Sunday, May 24, 2015

Retrato falado




Ao som de Já É, do Lulu Santos


Quando acordo cedo para cozinhar no domingo, brinco de ser quem eu não sou nos outros dias da semana. E acordar cedo no único dia que posso dormir é algo que me mostra o quanto todos nos mudamos, o quanto mudei.

Quando me dou conta de onde estou e em quem me tornei, lembro os outros caminhos que inevitavelmente tive que deixar para trás. Embora ainda crie suposições com todos os infindáveis “se” que me restam. Se tivesse feito turismo, se tivesse estudado história, se tivesse assinado o contrato para ser trainee de uma grande empresa, se tivesse ido morar em Santa Maria, se tivesse feito balé e não dança do ventre...

Por mais feliz e realizada que uma pessoa pode ser, viver sempre será abandonar caminhos e possibilidades e imaginar outras vidas com o que se deixou partir. Por isso que a única coisa imperdoável para mim é ficar em cima do mundo. Se a nossa história é só uma gota dentro de um oceano de possibilidades, eu que vá fundo, que mergulhe de cabeça e faça da minha gota o meu mar.

Quando brinco de caça palavras com a minha inspiração sou o mais puro que já fui um dia. Não há passado, nem futuro, embora minhas histórias sirvam para enfeitá-los. Já perdi o medo das sensações que elas me provocam, me permiti aprender que tem que tocar, tem que ser forte e intenso, tem que fazer perder o ar e se espantar.

Quando eu te dou meus versos, perceba a minha alma, por favor. Nem meu sexo e nem o meu gozo são mais íntimos que minha escrita. Nem antigos amores, por mais que me inspirassem mereceram o conhecimento do que escrevo. Qualquer coisa a mais que pretenda te dar, deixarás de ser livre e pouco a pouco verei tudo morrer. A única maneira de sermos perfeitos e nas palavras.

Por mais feliz e realizada que eu pareça, tem dias que a solidão anda de mãos dadas comigo. Guardo tanta coisa comigo que me assusto do meu tamanho. Sempre falei para o meu terapeuta que não tinha muita escolha não, o jeito é viver bem, apesar de. Sou tão “Maria do passo certo” que faço a lição de casa direitinho, estou até parecendo feliz nas fotos.

Wednesday, April 29, 2015

Sunday, April 05, 2015

Dos lados de se gostar



Nem sempre é fácil gostar de você. Tem vezes que dói, irrita e incomoda, tem noites que mais choro do que durmo. Nem sempre afetos bons se comportam como devem. Acredite, tem momentos que eu preferia não sentir. Queria ser pedra. Ser nuvem. Ser nada. Momentos assim são minoria, mas existem.

Sinto falta, vontade, saudade e isso dói. Depende do momento, se for à noite, deixo vir (passa mais rápido), escrevo, choro, escrevo, choro, oro e pego no sono. Se for durante o dia, respiro fundo e me foco em outra coisa, no máximo vem um nó na garganta que aproveito para treinar uma respiração mais consciente e meu autocontrole. Não, eu não vou chorar dentro do metrô, ou agora com tanto trabalho para fazer, ou no meio da corrida, ou durante um exercício do pilates, ou numa mesa de bar dando risada com os amigos... Quase sempre, eu venço.

Me percebo idiota – e quem não é quando gosta? Na vontade de te contar tudo e de perguntar tudo. Você seria um excelente amigo porque sempre gostei de conversar contigo. O problema é que não sinto tesão pelos meus amigos. Precisava ser assim? Inteligente, humano, ter esse olho azul lindo, os cachinhos que sempre vão te dar essa aparência de guri mesmo quando fores um velho recalcado e ainda me dar corda? Sim, talvez você nem perceba, mas me dá corda. Só que isso não significa nada, não há espaço na tua vida para mim e nenhum movimento da tua parte para que possa ter. Quando me dou conta disso, vem a irritação.

E quando começo a imaginar que você, obviamente, deve ter afeto por alguma mulher, que não eu. Monto mil opções na minha cabeça (lembrando que sou supercriativa), então sai de tudo. Loira, ruiva, morena, negra, baixa, magra, alta, gorda, de perto, de longe, amiga de infância, vizinha, conhecida de viagem, ex-professora, paulistana, carioca, baiana, uruguaia, alemã, chilena, estadunidense, cubana, marciana, alguém que você nem conheceu ainda, um amor platônico, distante, impossível, possível, próximo, real. Meu senso de humor tão exageradamente dramático não serve para nada nessas horas. Acho que te faria rir ou talvez até já faça. Deve ter alguma coisa boa para você nesta história. Tenho certeza que na hora que leu “velho recalcado”, sorriu.

 Quando comecei a escrever esse texto estava mais triste que feliz, mas como é necessário pensar e sentir antes de por no papel, a energia mudou. Isso não significa não ter consciência das coisas, mas só perceber que depois de tanta coisa ruim que já aconteceu comigo, o fato de gostar de alguém e não pirar é bom. E não esperar nada em troca é libertador. Dizem que amor é assim, não espera nada. Como aprendi a não curtir esse papo de amor, pois penso que estamos muito aquém disso, falo de afetos. Por não esperar nada em troca e ainda assim me sentir feliz com o que sinto, considero esse afeto bem verdadeiro e saudável. E vem a certeza de que gostar de você é bom, embora nem sempre seja fácil.

Começou a tocar uma música da tua banda preferida no rádio, incrível como as coisas acontecem quando estamos sintonizados com o todo. Fecho os olhos e converso com nossos anjos da guarda.  Para o meu, peço que você venha me ver num sonho. E para o seu, que cuide bem de ti, tão bem quanto acho que eu cuidaria. E que você num ato de descuido, pense em mim.

Thursday, April 02, 2015

A paixão continua

Minha adolescência se deu entre o final de década de 90 e o começo dos anos 2000, no auge das boys bands. E eu que havia resisto bravamente à onda do axé baiano e pagode meloso, sucumbi quando vi Nick Carter dançando e cantando na chuva (mais clichê impossível) no clip de Quit Playing Games With My Heart.


Sim, fui uma Backstreet fã! Tinha todos os CDs, pastas e pastas com fotos e reportagens, camisetas... Não perdia um Disk MTV, gravava tudo que podia em fitas VHS (que ainda existem), me quebrava para colar os pôsteres até no teto do meu quarto, torturava a família, os amigos e os vizinhos com o repertório estrategicamente planejado, de refrões fáceis e pegajosos. Em agosto de 2000, fiz 15 anos e falei para o pai e para a mãe que não queria nada, que era para guardar o dinheiro para o dia que eles viessem ao Brasil. Bom, em maio de 2001 fiz a primeira viagem da minha vida sozinha, peguei um ônibus até São Paulo, para ver o show dos Backstreet Boys, no estacionamento do Anhembi.


Depois disso, aconteceu o óbvio: eles foram perdendo espaço nas paradas de sucesso, eu fui mudando, as fotos saíram das paredes do meu quarto, passei a preferir músicas mais elaboradas, tive outras paixões (nem todas possíveis) por garotos que eu conhecia de verdade, fui em shows melhores e todo o arsenal de fã foi encaixotado e guardado.


Mas não esquecemos nada que fez parte da nossa vida, só a colocamos no departamento das coisas passadas e às vezes, quando escutava sem querer alguma música e sai cantarolando com a mesma segurança de 15 anos atrás ou quando alguém falava neles, meu primo Júnior sempre fala (acho que de toda a família, ele foi o que mais sofreu com a tortura Backstreet), voltava até essas memórias e sorria - estava tudo intacto.


E qual não foi a minha surpresa ao saber que os Backstreet Boys estavam com shows agendados no Brasil para junho desse ano e que Porto Alegre estava na agenda? Numa fração de segundos, pensei “não vou pagar esse mico”, que logo foi substituído por “não perco esse show por nada!” Desde então, tenho observado coisas estranhas, várias amigas confirmando presença no show. Pessoas que eu não falava há anos mandando mensagens do tipo: “vamos no show do BSB, né?”, no metro ouvi um grupo de mulheres discutindo qual era o mais bonito, Nick, Brian, Kevin, AJ ou Howie?


Outro dia, chegando no pilates, escutei uma moça dizendo para a instrutora: “dia 15 de junho não venho, vou num show... Meu namorado nem sonha que vou passar o aniversário dele com o Kevin.” Dia 31 começou a venda de ingresso para o show em Porto Alegre, diversas mulheres posaram em frente à loja, em duas horas se esgotaram vários setores. Infelizmente, só consegui ingresso para a pista normal (queria a VIP), fui comprar no fim da tarde do dia 31, o que foi de fato, tarde. E ainda assim, havia fila, vi uma moça vestida de maneira social (salto fino, saia até o joelho, blazer, meia calça...), parar no meio da loja e beijar o ingresso dela!


