Sunday, September 18, 2011

Meia vida

Recentemente, conheci e passei a conviver com algumas pessoas novas. O Juliano de cara me ganhou, é inteligente, querido, piadista, tira sarro dele mesmo. Me chamou a atenção o fato dele reclamar muita da sua profissão, para minha surpresa quando perguntei o motivo de tanta frustração, a resposta foi “ah querida, tive que agradar papai e mamãe e segui a carreira deles.”

E tem mais, ele tem uns quarentas anos, é homossexual e está sempre falando na Paulinha, sua filha. Claro que eu perguntei como é se descobrir gay depois de ter uma família formada e a resposta: “eu sempre soube que era gay, mas antes de assumir, tive que agradar a sociedade.”

Não sei se admiro ou se sinto dó de pessoas assim. E o Juliano não é o único não, aliás, ele faz parte de uma maioria de pessoas que passam a vida agradando os outros e esquecendo de si, sacrificando suas vontades e desejos.

O próprio Juliano tem uma colega no trabalho que também não está feliz com sua profissão. O sonho dela é ser designer de jóias, mas como vai largar um emprego, uma profissão tradicional, um futuro promissor por causa de um desejo. Todo dia, ela chega com colares, brincos, anéis, pulseiras lindíssimas, tudo feito pela própria. E quando alguém a elogia, mais do que vergonha, há culpa na sua voz. Será que o futuro brilhante será permeado por culpa de não ter feito o que se quis?

Nos últimos meses, devido a sentimentos que me mudaram, observei muito as pessoas e infelizmente o discurso de “corra atrás do que você quer, vá ser feliz”, não é a pratica da maioria. Conheço muitas gente assim, pessoas incríveis e que eu amo, mas que vivem pela metade.

Viver não é fácil para ninguém, mas imagino que viver sendo o que não é, deve ser ainda pior. Procuro ser o mais fiel possível a mim e ainda assim, acho a vida uma barra pesadíssima. Tenho uma amiga, de verdade, que diz que sempre pagamos o preço pelas nossas escolhas e pagamos mesmo, mas penso que no final das contas, quem foi verdadeiro ganha um bom desconto.

Wednesday, August 31, 2011

Agosto, 31

Então, chegamos no último dia do mês do cachorro louco e ao que tudo indica, sãos e salvos. Sobrevivemos a piora na crise econômica mundial, ao frio gaúcho, as chuvas que pareciam não ter fim, aos desgostos mensais e pessoais, sustos, surpresas e delírios, ao contra cheque (que é o mais louco dos cachorros que nos latem), aos atrasos e desencontros, aos trancos e barrancos, ataques de fúria, euforia e marasmo total. E eu, leonina agostina, sobrevivi a mais um aniversário.

Que venha setembro com a primavera e o sol em libra. E para lembrarmos que nem sempre agosto é assim, tão ruim, deixo um texto do amado Caio Fernando Abreu, publicado em 06 de agosto de 1995, no jornal O Estado, de São Paulo. Porque, afinal, conseguimos fazer essa travessia com sucesso.

Sugestões para atravessar agosto

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.

Sunday, August 21, 2011

Aninha




De todas as minhas amigas, a Ana é a mais diferente de mim, sempre foi. Nos conhecemos no nosso primeiro emprego, na prefeitura de São Leopoldo. Ela estava terminando o ensino médio e queria fazer engenharia. Eu estava no primeiro semestre de jornalismo e com 17 anos, não tirava meus all stars e raramente sai a noite, quer dizer, minha balada era ir no bar BR3, onde podia ir com camiseta de banda e tênis. Enquanto a Ana, aos 16 já se equilibrava em cima de salto fino, adorava uma balada e tinha identidade falsa para poder entrar aonde quisesse.

Hoje, ela mora em Curitiba, está no último semestre de engenharia e namora o mesmo cara que ela estava ficando na primeira vez que fui visitá-la. Entre a prefeitura e a capital do Paraná muita coisa aconteceu. Fomos em festas, shows, cinemas, MC Donalds, caminhávamos nas tardes de domingo, íamos de ônibus para o shopping de Novo Hamburgo, de trem para o shopping de Canoas, mudamos de emprego, nos encontrávamos na universidade, enfrentamos uma viagem de ônibus num 29 de dezembro para passar o réveillon na Ilha do Mel.

Vi a Aninha passar no vestibular, entrar na UFRGS, brigar com o pai, reclamar dos irmãos e bêbada algumas vezes. Ela também foi testemunha de muitas coisas na minha vida e esteve comigo num dos piores momentos da minha vida, quando me afundei na primeira crise de depressão que tive, aos 19 anos. A Ana poderia ser só uma colega de trabalho ou uma parceira para festas, mas acabou sendo a única das minhas amigas que esteve do meu lado quando eu, com certeza, não era a pessoa mais animada do mundo.

Desde que ela foi embora, algumas coisas mudaram, ela emagreceu e aprendeu a gostar de malhar, eu me formei e aprendi a gostar de sair de noite. Na última sexta, saímos para beber (ela veio visitar os irmãos em Porto Alegre), falamos do futuro, dos nossos trabalhos, da formatura dela e do passado. Pela primeira vez, ela me viu um pouco bêbada e lá pelas tantas, me perguntou “tu lembra que tu foi a primeira pessoa a falar comigo lá na prefeitura?”

