“Aguerrida entrega. Nesse nosso desbravar...”- Da entrega, O Teatro Mágico
Viver é estar em queda livre num imenso abismo. Mas não é assim: nasceu, caiu. Primeiro nos colocam numa planície e lá nos deixam até começarmos a olhar em volta e a caminharmos mais longe. Um belo dia, nos deparamos com ele, lindo e assustador. Parece infinito.
Alguns se jogam sem pensar, outros escorregam por descuido e a maioria volta, preferem a segurança de plano reto, sem curvas e monótono. Desses, penso que alguns esquecem completamente o abismo, já outros devem lembrar constantemente. Poucos, bem poucos ficam se equilibrando, é difícil ter consciência do abismo.
Quem está caindo conserva algumas similaridades com o povo da planície. Há os que perdem a noção do que está acontecendo, outros estão sempre ligados e atentos a tudo e tem alguns que oscilam, ora de olhos abertos, ora de olhos fechados, pois é muito fácil se perder diante da vida.
Há lugares incríveis, trechos coloridos e uma trilha sonora bem legal durante a queda. Às vezes, nos momentos de calmaria, é possível se iludir e achar que estamos no comando, planando e admirando a paisagem.
Dá para ficar atordoada com tanta informação e gente passando por nos, tentar se agarrar a algo pode ser um erro. Uma vez em queda, não é possível voltar para a planície, então acumular saudades também não facilita nada, só aumenta o peso da alma e isso dificulta qualquer entrega.
Bom mesmo é o que se sente. Dói, é verdade, mas é a única maneira de se tornar mais inteiro mesmo com todos os vazios que irão abrir em nos e ao nosso redor. Eles são fundamentais para a compreensão de nos, da vida e dos abismos.
Eu não sei dizer se me atirei sem pensar, se escorreguei, se me equilibrei por algum tempo... Quando me dei conta já estava no maior de todos os abismos, talvez seja por isso que os outros, por mais que me incomodam, não me assustam. O melhor é se dar conta, que não parece infinito, é.
Monday, July 30, 2012
Wednesday, July 25, 2012
Friday, June 15, 2012
Duas décadas
Tanta coisa aconteceu nestas duas décadas, às vezes gosto de imaginar como a vida seria se você ainda estivesse aqui. Talvez o Ricardo não tivesse ido para o Rio, talvez o Miguel aparecesse mais seguido, talvez o Cristiano fosse só um tio e não um tio quase irmão.
Provavelmente você teria ficado triste com o destino da tua poupança graças ao Collor, a mãe sempre fala que você achava ele bonito. Lembra que eu adorava falar impeachment? Pensava que soava tão lindo e que era uma palavra muito difícil para uma criança, acho que foi ali que surgiu minha consciência política. Falando nisso, lembra do Brizola, que tu sempre falava? Almocei com a neta dele outro dia.
Com certeza eu teria aprendido a cozinhar do teu lado e não sozinha. Acho que teria condições de pronunciar algumas palavras em alemão e não só entender coisas soltas no meio de conversas que escuto por aí. Ah, no final de 1992, eu li meu primeiro livro, lembra que eu chorava que eu não ia aprender a ler? Não só aprendi, como isso é o que eu mais gosto de fazer.
E muitas vezes depois disso, chorei por não conseguir entender nada de matemática, e não entendo até hoje. O tio Cristiano que me ajudava, nossa já se deu conta que o teu bebê vai fazer 40 anos este ano? Ele tá tri bem, festeiro, alegre e mulherengo como sempre, mas quase totalmente careca. Às vezes, quando a gente sai, ele fala: “vamos lá Rê, eu preciso de um sobrinho e você, de uma tia” e eu respondo: “não me importo de ter uma tia mais nova se você aceitar um sobrinho mais velho.”
Tanta coisa aconteceu nesses 20 anos, comigo, com a gente, com o mundo. Não sou mais loira, virei vegetariana, tenho piercings e tatuagens, não quis festa de 15 anos (pedi o silicone, mas não deram porque era muito nova, mas ganhei dinheiro) e me dou bem com todos os meus primos.
O Marcellinho é um alemão lindo, tá no Piauí agora. O Tiago está praticamente casado. O Júnior também, casado e empregado, é jornalista para o orgulho da prima gaúcha. O Márcio é uma figura, sempre em função do corpo, academia e lutas. O cabrito do meu irmão é aquela coisa meio conservadora, meio tradicional, meio trabalhadora e muito divertida (sério, às vezes, ele é hilário). A senhora ia se amarrar no Wesley, no Rockson e no Ramon.
Viu que agora temos um Jasmim? Lindo, fica aqui na sacada do meu quarto, sempre converso e faço carinho nele. Estou louca para que chegue a primavera, para ele florir e deixar meu quarto perfumado... Nem tudo mudou em 20 anos. Pensar no 15 de junho de 1992 em 2012, faz parecer tão distante, mas ainda assim tão nítido.
Não sei se sinto saudade, porque por mais que me doa, prefiro pensar que o agora é melhor, odeio o papo de “para qual época gostaria de voltar”, para nenhuma, minha época é agora. Parece que é um gostar de imaginar como seria se você estivesse aqui. E eu gostaria que estivesse.
Provavelmente você teria ficado triste com o destino da tua poupança graças ao Collor, a mãe sempre fala que você achava ele bonito. Lembra que eu adorava falar impeachment? Pensava que soava tão lindo e que era uma palavra muito difícil para uma criança, acho que foi ali que surgiu minha consciência política. Falando nisso, lembra do Brizola, que tu sempre falava? Almocei com a neta dele outro dia.
Com certeza eu teria aprendido a cozinhar do teu lado e não sozinha. Acho que teria condições de pronunciar algumas palavras em alemão e não só entender coisas soltas no meio de conversas que escuto por aí. Ah, no final de 1992, eu li meu primeiro livro, lembra que eu chorava que eu não ia aprender a ler? Não só aprendi, como isso é o que eu mais gosto de fazer.
