Estava lendo a matéria de capa da Donna ZH, sobre as heranças sejam materiais, comportamentais ou emocionais, que as mães deixam para as filhas. Sou a cara da minha mãe, só que desbotada. E tenho um anel que ganhei quando fiz 15 anos, lindo, de ouro branco com uma pedra verde, foi o anel de noivado da minha avó, que a mãe ganhou com 15 anos, também. E para aí a minha lista de coisas herdadas da mãe.
Somos bastante diferentes. Até uma marca de nascença dela foi para o corpo do meu irmão. Além do anel, estão comigo um livro de receitas e um travesseiro que eram da avó. E volta e meia escuto que sou igual a dona Helga. Minha avó era alemoa, do tipo que no segundo gole de vinho já começa a corar. E eu herdei isso dela.
Isso e o gosto por jasmim, por doces, por melancia, por cozinhar, por esmaltes cor de rosa. De todos esses itens, o único que minha mãe compartilha é o gosto por doce, mas só comê-los. Para minha avó, a diversão começava na hora de fazer. Para mim, ainda bem, também.
Essas são as coisas que lembro, mas tem o que não me dou conta, geralmente manias, coisas que quando percebo, minha mãe está me observando. O jeito de passar o batom, uma ou outra coisa que faço quando estou cozinhando, a maneira que leio o jornal... Às vezes ela fala coisas do tipo “a mãe ia adorar te ver assim” ou “criticava tanto a mãe por isso e a minha filha é igual.”
Elas eram super ligadas. A mãe era a única filha de sete filhos e por todas as coisas que aconteceram com a mãe, dava para ver como a ligação delas era grande. Todos os dias, todos, a mãe ia na casa da avó, nem que fosse por alguns minutos, mas sempre passava lá. Foi assim até a dona Helga morrer.
Talvez eu ser tão diferente da mãe e tão parecida com a minha avó, seja além de herança, um presente, para nós três.
Sunday, May 13, 2012
Sunday, April 29, 2012
Marcadores de páginas do tempo
Existem algumas pessoas, especialmente as crianças, que são verdadeiros marcadores de páginas do tempo. Mas negligenciamos esse fato, o que é até natural, já que estamos ocupados demais sendo testemunhas de alguém que está aprendendo a andar, a falar, que logo vai para escolinha...
Acho que demora alguns anos até a gente se dar conta de como o tempo passou. A minha criança, nesse caso, é o meu afilhado e o primeiro sinal foi quando ele adorava me abraçar só para depois falar, com aquele sorriso que não cabe no rosto, “tô quase do teu tamanho”, “te alcancei” e finalmente: “tô maior que tu, dinda.” Sim, ele já está mais alto do que eu e vai permanecer assim o resto da vida, mas me pergunto até quando ele vai ter prazer em falar isso? Até quando ser mais alto que a dinda será motivo de comemoração?
Passei a perceber outros sinais quando roupa e tênis passaram a ser os presentes ideais, quando ele passou a escolher os filmes que assistimos no cinema, vendo ele se servir sozinho num restaurante, quando percebi que ele prestava atenção em qualquer conversa que envolvia bares, casas noturnas, namoros...
Posso pedir uma explicação para o tempo? Cadê aquela criança que tinha cachos miúdos, que só comia se tivesse arroz, que adorava dinossauros, fazia fusões mágicas quando mexia as mãos e que não se importava de ser chamado de “lindo da dinda”?
Alguns cargos familiares parecem só ter sentido quando uma das partes for criança. Claro que meu afilhado pode contar comigo para sempre, mas não me imagino mordendo a barriga dele, como sempre fazia. Nem ele vai sair correndo quando mostrar minhas unhas (ele nunca gostou das minhas unhas).
O problema é que meu primeiro marcador de página do tempo tá grandão e eu estou louca para ter outro, espero que meu irmão perceba e me dê uma sobrinha logo. Enquanto isso vou me preparando para as namoradas do meu afilhado, vou me divertir muito contando que um dia, ele me perguntou, com toda a inocência do mundo, o que eu tinha feito para o Latino ter gravado Renata Ingrata.
Acho que demora alguns anos até a gente se dar conta de como o tempo passou. A minha criança, nesse caso, é o meu afilhado e o primeiro sinal foi quando ele adorava me abraçar só para depois falar, com aquele sorriso que não cabe no rosto, “tô quase do teu tamanho”, “te alcancei” e finalmente: “tô maior que tu, dinda.” Sim, ele já está mais alto do que eu e vai permanecer assim o resto da vida, mas me pergunto até quando ele vai ter prazer em falar isso? Até quando ser mais alto que a dinda será motivo de comemoração?
Passei a perceber outros sinais quando roupa e tênis passaram a ser os presentes ideais, quando ele passou a escolher os filmes que assistimos no cinema, vendo ele se servir sozinho num restaurante, quando percebi que ele prestava atenção em qualquer conversa que envolvia bares, casas noturnas, namoros...
Posso pedir uma explicação para o tempo? Cadê aquela criança que tinha cachos miúdos, que só comia se tivesse arroz, que adorava dinossauros, fazia fusões mágicas quando mexia as mãos e que não se importava de ser chamado de “lindo da dinda”?
Alguns cargos familiares parecem só ter sentido quando uma das partes for criança. Claro que meu afilhado pode contar comigo para sempre, mas não me imagino mordendo a barriga dele, como sempre fazia. Nem ele vai sair correndo quando mostrar minhas unhas (ele nunca gostou das minhas unhas).
O problema é que meu primeiro marcador de página do tempo tá grandão e eu estou louca para ter outro, espero que meu irmão perceba e me dê uma sobrinha logo. Enquanto isso vou me preparando para as namoradas do meu afilhado, vou me divertir muito contando que um dia, ele me perguntou, com toda a inocência do mundo, o que eu tinha feito para o Latino ter gravado Renata Ingrata.
Friday, April 13, 2012
Em construção...
Saturday, April 07, 2012
Dia do jornalista

"O jornalismo é a mais emocionante e divertida profissão que eu conheço"- Millôr Fernandes
Dizem que 7 de abril é Dia Nacional dos Jornalistas. Dizem, porque como imparcialidade não existe, há muitas versões desse fato por aí e tem outras datas que também são consideradas dia dos jornalistas.
A ideia de ser jornalista sempre rondou minha cabeça, desde criança, mas foi só pelos 15 anos que me rendi, antes pensava que era tímida demais para isso. Hoje, se tivesse 16 anos e fosse prestar vestibular novamente, não teria dúvida nenhuma e muito menos, medo de timidez.
Outro dia ouvi de uma amiga jornalista, que trabalha há 20 anos como produtora numa televisão, que o filho dela cresceu sem entender porque ela não aparecia na TV. Típico. Na minha festa de formatura, um primo de uns cinco anos, veio me perguntar se agora eu iria ficar famosa.
Falando nisso, me formei cedo, com 22 anos e naquela época o diploma ainda tinha valor, o twitter não era fonte de informação e eu não sabia da existência do Gilmar Mendes. E apesar de estar saindo da faculdade com emprego, estava aterrorizada com as previsões que ouvi durante todo o curso: “não há mercado para jornalista!”
Eu trabalho pra caramba, não posso reclamar do tal mercado, mas sei também que é uma mistura de competência, sorte e tesão. Sem tesão não há solução, já dizia o poeta. Me divirto muito fazendo o que faço e observando exemplares da mesma espécie.
Não tem nada mais engraçado do que ver aquele bando de jornalistas, amontoados, com blocos, canetas, máquinas, gravadores e câmeras a postos esperando a hora de voarmos em cima da presa. Porque somos urubus, segundo boa parte da sociedade.
Outra clássica acontece neste momento de amontoamento jornalístico, sempre tem um que grita: “vou ter um orgasmo com essa credencial no pescoço!” E quando participamos de congressos e seminários e encontramos os colegas que só encontramos em alguma cobertura ou só falamos por telefone, quando precisamos de informação.
Sensação boa é conhecer aquele colega que a gente só conhece por texto, é fazer uma baita entrevista com aquela fonte tri difícil, encontrar aquela credencial cheia de anotações no verso, é ver que aquela notícia repercutiu e ajudou alguém...
Há coisas boas e más, como em qualquer outra. Há plantões, muitas horas extras, litros de café, diagramações até a madrugada, fontes inesquecíveis, dead lines absurdos, editores e assessorados egocêntricos, horários malucos (tem dias que almoço às 11h, noutros, às 15h).
Apesar de tudo isso, parabéns pra quem assim como eu, é um ser apaixonado por esta profissão e sonha com o dia que teremos a melhor notícia do mundo: nosso registro voltou a ter valor. Faço o tipo: jornalista idealista.
Renata Machado, jornalista (MTb.: 14.046)
Sunday, April 01, 2012
No automático
“Escrever é um trabalho de tempo integral, embora apenas poucas horas do dia sejam gastas no trabalho efetivo de escrever” – Hemingway
É isso. Eu escrevo o tempo todo, é uma loucura, minha cabeça não para nunca, registra tudo que vejo, como longos e às vezes, chatos capítulos de descrição. Poucas coisas me fascinam tanto como observar as pessoas.
