Monday, May 31, 2010

Rainbow

Eu vi um arco-íris hoje, estava vindo do serviço pra casa. A pé depois de 40 minutos no trem. Havia muitas nuvens escuras no céu e no meio delas, apareceram aquelas cores fraquinhas.

Fiz um pedido. De todas as coisas do mundo, arco-íris é o que eu considero mais inexplicável. Nunca ouvi uma explicação convincente do que seria um arco-íris. Talvez por falta de uma explicação mesmo ou por ignorância...

As cores ficaram mais fortes. Refiz meu pedido. Quase fui atropelada de tão concentrada que eu tava. Quantas pessoas viram o arco-íris? Quantas fizeram um pedido?

As cores foram sumindo. As nuvens ficaram mais escuras e começou a cair uma garoa fria e grossa. Eu corri. No rádio começou o tocar “Somewhere over the rainbow”. Acho que foi um sinal. Um bom sinal.


Somewhere over the rainbow
Israel Kamakawiwo'ole


Somewhere over the rainbow
Way up high
And the dreams that you dream of
Once in a lullaby

Somewhere over the rainbow
Blue birds fly
And the dreams that you dream of
Dreams really do come true

Someday I'll wish upon a star
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney top thats where you'll find me
Oh somewhere over the rainbow blue birds fly
And the dreams that you dare to, oh why, oh why can't I?

Well I see trees of green and
Red roses too,
I'll watch them bloom for me and you
And I think to myself
What a wonderful world

Well I see skies of blue and I see clouds of white
And the brightness of day
I like the dark and I think to myself
What a wonderful world

The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people passing by
I see friends shaking hands
Saying, "How do you do?"
They're really saying, I... I love you

I hear babies cry and I watch them grow,
They'll learn much more than
We'll know
And I think to myself
What a wonderful world

Someday I'll wish upon a star,
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney top thats where you'll find me.
Somewhere over the rainbow way up high
and the dreams that you dare to, why, oh why can't I?

Saturday, May 29, 2010

Saudade

Saudade: lembrança, suave e triste ao mesmo tempo, de um bem do qual se está privado; pesar; mágoa que nos causa a ausência de uma pessoa querida; nostalgia.

Essa é a definição de saudade no dicionário. Eu acho que depois de tanta festa e farra, está iniciando um período nostálgico na minha vida. De análise do que fiz, do que falta fazer... De ocupar a cabeça pra tentar não sentir tanta saudade e de chorar de noite, antes de dormir.

Ele foi embora. Ele que apareceu na minha vida de uma maneira tão calma e serena. Ele que eu tinha certeza que seria uma válvula de escape e aos poucos foi se desvendando tão igual a mim. Tão perfeito pra mim. Sim, ele existe. E ele me fez até acreditar no que sempre considerei inacreditável: o homem perfeito também me acha perfeita.

Mas a vida é complicada e ele teve que ir. Tá, ele não foi para muito longe, está no mesmo estado, apenas quatro horas de ônibus. Mas chega a doer a saudade que eu já sinto e existem outros fatores, complicados demais, que dificultam muito a possibilidade da gente se ver e ficar junto, pelo menos por enquanto.

Eu não sei se esse é o pior tipo de saudade. Ou se é a de quem morre. A circunstância toda que consegui me meter, me faz lembrar muito da minha avó. Como eu precisava dela aqui, comigo, agora. Às vezes penso tanto nela, mas não sei se é saudade, estranho pensar que uma pessoa que conviveu só seis anos comigo, faz tanta falta. Fico imaginando como seria a vida se ela não tivesse morrido tão cedo, as coisas seriam tão diferentes.

Neste momento, a saudade dele dói mais. Mas não tem mágoa, nem tristeza. Tem uma ausência e um respeito pela história que ele tem que viver. Tem esperança também, que a situação vai melhorar, que a gente não vai sentir o tempo passar e logo vamos estar juntos.

E tem também aquele último consolo pra saudade, que Deus sabe o que faz.

Monday, May 24, 2010

Toque de caixa

A vida tá a mil. Muitos planos. Curtos e longos prazos. Um ou outro nó na garganta. Uma e outra paranóia, porque nem eu acredito que nem lembro mais o que é dor no estômago, aftas, choros contínuos...

Estou curtindo a vida adoidado e isso é bem melhor que ficar em casa olhando a sessão da tarde. É tanta coisa que não dá tempo, mas não quero perder nada. Vou vivendo e absorvo o que dá.

Amanhã: show do Nei Van Soria. Quinta: happy hour com a Gi e a Jú. Sexta: jantinha com a Aline e a Jaque. Sábado: Ocidente. Feriadão: praia com os amigos. Dia dos namorados: II Encontraço dos Solteiros. E tem a festa junina da Janja e a festa do Cachorro Louco em agosto.

E tem Montevidéu em julho. E apresentações de dança do ventre em junho, julho e outubro. E a Feira do Haren. E a entrega da monografia da pós. E a formatura da Fabi. E o casamento da Rô. O chá de panela da Jú. O mestrado da UFRGS. E o final de semana em Gramado. E mais o que vier, o inesperado. O combinado de última hora.

Tá tudo assim a toque de caixa. Diz um amigo meu que “a vida é dinâmica”, e eu concordo com ele. A Ana diz que não me conhece mais, de tão festeira que eu tô. A vida é feita de fases, como tudo que é dinâmico, e eu queria muito que a minha amiga querida estivesse mais perto de mim (geograficamente) nesta fase atual.

É tanta coisa me tirando o fôlego que nem vou ter tempo de sentir falta. Eu não quero sentir. E vou vivendo, o tempo vai passando e quando eu perceber ele vai ser uma gostosa lembrança, daquelas que fazem a gente sorrir. Sempre que eu ouvir aquela música linda do Teatro Mágico que diz “só enquanto eu respirar, vou lembrar de você”, vou pensar nele.