Eu lembro, claro que lembro, até da roupa que ela usava. Eu estava na sala do lado e volta e meia olhava para aquela menina gordinha que seria minha nova colega e que, erroneamente, chamávamos de “espiã”, até que não aguentei e pensei que deveria ir lá dar as boas vindas para ela. E fui.

Tuesday, August 16, 2011

Nostalgia: de Meia Noite em Paris a Smurfs

Semanas atrás, assisti "Meia Noite em Paris" do Woody Allen. No filme, o roteirista Gil (Owen Wilson) é um cara nostálgico. E de tanto desejar viver em épocas passadas é transportado para a era do ouro parisiense e passa a conviver com o francês Jean Cocteau, ouvir Cole Porter tocar piano e bater altos papos com Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, T.S. Eliot e outros que ele admira.

Sim, eu gostei do filme. O que mais me chamou atenção foi a nostalgia, para mim ela é a personagem principal. Mais do que voltar no tempo, quem nunca desejou viver em outra época? Woody Allen tem insights fantásticos sobre o inevitável vazio que a nostalgia gera. Para ele, não vale a pena idealizar o passado porque a vida é ruim assim mesmo, não importa a época.

Para mim, esta nostalgia vem do fato de não termos a capacidade de assimilar a contemporaneidade. Inseridos num contexto, não conseguimos enxergá-lo por completo, simples assim. Por exemplo, minha geração, usuária de Facebook, Twitter, Orkut e afins, não tem noção do quanto o surgimento dessas ferramentas vai significar no futuro. Talvez muitos dos nossos filhos e netos vão desejar viver na época dos primeiros usuários de redes sociais.

Essa semana, fui assistir “Smurfs” e o cinema estava lotado de adultos que, como eu, acordavam cedo na década de 80 só para não perder o desenho.

Sim, eu gostei do filme. Como toda obra de algo que já existe há muito tempo, o filme é cheio de referências à cultura contemporânea, de Kate Perry a Obama. E faz questão de explicar para quem, por um acaso, descobrir os anõezinhos azuis agora, que eles foram criados pelo Peyo, na década de 50.

Os dois são filmes inteligentes. Se é em Smurfs que se espera a maior dose de fantasia, é em um filme do Woody Allen que alguém entra num carro e é transportado ao passado. Se é em Meia Noite em Paris que esperamos lições de morais sobre vida, é numa animação que encontramos críticas a sociedade e a inversão de valores que vivemos.

Em ambos, saímos nos perguntando se “dá para voltar no tempo”? Não precisa ser para descobrir que a Era de Ouro era uma merda para quem estava lá, já está bom assistir Smurfs todo dia.


Monday, August 08, 2011

Feliz idade

Foi por pouco, por muito pouco. Mas cheguei aos 26, de todas as minhas idades, sem dúvida essa foi a que esteve mais a perigo. O último ano foi deverás difícil. Sou uma sobrevivente. Sobrevivi a uma saudade que, de fato, não me matou, mas me endureceu muito. E, por outro lado, me tornou muito mais sensível à vida.

Sei que no céu, por trás de toda essas nuvens cinzas, lá no infinito do universo, o Sol e Vênus estão em conjunção em Leão, o que pressagia um bom para quem aniversaria durante essa semana. Deixei de acreditar em muitas coisas no último ano, mas no universo e em suas andanças invisíveis, eu persisto crendo.

Não quero e nem gosto de festas, aliás, continuo achando o dia do nosso aniversário extremamente triste. Mas há um ano novinho na minha frente e ainda bem, aniversário é só um dia.

Também não vou pedir nada, mas desejo sim, dias melhores. Dias de mais amor e menos saudade. Dias de mais presença e menos ausência. Dias de mais leveza e menos dores. Dias de mais choros bobos de alegria do que choros desesperados de angústia. Dias de mais vida!

Sunday, August 07, 2011

D.R.

Eu já escrevi muito para o senhor, não é? Só que essa é a última. Você perdeu minha confiança e minha fé. Eu também perdi, pode acreditar. O fato é que, por enquanto, nossa relação acabou. Não acredito mais em ti. De verdade, gostaria de acreditar, mas não rola mais, minha crença é tão falsa como uma nota de dois reais.

Não se preocupa, não vou cair no lugar comum de te culpar e pensar que “Deus quis assim”, “Deus sabe o que faz” e “se Deus quiser”... Você é uma perfeita desculpa esfarrapada para as pessoas justificarem suas vidas medíocres. Não quero isso para mim, se caso me der conta da vida medíocre que levo quero ter a grandeza de saber que foi tudo por mim causa, minha única e máxima culpa. Não vou meter mais nada no teu cú.

Essa noção de que agora é tudo por minha conta e risco me concede uma liberdade incrível e também, uma responsabilidade assustadora. Afinal sempre vivi debaixo da tua asa e agora não tenho mais ninguém para justificar minhas escolhas erradas, minhas pisadas na bola e afins...

Conheço algumas pessoas que vivem muito bem sem você. Tenho pensado muito nelas, pois, como todo mundo, preciso de exemplos bem sucedidos. E são pessoas felizes, inteligentes e com uma fé absurda nelas mesmas. Penso que você, se é que existe, no fundo deve se orgulhar muito de nos, que conseguimos a carta de alforria de Deus, afinal somos uma preocupação a menos.

Bom querido, é isso. Por enquanto, é melhor cada um no seu canto. Um dia, talvez, num futuro distante, se você estiver afim e eu também, a gente pode tomar um chopp por aí e discutir a relação.