Escutar trechos de conversas no ônibus, no restaurante, na rua, falando ao telefone é o que eu preciso pra imaginar mil e um desfechos, o ouvinte, o motivo, as tragédias e os milagres que uma conversa podem resultar.
O problema é que com a correria dos dias, cada vez escrevo menos. Melhor, escrevo no bloquinho que carrego sempre ou no meu diário (sim, eu tenho diário). Mas isso não conta.
Depois de passar horas diagramando na frente do computador até os olhos arderem, de escrever textos políticos, notas curtas, descobrir como tornar útil a fala inútil de uma fonte, a última coisa que quero é encarar um monitor.
Me culpo por não ter o tempo que gostaria de ter para escrever e nem é tanto por ser algo que eu curto fazer. Também me sinto culpada quando falto o pilates. A culpa é porque não acho justo guardar tanta gente e história dentro de mim. Qualquer dia, vou explodir.
O ideal mesmo, seria ter um cabo USB que todo final de dia eu conectasse e descarregasse toda e qualquer palavra. Seria bem mais fácil ... Mas enquanto ainda não temos isso, fico aqui tentando descobrir o que me chamou atenção na moça de olhar perdido que caminhava pela avenida Independência e disse quando atendeu o telefone: “tô no automático”.
Seria só uma obra de ficção, onde qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência?
É isso. Eu escrevo o tempo todo, é uma loucura, minha cabeça não para nunca, registra tudo que vejo, como longos e às vezes, chatos capítulos de descrição. Poucas coisas me fascinam tanto como observar as pessoas.
Escutar trechos de conversas no ônibus, no restaurante, na rua, falando ao telefone é o que eu preciso pra imaginar mil e um desfechos, o ouvinte, o motivo, as tragédias e os milagres que uma conversa podem resultar.
O problema é que com a correria dos dias, cada vez escrevo menos. Melhor, escrevo no bloquinho que carrego sempre ou no meu diário (sim, eu tenho diário). Mas isso não conta.
Depois de passar horas diagramando na frente do computador até os olhos arderem, de escrever textos políticos, notas curtas, descobrir como tornar útil a fala inútil de uma fonte, a última coisa que quero é encarar um monitor.
Me culpo por não ter o tempo que gostaria de ter para escrever e nem é tanto por ser algo que eu curto fazer. Também me sinto culpada quando falto o pilates. A culpa é porque não acho justo guardar tanta gente e história dentro de mim. Qualquer dia, vou explodir.
O ideal mesmo, seria ter um cabo USB que todo final de dia eu conectasse e descarregasse toda e qualquer palavra. Seria bem mais fácil ... Mas enquanto ainda não temos isso, fico aqui tentando descobrir o que me chamou atenção na moça de olhar perdido que caminhava pela avenida Independência e disse quando atendeu o telefone: “tô no automático”.
Seria só uma obra de ficção, onde qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência?
Wednesday, February 29, 2012
Like a virgin...
touched for the very first time (Madonna)
Doeu, ardeu, sangrou. Não consegui parar de pensar, um minuto que fosse, no que estava fazendo. Era bom e eu queria, estava bem segura, mas isso não me impediu de pensar, na hora da dor, o motivo de estar ali.
Terminar antes da hora? Nem me passou pela cabeça, sabia que o final seria bastante prazeroso. E em alguns momentos a dor diminuía e eu até curtia. Era grande e era bom ser grande, mas pensava o tempo todo se o tamanho era o causador da dor e da ardência que sentia.
Ainda bem que ele era experiente, sabia o que estava fazendo e ao mesmo tempo, era preocupado e cuidadoso. Me perguntava se estava doendo ou muito rápido, se queria trocar de posição para ficar mais confortável...
Eu só mudava se ele pedisse, mas quando ia muito rápido e meu corpo se contraía por causa da sensação da pele estar rasgando, pedia para diminuir o ritmo. Às vezes, as mãos dele pareciam leves como plumas na minha pele, noutras, bastante pesadas e arranhavam, isso quando não colocava todo o seu peso em cima de mim. Tinha certeza que as dores no corpo no outro dia seriam inevitáveis.
Tentei prestar atenção nos barulhos, nas vozes e carros na rua, nos latidos perdidos de algum cachorro dos prédios próximos, na respiração dele, na trilha sonora que era bastante anos oitenta. Tocou Like a virgin, da Madonna, e fiquei pensando nos momentos que nos remetem as nossas primeiras experiências. Aquele era um.
Não era minha primeira vez. Comecei cedo, com 15 anos, aconteceu logo depois do meu aniversário. Mas foi só essa semana, onze anos e quase vinte tatuagens depois que me dei conta do quanto se tatuar pode ser dolorido e sofrido.
Doeu, ardeu, sangrou. Não consegui parar de pensar, um minuto que fosse, no que estava fazendo. Era bom e eu queria, estava bem segura, mas isso não me impediu de pensar, na hora da dor, o motivo de estar ali.
Terminar antes da hora? Nem me passou pela cabeça, sabia que o final seria bastante prazeroso. E em alguns momentos a dor diminuía e eu até curtia. Era grande e era bom ser grande, mas pensava o tempo todo se o tamanho era o causador da dor e da ardência que sentia.
Ainda bem que ele era experiente, sabia o que estava fazendo e ao mesmo tempo, era preocupado e cuidadoso. Me perguntava se estava doendo ou muito rápido, se queria trocar de posição para ficar mais confortável...
Eu só mudava se ele pedisse, mas quando ia muito rápido e meu corpo se contraía por causa da sensação da pele estar rasgando, pedia para diminuir o ritmo. Às vezes, as mãos dele pareciam leves como plumas na minha pele, noutras, bastante pesadas e arranhavam, isso quando não colocava todo o seu peso em cima de mim. Tinha certeza que as dores no corpo no outro dia seriam inevitáveis.
Tentei prestar atenção nos barulhos, nas vozes e carros na rua, nos latidos perdidos de algum cachorro dos prédios próximos, na respiração dele, na trilha sonora que era bastante anos oitenta. Tocou Like a virgin, da Madonna, e fiquei pensando nos momentos que nos remetem as nossas primeiras experiências. Aquele era um.
Não era minha primeira vez. Comecei cedo, com 15 anos, aconteceu logo depois do meu aniversário. Mas foi só essa semana, onze anos e quase vinte tatuagens depois que me dei conta do quanto se tatuar pode ser dolorido e sofrido.
Wednesday, February 15, 2012
Voltas
Para ler ouvindo Eu Não Entendo, do Nenhum de Nós
“Você até parece um vício. Que largar é quase impossível. Exige muito sacrifício. E quando eu me considerava limpo. Vem você pra me oferecer mais.”
O improvável aconteceu e agora a vida está aí, se divertindo com o nosso amadorismo diante dela. Falar que não quer? Como? Se isso foi o que mais se desejou. Segundo alguns, o querer foi tanto que chegou a beirar a obsessão.
É bastante difícil levar a vida adiante quando a gente tem um sentimento que parece uma âncora. E é muito triste ter que se conformar e pensar como terminadas histórias mal resolvidas.
Esses casos mal terminados pesam a alma, povoam de pontos de interrogações lembranças banais e sempre serão recordadas com dor, por mais que o tempo pareça ter amenizado.
Agora que eu já estava no estágio de não mexer na casca da ferida para não provocar dor, de não falar, de não perguntar, de desviar caminhos, de ter certeza que nunca mais... Numa dessas voltas da vida, eis que o improvável, ou talvez o mais provável, aconteceu.
E veio com o sorriso mais lindo e a voz firme de quem quer impor a sua vontade. Chegou a hora de falar de coisas mal resolvidas, de parar de carregar âncoras e esperar que a vida permita que eu pinte as asas de um anjo que eu conheci.
“Você até parece um vício. Que largar é quase impossível. Exige muito sacrifício. E quando eu me considerava limpo. Vem você pra me oferecer mais.”
O improvável aconteceu e agora a vida está aí, se divertindo com o nosso amadorismo diante dela. Falar que não quer? Como? Se isso foi o que mais se desejou. Segundo alguns, o querer foi tanto que chegou a beirar a obsessão.
É bastante difícil levar a vida adiante quando a gente tem um sentimento que parece uma âncora. E é muito triste ter que se conformar e pensar como terminadas histórias mal resolvidas.
Esses casos mal terminados pesam a alma, povoam de pontos de interrogações lembranças banais e sempre serão recordadas com dor, por mais que o tempo pareça ter amenizado.
Agora que eu já estava no estágio de não mexer na casca da ferida para não provocar dor, de não falar, de não perguntar, de desviar caminhos, de ter certeza que nunca mais... Numa dessas voltas da vida, eis que o improvável, ou talvez o mais provável, aconteceu.
