Friday, September 26, 2008

Os dois cavalheiros de Verona



Hoje assisti a peça “Os dois cavalheiros de Verona”, adaptação do clássico do Shakespeare e encenado pelo grupo carioca Nós do Morro, que já está completando 22 anos. Ver teatro sempre é bom, histórias de Shakespeare, melhor ainda.

E essa releitura ficou tri bacana, bem brasileira, com música de todos os ritmos. A peça é ágil, há uma intensa movimentação dos atores, que em nenhum momento saem do palco, se arrumando ali mesmo e quando não estão participando da cena, ficam sentados ou segurando o cenário, formado só por tecidos soltos. Apesar dos diálogos modernos, é fácil perceber o texto do Shakespeare.

Agora, o melhor é que foi aqui, na minha cidade, que a peça estava em cartaz. No Teatro Municipal de São Leopoldo. O município ficou quase dez anos sem esse espaço, que fica ao lado da biblioteca. Foi em abril desse ano que o teatro voltou a receber o público. E a reforma ficou ótima, o ambiente é claro, bem iluminado e tem um hall bem grande onde, seguidamente, ocorrem exposições. Confesso que achei a distância das poltronas muito pequena, é apertado. Mas nada que empeça a gente de ir assistir alguma atração.

O teatro estava lotado. Muitas vezes falei que o povo daqui não gosta de cultura. Tive que calar minha boca, rapidinho. Acho que só faltava um lugar. E sempre tem alguma coisa bacana rolando lá e com um preço acessível.

Em novembro terá apresentação do espetáculo da Escola de Dança Arte e Equilíbrio, do qual eu faço parte do elenco e já estou há um bom tempo ensaiando. Então em novembro, eu conto como é estar no palco do Teatro Municipal de São Leopoldo.

Thursday, September 25, 2008

Sobre lógicas e aparências

Não sou simpática com todo mundo. E daí? Tenho personalidade, ora. Daí, que eu bem queria bancar a simpática com todo mundo. Seria mais fácil do que explicar o motivo da cara fechada, quando o mais provável é que não fui com a cara tua cara. Antipatia genuína. Antipática assumida.

Estou dando um tempo da academia, afinal sou uma mulher desencanada. Depois de anos me exercitando disciplinadamente e religiosamente, meus músculos merecem férias. Eu perdi o tesão que tinha por puxar ferros. Enquanto meu tesão não volta, penso que seria bem bom ser uma mulher desencanada.

Escrevi “bem bom” e parei para pensar. Eu gosto da combinação de bem bom. Fala: bem bom. É legal, sonoro e isso basta. Bem bom seria se eu entendesse mais de gramática. Só porque escrevo, tem gente que acha que eu sei quando se usa corretamente mim e eu, crases, vírgulas... Sei pouco. Bem pouco. Passava as aulas de português escrevendo redações para vender, me achavam inteligente. Era, no máximo, esperta.

Hoje, nem esperta eu sou. Restou pouca coisa da época do colégio, apenas textos incompletos e poesias onde deveria haver fórmulas matemáticas. Outro dia vi esse símbolo: √, não sabia o que era. Só no outro dia que me lembrei da tal raiz quadrada. Eu passava as aulas de matemáticas lendo. Um dia perguntei para o professor se ele não se importava, ele falou que se eu conseguia entender Galeano, que não tinha lógica, entenderia a matéria. Que era lógica pura.

“O caminho estava muito cheio de gente. Todos iam para o país dos sonhos, e faziam muita confusão e muito ruído ensaiando os sonhos que iam sonhar, e por isso Pepa (a cachorrinha) ia resmungando, porque não a deixavam concentrar-se como se deve.”

Teve uma época que lia direto Eduardo Galeano, isso aí de cima é dele. Não parece, mas Galeano é um conceituado escritor e jornalista uruguaio. Não parece, mas não me imagino mais numa academia suando e disputando um lugar no espelho. Não parece, mas não gosto de gramática. Só me sobrou a antipatia e o gosto por coisas que não tem lógica.

Saturday, September 20, 2008

20 de setembro



Como a aurora precursora
Do farol da divindade,
Foi o vinte de setembro
O precursor da liberdade.

Mostremos valor, constância,
Nesta ímpia e injusta guerra,
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra.

Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo,
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

Wednesday, September 17, 2008

Em volta da churrasqueira

Eu não como carne. Há cinco anos sou vegetariana. Mas gosto de churrascos. Para nós, gaúchos, churrascos são eventos, rituais. Mesmo sem entender qual a graça de comer cadáver assado, eu gosto de participar dessa cerimônia gauchesca e infelizmente, carnívora.

Sábado passado, quando cheguei em casa, minha mãe avisou: “amanhã é pra vocês irem almoçar no teu tio Doni. Ele vai assar uma carne porque tá de aniversário.” Perceberam? Primeiro o churrasco, depois o motivo pra me fazer sair de casa e compactuar com esse ritual. Claro que eu não vou, sem antes reclamar, explicar que nosso estômago poderia viver muito bem sem carne, que voltaria fedendo a churrasco...

Mas fui. Afinal, havia de fato, algo a comemorar. E bastou chegar lá para vê cenas típicas de uma família bem tradicionalista. Música gauchesca no rádio, homens de bombachas, chimarrão passando de mão em mão, criançada correndo, mulheres preparando as saladas, muitas, pois há uma vegetariana na família e no churrasco. Dizem que família não se escolhe...

Tudo tranqüilo, até porque eles nem perdem tempo insistindo para eu comer carne. Já se acostumaram. Às vezes oferecem frango, daí eu lembro que é carne igual e com exceção do meu avô, ninguém acha ruim a minha escolha. Talvez não entendam, mas respeitam.