Tem uma professora espanhola que está fazendo intercâmbio em Porto Alegre, amiga de uma amiga minha, que mudou a data de retorno para Madrid só para ir ao show. Semana passada uma amiga casada, intelectualizada, mãe de dois filhos postou no face: “vou trair o Taylor Hanson (de outra boy band, porém musicalmente mais evoluído), para ir ver o Brian Littrel.” Em São Paulo e no Rio de Janeiro, os ingressos também se esgotaram no primeiro dia, mas lá foram agendados shows extras.


Eu não era a única com essa paixão adormecida. Estou curtindo muito essa nova onda, é estranho, tanta coisa aconteceu de 2000 para cá. Todas que vão no show usam a desculpa de que é pelos 14, 15 anos, que vão só acompanhar a adolescente que foram e não é de se estranhar se for um choro só neste show (eu mesma, vou levar meus lencinhos).


Essa história toda me fez lembrar que o Nick Carter vai ser sempre meu namorado imaginário, por mais que o tempo passe. Nem sei porque sofri tanto com meu ex. Afinal, meu namorado é perfeito, loiro de olhos azuis, 1,85 de altura (alto, do jeito que eu gosto), de voz aveludada, canta numa banda com os amigos, mora em outro continente (ainda bem que nunca achei distâncias geográficas um empecilho). Agora em junho vem me ver, vai até tocar em Porto Alegre, várias amigas estarão presentes, algumas são afins dos amigos dele.


Vai ser muito divertido, depois voltaremos para casa com a alma leve, como tínhamos quando éramos adolescentes e no outro dia ninguém vai se importar de acordar cedo, se vestir de adulta e ir trabalhar, encarar os amores reais, que deram certo ou não, os filhos, os chefes... Vai ter uma menina, de 13, 14, 15 anos realizada dormindo dentro da gente.


 

Friday, March 20, 2015

Tardio


Era tarde, o relógio mostrava. Mas parecia que falava, que gritava tamanho era o desespero em se dar conta que era tarde.

Caminhou pelas ruas sem direção. Sua mente era tomada por uma enxurrada de ideias, mas não sabia nem qual era a palavra certa naquele momento.

A situação que se metera, ora angustiava, ora causava euforia. E se perguntava “não seria isso a vida?”

Corria para chegar em casa e resolver o que fazer. Havia urgência, mas também medo, já que aumentava o trajeto por ruas onde não costumava passar.


Quando chegou em casa, já estava com um sorriso contente no rosto. Tudo o que estava ali, bastava, só precisava esquecer que era tarde. E foi o que fez.  

**Primeiro texto produzido, no primeiro exercício da primeira aula da Oficina de Criação Literária que estou fazendo.

Friday, February 27, 2015

Terapia do renascimento


Meu nome é Renata, nasci no dia 08 de agosto de 1985, com o sol em Leão (signo do ego) e renasci no dia 08 de fevereiro de 2015 com o sol em aquário (signo do futuro). Meu nome significa “aquela que renasce.”

Algumas semanas atrás, tive a oportunidade de passar pela experiência mais incrível da minha vida. O Rebirthing ou a Terapia do Renascimento é um método holístico que usa as técnicas de respiração denominadas “respiração conectada, respiração circular, respiração consciente, respiração espiritual ou respiração de energia intuitiva”, com o objetivo de potencializar a conexão entre expiração e inspiração.

Esta técnica traz para o corpo e a mente, a purificação pelo ar, pelo prana, a mais pura Energia Divina, limpa o sangue, o sistema nervoso, o estresse acumulado, as emoções e mágoas antigas guardadas em todas as células e, consequentemente, promove a cura para muitos males, de maneira simples e poderosa. Muitos o consideram como o "novo yoga", "yoga da vida eterna" ou "yoga da longevidade".

Dos meus 17 aos 20 anos fiz yoga e na primeira aula, o professor falou sobre isso. Claro que eu não prestei atenção porque não era o momento, não estava preparada. E como as coisas acontecem no tempo certo, isso tudo veio (ou voltou) a tona, agora. Aliás, voltar para a yoga é prioridade no próximo mês, chega de andar distante de mim. 

Voltando ao Rebirthing: a terapia foi descoberta por Leonard Orr de maneira intuitiva, numa banheira de água quente onde buscava simular o útero materno. Durante o banho, sua respiração começou a se alterar e Leonard vivenciou o momento de seu nascimento. Eu passei por isso. Sim, eu renasci e desde então procuro as melhores palavras para descrever as sensações inexplicáveis que tive. E acreditem, pode parecer exagero da minha parte e ainda assim, não chegará nem perto do que realmente foi.

O Rebirthing foi realizado como uma dinâmica num curso que fiz, onde incluía meditação, técnicas de respiração e hipnose. Fui movida pela curiosidade e durante as mais de 40 horas que fiquei isolada num hotel, senti medo, raiva, alegria e fui constantemente surpreendida. Nenhum tipo de estimulante externo (álcool, cigarros e qualquer outro tipo de droga) era permitido e todas as dinâmicas culminaram com o renascimento.

Fiz a viagem mais louca da minha vida, de cara. Meu corpo passou por sensações que eu não tinha consciência que já tinha vivenciado, me dei conta das obviedades que moravam em mim, acordei potencialidades, me senti viva, intensamente viva e tudo consciente. Foi melhor que chá de cogumelo, mais dolorido que tatuagem, mais intenso que orgasmo, me trouxe mais paz que voar de asa-delta.

Passar por essa experiência de reviver os meses no útero e o momento do nascimento é um presente que todo mundo deveria se permitir. Penso que para qualquer pessoa será gratificante, no meu caso, revivi todo o AVC que minha mãe teve quando estava grávida de 3 meses de mim. Senti medo, muito medo, me senti abandonada, não entendia aquele silêncio todo, mas valeu cada minuto.

Me emociono quando lembro, principalmente da sensação muito forte de que antes dos meses que a mãe passou no hospital, eu estava num ambiente muito festivo, de alegria e celebração. Depois do Rebirthing, a mãe me disse que contou para toda a família que estava grávida no natal e que todos estavam muito felizes (ela já tinha perdido um filho, que nasceu morto anos antes). Senti tudo isso! Lembrei também da festa do meu primeiro aniversário. Sério! Eu estava encantada com o sapato branco que estava usando e senti minha mão doer de tanta força que eu fazia segurando o dedo de algum adulto enquanto eu dava uns passos.

Mudei muito depois disso. Mudou a mulher de quase trintas anos. Mudou a mãe que um dia eu posso me tornar e mudou a maneira que eu enxergo qualquer criança, porque tive a chance de adulta sentir o que elas sentem. Infelizmente, a gente vai crescendo e se perdendo, se sentindo cada vez menos, não nos reconhecemos porque vivemos cada vez mais para os outros e menos para si.

Foi necessário fazer a viagem mais maluca da minha vida, para dentro de mim, para me dar conta do óbvio, para encontrar todas essas sensações que já me fizeram vibrar e estavam perdidas em algum canto da mente, da realidade, do medo, do julgamento, dessa correria que nos amortece para os detalhes.

Acredito que só vou ter noção do impacto daqui alguns anos, mas afirmo que renascer sem morrer, nascer novamente enquanto se vive nos dá a certeza e a gana de aproveitar cada momento. A gente percebe todo instante a vida nos dizendo “é bom existir. Permita-se!” 

Monday, January 26, 2015

Para sempre nosso, Caio F.


Ao som de Menino Deus, do Caetano Veloso

Querido Caio,



Assisti sábado o documentário “Para sempre teu, Caio F”, da Paula Dipp e do Candé Salles. Emocionante, como você era lindo menino! Teus amigos deram depoimentos sobre você, a Déa Marques, o Luiz Arthur Nunes, o Luciano Alabarse, essa gente que eu já me sinto íntima, porque li muitas das cartas que vocês trocavam. Falaram da tua obra e da tua pessoa. Lembraram fatos, contaram histórias, elogiaram os textos e se emocionaram. Seus irmãos também falaram, deve ser difícil para eles.

A Regina Duarte fez uma fala linda, disse que muita coisa ela só se deu conta depois de ler você, que pinçou coisas na consciência dela que poderiam passar a vida toda, adormecidas. É isso Caio! Você fez isso comigo também e com tanta gente por aí. Lembra que nossa relação não foi assim, de uma hora para outra. Li Sargento Garcia no colégio e foi muito forte para uma menina de 14 anos. Depois, já na faculdade uma amiga vivia falando bem de você e eu resistia, até o dia que um professor levou Os Sobreviventes como exemplo de texto pós-moderno. Me ganhou, foi um amor à segunda leitura.

Sério Caio, você tão virginiano me trouxe detalhes da vida que eu nunca teria reparado. Me falou de amores falidos e bem sucedidos, me explicou a fossa e a finitude  da vida, me mostrou o lado feio, sujo e sombrio das pessoas, me descreveu o sexo das mais diversas maneiras, me acompanhou quando mergulhei de cabeça no fundo do poço e me deu a mão quando foi necessário voltar para o lado leve do mundo. Tudo através dos teus textos tão crus, verdadeiros, sem firulas, tudo muito simples, mas igualmente intenso. Ensinou que a gente sempre pode tirar um coelho da cartola ou enfeitar até a amargura.

