir a conta da troca do carpete por causa dos queimados de
cigarro e das manchas de vinho.
Friday, May 27, 2016
Thursday, April 28, 2016
Nirvana
"Na bruma leve das paixões/Que vem de dentro
Tu vens chegando/Prá brincar no meu quintal"
Anunciação – Alceu Valença
Ele entrou na minha vida no final de setembro, veio com a
primavera e a Vênus de libra. Na verdade, ele já estava lá anos antes. Quieto,
sério, inteligente, cheio de mistérios com os cachos que escorriam pelas costas
e as opiniões bem colocadas com a voz doce.
E eu já havia reparado nele anos antes. O fato é que gosto de
pensar que ele veio com a primavera, talvez não estivéssemos maduros antes e só
então ele passou a fazer sentido. Foi com metáforas sobre viagens e me
prometendo vinho (que ainda não bebemos) que me ganhou.
Com ele, eu conheci um menino com quem posso conversar sobre
um amigo nosso, um príncipe que foi embora do seu planeta numa revoada e ama
uma rosa... Além disso, posso fazer qualquer pergunta que ele sempre vai procurar
uma resposta. Amo pessoas que sabem
tratar tudo com seriedade, das coisas mais leves as mais improváveis.
Com ele, conheci um militante com quem posso conversar sobre
a dialética marxista e a conjuntura. Eu o respeito muito e até ouvir os
piores prognósticos dos lábios dele parece música.
Com ele, conheci também um homem que me dá um prazer
inimaginável. Que cada vez que me beija faz parecer que estou num sonho, que encaixa
perfeitamente em mim e faz com que eu durma confortável mesmo passando a noite toda
enroscada nele.
Quase todos os dias, ele me surpreende ou eu descubro alguma
coisa sobre ele e isso deve ser como o universo testemunhando o
nascimento/morte de uma estrela. Porque
sempre que descobrimos um detalhe no outro é a morte de um mistério e o
nascimento do brilho de uma convicção.
Gosto da maneira como ele ilumina algumas questões em mim e
me faz encarar as coisas de outro ângulo. Não tenho dúvidas que essa história
colabora muito para o meu processo evolutivo, há uma vontade absurda de ser
sempre melhor para aproveitar a minha primavera.
Eu que já visitei alguns fundos de poços, penso que ele é o
meu nirvana. Não a banda, mas o termo sânscrito que significa o estado de
libertação atingido pelo ser humano ao percorrer sua busca espiritual. Um
estado de paz, de plenitude, de compreensão e aceitação, aquela expansão da
consciência que nos faz entender que tudo está no seu devido lugar. A primavera
chegou no momento certo para eu aprecia-lá.
Wednesday, March 30, 2016
A voz de Iara
Mesmo adulta, Iara ficava a
vontade sentada numa mesa para crianças e aquilo me intrigava muito. Não sabia
se eu crescia e ela encolhia, mas ficávamos do mesmo tamanho. A sala era toda
colorida e com muitos brinquedos, cheia de estímulos para as crianças, embora
eu não percebesse isso com os meus seis, sete anos de idade. Às vezes, pensava
que eu ia lá apenas para brincar, até perceber que mesmo nas brincadeiras
estava sendo avaliada.
Morena, com os cabelos pelos
ombros, tinha os ares da minha mãe, o que me dava segurança. Lembro da maneira
como mexia os lábios, pronunciando devagar as palavras. Ainda posso vê-los como
se fossem imagens em câmera lenta de um filme mudo: pa-lan-ta, pa-lan-ta, até a
pa-lan-ta virar planta.
Iara foi a minha primeira
fonoaudióloga e me acompanhou por anos. Às vezes gostava dela, noutras, a odiava. Muito mais do que
sentimentos ambíguos, foi dentro de um consultório que tive o primeiro contato
com a escrita e os seus mistérios.
Se na escola precisava enfrentar
as risadas dos coleguinhas e muitas vezes, o despreparo das professoras. Ali me
dei conta que era mais fácil lidar com as palavras escrevendo. Gostava daquele
alfabeto de borracha com letras coloridas, o R tinha um dos lados descascado, o
A era de um vermelho desbotado e o Z parecia mais novo, talvez por falta de uso.
Lembro que eu gostava de observar
o mosaico colorido que as letras formavam e da sensação boa quando eu acertava
uma palavra, geralmente seguida pelo pânico que me dava quando eu tinha que
falar. Porque oralmente, o R não saia, o V e o D não existiam e o J sumia.
Com o tempo, as sessões e o medo
das palavras foram diminuindo. O tio Dani deixou de ser Tani, o R passou a
sair, a pa-lan-ta virou planta e eu não precisava mais fazer malabarismo para
fugir das palavras que eu não conseguia pronunciar. A Iara ficou na lembrança, uma das mais
intensas da minha infância, mas da qual não me recordo nem o sobrenome.
Os anos também trouxeram elogios
pelas redações que escrevia no colégio e a certeza de que eu só seria feliz se
trabalhasse com algo em que fosse possível contar histórias. Já fiz muita
terapia para superar o medo de falar, já perdoei o bullying dos coleguinhas e as minhas inseguranças. Mas não me
perdoo por não conseguir lembrar da voz de Iara.
Monday, March 07, 2016
Oficinas literárias
Por muito tempo que achava que fazer uma oficina literária
era podar a criatividade, doutrinar vocação ou coisa que o valha. Porém, tem
tempo que faço dança e perdi a conta de quantos cursos e workshops fiz nestes
anos todos e isso nunca me podou em nada, pelo contrário, percebi o quanto a
técnica é importante para ajudar o talento, mesmo a dança não ter sido algo
inato, como é a escrita para mim.