Quando era criança, todo domingo era dia de churrasco. Muito já corri em volta da churrasqueira do meu avô com meus primos, brincava de esgrima com os espetos, gostava de comer sal grosso... Domingo, ao ver meu primo correndo atrás da filha dela, me dei conta que boa parte das minhas lembranças são em volta de uma churrasqueira. É por isso que eu gosto de churrascos, apesar de não entender qual a graça de comer carne assada e voltar pra casa fedendo...

Saturday, September 13, 2008

Rodolfo

Acabei de chegar do show que o argentino Fito Paez fez no Pepsi On Stage, em Porto Alegre. Sensacional, como ele mesmo definiu. O Fito, apelido de Rodolfo, foi um dos achados da minha adolescência e sei que vai durar para sempre.

Foi no Fórum Social Mundial em 2002 que parei num show dele, sem saber direito de quem era aquele show. E me encantei com o cara de cabelos cacheados que tocava piano e pulava ao mesmo tempo. Que gesticulava muito e se mostrava politizado. Foi nesse show que descobri que ele era o cantor de Mariposa Tecknicolor, aquela música que às vezes ouvia no rádio e gostava.

Ano passado, passei horas na fila para comprar o ingresso para o encerramento do Festival de Inverno de Porto Alegre, que teve o show dele com a Liliana Herrero, mas quando chegou a minha vez, estavam esgotados. Em abril fui no show do Paralamas com o Titãs, que teve entre outros convidados, Fito Paez. E se já gostava de Mariposa Tecknicolor, depois que essa música foi o tema de entrada da minha formatura, gosto mais!

No show de hoje, como naquele de 6 anos atrás, Fito tocou piano e pulou ao mesmo tempo. E mais, tocou guitarra, conversou com a platéia, brincou, tocou Mariposa, Amor depues del amor, Rodar mi vida, Naturezala Sangue, Fue Amor... Até a sonorização do Pepsi on Stage colaborou.

Dizem que ele é mais conhecido aqui no sul, do que no resto do país... O fato é que ele é um baita instrumentista e diretor de cinema, tem o disco mais vendido na história Argentina, o primeiro artista não-cubano a tocar na famosa Plaza de la Revolución, em Cuba, foi ele. Já trabalhou com os brasileiros Caetano Veloso, Herbert Vianna, Djavan entre outros... Currículo é o que não falta.

Agora o que eu mais gosto nele, além da simplicidade, é a maneira como ele toca piano e pula ao mesmo tempo. Parece uma criança, apesar dos quarentas e poucos anos. Passa a impressão de que aquilo é uma grande brincadeira, algo que recém foi descoberto e causa encantamento, prazer, surpresa... Gosto de pessoas assim, que transformam a diversão em ofício, mas sem perder a capacidade de se divertir de fato. E no final de algumas músicas, ele olhava para a platéia e falava: SENSASIONAL!

Wednesday, September 10, 2008

Poema datado

Chovia aos cântaros hoje à tarde, quando eu resolvi abrir uma caixa onde guardo algumas coisas que escrevi há muito tempo atrás. Tempo que eu não tinha computador. Tempo dos meus 11, 12 anos e escrevia ou fingia estar escrevendo para não ficarem me enchendo. Tempo da adolescência, quando eu achava o colégio e o mundo cruel demais e escrever era uma fuga.

O que mais me chamou atenção é a quantidade de poemas. Hoje em dia, não escrevo poemas, acho difícil e a chance de eu não gostar é imensa. Acho que era coisa de adolescente... Alguns são bons, outros uns lixos. Que vergonha! Mas nenhum foi pro lixo, voltaram todos para a caixa! E lá ficarão por muito tempo.

É legal ler o que escrevi há dez, oito anos atrás. E eu tinha a mania de colocar a data, a hora, o local e às vezes, até a música que estava escutando em tudo que escrevia. Bizarro... Transcrevo aqui um poema que fala justamente sobre isso.


Que estranho hábito esse meu!
Colocar data e hora nas poesias que escrevo...
Como se fosse possível aprisionar palavras.
Alguns até locais têm!
Que ilusão...
Se qu os escrevo, justamente, porque eles precisam se libertar.


Noite, 22 de dezembro de 2000 – em casa – ouvindo Nirvana


Quando tiver coragem, mostro outros...

Friday, September 05, 2008

Entrando na dança...

Já tinha ouvido falar, mas nunca tinha participado. A Jac Oliveria respondeu essas mesmas perguntas no blog dela e me passou a bola. Respondo e escolho cinco blogs que tem que fazer o mesmo. O nome disso é Meme.

Escrever 5 coisas que rolaram na minha vida há 10 anos atrás:
- peguei catapora;
- fui no casamento de uma prima;
- pintei o cabelo de verde por causa da Copa;
- passei as férias de verão na casa dos meus tios, em Florianópolis;
- minha madrinha engravidou e me deu um afilhado de presente de Natal.

Escrever 5 coisas que rolaram na minha vida há 5 anos atrás:
- comecei a cursar Jornalismo na Unisinos;
- tatuei minha primeira borboleta;
- parei de comer carne;
- trabalhei na São Leopoldo Fest;
- fui no Planeta Atlântida.

Escrever 5 coisas que rolaram na minha vida há 2 anos atrás:
- comecei a trabalhar num site de esportes;
- parei de tomar anti-depressivo;
- vi meu time ser Campeão do Mundo;
- conheci um monte de gente especial;
- comecei a freqüentar uma casa espírita.