E veio com o sorriso mais lindo e a voz firme de quem quer impor a sua vontade. Chegou a hora de falar de coisas mal resolvidas, de parar de carregar âncoras e esperar que a vida permita que eu pinte as asas de um anjo que eu conheci.
Wednesday, February 08, 2012
O Palhaço

Finalmente, consegui assistir ao filme “O Palhaço”. Adoro filmes brasileiros, temas prosaicos, conflitos internos e enredos que se desenrolam sem presa, em longos planos sequencias, como a vida. E sim, sou fã do Selton Mello diretor, desde o Feliz Natal.
No filme, Benjamim (Selton Mello) e o pai, Valdemar (Paulo José) são a dupla de palhaços Pangaré & Puro Sangue do Circo Esperança (reparem no nome). Mais do que isso, eles que administram o circo. Só que para Benjamin, a vida está sem graça e além de ter que fazer graça para os outros, ele tem que se preocupar com o adiantamento dos músicos, o alvará da prefeitura, o sutiã para a Dona Zaira, o terreno arenoso e os documentos (identidade, CPF e comprovante de residência), que ele não tem e o impedem de comprar um ventilador, o que ao longo da história vira uma obsessão.
Logo no começo, fica claro a insatisfação do personagem. Porém, ele passa boa parte do filme adiando uma mudança, uma conversa, uma tentativa, um olhar pra si. E não agimos na vida assim, também? A maior parte do tempo fingindo estar tudo bem, outra boa parte criando coragem para sair da zona de conforto e alguns momentos, mudando...
E Benjamim muda, ou melhor, deixa de se mudar com o circo. Fica numa cidadezinha qualquer do interior, mora num quarto de hotel, tira os documentos, arruma um emprego, pega ônibus cedo, passa gel nos cabelos todos os dias, compra um ventilador, observa a vida de outro ângulo e volta. Volta porque na vida cada um faz o que sabe e ele saber ser palhaço.
Entre o enredo todo, é possível perceber as mudanças no humor do Benjamim pelas cores das cenas. As tomadas das apresentações do circo explodem em cores, muito vermelho, muito laranja, como as risadas que explodem da platéia, cada vez menor, mas que dão a certeza para as personagens e para os telespectadores (do circo e do cinema), que o picadeiro cumpre muito bem, a sua função.
Encerrado o espetáculo, a vida em torno do circo é marrom, bege, cinza, apática com o tempo passando indolente. Nas imagens amplas, que pegam todo o circo, este sempre se encontra no meio de grandes vales, com verde em volta, a cor que para muitos representa a esperança, lembram do nome do circo?
Já nas viagens entre uma cidade e outra, a monotonia e os rostos cansados dos artistas contrastam com movimento típico de uma mudança. São talvez, as cenas onde haja mais silêncio, as personagens só conversam se algo interrompe o trajeto.
Outra coisa que achei fantástica: a primeira cena é de uma mulher (artista do circo) que sai do picadeiro e vai até onde o Benjamim se maquia. A última é de uma menina (artista do circo) que também sai do picadeiro e vai até o “quarto” de Benjamim. Cenas iguais, mas totalmente diferentes, a do início remetia ao fim, ao fim de um espetáculo, de um tempo, de uma relação, de uma etapa de vida. A cena do final remete a tudo que ainda está por vir, novos ânimos, novos sorrisos, novos lugares, novos artistas e espetáculos.
O filme O Palhaço emociona. Pode não fazer dar gargalhadas, nem chorar, mas incomoda e na última cena, quando a menina entra no quarto, o sol vai junto e encontra as lantejoulas coloridas das roupas, a câmera capta isso e para ali, o filme acaba quando o sol refletido sai da tela, entra pela retina e o telespectador é obrigado a fechar os olhos. Talvez para assimilar o que se viu, talvez porque O Palhaço parecia não surpreender, talvez para olhar para si...
Friday, February 03, 2012
Característica incompatível com perfil exibido
Estava almoçando hoje com três colegas quando disse "gurias, vocês assistiram Mulheres Ricas esta semana?" Todas pararam e me olharam sem acreditar no que haviam ouvido. “Vocês não olham? Ah tem que ver, eu adoro, dou muita risada", continuei...
Pasmas, elas falaram que era absurdo uma pessoa como eu assistir a esse programa e pior ainda, gostar.
Mulheres Ricas é exibido nas segundas, às 22h30, na Band. É um reality show em formato documental que mostra o cotidiano de cinco mulheres milionárias. O programa estreou este ano e vem sendo bastante criticado por causa da ostentação das cinco mulheres num país tão desigual como o nosso. Mas convenhamos, isso não é problema delas. Mulheres Ricas está longe de ser um programa inteligente, mas vende e vende bem.
Agora qual é o problema de eu gostar desse programa fútil, inútil, por vezes, vazio? Por que não é o que esperam de mim? Uma das minhas colegas disse: “se fosse eu, que gasto mais do meu salário em roupas de marcas, seria normal, mas tu Rê! Ah, o mundo tá virado.”
Só que o mundo não tá virado. Tanto que ela, que teria tudo para ser fã, não assiste, o que é uma característica incompatível com perfil exibido pela minha colega. O que me surpreende também. Por que temos essa mania inconveniente de querer que o outro seja da maneira que nos percebemos?
Tenho uma amiga que é repórter de esportes num jornal de Porto Alegre e também tem um blog, onde escreve de tudo. Um dia, postou um texto falando sobre sua paixão por esmaltes (ela tem mais de 1.000, coleciona mesmo) e o povo reclamou, porque gostar de esmaltes não combina com aquela moça que entende tudo de futebol e faz kite surf nas horas vagas.
Somos um universo tão grande que certas características ou atitudes não deveriam incomodar ou constar no pacote “isso não combina com você”. Tudo combina com seres que são livres, certo? E tudo deveria ser considerado aceitável quando se tem consciência da liberdade, nossa e do outro.
Assisto TV muito pouco. Faz anos que não tenho uma no meu quarto e não faz falta. Notícias, acompanho pela internet, o tempo todo. Filmes, no cinema, computador e quase sempre, nos finais de semana estou sozinha em casa, com três televisões para escolher.
O único programa que não perco é Mulheres Ricas. Assistir uma atração com o único objetivo de me divertir, de não pensar, não vai mudar em nada minha opinião sobre as coisas. Não assistir por achar que não combina comigo, aí sim, mudaria e aí sim, não seria eu.
Pasmas, elas falaram que era absurdo uma pessoa como eu assistir a esse programa e pior ainda, gostar.
Mulheres Ricas é exibido nas segundas, às 22h30, na Band. É um reality show em formato documental que mostra o cotidiano de cinco mulheres milionárias. O programa estreou este ano e vem sendo bastante criticado por causa da ostentação das cinco mulheres num país tão desigual como o nosso. Mas convenhamos, isso não é problema delas. Mulheres Ricas está longe de ser um programa inteligente, mas vende e vende bem.
Agora qual é o problema de eu gostar desse programa fútil, inútil, por vezes, vazio? Por que não é o que esperam de mim? Uma das minhas colegas disse: “se fosse eu, que gasto mais do meu salário em roupas de marcas, seria normal, mas tu Rê! Ah, o mundo tá virado.”
Só que o mundo não tá virado. Tanto que ela, que teria tudo para ser fã, não assiste, o que é uma característica incompatível com perfil exibido pela minha colega. O que me surpreende também. Por que temos essa mania inconveniente de querer que o outro seja da maneira que nos percebemos?
Tenho uma amiga que é repórter de esportes num jornal de Porto Alegre e também tem um blog, onde escreve de tudo. Um dia, postou um texto falando sobre sua paixão por esmaltes (ela tem mais de 1.000, coleciona mesmo) e o povo reclamou, porque gostar de esmaltes não combina com aquela moça que entende tudo de futebol e faz kite surf nas horas vagas.
Somos um universo tão grande que certas características ou atitudes não deveriam incomodar ou constar no pacote “isso não combina com você”. Tudo combina com seres que são livres, certo? E tudo deveria ser considerado aceitável quando se tem consciência da liberdade, nossa e do outro.
Assisto TV muito pouco. Faz anos que não tenho uma no meu quarto e não faz falta. Notícias, acompanho pela internet, o tempo todo. Filmes, no cinema, computador e quase sempre, nos finais de semana estou sozinha em casa, com três televisões para escolher.
O único programa que não perco é Mulheres Ricas. Assistir uma atração com o único objetivo de me divertir, de não pensar, não vai mudar em nada minha opinião sobre as coisas. Não assistir por achar que não combina comigo, aí sim, mudaria e aí sim, não seria eu.
Thursday, January 19, 2012
A era do "faz parte"
Nunca curti muito escrever sobre política ou assuntos que estão em discussão no momento aqui no Mosaico. Primeiro, porque escrever sobre política ou assuntos do momento é o meu trabalho, faço isso todos os dias. Segundo, as posições que defendo, exponho quando necessário nas reuniões, plenárias, fóruns e eventos de comunicação que participo. Terceiro, meu compromisso no blog é com os meus devaneios, só.