Refletir sobre isso, considerando os relatos de amigos que já
haviam participado de oficinas, junto com a crise existencial que eu passava. O
ano de 2014 foi de mudanças e se por um lado, estava trabalhando muito e
consequentemente escrevendo bastante, essa produção não era para o blog ou
coisas pessoas, nem no meu diário conseguia escrever. Estava em crise por não
conseguir produzir nada além de notícias e a vida cobrou a conta.
Então, durante o ano passado, fiz a oficina de Criação
Literária do SindBancários, ministrada pelo escritor Alcy Cheuíche, que
resoltou na obra “Nos caminhos da imprensa Rio-Grandense e Brasileira”. O
livro, que também tem versão em espanhol, reúne contos de 30 oficinandos,
abordando episódios marcantes na história do jornalismo e da mídia no estado e
no país.
E aprendi muito. Percebi que ainda sei escrever algo que não
seja notícia. Fora as inúmeras dicas que não tiram o estilo de ninguém, mas
colaboram para melhorar o texto e o processo criativo. Alias, muito exercitamos
a criatividade através de exercícios simples que nos lembravam a todo instante
que tudo rende uma boa história.
Porém mais importante do que aprendi foram as pessoas com as
quais convivi neste período, as nossas trocas e experiências com aulas regadas
a vinho, risadas e muita literatura, me agregaram muito. Com eles também vieram
os evento, saraus, debates literários, sessões de autógrafos passaram a fazer
parte da rotina. E claro, que os contatos ampliaram consideravelmente, o que é
ótimo para quem quer fazer arte.
Durante o verão fiz uma oficina de Literatura e Psicanálise,
ministrada pela psicanalista Ariane Severo (companheira do Alcy), no Contemporâneo
(Instituto de Psicanálise e Transdisciplinaridade). Foram oito encontro onde
pudemos exercitar uma temática mais livre e subjetiva.
Este mês, começo minha terceira oficina literária. Também de
Literatura e Psicanálise com a orientação da Ariane Severo, porém está é de
dois anos, onde vamos trabalhar os aspectos psicológicos das personagens,
importância dos cenários e fluxos de consciência. Ano que vem, os contos
produzidos serão compilados em um livro.
Não tenho dúvida que será uma baita experiência. E ao invés
disso me podar, estou cada vez mais inspirada e segura para escrever. Ainda bem
que me permiti pagar para ver, porque entendi a importância de adubar a terra
para as sementes.
Monday, February 29, 2016
Realize um desejo e se faça feliz
Uma das coisas mais importantes que aprendi depois de começar
a estudar PNL e fazer os cursos de desenvolvimento humano foi isso: que para
sermos felizes temos que realizar os nossos desejos. A frase do título virou
mantra e não podemos negar que isso é bem óbvio.
O problema é que muitas vezes, colocamos os nossos desejos há
léguas de distância e inconscientemente, fazemos tudo para não alcança-los. O
que aprendi de fato, foi a valorizar os nossos pequenos desejos e desde então
quase todos os dias eu tenho sido feliz.
Há anos, antes de dormir faço uma lista das coisas que tenho
que dar conta no dia seguinte, mandar o email que estou enrolando, terminar tal
texto, finalizar a diagramação do jornal, arrumar os livros, passar no banco... Nada de mais, de extraordinário.
Só que muitas vezes, essa lista ia para o lixo sem nem ao
menos eu ver o que tinha feito e geralmente, pouco ou nada tinha sido realizado.
Até me dar conta que aquilo eram desejos, talvez não tão grandiosos quanto
andar de balão. Mas desejos e não realizá-los significava repetir a lista no
dia seguinte e ir dormir com aquela sensação de não conseguir fazer nada, sem
me sentir feliz.
E feliz neste caso, não precisa ser aquela felicidade
transbordante, mas a sensação de missão cumprida, de satisfação por ver tarefas
(sejam elas do tamanho e da importância que forem), realizadas. Com isso, a
vida flui e a energia não fica estagnada. As coisas passam a acontecer com uma
sincronicidade absurda.
Nem sempre consigo realizar todas as minhas tarefas diárias,
que hoje as chamo de desejos diários, é verdade. Mas fico bastante feliz quando
chego no fim do dia e vou riscando a minha lista. Aprendi a olhá-la e
geralmente tem mais desejos realizados e sendo realizados do que ao contrário.
Com isso, também acabei fazendo um caderninho da gratidão,
foi meio inevitável agradecer no final do dia ao ver a lista de desejos diários
sendo riscada. Outra coisa que passou a acontecer foi me dar conta das
surpresas no dia a dia. O almoço inesperado, não ter se atrasado, o encontro
com pessoas queridas, o elogio que surpreende, a paisagem que salta aos olhos,
a maneira como as coisas se encaixam para tudo dar certo...
Ficou claro que quando a gente faz a nossa parte, o universo
faz o dele. E esse texto está aqui, justamente hoje, porque o 29 de fevereiro é
um dia extra para realizar um desejo e se fazer feliz!
Tuesday, February 16, 2016
Erro médico
Ele senta constrangido em frente ao homem alto e careca. Não
sabe se o chama pelo nome ou por doutor. Para quebrar o gelo, o médico pergunta
o que lhe traz ali. Fui indicado a procurar terapia, mas acho que houve um engano,
eu não preciso de psiquiatra... Me fale de você, indaga o médico. Tenho uma
vida bastante normal, sou o mais certo da minha família... Então me fale como é
a sua família, induz o terapeuta. Ele encara o médico, suspira longamente e
começa.
Ah doutor tem de tudo, gay, lésbica, crente, maconheiro, velhos
hippies que parecem que chegaram do Woodstock
ontem e até político, mas todos trabalhadores, boas pessoas. Meu cunhado
artesão, vive de vender em feiras, estava tão chapado que confundiu Ijuí com
Chuí e atravessou o estado para o lado errado. Não achou a feira, mas ao expor
os brincos de arame que ele faz, conheceu a sua esposa.
Minha irmã Cristina sempre deu trabalho para a família.