E muitas vezes depois disso, chorei por não conseguir entender nada de matemática, e não entendo até hoje. O tio Cristiano que me ajudava, nossa já se deu conta que o teu bebê vai fazer 40 anos este ano? Ele tá tri bem, festeiro, alegre e mulherengo como sempre, mas quase totalmente careca. Às vezes, quando a gente sai, ele fala: “vamos lá Rê, eu preciso de um sobrinho e você, de uma tia” e eu respondo: “não me importo de ter uma tia mais nova se você aceitar um sobrinho mais velho.”
Tanta coisa aconteceu nesses 20 anos, comigo, com a gente, com o mundo. Não sou mais loira, virei vegetariana, tenho piercings e tatuagens, não quis festa de 15 anos (pedi o silicone, mas não deram porque era muito nova, mas ganhei dinheiro) e me dou bem com todos os meus primos.
O Marcellinho é um alemão lindo, tá no Piauí agora. O Tiago está praticamente casado. O Júnior também, casado e empregado, é jornalista para o orgulho da prima gaúcha. O Márcio é uma figura, sempre em função do corpo, academia e lutas. O cabrito do meu irmão é aquela coisa meio conservadora, meio tradicional, meio trabalhadora e muito divertida (sério, às vezes, ele é hilário). A senhora ia se amarrar no Wesley, no Rockson e no Ramon.
Viu que agora temos um Jasmim? Lindo, fica aqui na sacada do meu quarto, sempre converso e faço carinho nele. Estou louca para que chegue a primavera, para ele florir e deixar meu quarto perfumado... Nem tudo mudou em 20 anos. Pensar no 15 de junho de 1992 em 2012, faz parecer tão distante, mas ainda assim tão nítido.
Não sei se sinto saudade, porque por mais que me doa, prefiro pensar que o agora é melhor, odeio o papo de “para qual época gostaria de voltar”, para nenhuma, minha época é agora. Parece que é um gostar de imaginar como seria se você estivesse aqui. E eu gostaria que estivesse.
Sunday, June 10, 2012
Easy like sunday morning
“I wanna be free to know the things I do are right” – Lionel Richie
Algodão doce. Melhor do que isso, só aquelas pipocas do saco cor de rosa, que de vez em quando tenho a sorte de encontrar por aí e elas tornam qualquer parte do meu dia, melhor.
Ouvir os discos que herdei do meu avô, principalmente Maysa, pode estar chovendo, começa a tocar “O Barquinho”, o sol aparece. Descobrir que a música de um artista ocidental tem a batida de algum ritmo árabe e é perfeita para o palco.
Implicar com meu irmão, deixar ele bem irritado, começar a brigar e no meio da discussão falar: “cabrito, se comporta!”, só para ele rir, só para a gente dar gargalhadas depois. Tentar não rir quando meu afilhado vem me fazer cócegas, óbvio que não consigo, o que só faz com que ele se divirta ainda mais. E eu também.
Vinho e livro sábado de noite são melhores do que qualquer balada. Há não ser quando saio com o meu tio e faço a maior propaganda para as minhas amigas. Mas, sair com o meu tio e perceber que ele faz a maior propaganda de mim para os amigos dele, é melhor.
Dor. Aquela dor boa que dá na cintura no dia seguinte de um ensaio que durou horas. Ensaiar e ensaiar e quando acaba, ter fôlego para mais algumas horas. Dançar. Perceber a expressão das pessoas quando a gente dança, deixar alguém sem jeito, quando no meio de um passo a gente olha nos olhos dela.
Debater algum assunto com meu primo de quatro anos. Escutar do meu ex que sou uma das melhores profissionais que ele conhece. Atender o telefone e ouvir a amiga, que tem idade para ser minha mãe dizendo: “quero saber tua opinião porque confio muito em ti.”
Ir no supermercado com meu pai. Viajar. Olhar fotos. Caminhar. Ler. Conversar com o meu jasmim. Brincar com a Arroba. Cozinhar. Dormir até tarde aos domingos, geralmente toda a manhã. Escrever.
Algodão doce. Melhor do que isso, só aquelas pipocas do saco cor de rosa, que de vez em quando tenho a sorte de encontrar por aí e elas tornam qualquer parte do meu dia, melhor.
Ouvir os discos que herdei do meu avô, principalmente Maysa, pode estar chovendo, começa a tocar “O Barquinho”, o sol aparece. Descobrir que a música de um artista ocidental tem a batida de algum ritmo árabe e é perfeita para o palco.
Implicar com meu irmão, deixar ele bem irritado, começar a brigar e no meio da discussão falar: “cabrito, se comporta!”, só para ele rir, só para a gente dar gargalhadas depois. Tentar não rir quando meu afilhado vem me fazer cócegas, óbvio que não consigo, o que só faz com que ele se divirta ainda mais. E eu também.
Vinho e livro sábado de noite são melhores do que qualquer balada. Há não ser quando saio com o meu tio e faço a maior propaganda para as minhas amigas. Mas, sair com o meu tio e perceber que ele faz a maior propaganda de mim para os amigos dele, é melhor.
Dor. Aquela dor boa que dá na cintura no dia seguinte de um ensaio que durou horas. Ensaiar e ensaiar e quando acaba, ter fôlego para mais algumas horas. Dançar. Perceber a expressão das pessoas quando a gente dança, deixar alguém sem jeito, quando no meio de um passo a gente olha nos olhos dela.
Debater algum assunto com meu primo de quatro anos. Escutar do meu ex que sou uma das melhores profissionais que ele conhece. Atender o telefone e ouvir a amiga, que tem idade para ser minha mãe dizendo: “quero saber tua opinião porque confio muito em ti.”
Ir no supermercado com meu pai. Viajar. Olhar fotos. Caminhar. Ler. Conversar com o meu jasmim. Brincar com a Arroba. Cozinhar. Dormir até tarde aos domingos, geralmente toda a manhã. Escrever.
Saturday, June 09, 2012
O melhor show de todos os tempos da tecnologia
“I'm so happy
'Cause today I've found my friends
They're in my head”
Lithium - Nirvana
Elvis não morreu. E irá tocar no Brasil em outubro, a turnê Elvis in Concert vai passar por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital paulista, haverá um show extra, pois os ingressos para a primeira apresentação já estão esgotados.