Mas dessa vez, não da pra fugir. Sim, o assunto já tá enchendo o saco. Sim, é sobre o tal estupro do Big Brother, ou melhor, sobre tudo que isso gerou. Chegamos no fundo do poço do grotesco. O que aconteceu na casa mais vigiada do Brasil, a mistura de alguém passando dos limites e alguém que não mediu as conseqüências, infelizmente, pode ser visto em qualquer festa. O que entristece, mesmo, é a postura da Rede Globo.
Acabei de chegar de uma pizzaria, estávamos num grupo de 20 pessoas, todas adultas, comemorando o aniversário de uma amiga. Claro que falamos sobre isso e lamentavelmente, a discussão ficou em torno do “foi sexo, não foi”, “ela estava acordada e gostando”, “ela queria”... E isso me irrita, muito pior do que aconteceu é a Rede Globo, a maior grupo de comunicação do Brasil, teoricamente comandada por pessoas capazes de pensar e raciocinar, deixar isso ter acontecido. É um desrespeito com os participantes do programa, com os funcionários que cumprem ordens e com os telespectadores.
Onde estavam os produtores que acompanham os confinados 24 horas? Se alguém passa mal, se um resolver se matar, se outro beber demais e se afogar na piscina, eles vão intervir. E nessa situação, por que não intervieram? Talvez acender as luzes tivesse evitado... Mas acho que a produção e o tal do Boni vibravam com as possíveis manchetes do dia seguinte: “primeira festa do BBB acaba em sexo”, “Sexo na Casa”, “Recorde do BBB, sexo na primeira festa”...
Só que hoje tem Twitter, onde todo mundo expõe seus achismos e teve alguém que achou que a moça estava dormindo. Muitos acharam a mesma coisa... Tenho certeza que muita gente ficou sabendo da história pelo Twitter, como eu, e domingo a noite se prestou a assistir o programa e aí começou o “apogeu da chinelagem” como definiu o Juremir Machado. Para o Bial, o amor é lindo e o show tem que continuar!
Depois de muito auê nas redes sociais e, aposto como isso influenciou muito, o rapaz saiu do programa, sem maiores explicações. Até tentaram, mas se tem algo que a Globo não sabe fazer é se explicar. E vai ficar por isso mesmo... Os outros BBBs já criaram o Bambam, a gorda, a lésbica, o gay, a vovó... E se a situação não for esclarecida, essa edição criou o estrupador e a estrupada.
E a cabeça dessas criaturas, como fica? Penso que os dois foram vítimas de uma situação montada (festa e bebida liberada), de uma edição manipulada e de uma orientação, da direção, despreparada. E o público? O grande público que tem como único meio de informação e entretenimento, a televisão. Eles não tem acesso a internet e inúmeros artigos com os mais diversos pontos de vista, o que é bom, propicia uma reflexão... Esses brasileiros não merecem uma explicação da Rede Globo? Sério, tem gente que não sabe o motivo de um dos participantes simplesmente sumiu!
Absurdo? Sim, tão absurdo como o Brasil ser o único país do mundo a chegar a 12ª edição dessa bosta. Tão absurdo quanto incentivar o consumo de álcool se todos os dias, os meios de comunicação fazem campanha contra. Tão absurdo quanto sair em sites da Globo que a moça abusada “usava roupas insinuantes” quando são os produtores que determinam a roupa dos participantes nas festas...
Reality show já foi inovador, agora é lugar comum. Acredito que infelizmente essa postura é o reflexo da sociedade brasileira. Niilista, omissa, moralistas, machista, o país do jeitinho, do tanto faz, do deixa disso, do qualquer coisa serve, do faz parte... A gente aceita, fazer o que né?
Agora, a política ou o devaneio: é fundamental uma legislação para os meios de comunicação no Brasil, que inclua dos meios de produção aos produtos e a forma de distribuição. Isso não é censura, é uma maneira de qualificar a mídia brasileira e evitar que esses constrangimentos sociais aconteçam.
Quando não sabemos lidar com a liberdade, as coisas tem que ser centralizadas e determinadas sim! Quando se é educado a pensar que liberdade é “pode tudo”, não demora muito para isso virar libertinagem (querem exemplo melhor que o suposto estrupo no BBB?)
Há várias ações rolando na internet e posições dos movimentos sociais para que o Big Brother saia do ar, lamentável isso não chegar ao grande público. O Ministério das Comunicações tem o poder de tirar o programa do ar e de proibir uma futura edição (o que penso não terá coragem de fazer), mas gostaria muito que isso acontece. Ao menos o debate no próximo verão, seria mais qualificado.
Até lá a gente vai engolindo essa edição. Agora, se na primeira semana já alcançamos esse nível de baixeza, imaginem o que vem por aí, nos três meses de programa que restam. Seja lá o que for, faz parte.
Mas dessa vez, não da pra fugir. Sim, o assunto já tá enchendo o saco. Sim, é sobre o tal estupro do Big Brother, ou melhor, sobre tudo que isso gerou. Chegamos no fundo do poço do grotesco. O que aconteceu na casa mais vigiada do Brasil, a mistura de alguém passando dos limites e alguém que não mediu as conseqüências, infelizmente, pode ser visto em qualquer festa. O que entristece, mesmo, é a postura da Rede Globo.
Acabei de chegar de uma pizzaria, estávamos num grupo de 20 pessoas, todas adultas, comemorando o aniversário de uma amiga. Claro que falamos sobre isso e lamentavelmente, a discussão ficou em torno do “foi sexo, não foi”, “ela estava acordada e gostando”, “ela queria”... E isso me irrita, muito pior do que aconteceu é a Rede Globo, a maior grupo de comunicação do Brasil, teoricamente comandada por pessoas capazes de pensar e raciocinar, deixar isso ter acontecido. É um desrespeito com os participantes do programa, com os funcionários que cumprem ordens e com os telespectadores.
Onde estavam os produtores que acompanham os confinados 24 horas? Se alguém passa mal, se um resolver se matar, se outro beber demais e se afogar na piscina, eles vão intervir. E nessa situação, por que não intervieram? Talvez acender as luzes tivesse evitado... Mas acho que a produção e o tal do Boni vibravam com as possíveis manchetes do dia seguinte: “primeira festa do BBB acaba em sexo”, “Sexo na Casa”, “Recorde do BBB, sexo na primeira festa”...
Só que hoje tem Twitter, onde todo mundo expõe seus achismos e teve alguém que achou que a moça estava dormindo. Muitos acharam a mesma coisa... Tenho certeza que muita gente ficou sabendo da história pelo Twitter, como eu, e domingo a noite se prestou a assistir o programa e aí começou o “apogeu da chinelagem” como definiu o Juremir Machado. Para o Bial, o amor é lindo e o show tem que continuar!
Depois de muito auê nas redes sociais e, aposto como isso influenciou muito, o rapaz saiu do programa, sem maiores explicações. Até tentaram, mas se tem algo que a Globo não sabe fazer é se explicar. E vai ficar por isso mesmo... Os outros BBBs já criaram o Bambam, a gorda, a lésbica, o gay, a vovó... E se a situação não for esclarecida, essa edição criou o estrupador e a estrupada.
E a cabeça dessas criaturas, como fica? Penso que os dois foram vítimas de uma situação montada (festa e bebida liberada), de uma edição manipulada e de uma orientação, da direção, despreparada. E o público? O grande público que tem como único meio de informação e entretenimento, a televisão. Eles não tem acesso a internet e inúmeros artigos com os mais diversos pontos de vista, o que é bom, propicia uma reflexão... Esses brasileiros não merecem uma explicação da Rede Globo? Sério, tem gente que não sabe o motivo de um dos participantes simplesmente sumiu!
Absurdo? Sim, tão absurdo como o Brasil ser o único país do mundo a chegar a 12ª edição dessa bosta. Tão absurdo quanto incentivar o consumo de álcool se todos os dias, os meios de comunicação fazem campanha contra. Tão absurdo quanto sair em sites da Globo que a moça abusada “usava roupas insinuantes” quando são os produtores que determinam a roupa dos participantes nas festas...
Reality show já foi inovador, agora é lugar comum. Acredito que infelizmente essa postura é o reflexo da sociedade brasileira. Niilista, omissa, moralistas, machista, o país do jeitinho, do tanto faz, do deixa disso, do qualquer coisa serve, do faz parte... A gente aceita, fazer o que né?
Agora, a política ou o devaneio: é fundamental uma legislação para os meios de comunicação no Brasil, que inclua dos meios de produção aos produtos e a forma de distribuição. Isso não é censura, é uma maneira de qualificar a mídia brasileira e evitar que esses constrangimentos sociais aconteçam.
Quando não sabemos lidar com a liberdade, as coisas tem que ser centralizadas e determinadas sim! Quando se é educado a pensar que liberdade é “pode tudo”, não demora muito para isso virar libertinagem (querem exemplo melhor que o suposto estrupo no BBB?)