Quando casou, achamos que fosse se aquietar, mas já no casamento houve o buxixo
que ela havia se encantando com o irmão mais novo do noivo, que morava no sul
de Minas. Não deu outra, depois de 10 anos casada com o Gabriel, dois filhos e
uma vida aparentemente feliz, ela fugiu com o Micael, o irmão caçula, numa das
férias que passou em Minas. Só deixou um bilhete, dizendo que antes de alguém
criticá-la, devemos lembrar que ela terá direito à herança duas vezes. Pensa a
confusão na cabeça dos meus sobrinhos.
Mas pior ainda, acho que é minha filha. Estudava Engenharia,
estava quase se formando quando largou tudo. Foi morar na Guarda do Embaú e cursar
astrologia. É uma boa pessoa apesar de não comer carne e ser meio distraída,
esquecida... Meu filho afirma que é por causa dos chás que ela toma. Ah, meu filho
nasceu prematuro, mirradinho, mas vingou. É um rapagão com quase 100 quilos,
tatuado, usa jaqueta de couro com rebites, camiseta do Marx e canta no coral da
igreja do bairro.
Não entendo essa gente, isso que não citei nem um terço da
árvore genealógica. E entendo menos ainda por que eu, logo eu, preciso de
psiquiatra. Deve ser porque Deus perdoa
e Freud explica, não é doutor?
Monday, February 01, 2016
José e João
José e João cresceram juntos. Tem
o mesmo sobrenome, Silva, quando crianças moravam na mesma rua numa cidade do
interior. Dividiram brincadeiras, merendas, xingões de professores, descobertas
e inquietações da adolescência, conquistas amorosas, porres e festas.
Decidiram juntos ter a mesma
profissão e foram cursar jornalismo na capital, onde dividiram um quarto numa
pensão, mesas de bar, rodas de violão e mais conquistas amorosas. Juntaram
grana para a festa de formatura e planejaram uma carreira brilhante. José é
João nunca brigaram, nem por um ser gremista e o outro, colorado. Até que o
jornalismo dividiu o caminho dos amigos.
Os dois se tornaram referência na
área, seguiram estudando e hoje dão aulas em grandes faculdades do Brasil. José
fez carreira nos principais veículos de comunicação da mídia tradicional.
Escreveu para os maiores jornalões do país, foi correspondente internacional e
fez doutorado em marketing nos
Estados Unidos. Aprendeu a ver a notícia como um produto. Dizem que cobra caro
para dar palestras em universidades privadas ou para empresários que gostam de
ouvir como a mídia é subserviente.
Desde a faculdade, João trabalhou
com os meios alternativos. Fez carreira escrevendo para ONGs, sindicatos,
movimentos sociais e pastorais de igrejas. Implantou a Rede Brasil de
Comunicação Popular que engloba programas em rádios comunitárias, uma revista e
um jornal que devido aos poucos recursos financeiros não tem a tiragem que
gostaria, mas investe pesado no portal de notícias da internet. João é dono do
blog mais lido do país e fez doutorado em Sociologia da Comunicação, na França.
Aprendeu a reconhecer o que há oculto em cada notícia. Quando dá palestras para
o seu povo, fala sobre uma comunicação livre, poderosa e revolucionária. Dizem
que cobra apenas a passagem.
João percorre o país defendendo a
democratização da mídia, o fim dos monopólios e a criação de um conselho
nacional de comunicação. José, quando indagado sobre o assunto é taxativo: isso
é censura! Seguidamente, eles trocam farpas públicas sobre as ideias que
defendem. Outro dia, o grande grupo para qual José trabalha, demitiu dezenas de
colegas e coube a ele dar explicações para a turma do sindicato, liderados por
João, que protestava em frente ao prédio.
Quando eles se encontram em algum
evento social não se olham, não se cumprimentam e não se conhecem. Todos pensam
que são inimigos, mas nos momentos em que cada um relembra sua trajetória e
recordam com saudade os meninos que foram, se perguntam em que momento o amigo,
tão inteligente, se perdeu.
Conto publicado no livro "Caminhos da imprensa Rio-Grandense"
Tuesday, January 19, 2016
Wednesday, January 13, 2016
A estudante
Segunda-feira e eu, bêbada.
Deveria estar em casa, fazendo o trabalho de História da Psicologia. Disse num
bar da Cidade Baixa. Tem a impressão de que falou alto demais, mas parece que
as amigas nem ouviram.
Você falou alto sim, Luisa. E tem
bebido em demasia também, daqui um pouco começa a lamúria sobre o tempo
perdido. Aquele conhecido discurso de que depois de cinco anos de cursinho,
criou coragem e enfrentou os pais. Desistiu da medicina para a psicologia e
finalmente passou.
Do que é o trabalho, Lú?
Questiona uma das moças, deixando a voz interna longe e trazendo a jovem de
volta para a mesa do bar. A sensação de tontura parece mais intensa. Preciso ir
no banheiro, pensa enquanto começa a responder.
Sobre histeria. Já assisti Freud Além da Alma, que mostra como ele
ousou em usar a hipnose para tratar essa patologia. Mas preciso de mais
leituras, conta desanimada. Nunca entendi teu amor repentino pela psicologia,
até porque no primeiro semestre, tu passaste com notas baixas em todas as
matérias.
É essa a deixa para começar a
contar a historinha triste, daquelas que não são inverdades de fato, mas
mudamos daqui, contamos um pouquinho diferente ali e acaba virando uma mentira
que a gente tem certeza que é verdade. Vai Luisa, dá a sua versão. Não queria
mais que o pai pagasse o cursinho, se libertou e entrou na faculdade para
realizar um sonho. Não é isso que espalha por aí?