Se tem uma coisa que eu gosto, é de ir em shows, é uma das poucas coisas que pago o preço que for e não reclamo. Adoraria ir num show do Elvis Presley, imagina cantar Suspicious Minds com ele? Mas dessa vez não irei. Infelizmente, contrariando a lenda, o Elvis morreu antes mesmo de eu nascer.
O que virá ao Brasil em outubro é a mais avançada das tecnologias com projeção holográfica, telões gigantes e áudio remasterizado. Tudo isso irá torna o show mais realista, impressionante e o morto mais vivo que nunca. Um salve para a tecnologia e para o show business, mas esse tipo de espetáculo não me pega.
Quando soube da possibilidade de ressuscitarem grandes astros com holografia, pensei: “se rolar um show do Nirvana, eu vou. Ver o Kurt Cobain, de pertinho, cantar Lithium, Come as you are, About a girl... e daí que é faz de conta?”
Mas não rola né? Justamente por ser fã do Nirvana, que não conseguiria ver o Kurt num telão. O Cobain holográfico seria do começo da década de 90, mas como seria o músico quarentão se ele tivesse suportado a vida e não tivesse se matado? Imagino um Kurt Cobain lindo, maduro e profundo, com a voz mais rouca e menos cabelo.
Por esse, o Kurt de verdade, eu pagaria o preço que fosse. Provavelmente, pelo Elvis também. Sou muito resistente a vincular arte com negócio, but business is business e mega shows mexem com milhões de dólares, por que não trazer de volta artistas que foram cedo demais e ainda tem um público cativo? Por que não assistir a um espetáculo assim?
Porque, para mim, um espetáculo desse tipo, por mais que haja um baita planejamento por trás, depende muito do improviso, do inesperado. Emoções e sensações não podem ser produzidas por tecnologia. Eu me nego a aplaudir um Elvis no telão, aplaudiria de pé o idoso que ele seria hoje.
Enquanto escuto os mesmos CDs de sempre do Nirvana, a voz rasgada do Kurt diz que ele está feliz e desejo que ele e tantos outros artistas geniais virem lenda, pó, estátua, borboleta, qualquer coisa, menos projeções holográficas.
'Cause today I've found my friends
They're in my head”
Lithium - Nirvana
Elvis não morreu. E irá tocar no Brasil em outubro, a turnê Elvis in Concert vai passar por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital paulista, haverá um show extra, pois os ingressos para a primeira apresentação já estão esgotados.
Se tem uma coisa que eu gosto, é de ir em shows, é uma das poucas coisas que pago o preço que for e não reclamo. Adoraria ir num show do Elvis Presley, imagina cantar Suspicious Minds com ele? Mas dessa vez não irei. Infelizmente, contrariando a lenda, o Elvis morreu antes mesmo de eu nascer.
O que virá ao Brasil em outubro é a mais avançada das tecnologias com projeção holográfica, telões gigantes e áudio remasterizado. Tudo isso irá torna o show mais realista, impressionante e o morto mais vivo que nunca. Um salve para a tecnologia e para o show business, mas esse tipo de espetáculo não me pega.
Quando soube da possibilidade de ressuscitarem grandes astros com holografia, pensei: “se rolar um show do Nirvana, eu vou. Ver o Kurt Cobain, de pertinho, cantar Lithium, Come as you are, About a girl... e daí que é faz de conta?”
Mas não rola né? Justamente por ser fã do Nirvana, que não conseguiria ver o Kurt num telão. O Cobain holográfico seria do começo da década de 90, mas como seria o músico quarentão se ele tivesse suportado a vida e não tivesse se matado? Imagino um Kurt Cobain lindo, maduro e profundo, com a voz mais rouca e menos cabelo.
Por esse, o Kurt de verdade, eu pagaria o preço que fosse. Provavelmente, pelo Elvis também. Sou muito resistente a vincular arte com negócio, but business is business e mega shows mexem com milhões de dólares, por que não trazer de volta artistas que foram cedo demais e ainda tem um público cativo? Por que não assistir a um espetáculo assim?
Porque, para mim, um espetáculo desse tipo, por mais que haja um baita planejamento por trás, depende muito do improviso, do inesperado. Emoções e sensações não podem ser produzidas por tecnologia. Eu me nego a aplaudir um Elvis no telão, aplaudiria de pé o idoso que ele seria hoje.
Enquanto escuto os mesmos CDs de sempre do Nirvana, a voz rasgada do Kurt diz que ele está feliz e desejo que ele e tantos outros artistas geniais virem lenda, pó, estátua, borboleta, qualquer coisa, menos projeções holográficas.
Sunday, June 03, 2012
Da capacidade de ter sangue frio
Eu gosto de política, como o mecanismo que legitima ações de alguns atores (sejam pessoas, ONGs, partidos políticos, entidades sociais, sindicais e estudantis) em prol do coletivo. Gosto de pensar sobre isso e qualquer pessoa que entende um pouquinho de política (não precisa gostar) percebe que a possível coligação do PCdoB com o PP é uma aberração política por causa da ideologia de cada partido.
Por mais que o PCdoB seja o mais elitizado dos partidos “ditos” de esquerda, por sempre ter investido em formação para seus lideres e que o PP seja uma sigla bastante popular devido ao grande número de prefeituras que governa, esse cruzamento é uma falta de respeito com a história de cada partido e uma afronta à inteligência dos eleitores. É como querer cruzar um morcego com um peixe.
Apesar dessas incoerências que acompanho diretamente dos bastidores, gosto das informações privilegiadas que eu tenho, da abertura de transitar em setores da sociedade que poucos têm acesso. Tenho cabeça, estômago e profissionalismo para trabalhar com isso e, sangue frio para testemunhar comportamentos tão baixos.
Passei boa parte da minha infância afirmando que seria veterinária, mudei de ideia quando percebi que não bastava gostar de cachorro, gato, papagaio e tartaruga, mas ter sangue frio para lidar com eles nas piores situações. Já na adolescência, queria ser comissária de bordo, o que só durou até eu me dar conta que dificilmente manteria o equilíbrio numa situação de risco, já não mantenho no dia a dia.