E lembrar que as coisas são como tem que ser. Talvez a minha vida esteja tão a toque de caixa, e tão boa, justamente para eu não sofrer. Sempre soube que seria assim, que ele iria embora um dia. Confesso que esse dia chegou cedo demais... Mas eu vou tá sempre tão cansada que vou deitar e não vou chorar, só vou sonhar.

Friday, May 21, 2010

Caiu como uma luva

Achei o texto abaixo na internet (salve internet), não sei de quem é. Mas curti muito, tanto que coloquei até no perfil do Orkut. “A felicidade como meta” não é um texto cheio de clichês ou receitas fúteis para a gente ser feliz.

Em vez de pregar o “abra seu coração”, o autor sugere que pratiquemos o desapego. E eu estou numa fase tão boa na minha vida, tão feliz, tão leve, tão desapega, que esse texto caiu como uma luva. Perfeito para eu perceber que sou feliz.

Daqui uma semana, provavelmente estarei triste, pois uma pessoa muito especial está indo embora e as ironias da vida não permitem que a gente permaneça juntos. Eu tenho a consciência de que vou ficar um pouco para baixo, mas já sabia que seria assim... Então, só me resta praticar o desapego, não em relação à pessoa, mas a situação.

Por agora, garanto que estou feliz! Que vocês curtam o texto, tanto quanto eu.

A felicidade como meta

Felicidade não é o gozo ou o prazer, nem a sua ausência. É o estado permanente de quem encontrou a si mesmo, isto é, a sua essência verdadeira.

Felicidade é o sentimento de desapego perante qualquer coisa de concreto ou abstrato que se lhe apresente. Esta é a felicidade verdadeira, incondicional, desligada de todo e qualquer fator material; é o viver em harmonia com a Realidade espiritual, ou, se preferir, com aquele nível que transcende o que se vê de imediato. É a Harmonia Universal. A Consciência Cósmica.

A sensação de prazer subordinada a um fator material e dele dependente, mesmo em se tratando de relacionamentos, não é felicidade, é alegria, porquanto passageira, isto é, dura até que referido fator também perdure, até que a função circense chegue ao fim.

Sendo assim, esqueça raça, cultura ou credo. Não importa seja o seu consulente rico ou pobre, velho ou novo, doente ou sadio, bonito ou feio, gordo ou magro, famoso ou desconhecido.

O caminho do desapego é o exercício regular de um sentimento de indiferença para com os acontecimentos de qualquer natureza. Não se trata de repulsa, pois se você despreza o próximo não o está amando como a si mesmo. Igualmente é impossível viver sem atender às demandas da vida no físico.

Indiferença, aqui, significa que você, por ter plena fé no ordenamento cósmico, não sofre, não se lamenta, não exulta, nem se ufana, apenas constata o fato e, se for o caso, faz o que precisa ser feito, sem se ligar emocionalmente; e, mesmo quando há emoção você não se liga nela. Em sendo caminho, a felicidade já se encontra no próprio caminhar.

Ordenamento cósmico pode ser entendido como o "quid" que faz com que o Universo, com seus elementos astronômicos, venha funcionando corretamente há tanto "tempo". Pode chamá-lo também de Deus, Infinito, Eternidade ou como queira.

Este sentimento de indiferença é alcançado ao negar-se sistematicamente a reconhecer realidade ao fenômeno e assim você deixará de fazer juízos de valor, isto é, avaliações, portanto, recusando-se a dar conhecimento ao fato e perdendo o hábito de julgar coisas, atos e pessoas, os episódios se mostrarão o que realmente são: apenas aparências e deixam de ter importância.

Este modo sistemático de agir demonstra fé prática e não apenas teórica.

Autor desconhecido

Wednesday, May 12, 2010

Quase morri

Quase passo desta pra uma melhor (ou pior) no final de semana. Sexta de madrugada, estava voltando de Porto Alegre, com mais duas amigas, quando batemos o carro e ele capotou. Não, não estávamos bêbadas. Eu estava atrás e sem o cinto de segurança.

Só pensei em duas coisas: “Vou me quebrar toda porque estou sem o cinto”, quando o carro começou a virar e “vou passar o resto da minha vida fazendo plástica pra arrumar o estrago no meu rosto”, quando ele parou de capotar, eu abri os olhos e vi a quantidade de vidro que tinha caído em mim.

Mas por milagre, não me quebrei e nem a casquinha do único arranhão que tive no nariz existe mais. Sim, só tive um arranhão no rosto. E claro, alguns hematomas pelo corpo. Nem a minha cabeça dói mais. No sábado doía até para piscar.

As gurias que estavam comigo também não se machucaram, nadinha. Todos que viram o acidente falaram que era um milagre estarmos vivas. Meu tio disse que não conhecia uma pessoa que tivesse sobrevivido à capotagem de carro. Agora ele conhece três.

Óbvio que tenho consciência de tudo de ruim que poderia ter acontecido e do milagre que aconteceu... Mas a minha vida não vai se dividir em antes e depois do acidente. Eu já ando reclamando dessa chuva que não para, da minha permanente falta de grana, da falta de tempo, das viagens que ainda não fiz... Tudo como sempre foi.

Mas não sou uma ingrata, muito pelo contrário. Posso continuar reclamando de tudo, porque sou humana e com toda a mediocridade que essa condição contém. O que ficou foi a certeza de que a gente tem que viver o melhor possível, fazer tudo o que tiver vontade e não ter medo de ser feliz. É clichê? É. Mas uma das melhores coisas da vida são clichês.

Ter um blog, escrever que devemos fazer tudo que temos vontade é um baita clichê. Eu não vou fazer tudo o que tenho vontade. Algumas coisas requerem a grana que eu não tenho, outras são malucas demais e as piores, dependem unicamente da minha coragem. Eu quase morri, mas infelizmente, continuo covarde. Esse acidente não me matou, mas me trouxe uma torturante consciência que às vezes eu deixo de viver.