Escrever 5 coisas que rolaram na minha vida há 1 ano atrás:
- coloquei silicone;
- joguei Paint ball;
- comecei a estudar italiano;
- decupei 40 horas de gravação dos programas que analisei no TCC;
- passei um feriado chuvoso em Florianópolis.

Escrever 5 coisas que rolaram ontem:
(Quinta - 04/09/08)
- ouvi todo o CD Nevermeind, do Nirvana;
- comi negrinho;
- fui caminhar;
- fui na casa espírita;
- soube que as fotos da formatura já estão disponíveis no site da produtora.

Escrever 5 coisas que rolaram hoje:
(Sexta - 05/09/08)
- acordei mais cedo;
- cozinhei;
- desejei que não estivesse chovendo;
- falei com meu ex-chefe;
- comi pipoca.

Escrever 5 coisas que rolarão amanhã:
- tentar não acordar muito tarde;
- me puxar na aula de dança;
- decidir como vai ser minha roupa na apresentação de dança;
- escolher as fotos da formatura;
- dar uma organizada no meu quarto.

Quem entra na dança agora:

Vicissitude de ser

Clandestinojr

Después te explico

Carismática da Insolência

Baphometro

Wednesday, September 03, 2008

Confissões

Eu quebrei a Barbie novinha da minha prima. E eu menti, falei que não tinha sido eu. Até hoje ela não sabe quem quebrou a boneca. Eu falava para o meu irmão que as duas notas de R$ 1,00 que eu tinha, valia mais que a nota de R$ 5,00, ele acreditava e a gente trocava.

Qualquer coisa que fazia de errado eu corria para minha vó, ela sempre me defendia. Na primeira série, fugi do colégio, quando minha mãe aloprou, minha vó colocou a culpa nas propostas pedagógicas da escola. Fazia as psicólogas de boba. Elas me mostravam figuras redondas e eu falava que eram dados rolando dentro de uma caixa.

Eu que risquei todo o muro do colégio na quinta-série, de despida, foi minha contribuição artística. O que mais gostava no Grêmio Estudantil é que podia matar aula à vontade e com o consentimento dos professores. Em quase toda a prova de matemática eu colava. Nas de inglês, dava cola.

Já fiquei com guri que tem namorada. Tratei muito mal quem não deveria. Entreguei trabalhos de colegas na faculdade. Não li livros que precisava. Às vezes vou na psicóloga só pra contar piada. Não devolvi CDs que me emprestaram. Já menti para médico e comprei atestado. Não acredito nas pessoas, principalmente nas boazinhas.

Experimentei maconha num retiro espiritual. Tomei chá de cogumelo num café da manhã. Não gosto de religiões e dessas convenções que só atrasam o mundo. Tenho inveja e sinto raiva. Sou orgulhosa. Até um astrólogo falou que minha combinação astral resultava numa pecadora nata. Como não acredito em pecado nunca me confessei.

Saturday, August 30, 2008

Nome Próprio

Assisti ao filme vencedor do Festival de Cinema de Gramado desde ano, o falado Nome Próprio. Um baita filme do Murilo Salles, baseado nos textos da gaúcha Clarah Averbuck e com a atriz Leandra Leal, aliás, mais que merecido o Kikito de melhor atriz, ela está excelente, virei fã, até a novela das seis assisto de vez em quando só pra vê a Elzinha.

Bem por cima, o filme conta a história da Camila, uma jovem que se muda pra São Paulo com o namorado e quer ser escritora. Bem por cima, porque o filme é muito mais que isso, é surpreendente, tem um monte de histórias e muda o tempo todo. A cada cena uma surpresa. Só o que não muda é os escritos da Camila no seu blog. Que saem da tela do computador e invadem a tela do cinema.

Ainda hoje li uma matéria que dizia que o filme está sendo tema para grandes discussões. Sobre a “geração internet”, a estética da obra, o comportamento da personagem, os textos da Clarah... Acho bacana estarem discutindo sobre o filme, que é inteligente, atual e tem uma personagem rica e intensa. O mais bacana que achei na Camila foi a falta de hipocrisia, uma verdade em ser, uma coragem de não se esconder que assusta e por isso incomoda.

A personagem passa boa parte do filme nua, principalmente quando está escrevendo. E foi isso o que mais me chamou a atenção. O blog dela era sua catarse e nessa catarse valia tudo, pedir uma moradia, explicar que não gostava de comentários sobre seus textos, curar seus porres e até falar para o namorado que ela não traiu, foi ele que chegou em casa na hora errada.

Mário Quintana já dizia que “até uma vírgula é uma confissão” e partindo do princípio que quem escreve se expõe, nada anormal a personagem aparecer nua. Para mim, a cena mais bonita do filme é quando a Camila está nua, sentada no chão e liga o computador, a única luz em cena é a do monitor que reflete não só o corpo dela, mas a pessoa. A cena muda e ela nem chega a escrever. E ali, naquele momento, nem precisava. A escritora já era o suficiente e não cabia em nenhuma história.

Monday, August 25, 2008

O dia seguinte. Um dia depois

Queria ter escrito esse texto ontem. Mas não consegui. Ainda tava pensando muito no dia anterior. 23 de agosto. “Amanhã é 23...”, já cantava Paula Toller. O estranho é pensar que esperei tanto por esse dia. Ontem pensei muito para ver se a ficha caia.

Foram meses de expectativa, reuniões, confraternizações, festas, discussões, dores de cabeça... Daí chega o dia. Não parecíamos nervosos antes, eu só comecei a me dar conta do que tava acontecendo quando esperávamos o Daniel Scola (nosso paraninfo). Tentávamos escutar alguma coisa da cerimônia... Alguém falou que o Daniel chegou, meu coração quase saiu pela boca e a partir daí foi tudo rápido.