Tuesday, August 02, 2011

Sobre guarda chuvas e outras coisas que se perdem

Para ler ouvindo "O Que Se Perde Enquanto Os Olhos Piscam", do Teatro Mágico

Quantos guarda chuvas a gente perde ao longo da vida? E para onde vão esses objetos? Por que imaginem a quantidade de sombrinhas e guarda chuvas que, de uma hora para outra, se vêem longe das mãos de seus donos. Deve haver um lugar no paraíso só para eles, assim como um céu só para cachorros.

Ou será que eles acabam evoluindo e viram guarda sóis coloridos? Bem melhor proteger crianças, mulheres branquelas e velhinhos do sol do que passar a vida sendo esquecido por aí. Guarda chuva quando não é perdido, comete suicídio quebrando haste por haste... Vida longa não são com eles.

E as canetas que desaparecem dentro da minha bolsa? Colocar uma caneta na bolsa e praticamente tocá-la no lixo, com a diferença que eu fico me achando uma louca, porque claro que tinha uma caneta dentro da minha bolsa! E quando eu preciso dela, ela some... Certos objetos adoram nos fazer de bobos.

Mas nada, nada se compara a um livro que lia no trem. Foi o sumiço mais estranho que já presenciei, porque ele estava, obviamente, em minhas mãos, até que o celular tocou. Um aparelho que nunca levava comigo e que nunca havia tocado antes. Mas tocou e estava na bolsa, que estava no meu colo. Enquanto ouvia uma das vozes que mais amo me fazendo uma proposta totalmente inesperada, gaguejei, o coração acelerou, a pressão oscilou e o livro sumiu.

Sim, eu consegui perder um livro dentro de um trem lotado. A última lembrança que tenho dele é que antes de sumir, apertou meu dedão, enquanto se fechava e ia na direção da minha bolsa. Mas ele foi embora, não ouvi nenhum barulho dele caindo. Meu livro sumiu, simples assim. Ainda bem que era um livro de crônicas, já pensou se eu ficasse sem saber o final da história?

Seja lá aonde vão os objetos perdidos, na área destinada a mim, tem várias sombrinhas, muitas canetas e um livro, que reina absoluto e volta e meia me faz questionar minha sanidade. Inclusive, vou discutir isso com o meu psiquiatra na próxima sessão.

Monday, August 01, 2011

Sob o sol de Leão*

Neste exato momento há uma conspiração favorável no universo. Favorável a tudo e a todos que sejam de bem e do bem. O Sol está em Leão, assim como Vênus e a Lua, que se fazendo Nova, dá coragem para que novos e necessários ciclos sejam começados. E Mercúrio, o mestre da comunicação, do intelecto, o mensageiro entre os mundos, está na sua casa, Virgem.

Essa conjunção é boa para nos, leoninos, que fazemos a festa desde o final de julho, para os virginianos que não sofrerão tanto com o inferno astral e para todos, de maneira geral, pois seremos menos atingidos pelas angústias agostianas.

É bom um céu assim, especialmente, na primeira semana de agosto, esse lendário mês de desgostos e cachorros loucos. Que esse céu tão solar, tão leonino, traga enfim, as boas novas, para aquietar meu coração que tem Vênus em Câncer e, portanto, não sabe lidar com o final das coisas e tem um medo danado de novos começos.

Que a conspiração astral amenize minha ansiedade Libriana e que esse meu ascendente não exerça o seu domínio, tão fortemente, sobre mim. Como eu não vou enlouquecer considerando todos os “e se...” e os “mas e se...” que a vida me oferece? Acreditem, minha Lua em Touro nada ajuda nessa hora.

Que o dia 8, com toda a sua forma de infinito e seus círculos contínuos (que nascem, morrem e renascem) me façam perceber que estamos quase no final do ano. Depois de Leão, só temos que esperar Virgem passar para que a Balança e os sedutores librianos nos tragam as flores e o clima primaveril. Quem sabe aí a gente entenda o favorável universo do hoje e colheremos os frutos. Que serão saborosos.

*Inspirado em Zero grau de Libra, de Caio Fernando Abreu

Monday, July 25, 2011

Sinais

Na estação aeroporto do trensurb entram dois rapazes. O trem está lotado, mas eles param perto de mim. Pela maneira como se tocam e pela cumplicidade que há em seus olhares, imagino que são namorados.

Um deles, o mais falante, ostenta uma pele bronzeada e tem na mochila a etiqueta de uma agência de viagem. O outro é mais quieto e não trás nenhuma bagagem, apenas um copo de milkshake do Bob’s vazio. Chovia muito, estamos todos um pouco molhados.

Na estação Niterói, a gente consegue sentar, eles num banco de frente para mim. O moreno olha para tudo com uma curiosidade de quem está em um lugar pela primeira vez, o outro tem um ar preocupado como se perguntasse “será que ele está gostando?”

Enquanto olho os pingos de chuva na janela, começo a pensar nos meus amigos gays e percebo que aquele casal é um sinal. Um sinal de vida, de que devemos ter esperança, de que as coisas vão dar certo.

O celular do “turista” toca e eu escuto um pouco da conversa: “sim, cheguei bem. Tá frio, bastante frio, mas o Giovani disse que esses dias estava congelante. Sim, sim estamos indo para a casa dele, vou passar para ele...”