Monday, April 26, 2010

Das coisas que vão morrer com a gente...

Li uma frase hoje, num livro que não lembro o nome, passei num sebo no centro de Porto Alegre, peguei um livro, abri e li uma frase mais ou menos assim: “certos tipos de traições vão morrer com a gente, como tantas outras coisas...” Fiquei com isso na cabeça. Passei o resto do dia pensando nas coisas que fiz e vão morrer comigo. E são muitas coisas.

E acredito que seja assim com todo mundo. Inúmeros segredos vão morrer comigo, um deles: foi eu que quebrei a cabeça da Barbie, novinha, da minha prima Amanda, quando era criança. E jurei que não tinha sido eu. Menti.

E mentiras também vão morrer comigo e com todo mundo. Mentiras nos fazem morrer um pouco, porque tira de nós mesmos a verdade. Todas elas, até um automático “tudo bom”, quando não tá nada bom. Ou um “não vi teu namorado lá”, quando na verdade é “claro que vi e estava no maior amasso com a fulana”. Também "a aula estava boa", e a verdade seria "estava no motel, numa orgia com três colegas."

Traições também. Ainda não trai nenhum homem com quem me relacionei. Mas já fiquei com homens comprometidos e, confesso, sempre quis ser amante. Certos desejos e opiniões também vão morrer comigo. Que me desculpem as comprometidas, mas acredito muito mais em lealdade, do que fidelidade. Fidelidade é quase uma obrigação, lealdade é liberdade de escolha, é consciência. Boa parte das nossas fantasias também vão morrer com a gente, das mais banais até as totalmente esdrúxulas.

O chicle colado no banco da igreja, a inveja da coleguinha da escola, o ciúme da amiga, a raiva do pai ou da mãe, o nojo do irmão, o tesão pelo vizinho, os orgasmo fingidos, a má-fé de furar a fila, os porres homéricos, o suicídio que esteve por um triz, as drogas usadas, as palavras que saíram sem pensar e as que nunca saíram... Tantas coisas vão morrer com a gente.

Penso que quem morre são dois. O eu que morre para os outros e o eu que vai morrer comigo.

Friday, April 23, 2010

Let it be

Estou numa fase let it be total. Queria estar na I’m so happy, mas não... Não que eu não esteja feliz, porque estou sim, mas mais do que nunca, estou let it be. É quase uma questão de sobrevivência.

Ando pensando em voltar a fazer terapia. Ando tão bipolar. Não sei o que fazer depois que a pós acabar. Não sei o que fazer quando ele for embora. Não sei o que fazer, por isso let it be.

Ontem tive uma ideia ótima para escrever e desenvolver uma história, mas ainda não coloquei nada no papel. Tenho uma pilha de livros pra ler, uma monografia pra terminar, o edital do mestrado pra analisar e uma vontade louca de estudar astrologia.

Às vezes acho que vou acabar numa camisa de força... Tenho vontade de tocar fora vários planos e começar tantos outros. Precisava telefonar pra minha madrinha, conversar coisas de mulher, contar do drama (ou comédia) que é minha vida sentimental.

E o meu telefone que não toca? E o MSN que não pisca? Não combinamos só curtir, sem se apaixonar? Eu não me apaixono, você não se apaixona e a gente finge ter controle sobre isso. Você iria para o Canadá comigo?

Tem dias que não almoço e não durmo direito, mas está tudo sob controle. Só acho que estou apaixonada. Preciso ensaiar minha coreografia, voltar a fazer pilates três vezes na semana e comprar um espartilho branco e usar para ele, só para ele tirar, antes que tudo acabe.

Mas não sei. Não sei se iria para o Canadá com você, Turquia, sim, Canadá não sei. Acho que astrólogas ganham mais que jornalistas. Se eu não passar no mestrado vou ficar chateada. Prefiro espartilho preto. Minha terapeuta foi embora pra Roraima e agora tô com preguiça de contar tudo de novo. Vou sentir saudades até do cheiro do cigarro...

Let it be... Não está nada sob controle!

Tuesday, April 20, 2010

Jogo da velha

Entrei no trem hoje, quase quatro horas da tarde, comendo meu almoço que se resumia a uma barrinha de cereal com Toddynho, na minha frente três senhoras. Uma bem feliz, gordinha, de blusa floriada, chapéu de crochê e de mãos dados com o marido, também gordo e feliz.

A outra bem distinta, de calça social, camisa branca de seda, unhas bem vermelhas e com muitas bijuterias douradas, sentada do lado da gorda e lendo a Veja. A terceira senhora era bem humilde, de chinelos Havaianas, com um casaco e calças de moletom, com uma regata cinza por baixo, que denunciavam a ausência do sutiã, carregava duas sacolas plásticas com latinhas amassadas.

Essa última ficou de pé por um momento, na minha frente, me fulminando porque não dei meu lugar pra ela, até que o moço do lado da senhora distinta levantou e ela se sentou. Ficaram as três me olhando. E eu, olhando para as três.

Elas pareciam ter a mesma idade, mas nada mais em comum. Uma parecia viver numa eterna lua de mel, falava com o marido o tempo todo, sorrindo muito. A outra parecia atrasa e ocupada demais para prestar atenção no que se passava, mas era visível que sentia e se incomodava com a presença da velha com as latinhas do seu lado, que pouco se mexia e tinha um olhar vazio, parado no ar.

Fiquei pensando em qual tipo de velha irei me tornar. Se eu desencalhar muito tarde, posso me deslumbrar, casar e acabar como a primeira. Se continuar só pensando no meu umbigo, provavelmente fico como a do meio. E se eu não voltar para terapia corro sério risco de ficar como a terceira.