Gosto de trabalhar com isso, porque é aqui que encontro todo o tipo de gente, do político corrupto ao idealista solitário; do advogado que enche a boca para se denominar Doutor e não se dá conta que é Phd em alienação; do professor que trocou a universidade para dar aula para o MST e desde então tem que provar que não é marginal ao puxa saco do assessor do político que sempre quer se dar bem; da garota de programa que veste Prada e Hermès ao homem que exige respeito mas não sabe respeitar nenhuma mulher; da moça que se acha esperta e tenta engravidar de algum político, ou rico, ou famoso ao homem otário que engravidou a moça, porque queria desfilar com uma beldade do lado e vai passar a vida se submetendo a chantagens...
É um zoológico, uma hospiciolândia, uma torre de babel, uma arca de Noé com todos os tipos da medíocre, a grandiosa e contraditória espécie humana. Estamos todos no mesmo barco, furado, revezando os remos até o dia do naufrágio, até o dia que o mundo acabe, até o dia que Deus resolver acabar o mundo com o fogo e não água, já imaginaram o dia da fogueira final? Ou até o dia que eu pular do barco. Game over for me!
Por mais que ache natural trabalhar com isso, sei que estou num compartimento da embarcação que reúne os exemplares mais podres da nossa sociedade, os políticos e isso, misturado com o vai e vai do barco, mais as imperfeições humanas, sobrecarregam o meu estômago. Mas eu tenho sangre frio o suficiente para continuar remando, respirar fundo e pensar: “é meu trabalho”.
No meio de tudo isso, fazer trabalho voluntário é uma válvula de escape, uma possibilidade, não só de dedicar o meu tempo e mão de obra a coisas mais leves, penso que faço isso mais por mim do que pelas crianças. Tem vezes que tenho que representar a creche que trabalho em reuniões, geralmente com a Secretaria de Educação ou Assistência Social e eles me mandam, justamente, porque estou acostumada com esse ambiente político.
Só que quem vai nesses encontros é a cidadã e a cidadã não tem o mesmo sangue frio da jornalista. Quando me deparo numa reunião para discutir o que fazer com o vice diretor de uma creche comunitária que leva para casa uma boa percentagem dos alimentos doados para a entidade, não dá pra não me revoltar.
Sei que esse tipo de comportamento baixo e corrupto acontece em qualquer setor da sociedade. E concordo que deve ser baita pepino fazer milagres com um orçamento mínimo que vem de convênios com os órgãos públicos para dar conta de alimentar e tornar possível a educação de centenas de crianças.
Mas considero muito pior quando o corrupto é quem a gente menos espera, é quem conhece a realidade que está roubada, pior, faz parte dela. Políticos não, eles vivem num mundo a parte, grande parte deles já se esqueceram de sua condição humana e priorizam sempre o seu umbigo.
Participar de uma reunião, com secretários do município para discutir essa situação é quase uma inversão de valores: políticos cobrando ética de um cidadão. Posso rir? Alguém vem segurar o meu remo porque eu vou ali assimilar tudo isso e fazer meu estômago entender que nem sempre o homo sapiens se comporta como tal.
Por mais que o PCdoB seja o mais elitizado dos partidos “ditos” de esquerda, por sempre ter investido em formação para seus lideres e que o PP seja uma sigla bastante popular devido ao grande número de prefeituras que governa, esse cruzamento é uma falta de respeito com a história de cada partido e uma afronta à inteligência dos eleitores. É como querer cruzar um morcego com um peixe.
Apesar dessas incoerências que acompanho diretamente dos bastidores, gosto das informações privilegiadas que eu tenho, da abertura de transitar em setores da sociedade que poucos têm acesso. Tenho cabeça, estômago e profissionalismo para trabalhar com isso e, sangue frio para testemunhar comportamentos tão baixos.
Passei boa parte da minha infância afirmando que seria veterinária, mudei de ideia quando percebi que não bastava gostar de cachorro, gato, papagaio e tartaruga, mas ter sangue frio para lidar com eles nas piores situações. Já na adolescência, queria ser comissária de bordo, o que só durou até eu me dar conta que dificilmente manteria o equilíbrio numa situação de risco, já não mantenho no dia a dia.
Gosto de trabalhar com isso, porque é aqui que encontro todo o tipo de gente, do político corrupto ao idealista solitário; do advogado que enche a boca para se denominar Doutor e não se dá conta que é Phd em alienação; do professor que trocou a universidade para dar aula para o MST e desde então tem que provar que não é marginal ao puxa saco do assessor do político que sempre quer se dar bem; da garota de programa que veste Prada e Hermès ao homem que exige respeito mas não sabe respeitar nenhuma mulher; da moça que se acha esperta e tenta engravidar de algum político, ou rico, ou famoso ao homem otário que engravidou a moça, porque queria desfilar com uma beldade do lado e vai passar a vida se submetendo a chantagens...
É um zoológico, uma hospiciolândia, uma torre de babel, uma arca de Noé com todos os tipos da medíocre, a grandiosa e contraditória espécie humana. Estamos todos no mesmo barco, furado, revezando os remos até o dia do naufrágio, até o dia que o mundo acabe, até o dia que Deus resolver acabar o mundo com o fogo e não água, já imaginaram o dia da fogueira final? Ou até o dia que eu pular do barco. Game over for me!
Por mais que ache natural trabalhar com isso, sei que estou num compartimento da embarcação que reúne os exemplares mais podres da nossa sociedade, os políticos e isso, misturado com o vai e vai do barco, mais as imperfeições humanas, sobrecarregam o meu estômago. Mas eu tenho sangre frio o suficiente para continuar remando, respirar fundo e pensar: “é meu trabalho”.
No meio de tudo isso, fazer trabalho voluntário é uma válvula de escape, uma possibilidade, não só de dedicar o meu tempo e mão de obra a coisas mais leves, penso que faço isso mais por mim do que pelas crianças. Tem vezes que tenho que representar a creche que trabalho em reuniões, geralmente com a Secretaria de Educação ou Assistência Social e eles me mandam, justamente, porque estou acostumada com esse ambiente político.