Teve uma vez, eu estava numa estação de trem na Áustria, era madrugada. Com meus 25 anos, fazia uma viagem de mais de dois meses pela Europa e sozinha. Aquele dia estava cansada, há dias eu não conversava com ninguém. Tinha vindo de Munique, descido numa estação de Viena no meio da tarde, almoçado ali mesmo, dado uma volta pelas ruas próximas, pegado um ônibus para essa estação que estava onde pegaria o trem lá pelas 2h48 (lembro que era um horário quebrado e ainda assim, os trens nunca se atrasavam) para Milão.

A estação ficava nos arredores de Viena, no meio do nada, eu fiquei umas quatro horas lá, sozinha, esperando o trem que veio da Rússia. Virou até história, os amigos pedem como foi mesmo a história do tal trem russo... O fato é que comecei a entrar em pânico, eu que sempre lidei bem com a minha solidão, sentia ela arranhar, porque naquele momento, num país estranho, de passagem, com um mochilão nas costas, eu era ninguém Caio, eu era só solidão. Lembrei de uma das suas cartas que você relatou algo parecido quando estava sozinho no interior da Escócia, disse que tinha vontade de se machucar para ter uma dor física que desviasse o foco da dor interna. Eu sentia isso. Ali, eu chorei metros cúbicos enquanto esperava o trem russo, que chegou pontualmente e me levou. Pior que o peso da mochila, só o peso da solidão. Mas você me acompanhava.

Teve outra vez, que eu tava triste, não me lembro o motivo, lia alguma coisa sobre As Frangas, sempre engraçado. Mas eu chorava desesperadamente e pensava que “as frangas eram a válvula de escape do Caio”, a gente tem que criar ilusões e histórias com finais felizes para aguentar essa barra pesadíssima que é a vida.

Me sinto íntima até das tuas frangas. Tenho um amigo que não gosta de você e às vezes isso é tema de discussões intermináveis. Qualquer pessoa que goste de mim, leverá você, o Fito Paez e músicas árabes de brinde. Assim como qualquer pessoa que goste de você, levará as frangas e a Ângela Rô Rô como anexo. Nós e nossas extensões...

Alguém no documentário disse que você era muito gentil, que mandava recados e bilhetinhos para os colegas de trabalho, que não poupava esforços na hora de agradar quem amava, na hora pensei “é o nosso ascendente em libra” que nos torna mais humanos. Meu fogo leonino e sua terra virginiana são espalhados pelo ar da justiça libriana.

Bah Caio, falando dos astros, o mundo anda bem virado. Assim como os seus amigos, me pergunto o que você pensaria se ainda fosse vivo (em 2016 fará 20 anos que você se foi). Ano de Marte esse 2015, já viu né, disputas, guerras, batalhas, tudo a flor da pele, muito excesso, egos em ebulição -  Júpiter está em Leão. Quando será que vamos saber canalizar positivamente a energia do Universo?

A Veja, aquela revista que você trabalhou, é hoje o pior exemplo do jornalismo brasileiro. Jornalistas continuam quando pouco e trabalhando muito. Mas escrever ainda é  libertador. E a internet que você conheceu tão superficialmente, se tornou fundamental, o que você pensaria sobre essa orgia virtual? Temos também as redes sociais, no Facebook  você é rei Caio, o que me deixa ora orgulhosa, ora irritada.

Virou até referência entre teus leitores perguntar se “é fã do Caio antes ou depois do Face?” Há inúmeras páginas sobre você, com milhares de curtidas, frases são repetidas e compartilhadas a exaustão, aquela foto com o Cazuza é ícone. Como fã, fico muito orgulhosa com todo esse teu sucesso. Mais que merecido.

Mas quando vejo uma frase que não é sua atribuída a você, me irrita. Me incomoda também que fiquem só na superficialidade do “que seja doce” – uma das frases mais compartilhadas – tem um mundo por trás disso. As pessoas tem que saber que você foi uma dos maiores escritores existencialistas do Brasil, traduzido para dezenas de países, ganhou os prêmios mais importantes da literatura nacional, foi dramaturgo e colunista de jornal.

É ótimo citarem trechos dos contos mais leves e solares como Que seja doce... ou Zero Grau em Libra, mas tem que conhecerem os outros Carta anônima, Aqueles dois, Para uma avenca partindo – só para citar alguns dos mais conhecidos. Saberem da importância de Os Sobreviventes por causa da maneira frenética que a gente lê devido ao uso que você fez da pontuação. É necessário ler os teus romances Limite Branco e Onde andará Dulce Veiga?

Se apropriarem da tua imensa contribuição para a nossa cultura pop, a criação da expressão “saia justa” , ou da classificação para os gays: Jacira, Telma, Irma e Irene. Acredita que meus amigos homossexuais usam ainda hoje, principalmente a Jacira (Jacííííra) e a Irene? Caio, você ainda é muito presente.

Guri, alguém contou em um determinado momento do documentário, acho que foi a Lygia Fagundes Telles, que você tava chapadão com a Hilda Hilst, na Casa do Sol (apareceu a Figueira, a tua Figueira mágica), e vocês saíram para conversar com os mortos. Rimos muitos no cinema. E a Lygia disse algo do tipo: “loucos, mas cúmplices”. Lembrei de uma noite que eu estava lá na Guarda do Embaú, depois de várias canecas de chá de cogumelo, eu e a Tatá vimos um disco voador no meio do Rio da Madre, ou algo muito parecido com isso, eram várias luzes coloridas, lindo e assustador de se vê. Pouco falo com a Tatá hoje em dia, nem sei se ela continua morando na Palhoça ou se voltou para São Paulo, mas às vezes rola umas mensagens no Face do tipo “e aí, tudo certo, lembra do nosso disco voador?” Acho que é só para ter certeza de que somos cúmplices caso apareça alguma dúvida em relação à loucura.

Sabe Caio, quando começaram a falar sobre a AIDS no documentário fiquei triste, sabia que era o começo do fim, do filme e da vida. Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi o teu medo de ter essa doença, seria intuição? Ontem à tarde, estava tomando banho de sol e pensando que eu deveria enfrentar o meu medo de dirigir, facilitaria a vida quando quisesse viajar para algum lugar próximo. Mas tenho medo, sei lá, aí pensei no teu lance com a AIDS, será que o meu pavor de trânsito é intuição de alguma coisa? Que isso ainda vai me levar pessoas que amo (vou ali bater na madeira) ou até mesmo eu?  

Sobre pessoas que se ama, já fiquei com muita raiva daquele teu ex, aquele que é colunista de jornal, já pensei em bater na porta dele e tirar satisfação: “como assim você esnobou o Caio, ele sofreu horrores por ti”... Imagina a cena que uma leonina, com ascendente em libra e Vênus em câncer iria fazer? Mexe com quem amo, para ver!  Até o dia que li uma entrevista dele falando isso, que os teus fã o odeiam, que o perseguem... Claro que ele disse que não foi bem assim, que você era exagerado e uma pessoa difícil de lidar. De qualquer maneira, ele está tendo o que merece. Bem feito!

É isso Caio, muita coisa para te dizer. Se estivesse vivo, encheria a tua caixa postal e de emails. Queria te falar do documentário, que és lindo, que tem uma legião de gente que emana amor quando pensa em você. A Suzana Pires resumiu bem, disse que “só lê Caio quem viver”, a tua obra, por mais niilista, pessimista e até depressiva que seja, é sobre a vida. Para se viver bem tem que transitar por todos os lados. Tem que ter a noção da risada desesperada, doida para ser exteriorizada, no meio da tragédia e da dor, assim como saber da tristeza presente quando estamos inebriados de alegria fugaz.

Não entendo como você, tão espiritualizado, comia carne e como tão intenso, não tinha tatuagens...  Já tenho “que seja doce” tatuado no braço, penso em fazer outra frase, mas estou em dúvida. Gosto de “exigimos o eterno do perecível, loucos", “a única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso” e “chegar ao centro, sem partir-se em mil fragmentos pelo caminho”, qual você prefere?

Outro dia, joguei tarô e saiu tanta carta boa, O Mundo (esse se repetiu em todas as perguntas), O Sol, A Estrela, A Roda da Fortuna. O jogo revelou um futuro bem bonito, acho que tenho que fazer a minha parte agora, embora não saiba exatamente o que fazer... Sou meio tapada para algumas coisas.

Como você já está aí numa dimensão bem melhor que a nossa, não tem como postar essa carta no correio, embora pudesse mandar para os teus irmãos... Posto aqui no blog e sei que o Universo vai levar meu amor e vibração até aí, junto com os meus sinceros desejos que o teu paraíso seja repleto de rosas e girassóis, doces de figo, incensos e conversas com a Ana C, muita luz para ela também.