Porque a gente não sabe o que nos espera ali na frente, na curva da estrada, na esquina, no final da escada rolante... Assim como não sei que tipo de jovens aquelas senhoras foram. Parece que casar sempre foi o sonho da primeira, que ser bem sucedida era tudo o que a segunda queria, embora ela não parecesse muito feliz e catar latinhas, com certeza, não estava nos planos da terceira.

Mas o que será que aconteceriam com elas? O tal marido podia ser na verdade um amante, por isso aquela alegria exagera. A sisudez da segunda poderia ser fruto de um câncer recém descoberto, de uma viuvez precoce, da perda de um filho e não de um conhecimento exagerado que torna as pessoas difíceis. E a terceira pode ter ganhado na mega-sena no sorteio desta noite.

Os sobreviventes

Adoro o conto que reproduzo abaixo, é Os sobreviventes, que está no livro Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu. Adoro a história e o tom rápido e veloz, tudo junto e sem vírgula porque a vida não tem vírgula. Li num polígrafo da faculdade, no primeiro semestre de jornalismo e foi meu primeiro contado com o Caio, escritor que hoje me ajuda a sobreviver. E coloco aqui no Mosaico porque acredito que todo mundo já tentou de tudo e volta e meia se pergunta o que fazer, além de sobreviver?


Sri Lanka, quem sabe? Ela me pergunta, morena e ferina, e eu respondo por que não? Mas inabalável ela continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que em foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? Uma certa saudade e você em Sri Lanka, bancando o Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse aqui entre nós, palmeiras e abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco da Ângela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodca nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados.

Eu peço um cigarro e ela me atira o maço na cara como quem joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angst, saco, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, eu só queria era ser feliz, cara, gorda, burra, alienada e completamente feliz.

Ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos tolos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo here comes the Sun here comes the Sun little Darling, 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54, 80 a gente aqui mastigando esta coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora nem esquecer esse azedo na boca. Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?

Caio Fernando Abreu

Monday, April 12, 2010

Last news

Meu Deus, eu ando relapsa com meu blog e o tempo tá voando ainda mais. Tanta coisa pra escrever, tanta coisa pra contar, tanta coisa acontecendo na cabeça, no serviço, no coração, na vida, no mundo. Eu tenho que respirar fundo!

Precisava escrever sobre o feriadão de páscoa, mas isso já parece tão distante. Já se passou uma semana desde que voltei! Mas tava muito perfeito, nada melhor do que passar uns dias com pessoas queridas, do bem!

Ficamos em Ponta das Canas, a minha segunda praia preferida em Floripa (a primeira é Daniela), eu, Xande, Flávio e Vanessa. O Xande levou a Narguilé, fumamos loucamente e, preciso de uma Narguilé. Fomos parados pela polícia na ida para os Ingleses devido ao megafone. E tivemos que descer todos do carro! Quase meia hora dando explicação para a polícia.

No sábado pela manhã madrugamos e fomos para o Costão do Santinho fazer a trilha até a praia de Moçambique. Foram quase duas horas de caminhada num sobe e desce morro danado. Depois do merecido banho de mar, mais 40 minutos para voltar, pelas dunas. Foi, sem dúvida, a trilha mais doida que fiz, eu preocupada com a minha bacia, o Xan vendo uma cobra a cada 5 metros, o Flávio com problema no escapamento e a Vanessa perdendo os chinelos.

À noite, passamos no Doca, pegamos o Marcello e giramos muito na Concorde, a única balada que faço questão de ir, sempre. Arrasamos até às 4h da manhã, hora de levantar acampamento, até Ponta são cerca de 30 quilômetros. No domingo, não sei como, levantamos cedão e começamos a volta. Foram quase 12 horas de viagem, chuvaradas, engarrafamentos e restaurantes caros...

Foram quatro dias incríveis, que rederam ótimas fotos e recordações! Quero tudo de novo! Agora tô aqui escrevendo bem resumidamente uma história que merecia ser contada com uma imensa riqueza de detalhes, mas o turbilhão que tá minha vida não me deixa... Preciso respirar...

Sunday, March 21, 2010

Bons caminhos no meu mapa

Na última quarta-feira, fiz meu mapa astral com o conhecidíssima Amanda Costa, astróloga da Zero Hora, do Terra, professora, formada em Letras e amiga do Caio Fernando Abreu. Paguei uma nota, sim, mas valeu a pena, como mostrou meu mapa, o autoconhecimento é importante pra mim.

O mapa astral é o retrato do universo no instante que a gente nasceu (no meu caso, às 10h05 do dia 08 de agosto de 1985, em São Leopoldo). Eu sou leonina, com ascendente em Libra, Lua em Touro, Vênus em Câncer, Mercúrio em Leão, Júpiter e Saturno em Escorpião, Urano em Aquário...

E tudo isso traduz muito bem a pessoa que eu sou. Fechada e reservada por causa dos planetas que tenho em Escorpião. Idealista e sem vontede de ter filhos devido Urano em Aquário. Gosto de artes, de livros, de cultura graças ao Mercúrio em Leão. Essa coisa ruim de guardar as coisas, não expressar o que sente é por causa de Vênus, o planeta do amor, em Câncer.

Meu lado ciumento e possessivo veio da Lua em Touro. Espiritismo, autoconhecimento e a curiosidade por tudo que é esotérico é por causa de toda essa junção de planetas em Escorpião e Leão. E todo o tempo que eu fico pensando, pensando e pensando antes de tomar qualquer decisão, pensando em tudo que pode acontecer se eu escolher A ou B, me faz uma bela libriana. Mais indecisa, impossível.

Agora sabe o que é melhor disso tudo. Toda essa conjunção de planetas e signos mostrou que era impossível eu não trabalhar com comunicação. Que tem muitas viagens no meu mapa, longas e curtas, a trabalho e a passeio.Oba!