Só que quem vai nesses encontros é a cidadã e a cidadã não tem o mesmo sangue frio da jornalista. Quando me deparo numa reunião para discutir o que fazer com o vice diretor de uma creche comunitária que leva para casa uma boa percentagem dos alimentos doados para a entidade, não dá pra não me revoltar.
Sei que esse tipo de comportamento baixo e corrupto acontece em qualquer setor da sociedade. E concordo que deve ser baita pepino fazer milagres com um orçamento mínimo que vem de convênios com os órgãos públicos para dar conta de alimentar e tornar possível a educação de centenas de crianças.
Mas considero muito pior quando o corrupto é quem a gente menos espera, é quem conhece a realidade que está roubada, pior, faz parte dela. Políticos não, eles vivem num mundo a parte, grande parte deles já se esqueceram de sua condição humana e priorizam sempre o seu umbigo.
Participar de uma reunião, com secretários do município para discutir essa situação é quase uma inversão de valores: políticos cobrando ética de um cidadão. Posso rir? Alguém vem segurar o meu remo porque eu vou ali assimilar tudo isso e fazer meu estômago entender que nem sempre o homo sapiens se comporta como tal.
Friday, May 18, 2012
Paraísos artificiais
“Para digerir a felicidade natural, assim como a artificial, é preciso primeiro ter a coragem de engolir” - Charles Baudelaire
"Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito" - William Blake
Assisti ao filme Paraísos artificiais, do Marcus Prado, que conta a história de jovens que buscam prazer, satisfação e felicidade em drogas como mescalina, ecstasy, GHB e cocaína. Já li que há pessoas que defendem que a obra é o retrato perfeito de grande parte da classe média brasileira. Não sei, não sei... Concordo que há muita gente vazia e por isso se perdem, mas também conheço muitas que não são nada vazias e são usuários de drogas.
Em alguns momentos, o filme consegue tornar mais palpável a subjetividade das alucinações provacadas pelas drogas e isso de cara, me pegou. Agora, o que me ganhou mesmo foi uma cena que os personagens Érika e Mark estão conversando sobre uma “bad trip” dela. Mark, interpretado por Roney Villela é o personagem mais velho da trama, é um ponto de referência para os outros, já experimentou diversas drogas, sempre tem alguma no bolso para oferecer aos outros e está sempre por perto pra trazer a pessoa de volta.
Nessa conversa, Mark afirma que o grande problema não são as drogas, mas a índole dos usuários. Diz algo do tipo “as drogas são o que você quer, levam para onde você quer.” Fiquei pensando nisso...Foram poucas vezes que experimentei drogas e com raríssimas exceções, elas nunca me levaram para um lugar muito bom. Culpa minha, segundo o filme.
Boa parte das pessoas que convivo, fazem uso de drogas. Talvez pelo fato de ter usuários de drogas na família, essas pessoas se sentem mais confortáveis em falar disso comigo, em fazer certas coisas na minha frente, mesmo sabendo que eu não sendo parceira para dividir nenhuma carreira de cocaína ou fechar um. As pessoas que me refiro são todas adultas, já passaram da fase de se deslumbrar quando falo da minha família, coisa que acontecia quando era adolescente.
Há pessoas, já nos sessenta anos que fumam maconha há mais de quarenta e isso nunca foi empecilho para serem bons pais, boas mães, bons profissionais. Mas já vi também, alcoolistas perderem tudo, caírem, levantarem e recaírem. Outros há anos tentam deixar de cheirar, conseguem e não conseguem. Acho fantástico quem tenta parar sem procurar ajuda, a força de vontade deve muito maior.
Das coisas que eu ainda quero experimentar estão a Mescalina e o Daime e sim, acho interessantíssimo provar algumas coisas, como defendia Huxley no seu "As portas da percepção", experimentar certas substâncias é uma experiência significativa. Simpatizo com os alucinógenos (com exceção da maconha que deixa minha pressão baixa demais), para mim, elas alteram a percepção da realidade sem alterar tanto a atividade mental como as estimulantes ou depressoras, que são as que eu e a grande maioria das pessoas, mais usam, já que as drogas lícitas pertencem a essas categorias.
Não sei se seria viciadona, acho que não tenho mais idade para isso, mas se fosse, seria nessas drogas alucinógenas ou gostaria que fosse. E espero nunca saber se puxei ao tio sessentão e maconheiro ou ao alcoolista que já foi internado diversas vezes e até hoje deixa todo mundo com o coração na mão por causa de uma possível recaída.
De todas as minhas experiências com drogas, com exceção dos remédios que tomo, poucas foram boas. Talvez porque considero esses experimentos praticamente um exercício antropológico e então tento manter um distanciamento quase impossível, acabo tentando manter o controle, o que só torna as coisas piores.
Pode ser também que eu não saiba o que quero tirar das drogas, é só para ver o que acontece e se realmente elas apenas potencializam o que somos, sou uma pessoa muito triste. Minha melhor viagem foi com chá de cogumelo e repeti a experiência duas vezes, alguns anos atrás. Teve a tristeza também, mas com certeza foi a única substância que me levou para um lugar melhor.
Me senti numa ilha de silêncio e o mundo, as coisas, as pessoas brilhavam. Era tudo tão colorido, que era impossível não se sentir bem no meio de um arco-íris. E voltar para essa realidade de cores apagadas foi de forma lenta e gradual e em nenhum momento tive a sensação de precisar de mais e mais e mais. Só senti tristeza, mas porque era bom e eu sabia que era tão bonito que não deveria virar algo comum, como as coisas que com o passar do tempo perde a beleza porque a gente cansou de olhar.
"Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito" - William Blake
Assisti ao filme Paraísos artificiais, do Marcus Prado, que conta a história de jovens que buscam prazer, satisfação e felicidade em drogas como mescalina, ecstasy, GHB e cocaína. Já li que há pessoas que defendem que a obra é o retrato perfeito de grande parte da classe média brasileira. Não sei, não sei... Concordo que há muita gente vazia e por isso se perdem, mas também conheço muitas que não são nada vazias e são usuários de drogas.