Quando eu morrer Caio, vou levar os livros para você autografar, quero te encontrar e te abraçar – imagino em qual altura do teu peito a minha cabeça vai bater (você tinha quase 1,90m, né?), espero que eu consiga escutar teu coração. Poderemos conversar sobre astrologia, I Ching, tarô, búzios, runas, lexotan, sincronismo, co-criação  e outras viagens, você me contará das suas rosas, eu vou falar do meu jasmim. Quando morar no meio do mato e ter um jardim, ele se chamará Caio F.

Eu comecei escrevendo essa carta ontem, domingo, já com a ideia de postar hoje por causa da lua que ingressa em touro (estável morada de Vênus) e porque Vênus está nos últimos graus de aquário, seguindo para peixes, um ótimo céu, mais amoroso! Agora revisando, me dei conta que esqueci de relatar que quando terminou o documentário teve gente que só saiu da sala depois que encerrou os créditos, vi duas moças saírem abraçadas e chorando, vi rapazes dando tapinhas nas costas e sorrindo cúmplices, todos saíram tocados. Eu garanto, você foi e é muito amado pelo que escreveu. O Universo te deu exatamente o que você desejava. Axé!!!

Para sempre tua, Re

Saturday, January 24, 2015

Uma velha conhecida (Trilogia da leveza – parte III)


Foi na noite do 1º dia do ano, estava na cobertura de um prédio (9º andar, se não me engano), depois de um dia feliz com pessoas que amo e banho de mar numa praia de Santa Catarina, o fim de tarde tinha rendido cores lindas no céu, tinha aquele ventinho bom de noite na praia, estava tudo bem e eu me sentia em paz. Quando me dei conta da situação e percebi que não pensava em me matar e senti vergonha por todas as vezes que isso parecia ser a única opção. E orgulho por ter chegado até aqui.


De acordo com o diagnóstico do meu terapeuta, tenho distimia obsessiva, um tipo crônico de depressão, porém menos "grave", onde os sintomas depressivos podem durar um longo período, muitas vezes, dois anos ou mais. Só no Brasil existem de cinco a 11 milhões de indivíduos com a doença, em geral essas pessoas possuem um sentimento geral de inadequação e são excessivamente críticas.


Garanto, não fácil tocar a vida com um diagnóstico desse, mas é totalmente possível ser leve e até feliz apesar dele. Desde a adolescência eu faço terapia, sempre procurei entender o porquê do vazio. Já passei por vários psicólogos, por remédios – de Lítio a Fluoxetina, terapias alternativas – florais, reiki, meditação, acumpultura... Já ouvi que tudo isso é frescura.


Atualmente sigo só com a terapia psiquiátrica e nunca lidei tão bem com tudo isso, acho que é a experiência. Distimia, depressão, bipolaridade, borderline são doenças como diabetes, asma, tuberculose e precisam ser tratadas. Não tem nada de frescura nisso!


Hoje por exemplo, estou meio triste, mas é só tristeza - não estou subestimando esse sentimento, sei muito bem o estrago que faz - mas sei que neste momento é só isso, tristeza, pois algo que queria parece que não vai rolar. Coisas da vida... Não me sinto vazia, quando eu me encho de vazio, o sinal vermelho acende. Sei que isso pode e provavelmente irá acontecer em outros momentos da minha vida. Terei outras crises, mas penso que por ser reincidente, já coloquei uma cama elástica lá no final do meu abismo e por mais cheia de falta de sentido que eu volte a ficar, se a queda não for amortecida, ao menos não terá aquele desconforto de primeira vez. Conhecimento trás segurança e intimidade até com coisas não tão boas.


Esses anos todos em volta disso ampliaram muito minha consciência. Não me orgulho de escrever que houve momentos que eu não chegaria nem perto de uma sacada com medo de não resistir e me jogar e acabar com tudo, mas também não me envergonho. Tenho consciência disso e que tenho que lidar com os meus demônios. Mas tenho certeza de que esse assunto tem que deixar de ser tabu!


Por sorte ou mecanismos inconscientes de defesas, sempre tive coisas para me agarrar, para justificar minha permanência aqui. É questão de honra para mim me preencher o meu vazio com coisas que gosto, posso me sentir vazia mas oca, não sou. Rousseau diz que a “felicidade é um estado simples e permanente em que a alma basta a si mesmo.” Bingo!


Quando comecei a Trilogia da Leveza falando sobre autoconhecimento é porque isso foi fundamental para a Renata entender a Renata. Se me sinto leve, se penso que minha alma me basta foi porque um dia nada me bastava. 2015 começou muito bem, com energias boas, calmaria, família, perfume e risada de bebê, esperança, sossego, diria até que foi um começo bem feliz, melhor despedida para o Saturno não poderia ter. Fiz a lição de casa me sinto grata por isso. Ainda dá tempo de ter desejos de ano novo? Desejo cada vez mais ouvir a minha alma e não o meu ego.


Friday, January 16, 2015

A arte de ser leve (Trilogia da leveza – parte II)


"Meu reino terrestre por um par de asas" - Roseana Murray



Uma querida amiga me deu no natal o livro “A arte de ser leve”, da jornalista Leila Ferreira. Lançado em 2010, a obra reúne histórias e impressões da autora sobre o conceito de leveza, que vão sendo aos poucos tiradas do cotidiano, da memória, das entrevistas acumuladas em sua carreira com pessoas importantes e dos bate-papos com anônimos. Mas também apresenta dados oficiais e interessantes obtidos em pesquisas recentes da psicologia, da sociologia e da medicina.

Claro que achei o máximo ganhar esse livro neste momento da minha vida e foi a primeira leitura do ano. A autora viajou o mundo para conversar com as pessoas sobre o assunto, aliás, as viagens são apontadas como fator de leveza. Assim como o silêncio, ter tempo para si, cultivar hobbies saudáveis, vínculos com pessoas que nos são caras e tantas outras coisas que já sabemos, lemos por aí, assistimos em qualquer matéria sobre bem estar e qualidade de vida.

Porém, não percebi no "A arte de ser leve" aquela pretensão dos livros de autoajuda, como se fosse um manual de instruções que ensinasse a viver. Bem pelo contrário, a escritora sempre ressalta como é difícil a busca pela tal leveza e afirma que está muito longe disso. Mas o melhor de tudo, é que fica claro que viver de forma mais leve é uma escolha e exige disciplina e força de vontade.

Compartilho com a Leila, a ideia de que a leveza não é felicidade, mas é um degrau bem próximo e que talvez, um ser humano leve é mais completo que um ser humano que se considera feliz. Num dos capítulos, há uma entrevista com o filósofo Janine Ribeiro, que alerta para a confusão entre prazer e felicidade, pois o prazer é se dá nos instantes (nascem e se esgotam ali), e buscamos em especial os prazeres que tem na paixão.

O filósofo define paixão como um estado de engano, causado muitas vezes pela euforia, que nos torna passivos diante da vida. Reproduzo a conclusão dele: "a felicidade é mais modesta. Faz parte dela o aprendizado, a renúncia, a capacidade de converter a decepção em algo positivo. Em outras palavras, só é feliz quem souber reciclar suas tristezas. Frustrações são importante matéria prima para a felicidade”. Mais do que nunca, penso que o caminho do meio é a leveza.

Conforme avançava nas páginas, me dava conta de que é possível ter esperança na raça humana com tanta gente leve e de bem por aí. E me chamava atenção o fato da escritora não ter falado em depressão, até que ela tocou no assunto, nos últimos capítulos quando relata o motivo que a levou a escrever o livro.

Leila conta que tem depressão há mais de 20 anos, que já se considerada casada com a fluoxetina e acredita que ainda assim pode ser leve. Mais um ponto para ela, não é fácil assumir que tem depressão, bipolaridade ou distimia, e conseguir escrever com a devida distância sobre um assunto teoricamente oposto, sem ser influenciada pela doença que tem. Mas depressão é assunto para o outro texto...

Por enquanto, só a ideia (sem certezas) de que leveza já está de bom tamanho.

Friday, January 09, 2015

Encontro com Saturno (Trilogia da leveza – parte I)


“Até onde podemos discernir, o único propósito da existência humana 
é acender uma luz na escuridão do mero ser” - Carl Jung

Em 2015 completo 30 anos e no primeiro trimestre, encerra o meu retorno de Saturno (período da vida - por volta dos 28, 29 anos-  que o planeta Saturno volta para a posição exata que está no mapa natal). No meu caso, na casa 1 - a casa do "eu", da identidade, da personalidade. Saturno permanece mais de dois anos em cada casa astral, por isso, leva quase 30 anos para completar o ciclo.

Por essa época, é normal mudanças e reviravoltas na vida. É Saturno nos cobrando o que temos feito até agora, é a colheita justa do que plantamos. Conheço pessoas que mudaram de emprego, casaram, engravidaram, viram relacionamentos longos chegar ao fim, a carreira tomar outros rumos, tudo nestes 28 e 29 anos.

Por gostar e ler muito sobre astrologia, não considero o famoso retorno de Saturno ruim, como muitos acreditam. É uma chance de conscientização, pois se há rupturas e desconstruções, é justamente para deixar conosco apenas o que vale a pena. Saturno não brinca em serviço, não permite empurrarmos a vida com a barriga.