Há várias ações rolando na internet e posições dos movimentos sociais para que o Big Brother saia do ar, lamentável isso não chegar ao grande público. O Ministério das Comunicações tem o poder de tirar o programa do ar e de proibir uma futura edição (o que penso não terá coragem de fazer), mas gostaria muito que isso acontece. Ao menos o debate no próximo verão, seria mais qualificado.
Até lá a gente vai engolindo essa edição. Agora, se na primeira semana já alcançamos esse nível de baixeza, imaginem o que vem por aí, nos três meses de programa que restam. Seja lá o que for, faz parte.
Wednesday, January 11, 2012
Mano

Há 24 anos, eu ganhava um irmão e lembro exatamente do dia que meus pais chegaram do hospital com ele. Assim como recordo perfeitamente uma noite que faltou luz e ele acordou desesperado, gritando que estava cego. Da mesma maneira, que nunca vou me esquecer dele segurando três bolsas, duas mochilas e um balão, debaixo de chuva no meio do Beto Carreiro.
Meu irmão com todas as suas tatuagens e piercings ainda conserva uma ingenuidade rara nos dias de hoje, quase infantil. Ele não gosta de nada que lhe tire do caminho, da rota, da rotina, do planejado. É maniático com organização e hipocondríaco. Sempre quis casar e ter filhos, sempre namorou sério. É uma pessoa bem diferente de mim.
E sempre foi assim, às vezes vem, me pergunta alguma coisa, coça o cavanhaque, diz “é mesmo, mana?” e sai pensativo. Posso falar a coisa mais séria do mundo ou a maior bobagem, que a cena se repete. Apesar disso, meu irmão mudou muito no último ano, aprendeu a ler, mais que isso, aprendeu a gostar de ler.
Estudar nunca foi o forte dele, nunca pensou em faculdade, mas fez uns cursos do SENAI, conseguiu um bom emprego, está lá até hoje e se a vida segue mansa, pra ele está bom. Eu estava viajando quando a mudança ocorreu. Sei que começou lendo a Bíblia, um dia recebi um email da mãe falando “teu irmão está fazendo a festa com teus livros”.
Quando voltei, me deparei com um leitor voraz e lê coisa boa o menino: Marx, Voltaire, Rousseau, Durkheim, Nietzsche, Boaventura, Gramsci... Ah, é muito bom ver alguém se desalienando, além de ter uma pessoa dentro de casa para conversar sobre isso.
Às vezes ele vem, entra no meu quarto, pergunta se tenho algum polígrafo da pós sobre determinado assunto, lê, a gente conversa e ele diz “é mesmo, mana?” e sai pensativo, do mesmo jeito que fez a vida toda e que eu espero, faça até um de nos morrer.
“É mesmo, mana?” é a bússola de todo irmão mais velho. É o que dá sentido, é a minha chance de responder. Eu posso nunca ter para quem perguntar, mas sempre vou ter quem vai procurar as minhas respostas.
Quando a mãe chegou com o mano do hospital, eu sai correndo e ali naquele instante, ele saiu correndo atrás de mim.
Tuesday, January 03, 2012
2012
Então ano novo, qual é a tua? Já passaram três dias e estou te achando com cara de tudo igual. Aliás, me segurei para não escrever no dia 1º, corria o risco de fazer listinhas bobas com desejos e promessas que não se sustentam nem até o quinto dia útil.
Mas, teremos que conviver até que tu acabe em um ritual com fogos de artifícios, programas especiais na televisão e simpatias para atrair amor, dinheiro, emprego... Por quê? Por que essa necessidade do ser humano de ritos de passagem, de demarcar o tempo como se fosse algo concreto?
É por causa da nossa incapacidade de lidar com a infinitude do tempo e com a finitude das coisas, das pessoas, da vida, que você existe ano novo. É porque eu gosto de escrever e uma tela em branco é como um palco que se pode tudo, que estou conversando com você. Como se em algum lugar o jovem ano novo me lesse e o grande senhor tempo, também. E, quem sabe um dia, me mandem as respostas.
Talvez seja importante pensarmos em blocos de 12 meses, ao menos é um período razoável para tentar alguma coisa. Se der certo, o ano foi uma maravilha. Se der errado, ano que vem tudo será diferente e melhor. Simples, assim. O tempo, macaco velho em artimanhas e armadilhas, deve se divertir um bocado com as nossas esperanças, desejos e promessas renovadas a cada final de dezembro.
De todas as coisas que ouvi na noite do dia 31, a mais original foi de uma tia, que me disse: “por favor, não entra em parafuso esse ano”. Fiquei pensando nisso, é um desejo bem diferente, duvido que ano que vem ela vá me falar a mesma coisa.
Então 2012, olhe e ajuste com cuidado os meus parafusos, mas se caso for necessário para minha evolução dar uma surtada, pode se distrair um pouco. Afinal, eu vou me virar né? Nem eu, nem você pensamos que chegaríamos até aqui.
Mas, teremos que conviver até que tu acabe em um ritual com fogos de artifícios, programas especiais na televisão e simpatias para atrair amor, dinheiro, emprego... Por quê? Por que essa necessidade do ser humano de ritos de passagem, de demarcar o tempo como se fosse algo concreto?
É por causa da nossa incapacidade de lidar com a infinitude do tempo e com a finitude das coisas, das pessoas, da vida, que você existe ano novo. É porque eu gosto de escrever e uma tela em branco é como um palco que se pode tudo, que estou conversando com você. Como se em algum lugar o jovem ano novo me lesse e o grande senhor tempo, também. E, quem sabe um dia, me mandem as respostas.
Talvez seja importante pensarmos em blocos de 12 meses, ao menos é um período razoável para tentar alguma coisa. Se der certo, o ano foi uma maravilha. Se der errado, ano que vem tudo será diferente e melhor. Simples, assim. O tempo, macaco velho em artimanhas e armadilhas, deve se divertir um bocado com as nossas esperanças, desejos e promessas renovadas a cada final de dezembro.
De todas as coisas que ouvi na noite do dia 31, a mais original foi de uma tia, que me disse: “por favor, não entra em parafuso esse ano”. Fiquei pensando nisso, é um desejo bem diferente, duvido que ano que vem ela vá me falar a mesma coisa.
Então 2012, olhe e ajuste com cuidado os meus parafusos, mas se caso for necessário para minha evolução dar uma surtada, pode se distrair um pouco. Afinal, eu vou me virar né? Nem eu, nem você pensamos que chegaríamos até aqui.
Monday, December 26, 2011
26.12
Pronto, passou. Natal de novo, só daqui um ano. Confesso que este ano não foi tão ruim, não doeu tanto, embora sempre doa... É incrível como essa época do ano acentua a saudade de quem já se foi.
Só fui ficar triste na tarde do dia 25, quando o mal estar da ressaca estava passando e me peguei procurando algum besterol americano no quarto do meu irmão, só para o tempo passar e eu não lembrar.
Mas o pinheiro imenso, que concentra tanta dedicação da minha mãe, não deixou eu não lembrar. O pinheiro da minha avó não era tão grande, mas era lindo, tinha um presépio que mais parecia a cidade de Belém, tamanha a criatividade da minha avó. Eu ficava encantada com aquilo. E esperava ansiosamente o Natal, porque era dia de estrear alguma roupa nova. Nos Natais da minha infância, eu sempre estava linda, e o meu espírito combinava com a roupa.
Depois o tempo passa, a gente percebe que não tem roupa nenhuma que disfarce o que se sente e o Natal se torna só mais uma data, um feriado, uma desculpa para encher a cara e falar algumas verdades para algum tio chato que só aparece nessa época do ano.
O tempo passa e a gente muda de lugar, de posição e de condição. De afilhada para dinda e vemos o irmão caçula virar o assunto da família pela maneira carinhosa que trata o enteado, certo que um dia ele será um bom pai. E tem o pai que não bebe mais porque tem pressão alta, o primo que no último Natal era um piá mal educado e apareceu com um mulherão a tiracolo, a tia que, finalmente, conseguiu engravidar, os integrantes novos da família, os que não estão porque já se foram, mas permanecem de alguma maneira...
O tempo passa e a gente se dá conta que rituais sempre vão existir, por mais que a gente tente fugir. As coisas mudam, mudamos de lugar, mas a vida, assim como o mundo, gira e gira e gira... Sempre vai chegar pessoas para ocupar o nosso lugar. O Ramon passou a noite toda encantado com o pinheiro da minha mãe... Isso que ele não viu o da bisavó dele, aliás, para o pequeno Ramon, ela será só um nome na árvore genealógica da família. Ele nunca vai ver o que eu considero o pinheiro mais lindo do mundo, queria que ele visse, ficaria tão encantado como eu já fiquei um dia.