Luisa passou o trajeto até a
cobertura onde mora com os pais, ouvindo essa voz. Incomodada, chegou a chorar
no banco de trás do táxi... Se sabotou tantos anos moça, afinal, a adotada
nunca poderia ser médica como os irmãos e os pais. Cresceu ouvindo a história
bonita que a mãe contava, cheia de orgulho, que ela foi salva num parto
complicadíssimo, onde a mãe biológica não resistiu. Muito se perguntou quantas
vezes essa versão fora ensaiada. Nunca perguntaram o que ela queria. O pai não
iria mais pagar cursinho, estudasse qualquer coisa, mas entrasse numa
universidade. Foi o que fez.
Sobe os degraus do prédio cambaleando,
os segundos que espera o elevador parecem intermináveis. As portas abrem e ela
paralisa. Lá dentro tem o reflexo uma moça de vinte e poucos anos, maquiagem
borrada de bebidas, risadas e lágrimas. Bonita como ela, mas sem a malemolência
que o álcool adiciona à pessoa e o autocontrole de quem pode ter um ataque
histérico a qualquer momento. A mulher do reflexo tem uma beleza séria, seca,
julgadora e castradora. Como um superego.
Thursday, December 24, 2015
Balancete anual
O ano está acabando e eu não
consegui tirar todo pó do blog (meu velho e bom mimimi). Não consegui escrever
sobre a viagem a Bariloche com o meu afilhado, nem sobre o lançamento do livro da
oficina, mês passado - esses dois textos foram começados e se encontram devidamente parados - talvez
por complexo de jornalista que pensa que as coisas ficam velhas rápidas demais.
E nem sequer comecei um texto para o A. ou para o que ele faz eu sentir.
Por pouco, não consegui me
apresentar na dança esse ano, por falta de tempo. E embora isso não seja
prioridade na minha vida e mesmo sendo a pessoa mais sem ritmo do mundo, a
dança do ventre é umas das coisas que mais me fazem bem. E essa falta de tempo
se deu ao fato de ter sido um ano de trabalho intenso.
As melhores coisas foram as
viagens (assim que terminar o texto, vou arrumar as malas para Mendoza) e a
oficina literária. A alegria do meu irmão na sessão de autógrafos foi algo q eu
não esperava e me deixou muito feliz.
Mas nada foi mais surpreendente
do que essa história louca com o A., alguém que já conheço há anos, e de
repente se “adona” assim do meu coração. E com 30 anos estou descobrindo o que
é viver um relacionamento saudável.
Só quero seguir assim e escrever
mais em 2016, claro q isso só depende de mim. E quem sabe terminar os textos
iniciados, já que emoção não fica velha nunca.
Sunday, November 01, 2015
Sobre sonhos realizados
Este é o convite para o lançamento do livro "Nos caminhos da imprensa Rio-Grandense e Brasileira", do qual eu sou co-autora.
Pensem em feliz!
Saturday, October 03, 2015
Muito prazer
Sempre gostei de histórias e sempre fui silenciosa. Minha
relação com a palavra é intensa. Das lembranças da infância, as sessões com fonoaudiólogos
que me acompanharam por anos, são bastante nítidas. As palavras me assustavam.
Falar era difícil, complicado e trabalhoso. Um dos piores exercícios era ler algo
em voz alta. Porém, desde quando aprendi a escrever perdi o medo. Colocadas no
papel, as palavras me libertavam.
Essa foi minha primeira oficina literária, depois de várias
indicações de amigos que já haviam
passado pela experiência. Encontrei colegas, conheci muita gente bacana
e ainda não sei dimensionar tudo o que aprendi. Já no primeiro dia de aula,
percebi que seria um grande desafio escrever com tantos colegas escritores
bons. Não sabia que em toda aula teria que ler em voz alta os meus contos.
Ainda bem que a palavra que assusta, também liberta.
***Apresentação feita para o livro "Nos caminhos da imprensa
Rio-Grandense e Brasileira", do qual sou coautora. A obra é fruto da oficina de
criação literária Alcy Cheuiche.
Tuesday, September 29, 2015
Traçando histórias
Sem jeito, o jovem com uma pasta entra na sede do Sindicato dos
Metalúrgicos do ABC. Encara a secretária e pede para falar com o seu Henrique,
é o estudante que precisa entrevistá-lo, indicação do Luiz Inácio. A moça sorri
da formalidade forçada e fala alto, quase gritando: Henfil, o Caio chegou.
Logo um moreno, barbudo, de sandálias, calça jeans e camiseta vermelha
lhe estende a mão. Vamos conversar no bar da esquina, o sindicato fecha daqui a
pouco. Ah, pode me chamar de Henfil, diz ao jovem. Já sentados numa mesa na
calçada, Caio começa a entrevista, explica que é para um trabalho da faculdade
sobre o chamado novo sindicalismo.
Henfil explica o trabalho da Oboré,
uma cooperativa de profissionais da comunicação que prestam serviços para
sindicatos. É uma tentativa de ser um contraponto aos grandes meios de
comunicação que não dialogam com os trabalhadores e por outro lado, de fazerem
materiais sindicais mais atrativos, que cativem a base.
Somos a retaguarda dos
movimentos sociais. Temos que ir lá, meter a mão, ajudar naquilo que pudermos,
mas sempre na retaguarda. Nós não somos a vanguarda; os trabalhadores é que são,
disse ao estudante.
Caio soube também que Henfil e Luiz Inácio ainda não conhecem
pessoalmente, mas ele sabe que Lula o acompanha desde o Pasquim, que o pessoal da Oboré
estão trabalhando numa cartilha para o 3º Congresso dos Trabalhadores nas
Indústrias Metalúrgicas de São Bernardo e Diadema. A expectativa de todos é que
a atividade seja um marco para o movimento sindical.
Durante as três horas de conversa e muitas garrafas de cervejas, ficou
claro para o estudante que Henfil era um idealista, um Dom Quixote armado de
lápis, papel e senso de humor. Quem não entendeu muito foi o cartunista. Por
que justo ele foi o indicado para aquela entrevista meio sem pé nem cabeça,
sobre o movimento sindical, mas que falaram mais sobre os cartuns do que
qualquer outra coisa.