Agora o melhor: é que eu só não vou ser escritora se eu não quiser. Que isso é o mais claro no meu mapa e no meu caminho, a importância dos livros e das letras na minha vida. Que tem uma grande chance de eu seguir a vida acadêmica, dar aulas e me realizar muito com isso... Adorei!!!

Mas nem tudo eu gostei. Segundo a Amanda, eu vou passar a vida toda priorizando o lado profissional e vai chegar um momento da minha vida que isso vai me incomodar... Vamos ver, espero que isso demore.

Depois de três horas de conversa, sai de lá com um livro do Caio Fernando Abreu, que não achava em lugar nenhum, “Cartas”, uma amiga nova e a certeza de que a minha estrela é muito forte e ainda vai brilhar muito.

Wednesday, March 17, 2010

Guns n' Roses - o show

Gostar de Guns n’ Roses é praticamente tradição da minha família. Cresci ouvindo essa banda por causa das minhas primas, adolescentes no inicio da década de 90, auge da banda. Eu, uma criança de 6, 7 anos sabia cantarolar versos de Patience e November Rain... Sabia quem era Slash e aquele cantor loiro que corria de um lado para outro do palco, com shorts de lycra e bandana na cabeça.

As paredes da casa da minha avó continham várias inscrições com as letras AXL e eu sabia o motivo. Meus tios sempre foram fã do Guns. Na minha fase MTV, não perdia um especial deles. Lembro do Axl no último Rock in Rio, dele gordo e desengonçado e da minha tia Cristina, berrando na frente da TV, que tinha visto ele, lindo, em 1992. E outro dia meu afilhado de 10 anos foi lá em casa me pedi o cd do Guns. É tradição de família!

Por isso, era óbvio que eu iria no show do Guns n' Roses, que rolou na terça de madrugada, no estacionamento da Fiergs, em Porto Alegre. Enquanto as longas quatro horas de atraso se arrastavam, eu e os milhares que estavam lá, já estávamos crucificando o Axl, o Guns, a organização, a chuva no Rio, que causou todo o atraso aqui, pois tiveram que reconstruir boa parte do palco.

E eu pensava em escrever sobre a falta de respeito com os fãs, a demora, a forma física do Axl, a péssima organização, a fila quilometrica, o preço absurdo da água (R$ 8,00!), a cancelamento do show da Tequila Baby e a apresentação medíocre da Rosa Tatuada.

Eu cheguei lá por volta das 16h, a abertura dos portões que seria às 18h, aconteceu às 20h. E surpresa: havia um batalhão terminando de montar o palco, pois vários equipamentos não inham chegado por causa da chuva no Rio, que derrubou o palco e de um acidente com o caminhão que trazia a estrutura, em São Paulo.

E o tempo passava, 20h, 21h, 22h e nada. O povo reclamando, com dor, cansados... Muita gente veio de longe, falei com pessoal de Santa Maria, Passo Fundo, Pelotas, Florianópolis e Uruguai. Pouco antes da meia noite, a banda gaúcha Rosa Tatuada entrou no palco, informou que o seu guitarrista e a Tequila Baby já tinha ido embora, que cantariam três músicas para honrar o rock gaúcho.

Nos 30 minutos desta quarta-feira, estava subindo no palco o Sebastian Bach, ex-vocalista do Skid Row, que fez um baita show. Aliás, ele continua igual, em ótimo forma física, foi super simpático. Foi engraçado o seu esforço para falar em português (sempre se desculpando pelo atraso) e o tombo que caiu...

Depois de uma hora de Sebastian, às 1h50, o Guns entrou no palco. E naquele momento eu percebi meu texto seria outro, as dores sumiram, o mau humor das pessoas deu lugar a uma empolgação que fez todo mundo pular até às 4h15 da manhã de uma terça-feira.

Quando o Axl subiu no palco eu percebi que a longa espera valeria a pena. Ele não é mais o mesmo, anda só com a camisa fechada, não usa mais shorts de lycra e sim, parece um senhor cinquentão. Mas era o AXL que eu estava vendo e ouvindo. Aquela voz rasgada estave bem próxima, ele ainda faz a sua típica dancinha, embora esteja um pouco duro, ainda corre, embora se canse mais rapidamente.

Esse senhor é a Axl da minha infância, das minhas primas, dos cds, dos discos, das histórias que eu ouvi da família toda. Eu entendi porque eu encarei sozinha uma indiada dessas, com direito a todas as arguras que uma fã passa. Fila enorme e no sol, horas em pé, com fome, com sede, com vontade ir no banheiro, empurra-empurra no show, segurar máquina-bolsa-celular-binoculos-ainda-pular-e-cantar tudo junto e feliz da vida...

Sim, queria que o Slash estive ainda no Guns, e o Duffy também. Mas essa noite de março foi histórica, eu vi uma banda que pensei que nunca veria. Eu vi minha infância. Uma trilha sonora da adolescência. Eu vi um mito.

Eu vi gerações diferentes chorarem quando ele tocou e cantou November Rain. Eu vi 30 mil pessoas explodirem com Welcome to the jungle. Eu vi o cansaço dar lugar a empolgação. Eu vi pessoas arrepiadas com os riffs de Sweet Child O´mine.

Eu vi pessoas com a certeza de que aquilo era um momento único. Era uma vez só na vida. Eu vi o show da minha vida. As horas de atraso não eram nada para quem esperou anos por esse show!

Sunday, March 14, 2010

Momento Caio F.

Ando num momento Caio Fernando Abreu, apaixonadíssima pelo escritor e me identificando com tudo que ele escreveu. Tenho uma amiga, a Fabi, que sempre leu e gostou do Caio. Eu não. Essa história é recente.

Acho que tem menos de um ano, li Morangos Mofados e Os Dragões não conhecem o Paraíso. Na feira do livro comprei, Para Sempre teu, Caio F, da Paula Dipp, que devorei na minha semana em Florianópolis. Agora tô lendo Onde Andará Dulce Veiga e pesquisando muita coisa na internet.