Só fui ficar triste na tarde do dia 25, quando o mal estar da ressaca estava passando e me peguei procurando algum besterol americano no quarto do meu irmão, só para o tempo passar e eu não lembrar.
Mas o pinheiro imenso, que concentra tanta dedicação da minha mãe, não deixou eu não lembrar. O pinheiro da minha avó não era tão grande, mas era lindo, tinha um presépio que mais parecia a cidade de Belém, tamanha a criatividade da minha avó. Eu ficava encantada com aquilo. E esperava ansiosamente o Natal, porque era dia de estrear alguma roupa nova. Nos Natais da minha infância, eu sempre estava linda, e o meu espírito combinava com a roupa.
Depois o tempo passa, a gente percebe que não tem roupa nenhuma que disfarce o que se sente e o Natal se torna só mais uma data, um feriado, uma desculpa para encher a cara e falar algumas verdades para algum tio chato que só aparece nessa época do ano.
O tempo passa e a gente muda de lugar, de posição e de condição. De afilhada para dinda e vemos o irmão caçula virar o assunto da família pela maneira carinhosa que trata o enteado, certo que um dia ele será um bom pai. E tem o pai que não bebe mais porque tem pressão alta, o primo que no último Natal era um piá mal educado e apareceu com um mulherão a tiracolo, a tia que, finalmente, conseguiu engravidar, os integrantes novos da família, os que não estão porque já se foram, mas permanecem de alguma maneira...
O tempo passa e a gente se dá conta que rituais sempre vão existir, por mais que a gente tente fugir. As coisas mudam, mudamos de lugar, mas a vida, assim como o mundo, gira e gira e gira... Sempre vai chegar pessoas para ocupar o nosso lugar. O Ramon passou a noite toda encantado com o pinheiro da minha mãe... Isso que ele não viu o da bisavó dele, aliás, para o pequeno Ramon, ela será só um nome na árvore genealógica da família. Ele nunca vai ver o que eu considero o pinheiro mais lindo do mundo, queria que ele visse, ficaria tão encantado como eu já fiquei um dia.
Tuesday, December 13, 2011
Salvadores
Existem algumas pessoas que nos salvam e acredito que a maioria nem saibam disso. Meus amigos, não sei quantas vezes, já me salvaram. As pessoas não tem noção de como, às vezes, uma palavra é importante e nos faz mudar tudo.
Pode nem ser pessoas tão amigas, são conhecidos, são parentes distantes, são os que chegam na hora certa, no lugar certo e nos fazem continuar. Eu coleciono salvadores, sem eles, há tempos não estaria aqui.
Tem duas pessoas que conheci há pouco tempo. Uma mora em Porto Alegre, a outra, em Caxias do Sul. Uma é advogada, a outra, jornalista. Uma foi para o Beto Carrero comigo, a outra para Rio de Janeiro. Uma é solteira, a outra, casada. Ambas, já me salvaram.
O que me levou até o Beto Carrero, não foi meu afilhado, ele ficaria bem, indo com meu irmão e sua namorada. Mas tinha a minha colega do serviço novo, que mal conhecia, que tinha escutado uma conversa no telefone e disse: “posso ir junto, adoro uma indiada?” Ela foi e não só cuidou do meu afilhado, como cuidou de mim também e em nenhum momento me fez perguntas.
E quantas vezes eu chamei minha, até então colega, no MSN para dizer que eu não iria para o Rio. Que ela fosse sozinha, que conseguiria se virar, que eu não seria uma boa companhia, que eu estava me matando... Uns três dias antes, me disse que se eu não tivesse topado em ir, provavelmente ela também não iria. Percebi que apesar de nunca ter visto aquela moça, eu não poderia não ir. Eu que me matasse depois.
O primeiro abraço que eu dei nela, quando nos encontramos no aeroporto, não foi de “muito prazer”, foi de “muito obrigada”. E essa moça linda, uma verdadeira alemoa de Caxias, me salvou todos os dias. Foi por causa de uma conversa, lá em cima do Pão de Açúcar, que eu decidi levar minha vontade a sério e pensar, seriamente, em me mudar para o Rio.
Como disse antes, meus amigos me salvam muitas vezes. Porém, essas duas almas livres e generosas, já me conheceram num momento crítico e não saíram correndo quando se depararam com as minhas fraquezas. Então, tenho que ficar aqui, para quem sabe um dia, salvá-las também.
Pode nem ser pessoas tão amigas, são conhecidos, são parentes distantes, são os que chegam na hora certa, no lugar certo e nos fazem continuar. Eu coleciono salvadores, sem eles, há tempos não estaria aqui.
Tem duas pessoas que conheci há pouco tempo. Uma mora em Porto Alegre, a outra, em Caxias do Sul. Uma é advogada, a outra, jornalista. Uma foi para o Beto Carrero comigo, a outra para Rio de Janeiro. Uma é solteira, a outra, casada. Ambas, já me salvaram.
O que me levou até o Beto Carrero, não foi meu afilhado, ele ficaria bem, indo com meu irmão e sua namorada. Mas tinha a minha colega do serviço novo, que mal conhecia, que tinha escutado uma conversa no telefone e disse: “posso ir junto, adoro uma indiada?” Ela foi e não só cuidou do meu afilhado, como cuidou de mim também e em nenhum momento me fez perguntas.
E quantas vezes eu chamei minha, até então colega, no MSN para dizer que eu não iria para o Rio. Que ela fosse sozinha, que conseguiria se virar, que eu não seria uma boa companhia, que eu estava me matando... Uns três dias antes, me disse que se eu não tivesse topado em ir, provavelmente ela também não iria. Percebi que apesar de nunca ter visto aquela moça, eu não poderia não ir. Eu que me matasse depois.
O primeiro abraço que eu dei nela, quando nos encontramos no aeroporto, não foi de “muito prazer”, foi de “muito obrigada”. E essa moça linda, uma verdadeira alemoa de Caxias, me salvou todos os dias. Foi por causa de uma conversa, lá em cima do Pão de Açúcar, que eu decidi levar minha vontade a sério e pensar, seriamente, em me mudar para o Rio.
Como disse antes, meus amigos me salvam muitas vezes. Porém, essas duas almas livres e generosas, já me conheceram num momento crítico e não saíram correndo quando se depararam com as minhas fraquezas. Então, tenho que ficar aqui, para quem sabe um dia, salvá-las também.
Sunday, November 27, 2011
A sensibilidade que faz a diferença
Penso que é a sensibilidade que torna as pessoas mais, ou menos, humanas. No dicionário, essa característica é definida como a “capacidade de sentir”. Entenderam? Bingo!
Particularmente, eu prefiro fazer tratamento psiquiátrico para o resto da vida, porque caio em queda livre quando quem eu amo me rejeita, porque fico imensamente mal quando algum amigo me magoa, porque fico revoltada quando vejo algo que não me agrada, do que deixar de sentir qualquer coisa, simples ou complexa que a vida me ofereça.
Parece que os sensíveis sofrem mais, mas não. Não é questão de sofrimento, é questão de sentir e a nossa condição humana, nos permite não passar imune ao que nos toca.
Duas das palestras mais bacanas do curso do NPC não foram de Doutores em Comunicação, mas de pessoas com uma sensibilidade para a vida extremamente aguçada: o MC Fiell e o Marcelo Yuka.
Ambos, por não serem profissionais em comunicação, realizaram uma fala mais pessoal, relatando suas experiências. E foram nesses relatos, de um cara que escreveu um livro e criou uma rádio comunitária no morro da Santa Marta, do cara que tava no auge do sucesso quando por acidente, levou nove tiros e ficou paraplégico, que notamos a sensibilidade deles.
Para mim, claro que o mundo precisa de saúde, educação e segurança, mas como idealista que sou, desejo e defendo a sensibilidade no mundo. Só assim, nossos desejos serão de coração e as mudanças serão sólidas pois terão em seus alicerces, valores nobres.
Particularmente, eu prefiro fazer tratamento psiquiátrico para o resto da vida, porque caio em queda livre quando quem eu amo me rejeita, porque fico imensamente mal quando algum amigo me magoa, porque fico revoltada quando vejo algo que não me agrada, do que deixar de sentir qualquer coisa, simples ou complexa que a vida me ofereça.
Parece que os sensíveis sofrem mais, mas não. Não é questão de sofrimento, é questão de sentir e a nossa condição humana, nos permite não passar imune ao que nos toca.
Duas das palestras mais bacanas do curso do NPC não foram de Doutores em Comunicação, mas de pessoas com uma sensibilidade para a vida extremamente aguçada: o MC Fiell e o Marcelo Yuka.
Ambos, por não serem profissionais em comunicação, realizaram uma fala mais pessoal, relatando suas experiências. E foram nesses relatos, de um cara que escreveu um livro e criou uma rádio comunitária no morro da Santa Marta, do cara que tava no auge do sucesso quando por acidente, levou nove tiros e ficou paraplégico, que notamos a sensibilidade deles.