Não sei como consegui chegar até o palco e como esse trajeto rendeu algumas fotos bacanas. Hino, juramento e começou a entrega do diploma, eu era a quinta. Quando percebi, me chamaram eu não ouvi minha música (Vida louca vida, do Cazuza), mas lembro que meus colegas cantaram. Também não sei como cheguei onde tinha que chegar.

Eu ainda consegui me esquecer para quem que eu tinha que entregar o barrete. Olhei para um, olhei para o outro e não sabia. Aí olhei para o Daniel e me lembrei que ele era o segundo... Grande Daniel! Me salvou! Depois foi um senta-levanta, senta-levanta. Que quando vi, os oradores já estavam fazendo o discurso, já tinha rosas na minhas mãos para entregar aos meus pais, o Daniel já estava fazendo o tão esperado discurso dele, hino do Rio Grande do Sul e acabou.

Lá fora um monte de gente, mais do que eu esperava! Até minha professora da primeira série, adorei que ela foi! Imagina, ela que me ensinou a ler, tinha que estar lá, de certo modo, é responsabilidade dela também. E boa parte da família. Queria meu vô tivesse ido... Minha vô e minha prima sei que mesmo no céu (sic) estavam lá comigo!

Eu não sei o que senti. Não tem explicação o que é estar em cima daquele palco, é diferente de tudo que tinha imaginado. Eu queria escrever mais sobre o que eu senti... Não consigo, me lembro e começo a chorar. Talvez porque é muito recente ainda. Mas eu gostaria de lembrar desse dia daqui alguns anos e sentir o que eu tô sentindo agora.

Friday, August 22, 2008

Instantâneo

Acho que hoje eu não vou conseguir dormir (às vezes penso se é dormir ou durmir...). Sempre escrevo mais à noite. Tenho mais idéias ou apenas me escuto, não sei. Quantas vezes deitei na cama e comecei a escutar a voz, às vezes conseguia virar pro lado e pegar no sono, noutras levantava e escrevia.

Uma das poucas certezas que sempre tive na vida é que escrever pra mim é tão vital quanto respirar. Era criança e já imaginava que quando crescesse queria ser vegetariana (sempre achei bonito), teria tatuagens (nunca entendi porque não somos coloridos) e escrevia (eu tenho mil e um motivos pra isso).

Sempre andei com papel e caneta. Sempre escutei essa voz que só cala quando eu escrevo. Às vezes me pergunto se é vocação ou piração e tenho medo da resposta, seja qual for. Já me conformei que vou ter que escutá-la por toda minha vida.

Acho que é só pra escrever que fiz jornalismo. E a poucas horas da formatura penso nas histórias que ainda vou contar. Nas que ouvirei das fontes e nas que a voz vai me contar. E acho que foi a voz que me levou até esse momento. Claro que jornalismo não é só escrever, eu trabalho muito mais com projeto gráfico do que com redação. Mas é um ouvir histórias constantes.

É como eu gosto de ouvir histórias, por isso que falo pouco e escrevo muito. Tenho diário até hoje! Fora uns cadernos onde escrevo quando não tô a fim de digitar. Fora o que escrevo e toco fora. Fora a agenda e um monte de papel que tenho do lado do computador. Enfim, todos os caminhos me levaram a escrever. E a voz insistia...

Eu tô ansiosa com a formatura, escrevo (neste momento) pra me acalmar um pouco. Por isso instantâneo! A voz por mais incrível que pareça, tá queitinha, acho que ela tá com medo. Mas sei que vou deitar na cama e não vou dormir. Então escrever também serve pra passar o tempo. Contar pra várias pessoas o que não tenho ninguém pra contar. Eternizar pessoas. Extravasar.

Quando eu tinha uns 13, 14 anos achava que escrevendo eu iria me encontrar. Hoje eu sei que eu escrevo porque não quero me achar. Posso ser outras. Posse ser diferente. Me exponho sem quer. Me exponho com consciência. Exponho os outros sem querer e por querer. Sou a leonina com ascendente em escorpião, e aceito todo o ego e gênio difícil dessa combinação. Sou a doce canceriana que gostaria de ser, às vezes. Posso me perder, que a voz me guia.

Gosto de frases curtas. E-emendar-um-monte-de-palavras-assim. Porque faz a gente perder o fôlego. Eu gosto de perder o fôlego. Escrevo na primeira pessoa porque é mais fácil começar. Gosto de reticiências... E me pergunto qual a melhor hora de acabar?

O texto abaixo tá no livro “A Casa da Esquina”, que eu comprei com meu primeiro salário, fez eu me sentir mais normal e aceitar essa vocação ou piração.

“Pesco palavras entre tantas que invadem meu pensamento vindas de um lugar distante. Ouço frases inteiras como se um outro conversasse incansavelmente comigo contando segredos da minha personalidade. Sussurradas, às vezes parecem palavras de medo. Medo de que eu realmente saiba tudo e não me poupe de qualquer detalhe.

Não sei exatamente por que, mas cresci ouvindo esta voz que me acompanha onde quer que eu vá. Me acalma, me irrita, me entende. Na cama, posso escutá-la com mais clareza. Ás vezes me excita, às vezes canta, chora, ri.”

Duca Leindecker

Monday, August 18, 2008

Sem texto

Quarta-feira passada, dia 13, fui na caminhada dos jornalistas pela regulamentação da profissão. Já antes de ir estava pensado "tenho que escrever sobre isso no blog"... Hoje um amiga me perguntou por que não tinha escrito nada.

Porque pela primeira vez, fiquei com vergonha da minha profissão. Havia dezenas de pessoas, só dezenas! Esperava mais, muito mais! Que classe mais desunida! Os professores e profissionas presentes estavam falando que havia muita gente participando...