Em alguns momentos, o filme consegue tornar mais palpável a subjetividade das alucinações provacadas pelas drogas e isso de cara, me pegou. Agora, o que me ganhou mesmo foi uma cena que os personagens Érika e Mark estão conversando sobre uma “bad trip” dela. Mark, interpretado por Roney Villela é o personagem mais velho da trama, é um ponto de referência para os outros, já experimentou diversas drogas, sempre tem alguma no bolso para oferecer aos outros e está sempre por perto pra trazer a pessoa de volta.
Nessa conversa, Mark afirma que o grande problema não são as drogas, mas a índole dos usuários. Diz algo do tipo “as drogas são o que você quer, levam para onde você quer.” Fiquei pensando nisso...Foram poucas vezes que experimentei drogas e com raríssimas exceções, elas nunca me levaram para um lugar muito bom. Culpa minha, segundo o filme.
Boa parte das pessoas que convivo, fazem uso de drogas. Talvez pelo fato de ter usuários de drogas na família, essas pessoas se sentem mais confortáveis em falar disso comigo, em fazer certas coisas na minha frente, mesmo sabendo que eu não sendo parceira para dividir nenhuma carreira de cocaína ou fechar um. As pessoas que me refiro são todas adultas, já passaram da fase de se deslumbrar quando falo da minha família, coisa que acontecia quando era adolescente.
Há pessoas, já nos sessenta anos que fumam maconha há mais de quarenta e isso nunca foi empecilho para serem bons pais, boas mães, bons profissionais. Mas já vi também, alcoolistas perderem tudo, caírem, levantarem e recaírem. Outros há anos tentam deixar de cheirar, conseguem e não conseguem. Acho fantástico quem tenta parar sem procurar ajuda, a força de vontade deve muito maior.
Das coisas que eu ainda quero experimentar estão a Mescalina e o Daime e sim, acho interessantíssimo provar algumas coisas, como defendia Huxley no seu "As portas da percepção", experimentar certas substâncias é uma experiência significativa. Simpatizo com os alucinógenos (com exceção da maconha que deixa minha pressão baixa demais), para mim, elas alteram a percepção da realidade sem alterar tanto a atividade mental como as estimulantes ou depressoras, que são as que eu e a grande maioria das pessoas, mais usam, já que as drogas lícitas pertencem a essas categorias.
Não sei se seria viciadona, acho que não tenho mais idade para isso, mas se fosse, seria nessas drogas alucinógenas ou gostaria que fosse. E espero nunca saber se puxei ao tio sessentão e maconheiro ou ao alcoolista que já foi internado diversas vezes e até hoje deixa todo mundo com o coração na mão por causa de uma possível recaída.
De todas as minhas experiências com drogas, com exceção dos remédios que tomo, poucas foram boas. Talvez porque considero esses experimentos praticamente um exercício antropológico e então tento manter um distanciamento quase impossível, acabo tentando manter o controle, o que só torna as coisas piores.
Pode ser também que eu não saiba o que quero tirar das drogas, é só para ver o que acontece e se realmente elas apenas potencializam o que somos, sou uma pessoa muito triste. Minha melhor viagem foi com chá de cogumelo e repeti a experiência duas vezes, alguns anos atrás. Teve a tristeza também, mas com certeza foi a única substância que me levou para um lugar melhor.
Me senti numa ilha de silêncio e o mundo, as coisas, as pessoas brilhavam. Era tudo tão colorido, que era impossível não se sentir bem no meio de um arco-íris. E voltar para essa realidade de cores apagadas foi de forma lenta e gradual e em nenhum momento tive a sensação de precisar de mais e mais e mais. Só senti tristeza, mas porque era bom e eu sabia que era tão bonito que não deveria virar algo comum, como as coisas que com o passar do tempo perde a beleza porque a gente cansou de olhar.
Tuesday, May 15, 2012
Sunday, May 13, 2012
Herança materna
Estava lendo a matéria de capa da Donna ZH, sobre as heranças sejam materiais, comportamentais ou emocionais, que as mães deixam para as filhas. Sou a cara da minha mãe, só que desbotada. E tenho um anel que ganhei quando fiz 15 anos, lindo, de ouro branco com uma pedra verde, foi o anel de noivado da minha avó, que a mãe ganhou com 15 anos, também. E para aí a minha lista de coisas herdadas da mãe.
Somos bastante diferentes. Até uma marca de nascença dela foi para o corpo do meu irmão. Além do anel, estão comigo um livro de receitas e um travesseiro que eram da avó. E volta e meia escuto que sou igual a dona Helga. Minha avó era alemoa, do tipo que no segundo gole de vinho já começa a corar. E eu herdei isso dela.
Isso e o gosto por jasmim, por doces, por melancia, por cozinhar, por esmaltes cor de rosa. De todos esses itens, o único que minha mãe compartilha é o gosto por doce, mas só comê-los. Para minha avó, a diversão começava na hora de fazer. Para mim, ainda bem, também.
Essas são as coisas que lembro, mas tem o que não me dou conta, geralmente manias, coisas que quando percebo, minha mãe está me observando. O jeito de passar o batom, uma ou outra coisa que faço quando estou cozinhando, a maneira que leio o jornal... Às vezes ela fala coisas do tipo “a mãe ia adorar te ver assim” ou “criticava tanto a mãe por isso e a minha filha é igual.”
Elas eram super ligadas. A mãe era a única filha de sete filhos e por todas as coisas que aconteceram com a mãe, dava para ver como a ligação delas era grande. Todos os dias, todos, a mãe ia na casa da avó, nem que fosse por alguns minutos, mas sempre passava lá. Foi assim até a dona Helga morrer.
Talvez eu ser tão diferente da mãe e tão parecida com a minha avó, seja além de herança, um presente, para nós três.
Somos bastante diferentes. Até uma marca de nascença dela foi para o corpo do meu irmão. Além do anel, estão comigo um livro de receitas e um travesseiro que eram da avó. E volta e meia escuto que sou igual a dona Helga. Minha avó era alemoa, do tipo que no segundo gole de vinho já começa a corar. E eu herdei isso dela.