O melhor disso tudo é que os textos de Caio são bem bipolar, como o meu momento. Nunca fiz tanta festa como agora e o Caio sempre gostou de celebrar a vida. Porém, tô com uma dor de cotovelo danada, e ele sempre soube escrever com maestria sobre as coisas indigestas da vida. “A gente enfeita até a amargura”, disse certa vez. E é. Lendo o Caio não me sinto tão sozinha, sei que é possível alegrar minha tristeza.

Deixo algumas frases do Caio e claro, a sugestão de que lêem esse gaúcho lá de Santiago do Boqueirão, astrólogo, jornalista, homossexual, aidético, humano...

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como ‘estou contente outra vez’".

"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros."

“Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora.”

“Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.”

“A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.”

“Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo...”

Monday, March 08, 2010

Um Olhar do Paraíso


Há duas semanas fui assistir ao excelente filme, Um Olhar do Paraíso. Depois de chorar, praticamente a sessão toda, pensei que tinha que fazer um texto sobre o filme. Mas cheguei em casa com o nó na garganta e não sabia o que escrever. Ainda não sei, mas vi o post no blog do meu primo e decidi tentar.

Tinha tempo que um filme não mexia comigo assim. O cartaz do filme é lindo, mas foi o slogan que me ganhou: “a história de uma vida e tudo que veio depois”. A gente não sabe o que vem depois da vida... Bom, deste janeiro, eu estava contado os dias para que o filme estreasse.

Um Olhar do Paraíso, de Peter Jackson, com Saoirse Ronan, Mark Wahlberg (sempre lindo), Rachel Weisz e Susan Sarandon, conta em pouco mais de duas horas a história que veio depois que uma menina de 14 anos morreu estrupada pelo vizinho.

Já na primeira cena do filme, percebi que iria adorar. A menina Susie Salmon, já morta, conta uma de suas lembranças de infância, quando ela mal alcançava na mesa. Assim, ela vai nos contando sua vida, sua morte, o depois, a reação dos pais, a sua reação com as coisas que não viveu. Como o beijo que ela nunca deu, os filmes fotográficos que ela nunca revelou, a vida que ela sonhava e não viveu...

Susie demorou muito para chegar ao paraíso, estava na linha que divide a Terra desse Paraíso. Enquanto assistia, pensava para onde tinha ido minha avó e a minha prima. Enquanto o nó na garganta apertava, dentro do cinema, eu deseja viver e não morrer sem coisas que eu gostaria de fazer (se é que isso é possível).

Eu fiquei pensando nas pessoas que morrem cedo ou nas que saem da nossa vida e morrem para nós, nos levando inúmeras possibilidades... Eu desejei que meu paraíso fosse um pouco como o dela, colorido. Mas eu espero que Deus me permita ler lá e comer a massa da minha vó. No final tem aquela certeza de que a vida segue, sempre segue. Que o universo acaba sempre trazendo o que procuramos, de uma maneira ou de outra...

Assistem ao filme, como recomendou meu primo. E tenham uma vida longa e feliz, como desejou Susie Salmon.

Friday, March 05, 2010

Constatação




Nessas férias, em Florianópolis, eu fui pra balada. Eu não sou baladeira, mas eu estava precisando desopilar e dançar a noite toda. E eu fui pra noite com o meu primo Marcello. Ele tem 18 anos, espinhas na cara, uma matrícula para o primeiro semestre da faculdade de Biblioteconomia, muitas dúvidas na cabeça e um divertido mau humor (típico dos capricornianos).

Nunca me imaginei indo pra balada com o Marcello. Até uns dias atrás, era um menino gordinho que quando vinha nas ondas de Mariluz, em cima de uma pranchinha de isopor pintado, a gente falava “lá vem o leitãozinho”. Algumas pessoas conseguem ser ão e inho ao mesmo tempo.

Hoje, ele é só ão, embora a gente ainda o chame de Marcellinho, mas isso é porque o Marcello é o irmão mais novo do Júnior. Eu lembro quando ele nasceu, porque ele é carioca e naquele dia apareceu na TV que tinha dado uma chuvarada no Rio, inundado toda a cidade. E eu fiquei preocupada se meu tio tinha conseguido chegar no hospital. Vai entender o que se passa na cabeça de uma criança...

Nesses dias que fiquei na casa dele, lá pelas tantas, me disse que se lembrava de um verão, a gente na praia e ele me falando que estava com medo de ir para a 7ª série. Eu não lembro disso, não lembro mesmo. Talvez essa conversa não tenha sido tão importante pra mim, como foi pra um menino prestes a encarar a sétima...

Mas eu não vou esquecer do moço que dançou a noite toda, enlouquecidamente, em cima de um queijinho, numa boate gay. Só fomos embora porque foi aí que eu cai e quase me quebrei. E eu desejei que ele morasse mais perto, só pra gente se acabar de dançar, quando desse vontade.

O Marcello cresceu. O tempo passa cada vez mais rápido e eu preciso pensar com que roupa eu vou na formatura dele, daqui quatro anos, um piscar de olhos. Ainda bem que ele se tornou um homem com uma cabeça boa, de personalidade. Melhor ainda é que ele me disse que raramente entra no meu blog.

Ao som de Nando Reis

Saturday, February 27, 2010

Por que hoje valeu a pena?

Um tempo atrás li um texto, onde falava que todo dia a gente tinha que listar as coisas que fizeram o dia valer a pena. Gostei do texto, que não achei na internet, li ele numa revista que estava no chão do trem... Coisas da vida.