Enfim, fui, fiz minha parte, caminhei, vesti a camiseta, pintei a cara, entreguei panfleto e carreguei faixa, mas não gostei. Esperava mais!

Wednesday, August 13, 2008

Percepções

Exatamente um mês depois da minha formatura, uma grande amiga vai se casar. Apesar da amizade, ela não vai na minha formatura, nem eu vou no seu casamento. Fiquei tri feliz quando soube do casamento. E sei que ela também está tri feliz com a minha formatura.

Estudamos juntas desde a sexta série, ela foi a primeira amiga que fiz quando troquei de colégio. Tocávamos na banda do colégio. Éramos do grêmio estudantil. Vivíamos uma na casa da outra. Dividíamos segredos e claro, fizemos juras de amizade eterna.

O que aconteceu? O tempo passou, terminamos o colégio, pessoas foram surgindo, coisas nos surpreendendo, cada uma seguiu seu caminho. Ficou um monte de lembranças boas e um baita carinho, o que faz eu me referir a Paula como uma grande amiga. Claro que nos falamos pelo orkut, msn, mas não algo tão constante e presente como foi um dia. Sabemos que fazemos parte do passado.

Tenho uma grande amiga que foi morar em Curitiba. Nos conhecemos no meu primeiro emprego, onde eu fiz muitas coisas, menos trabalhar de fato. Já partilhamos muitas risadas, passamos o revéillon juntas, encaramos uma excursão onde tudo deu errado e quando eu fiquei mal, ela foi a única que me aturou.

Talvez a Ana volte, talvez não. O que sabemos é que nada vai mudar. Nós falamos quase todos os dias pelo msn, como era antes dela ir. Estou sem companhia para sair e para as eventuais caminhadas nas tardes de domingos! Mas ganho a possibilidade de conhecer Curitiba! Assim que der vou visitar a Ana.

Estranho como a percepção que temos das nossas amizades mudam com o tempo. Se a Paula me falasse que ia embora, mesmo se fosse para a cidade vizinha, meu mundo teria desabado. Com 12, 13 anos achamos que aquela pessoa que senta na classe do lado na aula, fará parte da nossa vida toda. Não admitimos a possibilidade de que surgirão outras pessoas.

Com o tempo isso vai passando. Conheci a Ana com 17 anos, já fazia jornalismo e ela já queria ser engenheira. Nunca sentaríamos uma do lado da outra na aula. Não nos veríamos todos os dias. Ela tem a turma dela e eu a minha. É mais fácil aceitar que as pessoas que, provavelmente, estarão com você por boa parte da vida, nem sempre estarão presentes o tempo todo.

Por isso o mundo não caiu quando a Ana disse que ia para Curitiba. Sabemos que nada vai mudar. Assim como a vida me afastou da Paula, que era tão parecida comigo! Me aproximou da Ana, que é tão diferente de mim! O bom é se dar conta dessas percepções, saber que a Paula está guardadinha num monte história bacana que tenho para contar e que a Ana vai me ajudar a escrever as páginas em branco.

Friday, August 08, 2008

Um medo que nem sei

Sempre tive uns medos de umas coisas loucas. Não esse medo que tenho de barata ou de altura ou de não conseguir emprego ou de pai e mãe morrer...

Tenho medo do que não existe, mas pode virá realidade. Medo das voltas que o mundo dá, eu acho. Medo por exemplo, de sair por aí num dia normal, achando que tá tudo normal e de repente tudo mudar. Eu esquecer quem eu sou, onde moro, onde estava indo...

De ir parar num hospício e pirar de vez. De me colocarem numa camisa de força, me darem remédio e não me explicarem o motivo, de tomar choque elétrico e ficar sem consciência e eu nunca mais conseguir me desvencilhar da loucura.

De acreditar e levar ao pé da letra tudo que eu leio. Calendário Maia, física quântica, tendências pós-modernas, xamanismo, receitas, simpatias, contos de fadas... Imaginem, eu lendo meu livrinho e de repente ser engolida pela história e eu sumir, tipo “Alice no país das Maravilhas.” Ou eu estar lendo meu livrinho e a história tomar conta de mim, me possuir mesmo. E eu não saber mais o que é real...

Medo de virar mendiga. Dessas que andam com as poucas coisas que tem. Como a velhinha que fica na frente do Teatro São Pedro, ela dorme na escadaria, mesmo com chuva... Passo por ela todo dia, a gente já se cumprimenta e eu morro de vontade de saber em que volta do mundo ela foi para ali. Mas toda vez que ultrapasso um oi, ela começa a não falar coisa com coisa. Eu tenho medo de não falar coisa com coisa (mas só de falar, porque escrever, eu já escrevo).

E se eu viajar para um lugar distante, tipo Etiópia e estourar uma guerra civil e eu ficar como refém em alguma cidadezinha? Se eu estiver caminhando na rua e ser acertada por uma pedra na cabeça e parar como indigente num hospital qualquer? Dá medo de pensar no que pode acontecer. Já pensou ser abduzido, conhecer outros mundos, seres, passar por uma louca experiência evolutiva e na volta ninguém acreditar?

Até pensar demais me dá medo. Imaginação pode ser um perigo, imaginar é o primeiro passo para a realidade! Também tenho medo de ficar tonta com as voltas que o mundo dá e viver cambaleando por aí, como essas pessoas que a gente vê às vezes, e pensa "ih, tá bêbado"... Eu fico me perguntando: será a bebida ou apenas o mundo?

Sunday, August 03, 2008

O poeta da tristeza exata

...seu grito acordaria, não só a sua casa, mas a vizinhança inteira...