Caio é estudante de Ciências Sociais e nas horas vagas desenha, sonha em
viver de sua arte. Vai embora meio bêbado e orgulhoso da conversa com um dos
maiores cartunistas do Brasil. Na pasta leva os próprios desenhos, não teve
coragem de mostrar para o Henfil, mas tem certeza do futuro que vai traçar.
Sunday, August 30, 2015
Vítimas da guerra*
O professor caminha devagar pelos
corredores da escola, tem os cabelos brancos e a aparência de quem envelheceu
antes da hora. As costas parecem mais curvadas que o normal, não pelo peso dos
livros, mas por causa da tristeza e da impotência diante da inversão
supostamente natural da vida.
Alheio a tudo, procurando achar
um sentido para o futuro que resta, o professor reluta em entrar na sala de
aula. Nunca isso foi tão difícil, é o seu ofício diário há 30 anos, mas não
conseguiu identificar um momento tão árduo assim. O primeiro dia na sala de
aula, quando estava de ressaca, voltava de uma greve sem resultados, a época do
mestrado ou quando sua mulher estava prestes a ir para a maternidade... Foram
tranquilos perto desta manhã.
Formado em história, o professor
era apaixonado pela cultura gaúcha e especializado na guerra dos Farrapos.
Natural de Porto Alegre, desde que passou num concurso público, morava em
Viamão, feliz coincidência já que a cidade fora um local fundamental para a
história Farroupilha. Caçador de personagens esquecidos, havia dado o nome de
Luiz ao seu filho por causa de Luigi Rossetti, italiano, amigo de Garibaldi,
criador do O Povo, morto em Viamão
num 24 de novembro – dia do nascimento do seu menino - na época que o município
se chamava Setembrina.
O professor entra na sala do
quinto ano cabisbaixo. O silêncio dos alunos tem o peso de sua dor, podia ouvir
o que estavam falando, minutos antes. Os pré-adolescentes inquietos comentavam,
falavam alto, será que o sor vem, alguns se perguntavam. Todos viram, todos
sabiam, muitos compartilharam. Saiu até matéria na página policial do Diário de Viamão, guerra do tráfico faz
mais uma vítima, dizia a manchete. Era de conhecimento de todos que o Luiz da
Silva, 23 anos, morto no bairro Valença, com duas facadas quando ainda estava
em cima da moto, era o filho do professor de história.
Ele encara os alunos, por um
segundo pensa que a maioria está mais próxima de ser vítima da guerra do
tráfico do que herói em qualquer outra batalha, a tristeza se conforma com as
fatalidades da vida. Faz a chamada, pega o plano de aula, vê que a professora
substituta já começou a falar sobre a guerra dos Farrapos e suspira. Hoje vamos
falar sobre Luigi Rossetti, um dos personagens mais importantes da nossa
história...
*Escrito para a Oficina de criação literária Alcy Cheiuche
Saturday, August 08, 2015
3.0
Hoje completo 30 voltas em torno do Sol, a bordo desta
grande espaçonave chamada Planeta Terra. É o primeiro ano, em muitos, que quero
comemorar (o que mais fiz nos últimos meses foi celebrar). Quando era criança
tinha festas homéricas e não entendia muito aquela comemoração toda.
Há 30 anos, concluía a primeira etapa e me jogava nesta
aventura chamada vida na tridimensionalidade. Dizem que para fazer essa escolha
é necessário amor, em todos os sentidos, é que a nossa jornada só tem sentido se essa busca for permanente.
Eu apanhei muito da vida até compreender o óbvio. Foram 29
anos carregando traços do que ainda no útero entendi como abandono e rejeição
que vinha de um silêncio inexplicável. Para muitos, o oposto da vida é a morte,
para mim naquele momento pré nascimento era o silêncio.
Foi necessário matar muita coisa em mim para renascer, de fato,
viva. Há 30 anos eu escolhi o amor ao invés do medo. E, hoje, no dia do meu
aniversário, renovo este compromisso. Porque apenas ele é real. Apenas ele nos
faz seguir em frente.
E sim, vai ter comemoração mesmo!
Wednesday, July 15, 2015
Operária*
Clarice fuma um cigarro atrás do
outro. Vai até a janela e procura o mar entre as paredes dos prédios. Recém
separada neste final da década de 1950, mora com os dois filhos num apartamento
no Leme, Rio de Janeiro. Na Europa, havia enfrentado a solidão. Aqui no Brasil,
uma das batalhas é contra o calor.
Busca inspiração para mais uma
coluna do "Correio feminino - Feira
de Utilidades", que tem no jornal carioca Correio da Manhã. Ainda bem quem pode usar o pseudônimo de Helen
Palmer, acha vergonhoso escrever dicas sobre como arrumar a casa, o cabelo, o
guarda-roupas...
Pega as folhas de dentro do
envelope que chegou dias antes de Belo Horizonte. Observa as cópias de algumas
páginas do jornal semanal, O Sexo
Feminino, fundado em 1873 pela professora Francisca Senhorinha da Motta
Diniz, na pequena cidade de Campanha, no sul de Minas Gerais.
Se conseguisse abordar algum tema
mais político na coluna, pensa Clarice. Quem sabe falar da existência dessa
publicação, que manifestava ideais feministas. Ela lê numa das páginas “queremos a nossa emancipação – a
regeneração dos costumes; queremos a
instrução para conhecermos nossos direitos, e deles usarmos em ocasião
oportuna; queremos conhecer os negócios
de nosso casal para bem administrá-los quando a isso formos obrigadas; queremos
enfim saber o que fazemos, o porquê, o pelo quê das coisas; queremos ser
companheiras de nossos maridos, e não escravas;
queremos saber o como se fazem os negócios fora de casa; só o que não queremos é continuar a viver
enganadas”.