Para mim, claro que o mundo precisa de saúde, educação e segurança, mas como idealista que sou, desejo e defendo a sensibilidade no mundo. Só assim, nossos desejos serão de coração e as mudanças serão sólidas pois terão em seus alicerces, valores nobres.
Peixe dentro da água
A semana do dia 14 ao dia 20 foi totalmente atípica e infinitamente, boa. Reuniu três coisas que amo: viagens, jornalismo e dança.
No início da semana, estava em São Paulo participando do 12º Festival Internacional das Escolas Luxor de Dança do Ventre. São três dias de workshops com bailarinos do mundo todo e na noite, tem apresentação de bandas árabes e de bailarinos brasileiros e internacionais.
O fantástico disso tudo é não se sentir um peixe fora da água, como normalmente acontece quando se gosta de algo que tem um mercado bastante restrito e que é, geralmente, deturpado. É ridícula e revoltante a reação de algumas pessoas quando falo que faço dança do ventre.
E são nesses eventos que encontramos pessoas que nos entendem. E ali que podemos falar de arabesquis, pliês, básico egípcio, mayas e robôs com a certeza de que seremos entendidas. E quando nos damos conta que o que leva as centenas de mulheres para este curso, é apenas o amor pela dança. Porque não é pela dor no corpo no final, os calos em baixo do pé, o chulé insuportável da sapatilha ou o mau jeito no músculo que resolveu incomodar que dançamos.
Diante da satisfação de acertar o passo e de se manter dentro do ritmo, as bobagens que a gente escuta se tornam tão pequenas e fora da realidade, que dá pena dessas pessoas que veem dançarinas do ventre como odaliscas, pois não imaginam o universo imensamente rico que estão perdendo.
E terminei a semana no curso 17º curso anual do Núcleo Piratininga da Comunicação: “Comunicação e hegemonia num mundo em ebulição”, no Rio de Janeiro. Durante os cinco dias do evento, tínhamos o dia cheio de debates interessantíssimos, com profissionais das mais diversas áreas.
Além de ter sido uma baita experiência para a minha carreira, pois eu nunca havia participado desse curso, foi também para a minha vida, a começar pela companhia e a certeza de que voltei do Rio com uma grande amiga.
Novamente, o mais incrível são as pessoas como a gente que estavam participando do curso. Uma vez, quando fazia a monografia da minha pós, que abordou a manipulação da mídia referente aos assuntos dos movimentos sociais, ouvi de um jornalista que havia estudado comigo na faculdade, se eu sabia que o tal trabalho significava que eu sempre trabalharia numa imprensa marginal.
Sim, eu sabia. E não, não me arrependo. Lá no curso, só tinha jornalistas de uma imprensa marginal e é muito bom saber que apesar de sermos poucos, estamos por todos os lugares do Brasil, lutando como se pode, fazendo milagres para conseguir uma notinha num grande jornal e o melhor, com a certeza de que se está do lado certo.
Eu sempre me senti um peixe fora da água, por inúmeros motivos. Talvez considere essa semana tão especial porque conheci um monte de pessoas que também são peixes fora da água, só que desta vez, estávamos compartilhando um lindo e comum aquário.
“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrário: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda”. Caio Fernando Abreu
No início da semana, estava em São Paulo participando do 12º Festival Internacional das Escolas Luxor de Dança do Ventre. São três dias de workshops com bailarinos do mundo todo e na noite, tem apresentação de bandas árabes e de bailarinos brasileiros e internacionais.
O fantástico disso tudo é não se sentir um peixe fora da água, como normalmente acontece quando se gosta de algo que tem um mercado bastante restrito e que é, geralmente, deturpado. É ridícula e revoltante a reação de algumas pessoas quando falo que faço dança do ventre.
E são nesses eventos que encontramos pessoas que nos entendem. E ali que podemos falar de arabesquis, pliês, básico egípcio, mayas e robôs com a certeza de que seremos entendidas. E quando nos damos conta que o que leva as centenas de mulheres para este curso, é apenas o amor pela dança. Porque não é pela dor no corpo no final, os calos em baixo do pé, o chulé insuportável da sapatilha ou o mau jeito no músculo que resolveu incomodar que dançamos.
Diante da satisfação de acertar o passo e de se manter dentro do ritmo, as bobagens que a gente escuta se tornam tão pequenas e fora da realidade, que dá pena dessas pessoas que veem dançarinas do ventre como odaliscas, pois não imaginam o universo imensamente rico que estão perdendo.
E terminei a semana no curso 17º curso anual do Núcleo Piratininga da Comunicação: “Comunicação e hegemonia num mundo em ebulição”, no Rio de Janeiro. Durante os cinco dias do evento, tínhamos o dia cheio de debates interessantíssimos, com profissionais das mais diversas áreas.
Além de ter sido uma baita experiência para a minha carreira, pois eu nunca havia participado desse curso, foi também para a minha vida, a começar pela companhia e a certeza de que voltei do Rio com uma grande amiga.
Novamente, o mais incrível são as pessoas como a gente que estavam participando do curso. Uma vez, quando fazia a monografia da minha pós, que abordou a manipulação da mídia referente aos assuntos dos movimentos sociais, ouvi de um jornalista que havia estudado comigo na faculdade, se eu sabia que o tal trabalho significava que eu sempre trabalharia numa imprensa marginal.
Sim, eu sabia. E não, não me arrependo. Lá no curso, só tinha jornalistas de uma imprensa marginal e é muito bom saber que apesar de sermos poucos, estamos por todos os lugares do Brasil, lutando como se pode, fazendo milagres para conseguir uma notinha num grande jornal e o melhor, com a certeza de que se está do lado certo.
Eu sempre me senti um peixe fora da água, por inúmeros motivos. Talvez considere essa semana tão especial porque conheci um monte de pessoas que também são peixes fora da água, só que desta vez, estávamos compartilhando um lindo e comum aquário.
“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrário: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda”. Caio Fernando Abreu
Tuesday, November 15, 2011
A necessidade de ter um hobby
Passei o final de semana no 12º Festival Internacional da Escola Luxor de Dança do Ventre, o maior evento desse tipo de dança no Brasil, são três dias de shows e cursos com dançarinos internacionais. Custou caro, mas é um investimento que vale a pena.
Não sou, nem vou ser dançarina profissional. Mas ter um hobby e investir nisso abrange muito a nossa qualidade de vida. Há dias eu não conseguia me focar em algo a ponto de deixar de pensar nos problemas e, por algumas horas consegui.
Todo mundo deveria ter um hobby. Tenho um tio que é artesão e passou a vida toda inventando arte, um trabalho criativo, sem chefes e horários a cumprir que permitiu criar as minhas primas. Mas quer ouvir ele falar de um assunto por horas com a impolgação de uma criança é falar de jardinagem.
Ele compra livros sobre o assunto, entende qual é o melhor tipo de terra e adubo para determinado tipo de planta. Aliás o jardim a casa dele é praticamente um pomar que está sempre florido.
A minha professora de dança do ventre passou os três dias do Festival mais preocupada com os tecidos que ela tinha comprado na 25 de março do que com os cursos. Depois da dança, o que ela mais gosta de fazer é costurar, principalmente com Pacthwork.
Não pretendo viver só da dança e, nem gostaria. Meu tio não vai virar jardineiro e nem minha professora, costureira. Mas é bom fazer algo, por mais que leve tempo e custe caro, pra gente mesmo. Há um prazer inexplicável em se dedicar a algo por puro prazer e um desejo irresistível e duvidoso de um dia largar tudo e viver só desse prazer.
Não sou, nem vou ser dançarina profissional. Mas ter um hobby e investir nisso abrange muito a nossa qualidade de vida. Há dias eu não conseguia me focar em algo a ponto de deixar de pensar nos problemas e, por algumas horas consegui.
Todo mundo deveria ter um hobby. Tenho um tio que é artesão e passou a vida toda inventando arte, um trabalho criativo, sem chefes e horários a cumprir que permitiu criar as minhas primas. Mas quer ouvir ele falar de um assunto por horas com a impolgação de uma criança é falar de jardinagem.
Ele compra livros sobre o assunto, entende qual é o melhor tipo de terra e adubo para determinado tipo de planta. Aliás o jardim a casa dele é praticamente um pomar que está sempre florido.
A minha professora de dança do ventre passou os três dias do Festival mais preocupada com os tecidos que ela tinha comprado na 25 de março do que com os cursos. Depois da dança, o que ela mais gosta de fazer é costurar, principalmente com Pacthwork.
Não pretendo viver só da dança e, nem gostaria. Meu tio não vai virar jardineiro e nem minha professora, costureira. Mas é bom fazer algo, por mais que leve tempo e custe caro, pra gente mesmo. Há um prazer inexplicável em se dedicar a algo por puro prazer e um desejo irresistível e duvidoso de um dia largar tudo e viver só desse prazer.
Wednesday, November 09, 2011
Saco!