A palavra que melhor define este trânsito astral para mim é amadurecimento, não só pelos fatores externos, mas porque entendi a necessidade que eu tenho de olhar para mim. Acredito, hoje, que o meu caminho sempre será melhor trilhado pelo autoconhecimento. É o conhecimento sobre si que possibilita que o indivíduo lide melhor com a transitoriedade das situações. Pode não ser fácil, mas é atráves desse autoconhecimento que buscamos meios de sanar os “estragos” e recomeçar tudo de novo de maneira mais madura e por isso, diferente.

No segundo semestre de 2013, a minha colega saiu do serviço, o que me fez tocar toda a assessoria de comunicação sozinha (se as coisas já eram puxadas para duas jornalistas...), tive uma Trombose Venosa na perna (o que me obrigou a parar, literalmente) e logo no começo de 2014, levei um pé na bunda homérico enquanto olhava os classificados em busca do apartamento para morarmos juntos.

Eu andava alucinada, com mil coisas para fazer, me cobrando, trabalhando até tarde, começava coisas e não terminava, irritada e sempre no piloto automático. Tinhas dias que a correria era tanta que quando entrava no metro e era obrigada a permanecer 40 minutos sem fazer nada, sentia tipo de um "choque", com o coração a mil, o sangue correndo, o corpo todo agitado e a cabeça entrando em parafuso. Todas as coisas que aconteceram, me obrigaram a rever o rumo que estava tomando.

Porém, mudar meu ritmo não era uma opção. Ter coisas para fazer, dois empregos e hobbies nunca foram um problema, me dão prazer. Porém chegou num ponto que eu não aguentava mais, não pela quantidade de coisas mas pela qualidade da minha dedicação, que estava precária. Não me focava mais, não vivia o presente. Trabalhava pensando no pilates, fazia pilates repassando na cabeça todo o serviço que tinha levado para casa, ficava até de madrugada fazendo coisas do serviço pensando na correria que seria o dia seguinte, tudo isso planejando a mudança e a vida em outra cidade.

Então a única escolha era mudar a maneira que lido com as coisas. É difícil, muito difícil, estou só no começo... Mas me percebo menos ansiosa, não levo mais trabalho para casa quase todos os dias (só quando não tem jeito mesmo), me cobro menos, passei a me dedicar com mais intensidade as coisas que gosto e voltei a sentir. Retomei com seriedade os estudos na Casa Espírita, estou levando muito a sério a minha terapia (coisa que já havia se tornado burocrática). Não empurro mais a vida com a barriga.

Se é para fazer, quero sentir tudo o que eu tenho direito. Se estou caminhando, foco nisso; no trabalho é a mesma coisa; pilates e dança, idem e os happies com as amigas, nem se fala. Quem olha de fora, não nota diferença, as coisas ao meu redor podem estar caóticas, mas foi uma baita mudança interna que me possibilitou aproveitar mais as coisas. Preciso ter (ou ao menos, tentar ter) consciência de tudo, porque é isso que dá sentido para a vida.


Essa busca por mim foi Saturno (justamente na Casa 1), me cobrando, me mostrando o que necessita ser olhado com mais carinho. Estava trilhando um caminho, que achava ser o melhor, Saturno foi lá, me arrancou, colocou nos eixos e me trouxe para o caminho certo. Como disse o querido Caio F. numa carta à Hilda Hilst: “mudei muito, e não preciso que acreditem na minha mudança para que eu tenha mudado. Essa modificação vinha se processando sem que eu mesmo percebesse e, com determinadas leituras e determinadas vivências, ela se consumou.”

Trilogia da leveza


Hoje é dia 9 de janeiro e passei a semana trabalhando num texto sobre o retorno de Saturno. Na segunda fiz um cronograma de assuntos que tenho que escrever para o blog – naquela lógica de levar o Mosaico e as minhas vontades mais a sério, de mostrar o que escrevo (e não são notícias), sem ter medo das críticas.

Durante a semana, enquanto escrevia o texto sobre Saturno, me policiei para não falar de depressão e hoje, terminei a leitura de um livro que aborda a importância da leveza na nossa vida. Pensei que precisava escrever sobre isso também e que no fundo os três assuntos se complementam. Colocar tudo num texto só, ficaria imenso, intenso e tenso demais.

Então, serão três textos para compor a trilogia da leveza: sobre o retorno de Saturno, leveza e depressão – que publicarei a partir de hoje e espero encerrar em uma semana. Ficam na lista de espera os assuntos que estão no meu roteiro, um texto sobre o San (o filho dos meus primos queridos, que é o bebê mais lindo e amado que eu já conheci) e sobre um encontro com uma amiga que mora há dois anos na Austrália.

Isso, por enquanto, pois como a vida é dinâmica tem tudo que ela ainda vai me mandar.


Feliz 2015

Monday, December 29, 2014

Obviedades do caminho



Quando você começou puxando meu tapete, pensei que não fosse aguentar. As passagens já pagas e os planos já traçados foram o mais fácil de desfazer, difícil mesmo foi perceber que sentimentos podem terminar em falta de respeito, traição e ameaças. Necessário foi compreender que não eu poderia maximizar uma primeira experiência e permitir que isso manchasse as possibilidades do futuro. As pessoas são diferentes. Eu estou diferente.
Viajar parecia arriscado demais, horas sentada em aviões e ônibus não eram o recomendado, mas não tinha o que fazer. Era correr o risco para me salvar, para dar uma chance de olhar as coisas por outro ângulo e principalmente me enxergar. Foi preciso um roteiro cheio de escalas, várias aspirinas, meia de compreensão e paciência com o ritmo do meu organismo. Todos esses cuidados não impediram que eu parasse no único posto de saúde de uma cidadezinha no interior de Goiás.
Mesmo não sendo do tipo que curte paixonites agudas em viagens e com a perna tão inchada a ponto de o tornozelo estar quase do diâmetro da coxa, curti muito aqueles três dias com o único médico de uma cidadezinha do interior, que havia se formado em Cuba, morado em Florianópolis, em Brasília, em Buenos Aires e no Peru, que estava em busca de sossego “porque viajar é muito bom, mas ficar se mudando toda hora cansa e a gente sempre deixa coisas pelo caminho.” Me dei conta que teriam outras pessoas. Constatei que paixonites de viagens são ótimas lembranças, mas são das coisas que a gente deve deixar pelo caminho. Qualquer movimento no sentido contrário é ilusão e invasão a uma realidade que a gente não leva quando estamos na condição de estrangeiro, turista ou viajante.
Foram muitas as vezes que tive certeza que não aguentaria o tranco, tamanha a quantidade de demandas, de gente pedindo, de matérias para escrever, atos para cobrir, boletins para diagramar. Iria da hospiciolândia direto para o hospital psiquiátrico São Pedro se alguns atos não fossem adiados, os prazos estendidos, o case mudado e as coisas se acertado. Não há clichê mais verdadeiro do que “trabalhe com o que ame e não terá que trabalhar um dia.”
Seria complicado, o ideal era não forçar muito a perna, pois uma Trombose Venosa Profunda é muito agressiva. Teria que pegar leve no Pilates e priorizar as caminhadas lentas. Mas em cada avaliação, permitiam que eu aumentasse a carga e quando me dei conta, estava correndo, dançando e ensaiando duas vezes por semana e tive a certeza de que me mexer é vital para minha sanidade. Consegui subir num palco de novo e dançar, sem a perna inchar. E já dá até para passar noites e dias em cima do salto, como se nada tivesse acontecido.
Havia decidido focar em mim, sem me interessar por alguém e criar expectativas. Cogitava até iniciar uma vida casta de freira. Mas prestei atenção no que já mexia comigo e me surpreendi e gostei e é bom sentir o arrepio que me dá só de lembrar. Notei que as pessoas despertam coisas diferentes, e mesmo quando sou invadida por um medo absurdo por me dar conta do que isso significa, sinto que isso me faz bem.
Eu tinha certeza que não aguentaria, que as coisas não teriam mais graça, que me afundaria na descrença, no pessimismo, na ideia terrível de que ninguém presta. Só que todo dia eu acordava leve, sem o peso das culpas pelas coisas que a gente se responsabiliza sem nem se dar conta, para se punir. Já me questionei muito se leveza é sinônimo de felicidade, ainda penso que não, mas com certeza, andam bem próximas.
Obrigada 2014, você não me deu nada do que esperava, mas foi muito melhor do que imaginei.

Sunday, December 28, 2014

Para o meu anjo de quatro patas

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante” - Antoine de Saint-Exupéry


Eu fiquei meses pensando na possibilidade de ter um gato e neste período, sempre ponderava que seriam cerca de 15 anos. Depois de decidida fui em busca do meu gato preto de olho amarelo. O Galileu veio tão pequeno que nem conseguia tomar água sozinho, antes dos saltos precisos, acompanhei os pulinhos desengonçados e o miado era tão fino que mal escutávamos. Vi desbravar meu quarto, a casa, o pátio, o telhado, a vizinhança e a rua. Mas claro, que a primeira conquista foi a minha cama, já que nunca deu bola para a dele.