Pergunto da onde ele é, me responde com um sorriso que é do Rio de Janeiro, o que explica aquele tom de pele lindo. Então, passo a ter certeza de que é um sinal. Num fim de tarde chuvoso, há um carioca sentado na minha frente, num trem lotado. Um carioca, como o homem que amo. E outro, chamando Giovani. É um sinal, eu sei que é. É a vida subjetiva me mandando mensagens subliminares.

Conversamos um pouco. Quando vou descer, eles olham para mim e me desejam “todo o amor do mundo”. Sim, agora não há dúvida, é um aviso de que tudo dará certo e que eu terei sim, todo o amor do mundo.

Wednesday, July 20, 2011

Enchendo os pulmões de ar

Medo. Estou com medo, apavorada na verdade. A vida está se encaminhando para algo que quero muito, mas com essa possibilidade veio, também, um medo danado.

De perder o controle antes da hora, de ter a faca e o queijo na mão e acabar me cortando ou pior, de deixar o queijo mofar. De me sabotar, de achar que não mereço tanto e jogar tudo fora. Sim, porque a maioria das pessoas abre mão de ser feliz, a maioria não tem a consciência de que merecemos ser felizes.

Existe um ditado árabe que diz: "quando Deus quer enlouquecer alguém, ele realiza todos os seus desejos". Então, estou há um passo da loucura, logo eu, que até Deus estou contestando. Mas se tudo der certo, vou me tornar a pessoa mais crédula do mundo e passarei meus dias louvando o senhor e, só isso, já será uma loucura total.

Não vou negar que esse medo dos últimos dias tem feito eu me sentir viva e penso que isso é bom. Sentir a adrenalina correndo pelo corpo, o coração acelerado... Preciso dar longas respiradas, enchendo bem os pulmões de ar, para conseguir realizar as tarefas banais do dia.

Me sinto em cima de um prédio bem alto, pronta pra me atirar na feliz adrenalina da loucura plena de viver um desejo realizado. Porém, se Deus realmente não existir ou não estiver disposto a se divertir comigo enlouquecida, desta vez, a queda vai ser fatal.

"E de pensar nisso tudo, eu, homem feito. Tive medo e não consegui dormir..." Legião Urbana

Friday, July 15, 2011

Dá pra voltar no tempo?

Tenho uma memória de elefante, sou capaz de reviver dias inteiros que já aconteceram, sei as datas e até horas. Por exemplo, recordo o dia 15 de junho de 1992, o dia que minha avó morreu, como se fosse ontem. Quando minha mãe foi fazer minha matrícula na primeira série e me levou junto para me mostrar a escola. Quando soube que tinha passado no vestibular e resolvi ir pra casa a pé, de tão feliz que estava. O dia da minha formatura, a missa da minha formatura, minha chegada em Barcelona, a noite que capotei de carro.

Claro que isso são coisas marcantes, mas tem as banais, os dias comuns que deixam suas digitais na eternidade. O dia que o tio Roni trocou de carro e levou todos os sobrinhos para tomar sorvete, ainda sinto a força dos meus dedos no banco quando ele falava: “gurizada, vou ligar o turbo!”

Uma noite na praia, caçando vagalumes com meu irmão. Uma brincadeira de esconde esconde na casa dos meus avós, que acabou porque uma prima pulou a janela do quarto e sujou toda a cama da vó, de barro. A bagunça na hora do almoço com os tios e primos de Florioanópolis, nas férias de inverno de 1994. Um luau na Guarda do Embaú, em 2004. Uma tarde na faculdade editando o programa de Tele II. Depois de anos, a subida até o Cristo Redentor, em 2009, (Gi, eu estava emocionadíssima!) O porre na festa do Congresso da CUT-RS. Coisas assim...

Acordo e penso: “bah hoje é 06 de fevereiro, em 1993 estava em Tramandaí e de noite eu ficaria deslumbrada diante de vagalumes dentro de um copo”. É assim, as coisas vem na garupa do elefante que é minha memória.

Agora são 15h30 e há um ano, em 15 de julho de 2010, eu estava feliz, muito feliz. Há essa hora estava saindo do trabalho, já tinha participado de uma reunião de funcionários da CUT e ido comprar TNT amarelo para a amiga Juliana colocar na mesa do chá de casa nova dela, que foi no final daquela tarde. Estava indo para um hotel no centro de Porto, onde encontraria o homem que amo.

Eu veria ele chegar, lindo. Iria para o chá da minha amiga com a Gi, arrumaríamos as mesas com a Ju, depois a Gi me ajudaria a ver quais salgadinhos não tinham carne. No início da noite, voltaria e sairíamos para beber. Lembro que enquanto a gente caminhava até um bar, pensava “não acredito que ele está aqui, comigo”. Ele me observou colocando as luvas e me disse: “tu é a segunda pessoa que conheço que usa luvas sem tirar os anéis.” E a gente riu. Eu estava feliz, ele parecia feliz.

Essa não foi a última vez que nos vimos, mas foi a última em que parecíamos felizes. É clichê se eu falar que se soubesse disso, teria abraçado mais, beijado mais? Eu morro de saudade dele, todos os dias eu morro um pouco e me supero muito.

Mas hoje, eu acordei com aquele desejo impossível de voltar no tempo de verdade e não através dessas lembranças tão próximas, tão densas e até palpáveis. Por favor máquina dos filmes da sessão da tarde, me leve de volta! Eu tenho pouco tempo para que esse milagre aconteça! Daqui um pouquinho, lá pelas 16h20, verei ele descendo do carro e estarei de novo no melhor lugar do mundo: os braços dele.