Acabei de chegar do Teatro São Pedro, o que por si só, já é um evento. Fui ver Renato Russo – A Peça. É muito bom! Bruce Gomlevsky que interpreta Renato é perfeito, super parecido com o cantor e com a voz igual. A banda Arte Profana acompanha o ator nas 22 músicas, do Aborto Elétrico, da Legião Urbana, dos discos solos (incluindo o italiano) e alguns covers.

A peça começa quando Renato tem 15 anos e se descobre com uma doença chamada epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas por dois anos. Foi nesse período que a inquietação do compositor veio à tona. Descobriu o Sex Pistols, leu como nunca, passou a se dedicar mais ao violão e a se imaginar um grande cantor. Nascia o mito.

Daí segue o baile... Surge o Aborto Elétrico, farra, drogas, sexo, Brasília... Acaba a banda. Passa a tocar sozinho como “O trovador solitário”, nessa hora, o ator começa a falar sobre astrologia, diz que é ariano e que gosta de gente de leão. Perguntas quantas leoninas tem na platéia, que é um signo forte, de gente bonita, etc... Conta que tinha uma grande amiga leonina e fez uma música para ela, que dedicou a todas as leoninas ali presentes. A música: Eduardo e Mônica. ...Ela era de leão e ele tinha dezesseis... Isso não é o mais importante da história, mas eu como leonina, adorei!

Se cansou de trovar solitariamente e chama uns amigos para tocar com ele. Estava nascendo a maior banda de rock do Brasil. A Legião Urbana. Música, drogas, sexo, homens, mulheres, música, sucesso, shows, entrevistas... Renato se cansou muitas vezes, foi para Nova York, declarou seu amor para um americano, voltou na época do impeachment, amou muito o filho Giuliano. E morreu em 1996.

Todo mundo cantou tudo, Pais e Filhos foi emocionante. No final, com direito a frase clássica “Força sempre”, surge o Renato/Bruce cantando e entregando rosas vermelhas. Aplausos de pé das pessoas de todas as idades que lotaram o São Pedro. Foram duas horas do musical e monólogo, que vale a pena assistir. Pena que não deixavam fotografar!

Para alguém que tinha 11 anos quando Renato Russo, essa peça foi o máximo! Imagina o que seria um show da Legião? Meus tios foram num nos anos 80, no Gigantinho, até hoje falam desse show. Entre tantas frases incríveis ditas pelo cara, duas ficaram na cabeça: “Eu só escrevo porque não sei de nada” e “Eu só sinto um vazio”.

A conclusão do próprio Renato para o seu sucesso é que ele foi sincero, cantou e escreveu o que se passava com ele e, que no fundo, é igual a dor de todo mundo. ...Tua tristeza é tão exata. E hoje o dia é tão bonito...

Saturday, August 02, 2008

Um pouco de tudo e quase nada

Estou quase fazendo aniversário. Não gosto de fazer aniversário, mas esse ano, segundo os chineses, o dia 08/08/08 terá toda sua mística triplicada e eu espero que isso seja sorte. Eu não sou velha, só que se eu resolver fazer ginástica olímpica com 23 anos vou quebrar a cara.

Não sei como me imaginava com 23 anos. Sabia que teria tatuagens e seria vegetariana. Só. Eu queria já ter tido um namorado, só pra vê como é. Ter viajado mais. Queria escrever mais, ser como essas escritoras cults que surgem de vez em quando. Gostaria de ser mais baladeira e não ficar de porre no primeiro copo. Me imaginava morando sozinha, eu acho...

Só que nunca me passou que seria a morada de um buraco sem fim dentro do meu estômago que está sempre faminto. Eu tento, faço de tudo para saciá-lo e não consigo. O esforço parece quase nada. Ele sempre quer mais e fica urrando lá dentro “não põe a culpa em mim!” O safado inverte o jogo!

Quando eu tenho alguma sorte, começo a achar estranho a sensação de felicidade que às vezes me invade, esperança que aperta a minha mão e as noites que deito e durmo, sem chorar. Aí não resisto e vou procurar o meu vazio, vejo ele lá dormindo. Inconscientemente começo a falar alto, dar gargalhadas, ter idéias mirabolantes, escrever sobre o dito-cujo até ele acordar. Ele levanta com o mau humor típico de quem acordou antes da hora e diz na minha cara: “Viu como você não vive sem mim.”

Não era bem isso que eu imaginava para mim. Cultivar buracos internos! Será um carma? Eu só queria escrever e viver disso. Mas quem vai querer ler “as aventuras de um buraco vazio”? Nem a minha mãe. Eu não sei o que queria para mim. E continuo não sabendo.

Companhia para ir no cinema? Alguém para discutir o último livro que eu li? Dinheiro para comprar todos os livros que eu quero ler? Um namorado? Uma casa com cerquinha branca? Ser uma jornalista bem sucedida? Ser uma escritora porra louca e incompreendida? Sou vazia de respostas. E esse vazio todo só me enche de perguntas que não sei responder, aí me sinto burra.

Outro dia estava conversando com um colega da época do colégio no msn. Ele falou que eu tinha ficado muito gata! O buraco riu da minha cara, lembrando que se ele falasse isso na época do colégio eu teria amado, porque sempre achei o moço lindo. Eu achava que naquela época ninguém me enxergava. Às vezes, acho que foi por ali que catei um bichinho rejeitado e coloquei dentro de mim. Ele cresceu e se tornou o vazio que me habita. Quando eu escrevo ele se acalma um pouco e acentua a solidão. Afinal, porque eu prefiro passar as noites de sábado cultivando o vazio?