Clarice senta e pega a máquina.
Gosta de escrever assim, no sofá com a máquina sob as pernas. Suspira, lê outro
texto d’O Sexo Feminino, sobre amor
maternal. Considera dar dicas de como educar os filhos, mas desiste, pois ela
não tem as respostas. Está mais inquieta que o normal, pensa no seu próximo
livro e na demora do retorno da editora. A batalha também é contra a falta de
dinheiro.
Começa a escrever sobre a
importância de manter a casa arrumada, para evitar a invasão de insetos. Não há
nada mais nojento do que se deparar com uma barata esmagada no próprio quarto.
Ela para, lê as poucas linhas e não acha bom. Arranca a folha da máquina e
deixa de lado.
Fuma mais um cigarro e lamenta
como é ruim não falar sobre as angústias, suas e de todos. Clarice não sabe, mas o texto descartado é o
embrião do seu futuro livro A Paixão
Segundo G.H. que só será publicado em 1964.
Agora o mais importante é
entregar a coluna. Observa suas mãos e resolve escrever sobre a importância da
cor do esmalte. Acha o tom, é isso que Helen Palmer quer dizer. Enquanto ela,
trava sua batalha silenciosa contra a solidão.
* Conto produzido para a Oficina de criação literária Alcy Cheiuche.
Tuesday, June 30, 2015
Especial: edição mensal
Um único texto
compacto (nem tanto como gostaria). Tem lado A e lado B, além dos
extras.
Lado A
Esse mês foi incrível,
cheio de sensações e consciência dos momentos preciosos. Começou muito feliz
no feriadão com gente querida, negrinhos e balões na festa de um aninho do
San, filho do Júnior e da Andiara. Estar com eles sempre é bom, agora com o Santiago
é melhor ainda, dá para acreditar que um dia o mundo vai ser melhor.
Mas antes da festa
teve momentos de muita tensão e superação. Na sexta-feira de manhã, fiquei sozinha
com o San. Um bilhete tinha as instruções de como fazer a mamadeira e se
possível trocar a fralda, que só teria xixi.
A batalha já começou com a dificuldade para abrir a mamadeira, que coisa
dura! O tempo passava e eu pensando no que ia dizer quando a minha prima
chegasse: ele tá faminto porque não achei o botão que abria a mamadeira...
Seria vergonhoso.
Até que deu certo. Coloquei o lindo deitado e dei a mamadeira para ele, que toma sozinho
(não tenho parâmetro para comparar, então acho muito adulto ele tomar o próprio mama
com tanta autonomia). Como o San é muito esperto e depois da batalha com a
mamadeira, se deu conta que ele era o ser dominante da situação e resolveu
tirar proveito.
Fui lavar louça
sempre conversando com ele que tossia, eu saia correndo e quando chegava perto,
ele sorria o sorriso mais safado e continuava mamando, fez isso diversas vezes.
Sim, um bebê de um ano tirou sarro da minha cara. Fase 1 superada e eu me achando, se até aquele momento tudo tinha dado
certo, ele não havia chorado, só me restava trocar a fralda, só iria ter xixi
mesmo.
Seguia conversando, explicando que a situação podia ser normal para
ele, mas para mim era tudo novidade, então que pegasse leve com a adulta aqui.
Peguei uma fralda nova e não achei nem uma indicação do lado que fica na
frente... Inteligente que sou, me dei conta que era só olhar na que iria
tirar. Abri a fralda. NÃO tinha só xixi!
Era pegadinha dos
meus primos, só podia. Claro que eles sabiam que não teria só xixi. Eles
deveriam estar filmando tudo só para rir da minha cara para o resto da vida.
Vingança do meu primo por eu sempre lembrar o que ele fez no sofá da minha casa
com 12 anos. E ainda usaram o filho como comparsa.
Pensei em fechar a
fralda e deixar assim. Mas falar o que para minha prima: não tive coragem ou era
tanta merda que me assustei? Seria mais vergonhoso que não conseguir abrir a
mamadeira. E o San estava lá, lindo, brincando com a fralda limpa, balançando
os braços, tentando conversar... Ele não merecia ficar cagado, apesar de estar
tirando com a minha cara pela segunda vez.
Troquei a fralda.
Acho que dei prejuízo para o meu primo, pois quase acabei com os lenços
umedecidos. Minhas unhas até que não atrapalharam. O San estava lindo e limpo, era
só colocar a fralda limpa, claro que devido a tensão do momento não vi o lado
que fica na frente. Foi no instinto, mas pensei que tivesse errado porque eu
fechava de um lado, o San abria do outro. Examinei de todas as maneiras
possíveis e não achei outro jeito de fechar... Era só ele, tirando sarro de mim
pela terceira vez. Fase 2 concluída com
sucesso.
Depois, o San se distraiu um pouco com um programa de TV
(esses de dona de casa que passam pela manhã) onde tinha um pessoal dançando.
Ele foi dançar também e caiu sentado, choramingou. Tive a brilhante ideia de
dançar, ele parou e começou a sorrir. Mas eu parava de dançar, ele ameaçava a
chorar, até que numa das vezes ele se entregou e riu. Era mais uma tirada de
sarro da minha cara, já perdi a conta de quantas foram. Medo do que esse guri
vai fazer comigo no futuro.
Em seguida, a Andiara chegou. Todos se alegraram,
principalmente eu. Sobrevivemos! Deu medinho sim, mas fiquei feliz pela
confiança, acho que ninguém da família deixaria os seus filhos comigo, além
deles. Se eu nunca ser mãe, ao menos troquei fralda uma vez na vida.
Fiquei nervosa também para fotografar o aniversário. Meu
primo além de fotógrafo é virginiano, deve me criticar bastante mentalmente, já
que é muito educado e não fala para mim. Ele me explica tudo direitinho, eu
faço cara de quem entendeu e seja o que Deus quiser. Torci muito para os confetes
caírem em câmera lenta e garantir mais alguma foto. No final, eu achei confete
até dentro do sutiã.