Assinale a justificativa correta

Eu ando de saco cheio de tudo, o que não é nenhuma novidade. Incrível é estar tranqüila porque sei que é o meu inferno astral. Daqui uns dias, assim que o sol ingressar em Leão, vai passar.

Caso no próximo mês, eu continue assim, não esquecem que agosto é o mês do cachorro louco, que a bruxa anda solta e todas as coisas que ouvimos a vida toda da cultura popular, acabam influenciando no nosso comportamento.

Com certeza, em setembro, com a chegada da primavera, tudo ficar mais ameno. Se bem que o pólen das flores solto no ar dá alergia e as pessoas acabam ficando meio de saco cheio até com a estação mais bonita do ano.

Mas assim eu vou e o tempo vai passando, busco desculpas esfarrapadas pra enfrentar a dor. Um dia quando eu me der conta, já terá passado muitos anos, muitos infernos astrais, agostos e primaveras. E eu terei sobrevivido.

E muito provavelmente não terei achado a justificativa correta para estar quase sempre de saco cheio. Minha vida está longe de ser monótona e tenho consciência da grandiosidade desse mistério que é a vida. Muito das minhas dores se devem ao fato de eu não querer e não achar normal viver uma vida pela metade. Ando tão de saco cheio porque viver me dói muito.

Wednesday, July 13, 2011

Casa de Nazaré

Há uns 10 anos atrás eu fazia trabalho voluntário com crianças, era um projeto da escola que estudava. Eu fazia o que mais gostava: ler. Eu lia histórias para crianças que ainda não estavam alfabetizadas e era o máximo. Lia de tudo, de Monteiro Lobato a Anne Frank, até o Mito da Caverna, do Platão eu li e acreditem, aquelas crianças de 5 e 6 anos entendiam muito bem.

Mas foram por alguns meses apenas e logo entrei na faculdade, porém nunca esqueci como me sentia bem com elas. E pensei muito nisso enquanto estive na Europa, não sei se porque estava totalmente sozinha ou porque me dava conta que eu poderia viajar pra qualquer lugar, eu não esqueceria certas coisas e nem deixaria sentimentos de lado. Então acreditava que quando voltasse, tinha que fazer coisas que me fizessem bem.

Eu pensei muito nisso, que conviver com crianças me faria bem. Na minha última semana lá fora, recebi um email de um ex chefe que dizia mais ou menos assim: “Quando tu volta? Tu vai voltar né? Me avisa, tem um lugar que quero que tu conheça, acho que tu vai gostar.” Uma semana depois que cheguei no Brasil, fui conhecer esse lugar, a Casa de Nazaré – Centro de Apoio ao Menor. Na outra semana comecei a trabalhar lá. É longe, na vila Nossa Senhora das Graças, no bairro Cristal, mas é incrível.

Quando esse amigo me enviou o email, a intenção era ver se eu topava fazer algum trabalho voluntário na entidade, só que nesse meio tempo, o funcionário que cuidava da administração do site da Casa saiu. Então, me tornei assessora de comunicação da Casa de Nazaré. Faço uma das poucas coisas que sei fazer e o melhor, rodeada de crianças.

A Casa de Nazaré atende mais de 500 crianças e jovens por dia. Há turmas de berçário, maternal e jardim, além das turmas de trabalho educativo que são para as crianças em idade escolar, que freqüentam a entidade no contra turno e os projetos sociais para os jovens de 12 a 16 anos, como teatro, violão, informática...

Há muito trabalho e pouca estrutura, mas é incrível saber que lá na ponta os beneficiados serão essas pessoas. Quase sempre almoço lá e outro dia ouvi de uma menina de 4 anos que “tem que comer repolho porque faz bem para pele”. Por mais que não esteja contando histórias para essas crianças, estou convivendo com elas, com centenas delas. E isso me faz um bem danado.

Eu que ando tão descrente de tudo, volto a ter esperança no ser humano, me faz acreditar que com tanta gente boa no mundo, é impossível as coisas não darem certo. Trabalhar lá não me faz esquecer da vida, muito pelo contrário, a realidade vem como um soco no estômago todos os dias.

Quando ouço uma criança falar, com a maior naturalidade, que o pai está preso e a mãe foi comprar crack. Quando entra uma educadora na minha sala perguntando se eu vou entrar na vaquinha para comprar um tênis para uma criança que apareceu de chinelo e meia, num dia que fazia 5ºC. Ou quando uma grávida de 13 anos me pergunta quantos filhos eu tenho e me olha horrorizada com a resposta negativa, porque essa é única realidade que ela conhece.

Não faço trabalho voluntário, sou funcionária e ganho por isso, embora quando fale para as pessoas o valor do meu salário, ouça gargalhadas e quase sempre a sentença: “isso é trabalho voluntário”. Mas eu ganho essa esperança que disse acima, quando entro no refeitório e tem dezenas de carinhas lindas, com a boca suja de feijão, me sorrindo. Tem alguns que entram na minha sala para me entregar um desenho, na maioria das vezes é eu que estou desenhada e quase sempre, não me reconheço. Quando a gente perde a fé, são gestos assim que nos sustentam.