Saturday, July 26, 2008

25 de julho

Sexta-feira, dia 25 de julho, foi feriado em São Leopoldo e em algumas outras cidades da região, principalmente municípios com colonização alemã. Era Dia do Colono ou o Dia da Imigração Alemã, como prefiro. Quando eu era criança adora essa época! Por causa das férias de julho, porque meus primos de Florianópolis vinham passar alguns dias aqui e o principal motivo: a São Leopoldo Fest.

Nossa, amava! Tinha parque de diversões, shows de todos os tipos, muitos doces, barraquinhas enfeitadas pelas ruas do centro, bandinhas tocando músicas típicas, bandeiras com as cores da Alemanha... No colégio aprendíamos sobre a história da cidade, berço da colonização alemã no Estado. Foi em São Leopoldo que as primeiras famílias vindas da Alemanha desembarcaram no dia 25 de julho de 1824.

Depois, quando trabalhava na prefeitura, passei dois anos trabalhando na festa. Muito bom! Entrava e saia todos os dias sem pagar, tinha acesso a tudo, sabia de tudo que acontecia nos bastidores, ficava na festa até depois que todos já tinham ido embora e havia somente o pessoal que trabalhava, assistia todas as atrações, saia no meio do expediente só para pegar uma torta em alguma barraquinha da Independência. Uma farra!

E hoje? A festa cresceu, as atrações aumentaram... Só que tem alguns anos que trabalho em Porto Alegre, portanto, não faço esse feriado. Meus primos cresceram e trabalham, não existe mais “as férias de julho” e eu continuo gostando da São Leopoldo Fest, mas com uma certa distância e várias restrições. O quê, de fato, essa comemoração tem haver com aqueles alemães que chegaram aqui? Não sei... Concordo que seja uma data importante para a história da cidade, mas a impressão que tenho é que as pessoas vão lá apenas para ver os shows, já que isso é raro na cidade.

Tortas, pastéis, cachorros-quentes, uma infinidade de docinhos... Se encontram em qualquer padaria. As comidas, realmente típicas, são caras. Agora a questão que eu acho mais complicada: é cobrado para entrar na festa. Sei que é caro fazer esse evento, mas acho que essas festas populares não deveriam ser cobradas. Não importa se é a preço popular. Para uma família de quatro pessoas, contando ingresso e tudo que ela vá gastar nas atrações, se torna caro. E se a festa é da cidade, para comemorar a cidade, todos deveriam ter o direito de participar. Talvez isso soe utópico ou até socialista, mas acho absurdo ter que pagar para participar. Sei que tem a questão da segurança, só que não consigo concordar com isso. Cobraram dos primeiros imigrantes ingresso para entrar em São Leopoldo?

Não sei se vou aparecer na comemoração esse ano. Durante a semana, talvez não tenha tempo... Em final de semana é muito tumulto... Gosto das boas lembranças que tenho dessa fest, mas no fundo acho essas fests provincianas. Não gosto de crianças e não me considero saudosista, mas às vezes gostaria de ser criança, só pra curtir mais. Para encher a boca pra falar “minha cidade é berço da colonização alemã”, pra ter a impressão que estava acontecendo algo grandioso, que as pessoas realmente tinham algo para comemorar e se orgulhar.

Friday, July 18, 2008

Suave com a pronúncia de um D

Sempre falei pouco e quando era criança falava muito errado. Além de demorar para começar a dizer algumas palavras, minha vó tentou me ensinar alemão. O que resultou numa criança que não conseguia pronunciar o R nos meio das palavRas, nem o pl, pr, gr... Trocava o D pelo T, o V pelo F, o B pelo P... Só pronunciava o que era mais forte, isso tem um nome complicado que eu não me lembro qual é.

Quando minha vó morreu eu tinha só 6 anos, nunca mais tentei falar nada em alemão, já era a chacota preferida dos meus coleguinhas da 1ª série e o pior de tudo, isso estava começando a me atrapalhar. Eu pensava que nunca iria namorar, nem trabalhar, nem nada por causa disso. Lembro até hoje, que às vezes nem minha família entendia o que eu queria falar. Odiava ir no armazém, pois sempre pediam para eu repetir o que eu queria, não sei se era só por maldade ou porque realmente não entendiam.

Aprender a ler foi uma tarefa árdua, mas escrever foi pior ainda. Eu escrevia como falava, assim: em totas as minhas retações no coléxio eu tiafa notas paixas por causa dos erros de portuquês. Paa compensar tentafa capichar na históia. Imachina que popema!!! A minha melhor amica, a Chaque me achudava um monte e sempe me oufia, por pior que fosse oufir alquém falanto assim.

Perdi a conta de quantos anos fui em fonoaudiólogas. De quantas vezes lia em voz alta e gravava para comparar com a fala de outra pessoa. Quantos exercícios eu fiz que deixavam minhas bochechas doendo. Se eu falasse pa-lan-ta, um dia falaria planta... Quantas vezes me escondia no recreio só pra não ouvir ninguém em chamando de "língua enrolata". Quantas vezes rezei para não precisar apresentar o trabalho na frente da turma toda. O mais estranho é que eu sempre gostei de ler e escrever.

Com 8, 9 anos eu já tinha me acostumado com tudo isso e não imaginava que o pior ainda estava por vir. Na 6ª série troquei de colégio, estava com 11 anos, continuafa falanto tuto errato, mas ao menos tinha consciência disso e já não escrevia como falava. Me tornei uma excelente aluna em português! Só que com o colégio novo, veio um monte de colegas pré-adolescentes. Nossa que tortura, tudo de novo, só que em proporções maiores. Ainda bem que a Jaque tinha ido para o mesmo colégio que eu. No primeiro trabalho que tive que apresentar no novo colégio, pedi para ela avisar a professora do meu problema. Apresentei o trabalho e vi 30 e tantos coleguinhas passarem cinco intermináveis minutos vermelhos de tanto segurarem o riso.