Para ler ao som de “Ouro de Tolo” de Raul Seixas
Não é nada fácil ser eu. Assim, como imagino, não deva ser nada fácil ser você. Todo mundo tem perrengue, conta para pagar e dor de barriga na rua, quando não há nenhum banheiro por perto. E mesmo com tudo isso, a gente segue se equilibrando no abismo assustador entre o que a vida é e o que gostaríamos que ela fosse.
Cansa. Dói. Machuca. Viver é tão tedioso como um filme em plano sequência, um dia a gente sucumbe e deixa de achar graça na desgraça, ficamos mais chatos, mas compreendemos que certas inocências tem que serem perdidas.
Raul já dizia “mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado... eu acho tudo isso um saco!” Tenho escutado muito essa música e gritado bem alto (porque eu não sei cantar) que eu acho tudo isso um saco.
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
Mas ouro de tolos que somos, a gente sabe que quando olhamos no retrovisor, encontramos algumas boas histórias pra contar. Até que foi divertido e às vezes chegamos a pensar que a vida era uma comédia pastelão que passa na sessão da tarde. Há meia dúzia de pessoas que sentiremos saudade e que em diversos momentos nos despertaram o desejo de ser melhores, porque essas pessoas mereciam que fossemos melhores. Mas não somos.
O problema é que nada disso facilita a minha vida. Eu continuo achando tudo isso um saco! E você? É um saco pra você também?
Não é nada fácil ser eu. Assim, como imagino, não deva ser nada fácil ser você. Todo mundo tem perrengue, conta para pagar e dor de barriga na rua, quando não há nenhum banheiro por perto. E mesmo com tudo isso, a gente segue se equilibrando no abismo assustador entre o que a vida é e o que gostaríamos que ela fosse.
Cansa. Dói. Machuca. Viver é tão tedioso como um filme em plano sequência, um dia a gente sucumbe e deixa de achar graça na desgraça, ficamos mais chatos, mas compreendemos que certas inocências tem que serem perdidas.
Raul já dizia “mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado... eu acho tudo isso um saco!” Tenho escutado muito essa música e gritado bem alto (porque eu não sei cantar) que eu acho tudo isso um saco.
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
Mas ouro de tolos que somos, a gente sabe que quando olhamos no retrovisor, encontramos algumas boas histórias pra contar. Até que foi divertido e às vezes chegamos a pensar que a vida era uma comédia pastelão que passa na sessão da tarde. Há meia dúzia de pessoas que sentiremos saudade e que em diversos momentos nos despertaram o desejo de ser melhores, porque essas pessoas mereciam que fossemos melhores. Mas não somos.
O problema é que nada disso facilita a minha vida. Eu continuo achando tudo isso um saco! E você? É um saco pra você também?
Friday, November 04, 2011
O show que eu não fui
Foi o fim do mundo, quando aos 12 anos, não fui no show do Skank na Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo. Fiquei pra morrer, um ano depois, quando meus primos não me levaram num show do Planet Hemp, na praia. Com 19, tive minha primeira crise de pânico, minutos antes do The Calling subir no palco, me levaram para enfermaria e eu perdi o show. Ano passado, foi necessário nem pensar em ir ver o Paul McCartney, todas as minhas economias estavam direcionadas para a viagem à Europa.
Esta noite, eu deveria ter ido no show do Hanson. Fui no show deles há 11 anos atrás, no Gigantinho, em Porto Alegre. Foi meu primeiro show sozinha, acordei de madrugada e me plantei do lado da cama dos meus pais. Apesar de ter sido meu primeiro show sozinha, meu pai e meu irmão me acompanharam na fila e depois da apresentação já ter começado, compraram dois ingressos por R$ 10,00 de um cambista e assistiram tudo da arquibancada.
Depois disso, perdi a conta de quantos shows fui sozinha, mas é deste que lembro com mais carinho, porque além das lembranças daquele dia de outubro de 2000, o Hanson me rendeu uma amiga: a Mérilin Mereza. Há mais de uma década somos amigonas, mas só nos conhecemos mês passado. Começamos trocando cartas (as fotos que tirou do show queimaram e ela colocou um anúncio no jornal), mas como acompanhamos a evolução do mundo, passamos para e-mail, MSN, orkut, facebook...
Ela é uma das amigas mais presentes que tenho, acompanhamos (mesmo de longe) muitas mudanças nesses anos todos. Nós conhecemos mês passado, na Casa de Nazaré, onde nós duas estamos trabalhando e foi como tinha de ser, como reencontrar uma velha amiga. Combinamos de ir no show do Hanson hoje, mas eu não fui, e nem vou tentar resgatar o dinheiro do ingresso, vou guardar de recordação. Não foi o fim do mundo não ter ido, porque realmente não teria condições de agüentar um show com a crise de sinusite que eu estou.
Quanto ao Hanson, não são mais minha banda preferida, mas ainda escuto os dois CDs que tenho deles, o primeiro Middle Of Nowhere, que tem o sucesso MMMBop e o segundo e ótimo, This Time Around. Quando estou triste, sempre ponho para tocar A Song to Sing e sinceramente, preferia ter continuado apaixonada pelo Zac Hanson, teria sido mais seguro.
Seria muito bom ter ido com a Mérilin no show do Hanson. Seria simbólico! Mas como o destino não falha, daqui alguns anos eles voltam e nos vamos. Por enquanto, vou mandar um email pra ela me enviar as fotos do show. Afinal, amigas são pra isso.
Esta noite, eu deveria ter ido no show do Hanson. Fui no show deles há 11 anos atrás, no Gigantinho, em Porto Alegre. Foi meu primeiro show sozinha, acordei de madrugada e me plantei do lado da cama dos meus pais. Apesar de ter sido meu primeiro show sozinha, meu pai e meu irmão me acompanharam na fila e depois da apresentação já ter começado, compraram dois ingressos por R$ 10,00 de um cambista e assistiram tudo da arquibancada.
Depois disso, perdi a conta de quantos shows fui sozinha, mas é deste que lembro com mais carinho, porque além das lembranças daquele dia de outubro de 2000, o Hanson me rendeu uma amiga: a Mérilin Mereza. Há mais de uma década somos amigonas, mas só nos conhecemos mês passado. Começamos trocando cartas (as fotos que tirou do show queimaram e ela colocou um anúncio no jornal), mas como acompanhamos a evolução do mundo, passamos para e-mail, MSN, orkut, facebook...
Ela é uma das amigas mais presentes que tenho, acompanhamos (mesmo de longe) muitas mudanças nesses anos todos. Nós conhecemos mês passado, na Casa de Nazaré, onde nós duas estamos trabalhando e foi como tinha de ser, como reencontrar uma velha amiga. Combinamos de ir no show do Hanson hoje, mas eu não fui, e nem vou tentar resgatar o dinheiro do ingresso, vou guardar de recordação. Não foi o fim do mundo não ter ido, porque realmente não teria condições de agüentar um show com a crise de sinusite que eu estou.
Quanto ao Hanson, não são mais minha banda preferida, mas ainda escuto os dois CDs que tenho deles, o primeiro Middle Of Nowhere, que tem o sucesso MMMBop e o segundo e ótimo, This Time Around. Quando estou triste, sempre ponho para tocar A Song to Sing e sinceramente, preferia ter continuado apaixonada pelo Zac Hanson, teria sido mais seguro.
Seria muito bom ter ido com a Mérilin no show do Hanson. Seria simbólico! Mas como o destino não falha, daqui alguns anos eles voltam e nos vamos. Por enquanto, vou mandar um email pra ela me enviar as fotos do show. Afinal, amigas são pra isso.
Thursday, November 03, 2011
Fim de tarde
Hoje, depois que cheguei do hospital, fiquei sentada no pátio, curtindo o entardecer e vendo o sol se pôr. Que nem os velhos fazem nos fins de tarde. Vi as vizinhas vindo da caminhada e me lembrei que alguns anos atrás eu chegava do serviço e tinha energia para caminhar... Me tornei uma velha com 26 anos.
Fiquei ali sentada vendo o céu azul acabar no verde das árvores. Estava lendo a biografia da Clarice Lispector. Se um tiver uma filha, ela vai se chamar Maria Helena ou Clarice, por causa da escritora.
Mas eu não terei filhos, nem enteado, nem marido. Nem serei escritora como a Clarice. Como uma velha num fim de tarde, cheguei no fim da linha. Já estive em poços bem fundos, mas nunca um fundo do poço foi tão fundo como este. Se o paraíso existe, o meu terá céu azul e árvores verdes.
Fiquei ali sentada vendo o céu azul acabar no verde das árvores. Estava lendo a biografia da Clarice Lispector. Se um tiver uma filha, ela vai se chamar Maria Helena ou Clarice, por causa da escritora.
Mas eu não terei filhos, nem enteado, nem marido. Nem serei escritora como a Clarice. Como uma velha num fim de tarde, cheguei no fim da linha. Já estive em poços bem fundos, mas nunca um fundo do poço foi tão fundo como este. Se o paraíso existe, o meu terá céu azul e árvores verdes.
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