Gostava de imaginar tudo que poderia acontecer na minha vida em 15 anos: mestrado, doutorado, casamento, viagens, filhos, as mudanças, as permanências, os perrengues e as bênçãos. E quando tivesse com 40 e poucos anos, iria me lembrar que com 28 eu fui até a zona sul de Porto Alegre buscar o meu gatinho, que antes de ser Galileu, chamei de Gaya, que usava uma coleira com guizo, que tinha pelinhos na ponta das orelhas, que era muito peludo, que gostava de tomar água na pia... Perceberia ele em vários momentos da minha vida, ronronando, engordando, apostando corrida comigo, me impedindo de ler o jornal, suspirando (eu não sabia que gatos suspiravam). O Galileu estaria lá, enquanto a minha vida mudaria e envelheceríamos cúmplices.  

Sempre achei tristes esses gatos de apartamentos, os seres que querem gozar de sua liberdade devem ir ver o mundo. Ele queria e eu nunca o privei, saia e voltava quando quisesse (porque sempre reconhecemos o lugar para onde devemos voltar). O único cuidado foi castrá-lo e a minha única preocupação sempre foi atropelamentos (seria intuição?), sabia que de cachorros, gatos brabos e pessoas, ele se safaria. Um dia, vi o Galileu atravessando a rua (uma avenida bastante movimentada), todo lindo, dono de si, livre. Não seria eu que o impediria de viver isso. Sabia do preço que poderia pagar e que agora, pago.

Porém, nunca imaginei que seria tão rápido, não foram nem nove meses com o meu gatinho e isso foi cruel. Fico me perguntando como ele não viu a roda? Onde estava a atenção dele? Em algum inseto, numa folha, num lixo jogado no chão... Como todos os gatos, o Galileu era muito curioso, mas era o MEU gato. Um lorde, um galã, minha mini pantera negra e selvagem e por isso, dói. Por outro lado, acho irônico ele ter vindo e ido em 2014, ainda mais para mim que nunca fui fã de gatos. Refletia muito sobre por que quis ter um felino e gostava de pensar que esse era um momento de transição, mais maduro, leve e com consciência. Agora percebo que até para as mudanças internas, o meu gato preto (e lindo) é uma referência.

Algumas pessoas me criticaram, que ele deveria ter sido criado preso, só dentro de casa. Com algumas discuti sobre o conceito de amor e liberdade. E não me arrependo, ser vivo é para viver e eu que aguente no osso a saudade. Pior seria, estar chorando daqui 15 anos e me culpando por não ter deixado o Galileu livre. Até a cocota aqui de casa vive com a gaiola aberta.

Lembro de uma noite, depois dele estar elétrico e mexer em tudo e bagunçar tudo, ele deitou do meu lado e suspirou e eu entendi aquele suspiro como “essa vida é tão boa.” E isso me consola, porque tenho certeza que a breve vida dele foi muito boa, cheia de amor e aventura. Como ele se divertiu na noite do dia 24, o Galileu adorava gente, casa cheia, bagunça.

Curte o céu dos bichos meu gatinho, que deve ser bem melhor que o dos humanos. Pula bastante de nuvem em nuvem, balançando teu sininho e quando achar a vida muito boa, suspira, que neste momento eu vou estar aqui neste mundo cão, sorrindo porque lembrei de ti. Um dia, quando eu te encontrar, vou te abraçar por mais de 15 anos, só para tirar o atraso e não adianta miar, porque eu não vou soltar.

Sunday, December 21, 2014

Gaveta cheia


Pulseira de miçanga que nunca usei. Convite para formatura. Cartão de Natal do cirurgião plástico que colocou meus peitos há anos. Rolha. Joaninhas. Passagens para Santa Maria. Ingresso para o show do Paul McCartney. Canetas. Marca páginas. Bilhetes. Papel com número de telefone que eu não faço ideia que de quem seja. Cartão de aniversário das colegas de trabalho. Registro do horário no cartão ponto do serviço. Release de uma entrevista coletiva. Ingressos para festivais de dança do ventre. Pen drive. Ingresso para teatro. Passagem para Brusque. Fotos. Cartão de visita. Pílulas anticoncepcionais. Uma caixa vazia de pílula do dia seguinte. Convite para chá de fralda. Lembrança de aniversário de um aninho. Imã de geladeira. Ingresso para o show do Roger Waters. Cartão de crédito que eu não pedi e não desbloqueei. Origami de bêbada em guardanapo de bar. Mapa de Montevidéu. Comprovante de passagem de ônibus de Varadero para Trinidad, em Cuba. Folha de cheque. Imagem de São Jorge. Comprovante de depósito de pagamento para curso de astrologia. Email com confirmação de reserva de pousada no Rio de Janeiro. CDs com músicas árabes. Uma fita cassete com “pijamas místicos” gravados. Ingressos para show do Fito Paez. Lixa de unha. Cartão com horário da terapia. Carteirinha de vacinação do Galileu. Bilhete do ex. Receita com o grau dos meus óculos. Recado da melhor amiga. Dorflex. Endereço da costureira. Desenho para uma tatuagem que nunca fiz. Entrada para o museu do Rodin, em Paris. Cartão de ônibus de Barcelona. Blocos de anotação. Calculadora. Etiqueta de roupa. Vidros de florais. Propaganda de cartomante. Receita de mouse de chocolate escrito atrás da folha de pagamento de setembro de 2011. Bula. Autorização para exame médico. Manuel de instruções de celular. Um livro de Salmos. Cabo USB. Credenciais de imprensa. Lembranças de casamento. Oração de Santo Expedito. Certificado de conclusão de oficina em dança egípcia. Inscrição para curso de comunicação sindical. Mensagem do biscoito da sorte. Desenho feito pelo afilhado, anos atrás. Tabela com os horários e projetos da Casa de Nazaré – Centro de Apoio ao Menor. Chaveiros. Amostra grátis de creme hidratante. Poemas. Surpresa com a quantidade de mim que há em uma gaveta.

Sunday, October 12, 2014

Você deveria ser escritora



Sempre ouvi que escrevo bem. De muita gente e gente diferente (que bom!). Na terceira série, a professora me chamou questionando quem tinha escrito a minha redação sobre a chuva, não sei se ela se convenceu que realmente tinha sido eu, mas foi a primeira vez que ouvi “você escreve muito bem.” Minha mãe questionava da onde eu tinha tirado aquilo ao ler algum texto meu e a resposta sempre era: de dentro de mim.

Na época do vestibular estava em dúvida entre história, ciências sociais e jornalismo. O fator decisivo foi que gostar de escrever, de contar histórias, sempre tive certeza que teria prazer em passar o resto dos meus dias fazendo isso. Durante toda a minha vida escolar (do pré ao ensino superior) meus textos eram elogiados, lidos e recebiam prêmios...

Numa disciplina do último semestre da faculdade, o professor que já tinha me dado aula nas matérias de redação disse após fazer a chamada no primeiro dia de aula: “A Renata tem um dos melhores textos que já li, tem tudo para ser uma ótima cronista.” Tomara! Meu terapeuta já afirmou que eu deveria mesmo levar a sério o lance de escrever, pois eu “abraçaria muita gente com os meus textos.”

E no serviço, volta e meia, depois de alguma matéria publicada, vem um e outro diretor na minha sala falar que escrevo bem. Teve um, depois de uma reunião, onde quase nada podia ser divulgado, que disse que eu tirava leite de pedra. Que seja, escrever é alquimia! Mas é tudo bem separado, a jornalista está numa caixinha bem organizada. A mulher que gosta de escrever e escreve num mosaico está em outra caixinha, essa bem maior, mais complexa, livre de regras, cheia de sensações e por vezes, bagunçada.

Já vendi redação no colégio, já escrevi poesia, já me inscrevi em concursos literários, já fiz cartas para a namorada de primo (como se fosse ele), já criei abertura de mostra de dança e tenho alguns enredos perdidos no desktop do meu note. Um sobre suicídio, outro para contar a história de um cara que procura uma antiga paixão e descobre que ela morreu quando fazia um aborto (de um filho dele), tem também sobre um idoso que no hospital repensa sua vida e resolve contar para os familiares as “pequenas” atitudes dele que acabaram alterando o rumo da vida de todos e claro, um enredo realista-fantástico inspirado na minha família.

Escrever é paradoxal. Me alegra, me entristece, me comove, me move, me acalma, me tumultua. É bem normal, dar risada ou chorar enquanto escrevo. Elaboro a vida escrevendo, me entendo assim, me traduzo, evito transbordamentos e repressões desnecessárias. Não sei se um dia eu vou ser escritora mesmo, mas confesso que gostaria.