Desde então fiquei com o texto na cabeça. Ele terminava propondo que listássemos o que tinha valido a pena nos últimos sete dias. Tenta também. Aí vai:

Domingo – Vi o Dani, a Tati e o Wesley. O dia foi muito divertido. Encontrei a Aline e o Epi no ônibus, na volta de Florianópolis.
Segunda – Cheguei a tempo e não me atrasei para o serviço. Dormi na minha cama.
Terça – O médico me deu a certeza de que não quebrei nada. Marquei minha tatuagem.
Quarta – Terminei minha pesquisa para a monografia da pós, no Museu de Comunicação.
Quinta – Consegui fazer pilates e não me esqueci de tomar os remédios.
Sexta – Fiz minha tatuagem nova. Fui na pizzaria com os amigos (Nessa, Dani, Xan, Flávio e Marcos).
Hoje – Dormi a tarde toda. Fui ao cinema. Já não dói tanto quando eu caminho.

Tuesday, February 23, 2010

Depois da queda, a consulta

Para o médico que me atendeu e matou a barata.

- Renata Valquíria.
O médico já começou ruim, me chamando de Valquíria.
- Licença. Meu Deus! Tem uma barata na janela!
- Ah, às vezes elas aparecem por causa do calor. Senta.
- Vou ficar em pé para sair correndo quando esse bicho voar na minha direção.
- Daqui um pouco ela sai. O que houve?
- Eu cai um tombo e desde então tô com muita dor.
- Quando e como foi?
- Sábado de noite. Escorreguei numa escada e cai sentada.
- Sábado? E tu só veio no médico hoje, na terça...
- E que hoje é o dia que mais tá doendo e na hora não pensei que fosse grave. Mata esse bicho, por favor!!!!
- Onde dói?
- O corpo todo, principalmente o lado direito e na cintura. E dói pra tudo: sentar, caminhar, dormir... Mata a barata, por favor, antes que eu enfarte.
- Deixa o bichinho, quando ela sai pra rua eu fecho a janela. E enjôos, tu tá tendo?
- Ontem eu tive um pouco. Mas no domingo não...
- Ficou algum hematoma?
- Sim.
Levanto o vestido e o médico faz uma cara de espanto.
- Nossa, tá muito feio isso aí! Coloca uma perna em cima da cadeira. Agora a outra.
- Pra quê?
- Aparentemente tu não quebrou o cóccix, mas vamos ter que fazer um raio X. Pode ter saído algum órgão fora do lugar, por isso os enjôos. Deita na maca, de bruços, faz favor.
A maca ficava do lado da janela.
- Nem pensar, com esse bicho aí não dá.
- Ai meu Deus. Espera que vou colocar ela pra rua.
Nisso a barata sumiu.
- Ela foi embora, pode deitar.
- Não. Ela vai voltar. Não tem outra sala?
- Meu Deus. Vamos tirar o raio X primeiro, então.

Na sala do raio X:
- Tira o piercing e abaixa um pouco a calcinha?
- Não consigo tirar o piercing, nunca tirei.
- Tem que tirar. Enquanto isso me conta exatamente como tu caiu pra ficar desse jeito.
- Eu tava numa festa sábado de noite, quando fui no banheiro, escorreguei numa escada que tinha dois degraus.
- Tava na Factory?
- Não, estava em Florianópolis.
- Tu tava sozinha?
- Com meu primo.
- Onde ele tava quando tu caiu? Ele viu?
- Não, ele tava dançando no queijinho.
- E o que tu fez depois?
- Levantei toda torta, fui fazer xixi e depois fui dançar. Doeu só um pouquinho...
- Tu tinha bebido?
- Não.
- E usado drogas?
- Não.
- E o que tu fez no domingo?
- Passei o dia na piscina, esse roxo não tava tão feio. Consegui tirar o piercing.
- Ótimo! Tu veio de lá de ônibus?
- Sim, sentei lá e só levantei aqui em São Leopoldo, não conseguia nem me mexer de tanta dor.
- Imagino. Quantos anos tu tem?
- 24. Demora para o raio X ficar pronto?
- Uns minutos. Tu tá na idade de sair, beber todas, usar saltos altíssimos e pagar mico no banheiro da balada.
- Eu não bebi nada, tava de plataforma baixa e não paguei mico, o chão tava molhado e muita gente caiu.
- Nossa então tem mais coisa por trás desse hematoma? Agora deita na maca.
Ele mede meu roxo, aperta, olha com uma lanterninha...
- E que parece que tinha estourado um cano no banheiro. E outras pessoas caíram comigo.
- Dói na frente também?
- Sim, o corpo todo. Até para rir.
- Impossível acreditar que tu fez isso sóbria... E ontem? Tu foi trabalhar? Fez tudo normal?
- Sim, só que cai de novo.
- De novo???
- Tava lendo na rede e ela arrebentou, cai de bunda, de novo. Acho que é por isso que hoje é o dia que mais tá doendo.
- Com certeza. Vamos lá pra minha sala, conversar.
- Lá tem a barata, não dá pra ficar aqui?
- Ai, tá pode ser. Seguinte, tu lecionou o tecido da bacia. Não quebrou nada, mas tá muito machucado internamente. Vai ficar com essa dor mais uma semana. O roxo vai demorar semanas, até meses para sair, porque tu deveria ter feito alguma coisa logo depois do tombo. Agora não tem o que fazer. Vou te receitar um gel relaxante e um remédio pra dor e enjôo. Ah, os enjôos são normais, porque a queda foi muito forte.
- Eu faço dança e pilates, posso continuar normalmente?
- O pilates sim, mas tem que ser um treino muito, muito leve. E qual dança que tu faz?
- Do ventre.
- Nem pensar! Enquanto estiver com dor, sem dança.
- Ah, sério?
- Sim, pois pode lecionar ainda mais.
- Que saco. Que tombo ridículo e que vai me dar dor de cabeça... Meu Deus, a barata tá vindo. Ai é muito azar, toda quebrada e perseguida por uma barata.
- Hahahahahahaha, vou matar a barata, já que tu não pode correr.
- Mata por favor! Não posso correr mesmo?
- Não. Não pode correr, nem usar salto muito alto, nem carregar muito peso na bolsa e se transar, nada de posições mirabolantes. Mas só por umas duas, três semanas. A barata tá morta.
- Ela tá se mexendo. Mata melhor, até sair a melequinha.
- Isso é um hospital, temos que ter o mínimo de higiene.
- Hahahahahaha, ter baratas vivas num hospital já é totalmente anti-higiênico. Me ajuda a colocar o piercing.
- Olha o que tu me faz fazer...
- Eu que o diga, vou até escrever.
- Escrever? Vê se o piercing tá direito.
- Tá. Vou escrever isso para o meu blog. Quero escrever sobre o tombo.
- Tu tem blog? Que legal. Escreve de mim?
- Vamos ver...
- Qual o endereço?
- mosaico de reflexos ponto blogspot ponto com
Ele anota o endereço do blog.
- Vou entrar depois. Dedica o texto para mim.
- Não sei se tu merece.
- Claro que mereço, até matei uma barata.
- Tá bom... É isso?
- É. Guria te cuida, cuida pra não cair. E não bebe.
- Mais eu não dava bêbada.
- Sei...
- Tchau.
- Tchau.
- Ah, qual teu nome? Pra eu colocar no texto.
- Tem na receita.
- Tá.