Óbvio que aproveitei muito o feriado. Adoro estar com eles,
sempre rimos muito, até das desgraças. E ainda vamos rir muito desses dias. Voltei
leve para casa, apesar da orgia gastronômica.
Na outra segunda, uma semana depois, teve o show do Backstreet Boys. Fiquei uma
pilha, super ansiosa, nem consegui trabalhar. Mandei mensagem para o meu chefe
explicando que meu namorado imaginário estava em Porto Alegre e eu tinha que
aproveitar. Ele respondeu: ok, nem sabia que tinha namorado. Não perdi tempo
explicando.
Não imaginava que ficaria tão mexida assim. O amigo Alexandre
foi comigo, começamos a beber na fila imensa, estava muito frio. Mulheres em
torno dos 30 anos era o que mais tinha, a maioria com faixas na cabeça,
camiseta, cartazes, todas falando no Nick, AJ, Howie, Kevin e Brian como se
fossem velhos conhecidos. E eram. Eu usei a mesma faixa do show de 2001, já desbotada,
é verdade, mas ainda se lê Nick.
O show foi perfeito,
todo mundo cantando e dançando com anos atrás. Foi uma apresentação bem
mais simples do que a de 2001, em São Paulo, quando eles estavam no auge. Nunca
mais havia escutado as músicas deles, mas cantei todas, as letras estavam
arquivadas num lugar muito especial, da memória e do coração.
E que sorte a minha realizar um sonho pela segunda vez. Impossível
não comparar a vida da adolescente que fui e da adulta que me tornei. As
pessoas que faziam parte do meu convívio, os sonhos, as mudanças... Falávamos
disso enquanto eu o Xande voltávamos para casa e para a vida real...
Lado B
A maldita falta de
tempo para escrever os textos acima é tão normal que eu nem lamento mais.
Apenas sigo o baile neste ritmo acelerado, tentando manter a cabeça o mais
distante das pressões externas. E esse lado B fala disso, se no começo do mês
estava num grau de paz bastante elevado, no meio do mês isso não aconteceu.
Coincidentemente, na terça depois do show, fiquei triste,
não sei se foi a nostalgia das lembranças, mas passei boa parte do dia chateada
– o que piorou depois de uma reunião no trabalho. Na quarta, meu ex namorado
(que não foi nada legal comigo) me procurou, trazendo a tona mágoas que
demoraram muito para deixar de doer. Quinta, tive dificuldade de escrever no
meu caderninho da gratidão (sim, eu tenho um). Na sexta, a possibilidade de
algo que gostaria muito me animou, mas me deu medo de estar criando expectativas. Sábado ouvi que era mal-amada, fui dormi
chorando e perguntando por que sou mal-amada.
Domingo me esforcei
para melhorar o astral mesmo com uma pontinha de tristeza dessas que a gente
não sabe de onde vem. Segunda, fiquei bastante chateada por algo que queria não
rolou (o que havia me animado no sábado). Chorei, chorei e chorei até esvaziar.
Na terça arrastei minha chateação por aí, inclusive na testa, já que não sei
disfarçar nada. Porém, quando voltava da aula de criação literária lembrei que
não havia jeito, enchi algumas páginas do meu diário com o mais puro drama e
orei para isso ser só tristeza e passar logo.
E já passou. Mas
liguei todas as luzes vermelhas, fiquei com medo de ser o começo de um filme
que já vi e revi algumas vezes. Fazia tempo que eu não passava por uma
sequencia de dias tristes e para quem já teve depressão, tristeza prolongada é sempre um sinal de
alerta.
Extras
Neste momento que escrevo são perto das 8h de domingo, 28 de
junho, estou num hotel em Piratini, cidade no sul do estado que foi a primeira
capital da Guerra dos Farrapos. Aqui moraram Bento Gonçalves, Garibaldi e Luigi
Rossetti (que criou o jornal O Povo), vim para conhecer esse cenário tão
importante para a história gaúcha com os meus colegas da oficina de criação
literária.
Nos divertimos muito no trajeto, na recepção pelo Secretário
de Cultura do município, na guia vestida de Anita, no jantar maravilhoso regado
a vinho, declamações de poesias e música
francesa, nos autógrafos que distribuímos (sim, teve isso também). Bebi vinho e
cachaça até agora pouco e lembro de tudo (até do Porão Sertanejo), acordei com
o barulho de uma porta batendo e peguei o note para revisar o texto. Porém, lembrei
que amanhã seria o aniversário da vó Helga. Amanhã eu termino, em homenagem a ela. Agora
vou dar uma volta e passar na missa, a turma toda ficou de ir.
A única vez que peguei o texto ontem, me emocionei. Cedo vi
meus tios e primas falando da falta que a vó faz, mesmo depois de 20 e poucos
anos. Conversei com uma prima sobre o
gosto da comida e do perfume que ela usava que às vezes vem nos visitar. De
noite, falei com a mãe sobre ela e enchemos os olhos d’água. O pai lembrou que
ela adorava uma caipirinha e disse que a vida seria melhor se ela estivesse
aqui.
Reviso esse texto
agora, durante o trabalho no último dia do mês. No céu, tem Júpiter em
conjunção com Vênus, em Leão. Essa é uma configuração astral muito boa, de
ampliação, de colheita. Olhando para trás, apesar da tristeza, eu estive
exatamente onde queria estar, em todos os momentos. Para o futuro, as três
viagens planejadas e já acertadas, me animam. Às vezes, quando peço para ser merecedora do afeto e da
coragem de alguém, me dou conta que os nossos desejos não podem nunca nos roubar a presença
do momento. Eu só quero estar presente em mim.