Isso e o gosto por jasmim, por doces, por melancia, por cozinhar, por esmaltes cor de rosa. De todos esses itens, o único que minha mãe compartilha é o gosto por doce, mas só comê-los. Para minha avó, a diversão começava na hora de fazer. Para mim, ainda bem, também.
Essas são as coisas que lembro, mas tem o que não me dou conta, geralmente manias, coisas que quando percebo, minha mãe está me observando. O jeito de passar o batom, uma ou outra coisa que faço quando estou cozinhando, a maneira que leio o jornal... Às vezes ela fala coisas do tipo “a mãe ia adorar te ver assim” ou “criticava tanto a mãe por isso e a minha filha é igual.”
Elas eram super ligadas. A mãe era a única filha de sete filhos e por todas as coisas que aconteceram com a mãe, dava para ver como a ligação delas era grande. Todos os dias, todos, a mãe ia na casa da avó, nem que fosse por alguns minutos, mas sempre passava lá. Foi assim até a dona Helga morrer.
Talvez eu ser tão diferente da mãe e tão parecida com a minha avó, seja além de herança, um presente, para nós três.
Sunday, April 29, 2012
Marcadores de páginas do tempo
Existem algumas pessoas, especialmente as crianças, que são verdadeiros marcadores de páginas do tempo. Mas negligenciamos esse fato, o que é até natural, já que estamos ocupados demais sendo testemunhas de alguém que está aprendendo a andar, a falar, que logo vai para escolinha...
Acho que demora alguns anos até a gente se dar conta de como o tempo passou. A minha criança, nesse caso, é o meu afilhado e o primeiro sinal foi quando ele adorava me abraçar só para depois falar, com aquele sorriso que não cabe no rosto, “tô quase do teu tamanho”, “te alcancei” e finalmente: “tô maior que tu, dinda.” Sim, ele já está mais alto do que eu e vai permanecer assim o resto da vida, mas me pergunto até quando ele vai ter prazer em falar isso? Até quando ser mais alto que a dinda será motivo de comemoração?
Passei a perceber outros sinais quando roupa e tênis passaram a ser os presentes ideais, quando ele passou a escolher os filmes que assistimos no cinema, vendo ele se servir sozinho num restaurante, quando percebi que ele prestava atenção em qualquer conversa que envolvia bares, casas noturnas, namoros...
Posso pedir uma explicação para o tempo? Cadê aquela criança que tinha cachos miúdos, que só comia se tivesse arroz, que adorava dinossauros, fazia fusões mágicas quando mexia as mãos e que não se importava de ser chamado de “lindo da dinda”?
Alguns cargos familiares parecem só ter sentido quando uma das partes for criança. Claro que meu afilhado pode contar comigo para sempre, mas não me imagino mordendo a barriga dele, como sempre fazia. Nem ele vai sair correndo quando mostrar minhas unhas (ele nunca gostou das minhas unhas).
O problema é que meu primeiro marcador de página do tempo tá grandão e eu estou louca para ter outro, espero que meu irmão perceba e me dê uma sobrinha logo. Enquanto isso vou me preparando para as namoradas do meu afilhado, vou me divertir muito contando que um dia, ele me perguntou, com toda a inocência do mundo, o que eu tinha feito para o Latino ter gravado Renata Ingrata.
Acho que demora alguns anos até a gente se dar conta de como o tempo passou. A minha criança, nesse caso, é o meu afilhado e o primeiro sinal foi quando ele adorava me abraçar só para depois falar, com aquele sorriso que não cabe no rosto, “tô quase do teu tamanho”, “te alcancei” e finalmente: “tô maior que tu, dinda.” Sim, ele já está mais alto do que eu e vai permanecer assim o resto da vida, mas me pergunto até quando ele vai ter prazer em falar isso? Até quando ser mais alto que a dinda será motivo de comemoração?
Passei a perceber outros sinais quando roupa e tênis passaram a ser os presentes ideais, quando ele passou a escolher os filmes que assistimos no cinema, vendo ele se servir sozinho num restaurante, quando percebi que ele prestava atenção em qualquer conversa que envolvia bares, casas noturnas, namoros...
Posso pedir uma explicação para o tempo? Cadê aquela criança que tinha cachos miúdos, que só comia se tivesse arroz, que adorava dinossauros, fazia fusões mágicas quando mexia as mãos e que não se importava de ser chamado de “lindo da dinda”?
Alguns cargos familiares parecem só ter sentido quando uma das partes for criança. Claro que meu afilhado pode contar comigo para sempre, mas não me imagino mordendo a barriga dele, como sempre fazia. Nem ele vai sair correndo quando mostrar minhas unhas (ele nunca gostou das minhas unhas).
O problema é que meu primeiro marcador de página do tempo tá grandão e eu estou louca para ter outro, espero que meu irmão perceba e me dê uma sobrinha logo. Enquanto isso vou me preparando para as namoradas do meu afilhado, vou me divertir muito contando que um dia, ele me perguntou, com toda a inocência do mundo, o que eu tinha feito para o Latino ter gravado Renata Ingrata.
Friday, April 13, 2012
Em construção...
Saturday, April 07, 2012
Dia do jornalista

"O jornalismo é a mais emocionante e divertida profissão que eu conheço"- Millôr Fernandes
Dizem que 7 de abril é Dia Nacional dos Jornalistas. Dizem, porque como imparcialidade não existe, há muitas versões desse fato por aí e tem outras datas que também são consideradas dia dos jornalistas.
A ideia de ser jornalista sempre rondou minha cabeça, desde criança, mas foi só pelos 15 anos que me rendi, antes pensava que era tímida demais para isso. Hoje, se tivesse 16 anos e fosse prestar vestibular novamente, não teria dúvida nenhuma e muito menos, medo de timidez.
Outro dia ouvi de uma amiga jornalista, que trabalha há 20 anos como produtora numa televisão, que o filho dela cresceu sem entender porque ela não aparecia na TV. Típico. Na minha festa de formatura, um primo de uns cinco anos, veio me perguntar se agora eu iria ficar famosa.