Eles não entendem o que faz uma assessora de imprensa, me chamam de tia, de profe, de sora, de Rê ou de ingrata (graças ao Latino). Eles também não entendem porque eu trabalho na sala da direção (o rapaz que cuidava do site era instrutor de informática). Devo ser uma grande incógnita para eles e para muita gente que acha absurdo eu acordar de madrugada, pegar trem e ônibus para trabalhar numa creche. Mas com certeza, a maior beneficiada nessa história toda, sou eu.

“Eu fico com a pureza da resposta das crianças”- Gonzaguinha

Friday, July 08, 2011

Seguindo a canção

Eu estou tentando com todas as minhas forças mas, às vezes, viver me exige tanto esforço. E daí se meus problemas por causa de um coração partido são ínfimos perto de problemas mundiais como fome, violência e miséria? São meus problemas! E muitas vezes não me deixam dormir e continuar caminhando e cantando e seguindo a canção.

Acredito que eu querer ficar bem e buscar objetivos para continuar já é uma grande coisa, mesmo tendo abandonado a terapia e jogado os remédios o lixo. Cansei de tomar droga liberada e com receita, para ser feliz. Como diz minha mãe, a gente tem que caminhar com as próprias pernas, e estou fazendo isso. Vou tropeçando, reclamando, chorando, mas vivendo, no final das contas.

Estou me focando, mais do que nunca, em juntar grana para comprar um apartamento ano que vem. É um plano bem real e aceitável, o que mostra a minha maturidade. A infantilidade vem quando eu penso que preciso de um apartamento com dois quartos e me pego pensando como vou mobiliar esse quarto que será para o enteado lindo e fofo que um dia eu vou ter.

Boa parte de mim sabe que isso é uma ilusão. Mas é justamente a parte iludida que me faz querer continuar, viver e ficar bem. Porque quando ele voltar e ele vai voltar, vai me encontrar melhor do que eu era. Sim, é só por ele que eu sigo ensaiando a canção de todo dia.

Wednesday, June 29, 2011

François

François é um tipo raro e inesquecível. Conheci numa noite dessas em algum boteco da Cidade Baixa. Ele, o rei da República e da João Alfredo e da Lima e da João Pessoa... Uma amiga apareceu com o tipo a tira colo. Estão se pegando, os dois.

François, com esse nome, parece francês né? Mas não é, embora se apresente assim: “François, francê”. Nasceu na Restinga o moço, filho da Grace Kelly e do Michel Jackson, irmão mais velho de Ian Nick (outro tipo bastante peculiar)... Como vocês podem perceber, uma família de exemplares ímpares.

Nasceu com a democracia e influenciado por referências culturais estadunidenses. Contemporâneo do Plano Real, dos Mamonas Assassinas e do É o Tchan. Chorou muito até ganhar do Papai Noel um Atari e acordava cedo para ver a Xuxa descer da nave espacial cor de rosa. No começo, tinha medo de computadores, mas viu o advento da internet, da globalização, dos emails, dos chats, das conversas instantâneas e hoje é dependente de toda e qualquer rede social que existe.

Mas, quando François era aluno de uma escola pública da zona oeste da capital, não havia bullying, nem crianças hiperativas e disléxicas. Apenas garotos problemas. E antes de tocar terror na Cidade Baixa e arredores, François tocou terror na Restinga e nos colégios por onde passou.

Ele não era assim, um aluno exemplar, mas sempre possuiu uma inteligência apurada e um comportamento diferenciado, capaz de marcar todas as jovens professorinhas que passaram por ele. Muito prestativo, sempre se candidatava a ajudante do dia, assim tinha acesso fácil à sala dos professores, e as bolsas das mesmas. Sim, ele “roubava” dinheiro delas.

Porém a vida escolar de François se divide em antes e depois da maior cagada de sua vida infantil. Inteligente o suficiente para conquistar a simpatia dos professores, sempre tinha defensores. Até o dia que percebendo o sistema de merda que é a sociedade, ele resolveu realizar um protesto solitário e ousado. Durante vários dias, ele cagou em cima das mesas das professorinhas. Foi uma decepção para elas, quando o mistério escatológico foi resolvido, mas nesse momento morria o garoto problema e nascia o mito.

E o mito, eu garanto para vocês, é gente boa, faz o estilo sujinho de all star, cavanhaque e dreads nos cabelos. Nunca concluiu uma faculdade, mas se formou na escola da vida. Nada mal para quem poderia estar roubando, estar matando ou ainda pior, pedindo voto.

Tuesday, June 28, 2011

Escrevinhadora

Quando era criança, queria ser escritora quando crescesse. Primeiro veio a necessidade de ter uma profissão que me possibilitasse escrever, para depois escolher pelo jornalismo. Na escola e no cursinho pré vestibular ganhei alguns concursos de contos e afins... No início da adolescência, sempre presenteava as amigas com histórias e minha primeira fonte de renda foi a venda de redações para os colegas durante os três anos do ensino médio.

Provavelmente uma das melhores ofertas de emprego que tive, eu recusei porque não escreveria com a freqüência que gostaria. Logo depois de formada, trabalhei como free lancer num jornal conhecido da região metropolitana. Após um tempo, fizeram a proposta de me contratar como diagramadora. Apenas diagramadora. O salário, na época, era o dobro do que ganho hoje e, eu recusei. Por mais que goste de montar quebra cabeças em páginas de jornal, tenho certeza que se aceitasse, logo me transformaria numa profissional insatisfeita e com inveja dos colegas que escreviam.