Sunday, May 24, 2015
Retrato falado
Ao
som de Já É, do Lulu Santos
Quando
acordo cedo para cozinhar no domingo, brinco de ser quem eu não sou nos outros
dias da semana. E acordar cedo no único dia que posso dormir é algo que me
mostra o quanto todos nos mudamos, o quanto mudei.
Quando
me dou conta de onde estou e em quem me tornei, lembro os outros caminhos que
inevitavelmente tive que deixar para trás. Embora ainda crie suposições com
todos os infindáveis “se” que me restam. Se tivesse feito turismo, se tivesse
estudado história, se tivesse assinado o contrato para ser trainee de uma
grande empresa, se tivesse ido morar em Santa Maria, se tivesse feito balé e
não dança do ventre...
Por
mais feliz e realizada que uma pessoa pode ser, viver sempre será abandonar
caminhos e possibilidades e imaginar outras vidas com o que se deixou partir.
Por isso que a única coisa imperdoável para mim é ficar em cima do mundo. Se a
nossa história é só uma gota dentro de um oceano de possibilidades, eu que vá
fundo, que mergulhe de cabeça e faça da minha gota o meu mar.
Quando
brinco de caça palavras com a minha inspiração sou o mais puro que já fui um
dia. Não há passado, nem futuro, embora minhas histórias sirvam para enfeitá-los.
Já perdi o medo das sensações que elas me provocam, me permiti aprender que tem
que tocar, tem que ser forte e intenso, tem que fazer perder o ar e se
espantar.
Quando
eu te dou meus versos, perceba a minha alma, por favor. Nem meu sexo e nem o
meu gozo são mais íntimos que minha escrita. Nem antigos amores, por mais que
me inspirassem mereceram o conhecimento do que escrevo. Qualquer coisa a mais
que pretenda te dar, deixarás de ser livre e pouco a pouco verei tudo morrer. A
única maneira de sermos perfeitos e nas palavras.
Por
mais feliz e realizada que eu pareça, tem dias que a solidão anda de mãos dadas
comigo. Guardo tanta coisa comigo que me assusto do meu tamanho. Sempre falei
para o meu terapeuta que não tinha muita escolha não, o jeito é viver bem,
apesar de. Sou tão “Maria do passo certo” que faço a lição de casa direitinho, estou
até parecendo feliz nas fotos.
Wednesday, April 29, 2015
Sunday, April 05, 2015
Dos lados de se gostar
Nem
sempre é fácil gostar de você. Tem vezes que dói, irrita e incomoda, tem noites
que mais choro do que durmo. Nem sempre afetos bons se comportam como devem.
Acredite, tem momentos que eu preferia não sentir. Queria ser pedra. Ser nuvem.
Ser nada. Momentos assim são minoria, mas existem.
Sinto
falta, vontade, saudade e isso dói. Depende do momento, se for à noite, deixo
vir (passa mais rápido), escrevo, choro, escrevo, choro, oro e pego no sono. Se
for durante o dia, respiro fundo e me foco em outra coisa, no máximo vem um nó
na garganta que aproveito para treinar uma respiração mais consciente e meu autocontrole. Não, eu não vou chorar dentro do metrô, ou agora com tanto trabalho para
fazer, ou no meio da corrida, ou durante um exercício do pilates, ou numa mesa de bar dando risada com os amigos... Quase
sempre, eu venço.
Me
percebo idiota – e quem não é quando gosta? Na vontade de te contar tudo e de
perguntar tudo. Você seria um excelente amigo porque sempre gostei de conversar
contigo. O problema é que não sinto tesão pelos meus amigos. Precisava ser
assim? Inteligente, humano, ter esse olho azul lindo, os cachinhos que sempre vão
te dar essa aparência de guri mesmo quando fores um velho recalcado e ainda me
dar corda? Sim, talvez você nem perceba, mas me dá corda. Só que isso não
significa nada, não há espaço na tua vida para mim e nenhum movimento da tua
parte para que possa ter. Quando me dou conta disso, vem a irritação.
E
quando começo a imaginar que você, obviamente, deve ter afeto por alguma
mulher, que não eu. Monto mil opções na minha cabeça (lembrando que sou supercriativa),
então sai de tudo. Loira, ruiva, morena, negra, baixa, magra, alta, gorda, de perto,
de longe, amiga de infância, vizinha, conhecida de viagem, ex-professora, paulistana,
carioca, baiana, uruguaia, alemã, chilena, estadunidense, cubana, marciana,
alguém que você nem conheceu ainda, um amor platônico, distante, impossível,
possível, próximo, real. Meu senso de humor tão exageradamente
dramático não serve para nada nessas horas. Acho que te faria rir ou talvez até já faça. Deve ter alguma coisa
boa para você nesta história. Tenho certeza que na hora que leu “velho
recalcado”, sorriu.
Quando comecei a escrever esse texto estava
mais triste que feliz, mas como é necessário pensar e sentir antes de por no
papel, a energia mudou. Isso não significa não ter consciência das coisas, mas
só perceber que depois de tanta coisa ruim que já aconteceu comigo, o fato de
gostar de alguém e não pirar é bom. E não esperar nada em troca é libertador.
Dizem que amor é assim, não espera nada. Como aprendi a não curtir esse papo de amor,
pois penso que estamos muito aquém disso, falo de afetos. Por não esperar nada
em troca e ainda assim me sentir feliz com o que sinto, considero esse afeto
bem verdadeiro e saudável. E vem a certeza de que gostar de você é bom, embora nem
sempre seja fácil.
Começou
a tocar uma música da tua banda preferida no rádio, incrível como as coisas acontecem
quando estamos sintonizados com o todo. Fecho os olhos e converso com nossos
anjos da guarda. Para o meu, peço que
você venha me ver num sonho. E para o seu, que cuide bem de ti, tão bem quanto
acho que eu cuidaria. E que você num ato de descuido, pense em mim.
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