Eu esqueci a receita na farmácia e não li o nome do médico.

Monday, February 22, 2010

Para um morto

Bem feito para mim né? Quem mandou perder meu glorioso e escasso tempo com uma criança? Quem mandou eu me deslumbrar com uns cachinhos estrategicamente desarrumados e uma barba planejada para estar sempre por fazer? Agora tô aqui, escrevendo para um morto que está bem vivo e gosta de meninas “bem meninas”, só para se sentir mais homem.

Sabe que não te culpo? Nenhum pouco. Era óbvio que seria trocada por uma criança, tu não capacidade de ter uma mulher do teu lado. Pelo simples motivo que você não sabe cultivar nada além dos seus neurônios. E a prova disso é que nem amigos você tem. Confesso que admiro seus neurônios, só que homens também são feitos de hormônios e testosterona, ah confiança e pau duro também estão no pacote do que toda a mulher deseja.

Sei que no fundo foi melhor assim. Já estava de saco cheio de bancar a adulta madura e compreensiva que tem que entender o pós adolescente mimado, egocêntrico e prepotente que está ficando. Tua barba me arranhava e eu ficava puta cada vem que encostava a mão nos teus cabelos e você resmungava “não bagunça meu cabelo, que eu demorei tanto pra arrumar”, bem gay. Ah, várias pessoas acham que você é gay. Vai saber né...

Desejo que você passe a eternidade toda fazendo o que mais gosta, estudar e estudar, para ser doutor antes dos 30. Sei que você vai conseguir. Sei, também, que dificilmente eu estarei no doutorado antes dos 30, mas tu pode ter certeza que serei feliz. Essa é principal diferença entre eu e você.

Você quer ser doutor, eu me contento em ser feliz. Ser doutor deve ser bem bacana, mas ser feliz é mais, pode acreditar. E do fundo do meu coração que você levante os olhos dos livros, às vezes, e se permita viver. Pois eu ficaria chateada de encontrar você daqui uns anos e me deparar com um doutor digno de pena.


“Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem”
Cazuza

Friday, February 12, 2010

Recado do ego

É necessário que fique bem. Que tente sempre se sentir bem, se divertir. Que perceba que isso vai passar, você sabe que sempre passa. Que virão outros momentos, outros ciclos, outras pessoas, novas oportunidades e certezas.

Nem sempre as pessoas são filhas da puta, embora todo mundo seja um filha da puta em algum momento da vida. Se acha que será bom voltar a fazer análise, volte. Talvez não precise voltar para um psiquiatra, quem sabe basta um psicólogo.

Agora não é hora de recusar convites, seja para trabalho, para tomar cerveja, para praia, para conversar, seja lá o que for, vá. Já perdeu tempo demais vivendo só para dentro. Agora é hora de viver para fora.

Se a história se repetiu, vire a página e escreva algo diferente. Mude a tática. Não deixe a tristeza ser maior do que o necessário, permita que ela venha na dose certa, o suficiente pra gente dar valor ao que tem de bom na vida e quem tem ao seu lado.

Não precisa ficar lembrando do que passou, o passado foi do jeito que deveria ser para te tornar a pessoa que és hoje. Pense no futuro, mas planeje grandes coisas para um futuro (bem) próximo e faça acontecer. Se permita. E brinde sempre o que virá.

Tuesday, February 09, 2010

Assim, assim

Hoje eu tô assim, assim... Assim: meio triste, meio feliz. Assim: um pouco decepcionada e nem um pouco surpresa. Alguns dias atrás eu estava só assim, muito feliz. Agora eu tô assim, assim, sem saber direito como. Num estado intermediário entre coisas que me sufocam.

Tenho uma amiga que fala que as pessoas só se apaixonam por quem permite isso. Logo, acho que a gente só se decepciona, se nós mesmos deixarmos que tal coisa aconteça. Mas será que sabemos? Será que tem como saber?

Eu não sei... Hoje eu tô assim, cheia de reticências... Pois há tantas respostas para as minhas dúvidas que os pontos de interrogação perdem a importância. Fica um monte de reticências pairando no ar, dentro e fora da gente.

Mas não essas que nos oferecem oportunidade para imaginar o mundo. Às vezes, quando eu tô assim, só sopra essas reticências vazias, de quem perdeu oportunidades, o timing, a chance, a hora, o ônibus, o primeiro tempo.

Fica uma tristeza trancada, um nó na garganta, uma melancolia, uma saudade do que não se fez, do que não falou. Do que poderia ter sido. Uma dorzinha (se é que dor, pode ser “inha”) que não vai me impedir de viver, mas que vai me deixa assim. Sem saber, sem entender, com um monte de reticências vazias...