Resumindo, ainda quero ser escritora quando eu crescer. Tá, já cresci, eu sei. Além disso, dizem que os livros estão com os dias contados e que são raras as editoras que topam lançar novos nomes num mercado cada vez mais tecnológico. Pior que isso, o Brasil tem um dos menores índices de leitura do mundo.

Apesar de tudo, o mais estranho é que de todos os meus sonhos, desejos e plano esse é o único que não tenho nenhuma pressa de realizá-lo, isso se um dia realizá-lo. E eu não sei explicar o motivo. Essa é a única questão em que “deixo a vida me levar”. Claro, que nenhum editor irá bater na minha porta pedindo para eu publicar algo.

Às vezes justifico esse meu “marasmo” com o fato de quase sempre escrevo na primeira pessoa e isso gera algumas confusões, mas também é um baita recurso de proximidade com qualquer leitor. Quem lê, também lê na primeira pessoa. E muitas vezes, o nosso umbigo reflete o umbigo alheio.

Volta e meia alguém me pergunta sobre um possível livro e isso me deixa lisonjeada, embora eu nunca saiba ao certo o que responder. Talvez me falte fôlego para escrever uma história coerente, ou vontade, ou disciplina... Provavelmente, um dia não irá bastar escrever notícias no trabalho, reflexos no blog, frases curtas no twitter e loucuras no meu diário (sim, eu tenho diário). Mas com certeza, vou ser escritora quando eu crescer!

“Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi.” Caio Fernando Abreu

Sunday, June 26, 2011

Bola pra frente

O blog está quase criando mofo, não por falta de vontade, há muito que falar, mas às vezes nossos maiores silêncios são justamente, fruto de grandes gritarias internas. Eu gosto muito de escrever, penso que essa é a maneira que melhor me expresso e tenho textos prontos, porém não consigo postá-los. Não sem antes, colocar as palavras que estão há dias tentando sair. Parece uma traição se eu postar algo que não sinta no momento.

Eu estou melhor, muito melhor, porém isso não significa que estou feliz ou infeliz. O último ano foi muito intenso, principalmente de emoções. Conheci uma das pessoas mais importantes da minha vida e tive que aprender a viver sem ela. Muitas vezes, desejei egoistamente, que ele tivesse morrido, assim seria mais fácil de aceitar.Também estive muito perto de me matar por não querer continuar sem ter a chance de viver o que eu sentia.

Ironicamente, foi no meio disso tudo que eu fui viajar. Conhecer a Europa sempre foi um sonho. E ter realizado um sonho quando o que eu mais queria era morrer, me ensinou muitas coisas. Hoje eu penso que eu só não me matei porque eu tinha essa viagem pra fazer, mesmo tendo entrado no avião torcendo para que ele caísse.

Abre parênteses: eu não tenho problema nenhum em falar de suicídio. Não foi a primeira vez que pensei nisso e pelo meu histórico, sei que provavelmente vou ter essas crises outras vezes ao longo da vida. Talvez um dia eu consiga me matar ou talvez eu sempre supere essas crises. Fecha parênteses.

Voltando ao o que eu quero dizer e está tão difícil. Eu estou visualizando uma vida daqui pra frente, mesmo sem ele, mesmo correndo o risco de me tornar uma mulher amarga. Eu quero comprar meu apartamento ano que vem, já estou louca pra viajar de novo, vou voltar a estudar espanhol, voltei a levar a sério a dança do ventre e ando pensando num mestrado no exterior, mas num lugar próximo para eu não morrer de saudade. Estou com dois empregos bacanas que me ocupam o suficiente para eu chegar em casa podre de cansada.

Eu não estou feliz, como disse antes, apenas estou vivendo! Continuo amando esse homem, chorando de saudade, enxergando ele em todos os lugares, sentindo o seu perfume, vendo o filho dele em todas as crianças que cruzam por mim na rua. Ainda guardo um livro que trouxe para ele de Barcelona, cuido da sua camiseta como quem cuida do maior tesouro do mundo. E tenho certeza absoluta que o dia mais feliz da minha vida, foi quando recebi um email dele. Sim, eu trocaria qualquer apartament no meu nome, mestrado noo exterior e viagens para poder dormir e acordar do lado dele.

Agora são quase 21h, estou escrevendo esse texto desde às 18h30, acho que vou estar mais leve quando terminá-lo. Tanto esforço, físico e mental, para dizer que no momento, quero viver, que não deixei de amar esse homem, mas talvez seja justamente vivendo, que um dia ele volte, mais maduro e pleno ou eu me torne merecedora de viver o que sinto.

Tenho consciência de que a vida foi muito boa comigo, eu sempre tive dois sonhos: ser jornalista e viajar. Já realizei os dois. Sei que não preciso ser rica para viajar e minha timidez nunca foi empecilho para a minha profissão. Nesses meus 20 e poucos anos já tive algumas boas surpresas e amar esse homem foi sem dúvida, a maior e melhor de todas.

Aquele filme “Show Bar”, de uma moça que sonha em ser cantora e vai para cidade dançar em cima das mesas de um bar, enquanto batalha a gravação de um CD, termina com uma pergunta: “o que se faz quando os sonhos se realizam?” Sempre que assistia esse filme eu respondia: “Começa a sonhar sonhos novos!” É isso, e agora está claro, eu voltei a sonhar.

“Você me pergunta “sairei do buraco?”. Sairá, sim. Sairá brilhantemente. As coisas agora vão começar a acontecer, é meio tipo ímã, uma coisinha vai magnetizando outra e outra e outra, você vai ver.” Caio Fernando Abreu

Sunday, June 12, 2011

Só por hoje...