Eu não lembro exatamente quando comecei a falar corretamente, mas lembro quando eu percebi isso. Eu tinha 14 anos, era sábado de tarde eu estava no pátio da minha casa e falei alguma coisa do meu tio Daniel para a minha mãe. E quando eu disse DANIEL, eu senti direitinho (como até hoje sinto!) aquele D foi tão suave, leve. Saia do céu da boca e não dos dentes como o T. DANIEL, DANI, DÃ... DÃ. Repeti várias vezes, baixinho e assim, suave!

Nessa época eu já tinha vontade de ser jornalista, embora achasse isso impossível. E seria no mínimo irônico eu escolher uma profissão onde tivesse que escrever, entrevistar, me expor... Foi morrendo de medo que marquei um X no jornalismo quando fiz a inscrição para o vestibular.

Sinceramente, não tenho raiva de ter falado assim, acho engraçado, rendeu boas lembranças e algumas confusões. Tá, meus pais gastaram horrores com fonos e psicólogos e ser a piada da turma não é legal (crianças e pré-adolescentes são cruéis quando querem ser!). Hoje, ainda sou a “alemoa batata” da família e entendo que é normal do ser humano excluir e rir do que é diferente. Mas esse saborzinho de vingança que eu sinto quando lembro dos meus coleguinhas rindo, é inevitável. Afinal eu tenho uma profissão que é a prova de uma superação e apesar de ser um ofício que eu amo, enfrentei alguns bons fantasmas para aceitar o desafio.

Eu não sei o que a maioria desses coleguinhas estão fazendo da vida. Sei que eu estou realizando um sonho e vingança pode ser uma palavra muito forte, até porque não há motivo para me vingar. Mas não encontro palavra melhor. E é uma vinganzinha que não faz mal a ninguém, é leve e suave como a pronúncia de um D.

Wednesday, July 16, 2008

Eu e a Rô



Essa loira que é a Robertinha do texto abaixo. Queria ter colocado a nossa foto, mas fazia muito tempo que não conseguia postar nenhuma foto! Não faço a menor idéia do motivo, não carregava nenhum tipo de imagem... Daí nunca mais tentei colocar foto no blog.

Só que depois de ler o comentário da Jac, tive a gloriosa idéia de tentar colocar a foto (certa de que não daria certo) e pediria ajuda pra ela, que tem muito mais experiência nesse negócio de blog que eu! Ainda bem que não foi preciso! E de qualquer maneira, obrigada Jac!

Saturday, July 12, 2008

Loirão

Tem muito tempo que quero escrever pra esse loirão!!! Loirona, melhor! Linda, alta, loiríssima, simpática, não nega ser chamada de Barbie e claro, adora rosa. Essa Barbie se chama Roberta. Gosta de ser chamada de Robertinha, mas acho ela tão ão, que chamo de Rô.

Ela escreve super bem. Foi por causa dos nossos textos que nos tornamos amigas. Fomos colegas na faculdade e infelizmente ela não vai se formar comigo. Acho que ela não deve se lembrar disso, mas no primeiro dia de aula de planejamento gráfico e editoração em jornalismo, eu sentei do lado dela. Apavorada, porque não sabia nada de pagemaker, o programa onde editamos as páginas de um jornal. Ela não me deu muito papo, falou que era pra mim ficar calma e que ela também não sabia. Não sentei mais do lado dela.

Só que sempre achei ela gente fina. Ela é quieta. Gosto de gente quieta. Por sorte alguns semestres depois, na mesma sala de planejamento gráfico, fizemos redação jornalística III. Não sentávamos juntas, mas nos descobrimos cúmplices, com algo em comum! Toda aula tínhamos que fazer uma redação, na outra aula, o professore lia as melhores. E, sem mentira nenhuma, em quase todas as aulas, nossos textos estavam entre os melhores e a gente se olhava, como se falasse uma para a outra: “Tu também escreve!”. Uma aula o professor falou que havia uns cinco alunos que escreviam bem, que tinham grande futuro nisso, nos sabíamos que estávamos entre esses cincos. A gente não se falava muito, mas já se lia!

Num outro semestre, na cadeira de Comunicação e Filosofia, cheguei toda torta no primeiro dia de aula e me sentei do lado dela. A Rô perguntou o que eu tinha, eu falei meio com vergonha, meio feliz, meio querendo aparecer, que tinha colocado silicone. Ela só sorriu e em todas as cadeiras que fizemos juntas depois disso, dividimos a classe, os trabalhos, o computador, os problemas, os textos...

O que mais gosto nesse loirão? Ela é doce, meiga e o melhor, nunca me julgou. Nunquinha, nem quando contei que passei anos ficando com um rapaz que tinha namorada. E quantos e-mails trocamos durante o serviço para terminar algum trabalho!? Quantas vezes ela me olhou e perguntou: “Sai agora pra ver o Peter ou fico na aula”!? Quantas vezes carregamos os trabalhos nas costas!? Quantas notas boas tiramos!?

Vou morrer de saudade desse loirão! Se Deus quiser, a gente ainda vai trabalhar muito junto! Quem sabe a gente até escreva um livro junto, montamos uma assessoria especializada em auditoria de imagem, dividimos a produção de algum documentário retrô... Tudo pode acontecer, até aquela moça quieta e loira de planejamento gráfico se tornar uma das minhas melhores amigas. Ah, esqueci de dizer que ela também fica vermelha!