Sunday, September 07, 2014

Eternas são as nuvens


Infelizmente esse texto não é meu. Infelizmente, porque ficaria muito orgulhosa de escrito algo tão simples e sábio sobre relacionamentos, sempre um assunto complexo.
Vou ficar devendo o sábio. Peguei esse texto no face de um amigo paulistano, que se deu o trabalho de digitar tudo, pois tinha encontrado a obra numa "revista de mulherzinha" na sala de espera de um consultório médico.
Independente de como vai a nossa vida amorosa, acho difícil não concordamos com o texto, ou boa parte dele. É lindo. Boa leitura.
Eternas são as nuvens

Para onde vai tudo que se vive? Para onde vai a mágica de certos instantes? A comunhão que se viveu, a cumplicidade de dividir tempo, espaço, experiências inaugurais? Para onde vão o carinho, a parceria, a entrega? Para onde vai o conhecimento, pessoal e intransferível, que se tinha do outro? Para onde vai o que só vocês viram e experimentaram: o nascimento de um filho, a morte de um amigo, a notícia daquele emprego, o assalto, a compra da casa, o diagnóstico ameaçador, a noite no acampamento, aquele show em Londres? Para onde vai a consciência que você tinha, de, com apenas um olhar, saber se ele estava feliz, deprimido ou ansioso? Para onde vai a absoluta intimidade que se teve com o outro?

Acredito que isso tudo fica em algum lugar interno, como um site, uma espécie de nuvem onde armazenamos tudo o que vivemos. Tão reais e etéreos como o iCloud, temos os nossos weClouds, que podemos acessar ou que nos acessa, algo que fica preservado, e que, mais do que nos fazer lembrar coisas, nos acolhe e ratifica. O weCloud guarda o essencial, o que ficou depois da ruptura, da tempestade, o rescaldo de um tempo, um a dois permanente, que sobrevive aos acordos rompidos, às bênçãos desfeitas, às juras esquecidas. No weCloud, ficam o sumo, o substrato, a força do projeto um dia compartilhado. No weCloud, ficam o afeto espontâneo, o registro das intenções sinceras, da vontade de acertar e de tudo o que foi verdadeiro.
Os relacionamentos podem acabar, mas não o vivido. Não se trata de memória, nem de detalhes tão pequenos de nós dois. Não se trata de viver no passado, nem de não aceitar os fatos. Não se trata de sublimar dores e porradas ou se refugiar num mundo alegrinho de autoajuda e negação. Não se trata de dourar a pílula e contar para si uma história diferente. Trata-se de vida bem vivida que não pode nem deve ser perdida. Tudo o que vivemos e sentimos vira acervo, fonte, ferramenta; é nosso para sempre.
Quando estamos com alguém, somos, em alguma instância, uma pessoa única, que só aquele companheiro conhece. Maria é para João uma Maria que ela nunca será para Pedro, que é um Pedro para Maria, que nunca será o mesmo para Ana. Maria poderá ser muito mais feliz com Pedro do que com João, mas ela terá sempre sido a Maria do João e haverá sempre um lugar onde Maria e João se reconhecerão, mesmo que nunca mais se encontrem. 
Somos o que vivemos, e não podemos abrir mão disso. É fundamental que cuidemos da nossa história, que saibamos acolher nossas experiências com generosidade e entendamos que certas vivências, emoções e descobertas foram únicas e estarão sempre produzindo algum efeito em nós.
Todo fim de relacionamento pede tempo. Tempo para o luto, para a saudade, para a cura, para o distanciamento, para a neutralidade, para o recomeço. Existe um caminho a percorrer que vai do fundo do poço ao fórum, do desespero ao terapeuta, da perplexidade à aceitação, do abandono à libertação. Há que fazer faxinas: roupas, livros, fotos, palavras mal ditas, mágoas, decepções. Há que separar papéis, propriedades, planos, sonhos. Há que separar, acima de tudo, o trigo do joio, o passado do futuro, o extinto do eterno. Há que guardar as coisas que não cabem em malas nem cofres, aquilo que não se quantifica nem se elenca em formais de partilha e declarações de renda. Há que amar o perdido. 
Só quem tem passado tem futuro. Escolher a bagagem que se carrega é decisivo para seguir adiante. Entre fardo e combustível, asas e correntes, você decide. Entre salvar e deletar, você decide. Conjugar sem medo o pretérito imperfeito para viver o futuro do presente.
Depois de um tempo, as dores passam... Sim, elas se cansam de nós e, se somos saudáveis, nos cansamos delas também, seguimos em frente, voltamos para nós mesmas, dispensando o que não nos serve mais, garimpando minúsculas preciosidades, recolhendo luminosidades, cheias de preguiça de sofrer, prontas para recomeçar, de novo, mais uma vez.
Um belo dia você se pega pensando naquele nós, que deixou de existir, sem a fisgada de saudade, nem ressentimento, nem raiva. Você pensa com serenidade. Você pensa não mais no ex, mas no companheiro de vida: sai o ex, fica o amigo. 
É quando você o abraça no velório do pai e sabe como ele está se sentindo e ele também sabe que você sabe como ele se sente, e isso é muito íntimo e confortante e está lá, na tal nuvem, para sempre. 
É quando você recupera em DVD seus filmes em Super 8 e fitas em VHS, com todas as fases e faces queridas da sua vida, e faz uma cópia para ele, porque sabe que aquilo tudo é parte da vida dele também, e você se sente grata por compartilhar.
É quando você recebe um presente sem cartão: um disco de vinil de um show que você foi com um certo namorado. Pronto, lá está o para sempre: os anos 70, a avidez de descortinar o mundo, a larica, a revolução, o incrível mundo das primeiras vezes, compartilhado com entrega e inocência. O cartão é desnecessário, pois só você e ele sabem quem vocês eram naquele dia-tempo e o que significou estar ali naquele concerto de rock. 
É quando você encontra numa caixa esquecida rolhas de champanhe e sementes de romã, que fazem você lembrar quem você era e como você se sentia quando estava totalmente apaixonada por aquele cara na Itália. 
É quando você escreve um livro sobre maternidade e manda em primeira mão para o pai dos seus filhos, porque ninguém mais do que ele sabe como você ficava quando estava grávida, pois só ele viu seu estado de graça e, talvez, antes mesmo de você, ele viu você virar mãe.
Lá estão vocês, no weCloud, sócios de experiências transformadoras, parceiros de sonhos, realizados ou não, amigos que cresceram juntos, cúmplices dos pequenos crimes contra o amor, vítimas dos mesmos desgastes da convivência, ungidos por bênçãos comuns, coautores e personagens do mesmo livro.
Maria não é mais a mesma que foi com João, mas, para ser a Maria que está com Pedro, ela teve que ser a Maria do João, e João, para ser o companheiro de Ana, teve que ser antes o de Maria. Somos o que nascemos e o que escolhemos viver, somos o que ganhamos, o que perdemos, o que boicotamos e o que nunca alcançamos.
É muito libertador fazer as pazes com nossa história. Do que nos serve ter rombos na linha do tempo? Negar, bloquear, tornar inacessíveis as lembranças, impossibilitar um resgate saudável do vivido? Do que nos serve chamar ex-companheiros de falecidos ou equívocos? É injusto conosco. É empobrecedor. Temos essa mania de achar que só o que dura para sempre é um sucesso.
Durabilidade nunca foi sinônimo de segurança, assim como o efêmero não é sinônimo de fracasso. Uma jaula é segura e nem por isso um lugar feliz, da mesma forma que viagens são fugacidades maravilhosas que se perpetuam dentro de nós. Nenhuma história é vã. Nada é. Nossa alma-memória, aquela que nos identifica, define e referencia, é como uma colcha de retalhos; alguns retalhos são mais bonitos que outros, mas todos são necessários.

Amar o perdido deixa confundido o coração (Drummond) porque é amar o intangível, o que, não sendo mais, ainda resiste, insiste e ressignifica o que antes tinha outro nome e valor. Amar o perdido é reconhecer que muito tempo, energia e as melhores intenções foram investidas, empenhadas e depositadas numa relação, num incrível voto de confiança no outro e na Vida. Sim, mesmo os grandes erros e as falências retumbantes têm histórias comoventes e belas. Amar o perdido é entender que nada se perde.
Amar o perdido só é possível quando você volta para a casa dentro de você. Melhor que dar avolta por cima, é voltar para si mesma. Nessa hora você se sabe inteira, apaziguada, de bem com sua história. Aí, você entende o weCloud e lembra de Quintana dizendo: eternas são as nuvens, e você se comove com a certeza de que um certo para sempre existirá, pois as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão (CDA).
É isso, não fica o que é lindo. Fica o que finda. Fica de um jeito real. Não fica lindo só porque finda. Fica, porque finda, e, quando finda, fica o que foi de verdade, o que nunca finda.
As coisas findas ficam. Perdidas, talvez, mas para sempre nossas. Eternas, como só as nuvens podem ser.