Só por hoje eu não vou chorar.
Só por hoje eu não vou acordar pensando em você.
Só por hoje eu não vou imaginar como seria viver com você para a viagem de trem passar mais rápido.
Só por hoje eu vou me concentrar no trabalho e fazer tudo direitinho.
Só por hoje eu não vou deixar que a saudade vire estupidez e eu brigue com alguém.
Só por hoje eu vou sair com as minhas amigas e vou falar amenidades, sem me dar conta de como eu queria que você estivesse ali.
Só por hoje eu vou vestir a roupa que eu quiser sem pensar se você iria gostar.
Só por hoje eu vou caminhar pelas ruas sem desejar dar de cara com você numa esquina qualquer.
Só por hoje eu não vou imaginar como vai ser se um dia eu te encontrar, só para meu coração acelerar e me sentir viva.
Só por hoje eu não vou desejar sonhar com você.
Só por hoje eu não vou entrar no teu Orkut. Nem no site do IGP. Nem no de Santa Maria.
Só por hoje eu não vou te ligar só pra escutar você dizer “alô”.
Só por hoje eu não vou falar de você para as minhas amigas.
Só por hoje eu não vou lamentar que passei um dia sem notícias suas cada vez que deitar na cama.
Só por hoje eu não vou beber até me sentir anestesiada.
Só por hoje eu vou conseguir olhar para o lado e enxergar um exemplar do sexo oposto e vou achar esse ser bonito.
Só por hoje eu não vou tomar remédio pra dormir.
Só por hoje eu não vou falar mal de Deus, nem do Diabo.
Só por hoje eu vou acreditar em qualquer coisa que me faça bem.
Só por hoje eu não vou ficar olhando tua foto.
Só por hoje eu não vou correr cada vez que meu celular tocar, torcendo pra ser você.
Só por hoje eu não vou pensar no que você estará fazendo cada vez que olhar no relógio.
Só por hoje eu não vou lembrar do teu filho cada vez que eu vê uma criança na rua.
Só por hoje eu não vou entrar no meu email a cada cinco minutos só para ver se você mandou algum email.
Só por hoje eu não vou pensar em me matar.
Só por hoje eu vou fingir que tá tudo bem.

Wednesday, June 08, 2011

Carta Anônima

"Os sobreviventes" é o conto do Caio Fernando Abreu que mais gosto. O segundo é esse, "Carta Anônima". Reproduzo o texto abaixo, porque hoje o li inúmeras vezes, acho de uma beleza tão singela. Amo a capacidade que o Caio tinha de descrever situação tão banais com uma riqueza de detalhes e uma percepção única. Segue a carta:


Carta Anônima

"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.

Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.

Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo."

Caio Fernando Abreu

Sunday, June 05, 2011

A elegância do ouriço

Nas longas horas que eu passei no aeroporto de Madrid, quando voltava ao Brasil, comprei alguns livros e nunca uma obra me foi tão recomendada quanto “La elegancia del erizo”, de Muriel Barbery. O livro já foi traduzido para o português, mas eu nunca tinha ouvido falar.

Comprei por pura curiosidade, simplesmente, todas as pessoas que estavam na loja falaram bem do livro! Bom, a história se passa em um edifício luxuoso de Paris e é contada por Paloma, uma menina de 12 anos e por Renée, a zeladora do prédio.

Penso que esse livro é a prova que o que sustenta uma história é suas personagens. Paloma e Renée vivem em universos diferentes. A menina é a caçula de uma família rica, filha de político. A zeladora é quarentona, viúva e solitária.

Mas ambas são inteligentíssimas e dividem uma visão ímpar do mundo, ora terna, ora ácida, e há também, o amor pelas artes, filosofia e as letras. Enfim, são personagens complexas e ricas e como todas as pessoas que se sentem a margem da realidade que vivem, elas tentam ao máximo passar sem serem notadas. Renée é de pouquíssimas palavras e acha que a vida nunca vai surpreendê-la. Paloma está decidida a se suicidar, já que pensa que na vida não há sentido.

São essas duas mulheres que contam uma história, de vida, delas mesmas. Separadas e entrelaçadas, as observações, as idéias, o vazio e a riqueza interior de ambas encantam e machucam. Se o leitor já percebe as semelhanças entre elas logo, as personagens passam a conviver de fato, quando o japonês bem-humorado Kakuro Ozu, se muda para o edifício.

Eu li o livro em espanhol e essa semana quero ver se o encontro em português. Vale a pena e eu recomendo, são poucos os livros que é necessário um tempo para assimilar o que se leu e esses, são justamente os melhores.

Ah sim, o título do livro é por causa do ouriço, o animal mesmo, porque lá pelas tantas, Paloma compara Renée com o bicho e explica: por baixo da aparência dura e estranha, os ouriços são um dos animais mais dóceis e inteligentes do mundo.

“'A vida tem um sentido que os adultos conhecem' é a mentira universal que todos crêem por obrigação. Quando nos tornamos adultos, compreendemos que isso não é verdade e já é muito tarde. O mistério da vida permanece intacto, porém faz tempo que gastamos toda a nossa energia em atividades estúpidas. Já não resta mais nada, a não ser nos anestesiarmos perante a vida e fazer de conta que tudo tem um sentido, enganando assim, nossos próprios filhos e os outros para tentar convencer a nos mesmos.” Muriel Barbery