Wednesday, July 02, 2014

Expectadora


 “Filhos servem de marcadores de tempo escancarados, impossíveis de ignorar, indicando a marcha incessante da vida que de outro modo pareceria um infinito mar de minutos, horas, dias e anos.” - John Grogan, em Marley & Eu


Acredito que uma das coisas mais bacanas de estar vivo é ser expectadora da vida de quem se gosta. O meu primo Júnior é pai. Se tornou pai esses dias. Eu que assisti o Júnior criança, adolescente, estudante, namorado, filho, membro de uma família muitas vezes problemática, agora vou acompanhar, o pai.


Ele é como se fosse meu irmão e se, de fato fosse, poderíamos ser gêmeos, já que apenas três semanas separaram o nascimento de ambos. Sou mais próxima dele do que dos primos que moram na minha rua, talvez o fato de morarmos em estados diferentes seja um dos motivos para nos darmos bem. A distância geográfica trás todo um encanto, ainda mais quando se é criança, férias para mim era sinônimo da visita dos tios e do Júnior.


Então a gente tinha que aproveitar e brincar muito, tudo o que não fazíamos no restante do ano. E sempre tínhamos muitas novidades e assuntos sérios, que iam de como enrolar o Fi e o Marcello ao como desenterrar o cachorro enterrado no quintal. Lembro da gente com uns 7 anos, pensando na área lá de casa, que se o Rio de Janeiro ficava logo depois dos morros que avistávamos (conforme ele afirmava, porque no Rio também tinha morros), por quê a viagem de ônibus era tão longa?


Contava pra todo mundo na escola que meu primo morava onde sempre era verão e tinha artistas como vizinhos. Demorei para entender que o nome dele é Miguel, achava que Júnior era o primeiro nome. Depois na adolescência, quando a vida escancara a realidade na cara da gente, nos divertíamos nas praias e nos Planetas Atlântidas e sabíamos onde o calo da realidade apertava. Perceber os indivíduos da nossa família poderia ter sido uma experiência solitária e dura, mas penso que conseguimos lidar com isso de uma maneira mais leve. Sempre falamos como se fosse uma grande comédia, sem dramas, por mais que eles tenham existido.


Quando ele começou a namorar a pessoa que hoje é a mãe do filho dele, fiquei muito preocupada com a possibilidade de não gostar dela ou ela de mim, porque seria um problema perder o parceiro. Mas isso durou até eu encontrar eles lá na Guarda do Embaú, ela estava com um sorrisão no rosto, aquele sorriso de gente verdadeira e desarmada. Eu tinha acabado de ganhar uma prima, a versão feminina do Jú.


E nestes últimos anos, foi muito bom acompanhar a vida dos dois, faculdade, perrengue com empregos, estada na Irlanda, procura de apartamento, casamento... É bom ver quem se gosta VIVENDO! Não nos distanciamos como acontece com muitos primos, na maioria das famílias. E agora que somos adultos (!) é mais fácil se ver, além de ter as redes sociais, que facilita muito o acompanhar a vida dos outros. E pensar que eu e o Júnior trocávamos cartas! De papel e enviadas pelo Correio!


O melhor é que ainda enxergo nele o meu primo querido que vinha passar as férias em São Leopoldo. Acho possível a gente ter 50 anos e terminar alguma frase dizendo “não conta para a minha mãe.” Uma coisa ótima que essa relação de primos permite é ser sempre meio criança, por mais que o tempo passe. Vamos envelhecer comendo negrinho, planejando férias e rindo dos mais velhos.


E agora tem o San. Lindo, cheio de personalidade, todo durinho, coisa mais amada. Dá um orgulho bobo desses dois, que agora são três, e é impossível não pensar na vida e no tempo... Estive com eles no último feriado e dá para ver que serão uns paizões, que bela família nasceu. Para vocês, meus primos queridos, desejo muita serenidade para aceitar todo o aprendizado e responsabilidade dessa nova etapa da vida.


Para o San, desejo todas as potencialidades presentes no mundo, recheadas de doces, banhos de mar, gargalhadas e a inocência de quem vê o mundo pela primeira vez. Respeito e gratidão pelos pais que ele tem para que nunca deixe de identificar o heroísmo nos seres humanos que o colocaram no mundo. E uma cabeça aberta para aceitar todas as lembranças da árvore genealógica de que ele é herdeiro.


No chá de fralda dele, teve um momento que o meu primo veio com o prato cheio de doces, sentou do meu lado e disse “que loucura, né?” e saiu para resolver alguma coisa de pai e de marido. E o bom de fazer parte dessas vidas é compartilhar a certeza de que essa loucura que é a vida é tão óbvia quanto o fato do Rio de Janeiro ser ali, logo depois dos morros que avisto da minha casa.

Wednesday, June 18, 2014

De Gaya a Galileu


“Todo gato é um pequeno leão”



Quando eu era criança, uma gata já adulta apareceu lá em casa e foi ficando, demos o nome de Xuxa e aconteceu de tudo com ela. Não tinha dentes por causa de uma pedrada, se metia em brigas, sumia por dias, foi atropelada... Enfim, usou e abusou das suas setes vidas até morrer definitivamente. E essa foi minha única experiência com felinos. Até agora.

Sempre preferi cachorros, pois são mais solar, brincalhões e engraçados... Mas de um tempo para cá passei a considerar a ideia de ter um gato e isso amadureceu. Feitas todas as considerações em relações à cachorra Saira, decidi que tinha que ser um gato, macho e todo preto, já tinha até nome: Monet.

Foram alguns meses de procura, até que a gata Meg da amiga Graciela pariu meu futuro pet. Logo veio a informação: é fêmea. Depois de muito pensar num nome, escolhi Gaya. Junção de Gaia, pelo significado, e com Y por causa do Goya (queria nome de algum pensador, artista, político que goste). E principalmente pela sonoridade: gata Gaya! Lindo. Comprei brinquedos, cama, ração, areia, erva do gato... Tudo pronto para a mítica gata Gaya.

Primeira impressão

Quando ela tava com 50 dias, aproveitei um sábado e “viajei” até a zona sul de Porto Alegre para me tornar dona de gato. Nos primeiros minutos da nossa relação, ela conseguiu escapar e se esconder embaixo do banco do carro, miava loucamente. Em plena avenida Wenceslau Escobar, eu estava de bunda pra cima, com o carro mal estacionado, tentando resgatar o bichano.

Nos dois primeiros dias de casa e família nova, ela desbravou lugares nunca antes habitados, como qualquer fresta entre os móveis que ela encontrou pelo caminho. Arrisco que a única que conhece todos os cantos da casa é a gata Gaya.

Logo as pessoas começaram a comentar que a gata deveria ser mansa e calma, não elétrica, curiosa, brava e agitada como eu relatava. Sim, ela não para quieta.

Galileu

Com duas semanas de convivência veio uma descoberta e a explicação para o bicho ser tão ativo, a gata Gaya é na verdade, um macho. Depois da surpresa, de ter essa confirmação de três pessoas diferentes e das fotos de genitália de gato/gata que procurei no Google-sabe-tudo, recolhi meus butiás do bolso e dei muita risada.

A essa altura, sabia que aquele ser não podia ser Monet, não combinava. Pensei em Goya, mas só Goya também não combinava. Gata Gaya era tão sonoro! Até que alguém em casa falou: Galileu, já que ele é doido como o Galileu Galilei. Pronto, a Gaya virou Galileu.


Hoje, faz um mês que temos um gatinho em casa e ainda bem, ele e a Saira convivem de maneira bastante harmoniosa entre mordidas, corridas e brincadeiras. Já tivemos muitas DRs devido o seu comportamento temperamental e hiperatividade. Também já me acostumei com o seu ronronar e com peso em cima das minhas cobertas. E principalmente, percebi que gatos não são domesticáveis.

Thursday, May 08, 2014

Hiatos

Períodos de silêncio e de interiorização são fundamentais na vida de qualquer um, e muitas vezes, necessários para gente assimilar o que a vida nos apresenta. Esses hiatos se apresentam de inúmeras maneiras, algumas vezes são planejados, em outras se tornam a única saída.  


Tinha decido me dedicar mais à escrita e escrevi muito desde janeiro. Aconteceram coisas que me fizeram transbordar e as palavras me ajudaram a passar por isso, não vou dizer que sai ilesa da turbulência, mas me tornei mais forte, penso que amadureci, pois me conheço mais. E o processo é doloroso.



Porém, escrevi muito no meu diário - ainda tenho diário. E pesei o fato de não querer me expor, não querer maximizar o que não precisa e por as pessoas e as situações no seu devido lugar. Uma parte da minha vida, uma etapa, um ciclo que se fechou.


Sempre tão passional eu não tive outra saída, a não ser racionalizar. E parece que até raciocinei melhor com isso. Percebo que meu luto está chegando ao fim e quero sim, ir publicando o que escrevi neste período. Quem sabe mudando algumas coisas, dando ares de ficção para a realidade. E no futuro, quando o meu olhar se voltar sobe o hoje, ter a certeza de que foi sofrido, mas foi o melhor que poderia ter acontecido.


Que venham os ciclos e as histórias novas. E publicáveis.