Falando nisso, me formei cedo, com 22 anos e naquela época o diploma ainda tinha valor, o twitter não era fonte de informação e eu não sabia da existência do Gilmar Mendes. E apesar de estar saindo da faculdade com emprego, estava aterrorizada com as previsões que ouvi durante todo o curso: “não há mercado para jornalista!”
Eu trabalho pra caramba, não posso reclamar do tal mercado, mas sei também que é uma mistura de competência, sorte e tesão. Sem tesão não há solução, já dizia o poeta. Me divirto muito fazendo o que faço e observando exemplares da mesma espécie.
Não tem nada mais engraçado do que ver aquele bando de jornalistas, amontoados, com blocos, canetas, máquinas, gravadores e câmeras a postos esperando a hora de voarmos em cima da presa. Porque somos urubus, segundo boa parte da sociedade.
Outra clássica acontece neste momento de amontoamento jornalístico, sempre tem um que grita: “vou ter um orgasmo com essa credencial no pescoço!” E quando participamos de congressos e seminários e encontramos os colegas que só encontramos em alguma cobertura ou só falamos por telefone, quando precisamos de informação.
Sensação boa é conhecer aquele colega que a gente só conhece por texto, é fazer uma baita entrevista com aquela fonte tri difícil, encontrar aquela credencial cheia de anotações no verso, é ver que aquela notícia repercutiu e ajudou alguém...
Há coisas boas e más, como em qualquer outra. Há plantões, muitas horas extras, litros de café, diagramações até a madrugada, fontes inesquecíveis, dead lines absurdos, editores e assessorados egocêntricos, horários malucos (tem dias que almoço às 11h, noutros, às 15h).
Apesar de tudo isso, parabéns pra quem assim como eu, é um ser apaixonado por esta profissão e sonha com o dia que teremos a melhor notícia do mundo: nosso registro voltou a ter valor. Faço o tipo: jornalista idealista.
Renata Machado, jornalista (MTb.: 14.046)
Sunday, April 01, 2012
No automático
“Escrever é um trabalho de tempo integral, embora apenas poucas horas do dia sejam gastas no trabalho efetivo de escrever” – Hemingway
É isso. Eu escrevo o tempo todo, é uma loucura, minha cabeça não para nunca, registra tudo que vejo, como longos e às vezes, chatos capítulos de descrição. Poucas coisas me fascinam tanto como observar as pessoas.
Escutar trechos de conversas no ônibus, no restaurante, na rua, falando ao telefone é o que eu preciso pra imaginar mil e um desfechos, o ouvinte, o motivo, as tragédias e os milagres que uma conversa podem resultar.
O problema é que com a correria dos dias, cada vez escrevo menos. Melhor, escrevo no bloquinho que carrego sempre ou no meu diário (sim, eu tenho diário). Mas isso não conta.
Depois de passar horas diagramando na frente do computador até os olhos arderem, de escrever textos políticos, notas curtas, descobrir como tornar útil a fala inútil de uma fonte, a última coisa que quero é encarar um monitor.
Me culpo por não ter o tempo que gostaria de ter para escrever e nem é tanto por ser algo que eu curto fazer. Também me sinto culpada quando falto o pilates. A culpa é porque não acho justo guardar tanta gente e história dentro de mim. Qualquer dia, vou explodir.
O ideal mesmo, seria ter um cabo USB que todo final de dia eu conectasse e descarregasse toda e qualquer palavra. Seria bem mais fácil ... Mas enquanto ainda não temos isso, fico aqui tentando descobrir o que me chamou atenção na moça de olhar perdido que caminhava pela avenida Independência e disse quando atendeu o telefone: “tô no automático”.
Seria só uma obra de ficção, onde qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência?
É isso. Eu escrevo o tempo todo, é uma loucura, minha cabeça não para nunca, registra tudo que vejo, como longos e às vezes, chatos capítulos de descrição. Poucas coisas me fascinam tanto como observar as pessoas.
Escutar trechos de conversas no ônibus, no restaurante, na rua, falando ao telefone é o que eu preciso pra imaginar mil e um desfechos, o ouvinte, o motivo, as tragédias e os milagres que uma conversa podem resultar.
O problema é que com a correria dos dias, cada vez escrevo menos. Melhor, escrevo no bloquinho que carrego sempre ou no meu diário (sim, eu tenho diário). Mas isso não conta.
Depois de passar horas diagramando na frente do computador até os olhos arderem, de escrever textos políticos, notas curtas, descobrir como tornar útil a fala inútil de uma fonte, a última coisa que quero é encarar um monitor.
Me culpo por não ter o tempo que gostaria de ter para escrever e nem é tanto por ser algo que eu curto fazer. Também me sinto culpada quando falto o pilates. A culpa é porque não acho justo guardar tanta gente e história dentro de mim. Qualquer dia, vou explodir.
O ideal mesmo, seria ter um cabo USB que todo final de dia eu conectasse e descarregasse toda e qualquer palavra. Seria bem mais fácil ... Mas enquanto ainda não temos isso, fico aqui tentando descobrir o que me chamou atenção na moça de olhar perdido que caminhava pela avenida Independência e disse quando atendeu o telefone: “tô no automático”.
Seria só uma obra de ficção, onde qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência?
Wednesday, February 29, 2012
Like a virgin...
touched for the very first time (Madonna)
Doeu, ardeu, sangrou. Não consegui parar de pensar, um minuto que fosse, no que estava fazendo. Era bom e eu queria, estava bem segura, mas isso não me impediu de pensar, na hora da dor, o motivo de estar ali.
Terminar antes da hora? Nem me passou pela cabeça, sabia que o final seria bastante prazeroso. E em alguns momentos a dor diminuía e eu até curtia. Era grande e era bom ser grande, mas pensava o tempo todo se o tamanho era o causador da dor e da ardência que sentia.
Ainda bem que ele era experiente, sabia o que estava fazendo e ao mesmo tempo, era preocupado e cuidadoso. Me perguntava se estava doendo ou muito rápido, se queria trocar de posição para ficar mais confortável...
Eu só mudava se ele pedisse, mas quando ia muito rápido e meu corpo se contraía por causa da sensação da pele estar rasgando, pedia para diminuir o ritmo. Às vezes, as mãos dele pareciam leves como plumas na minha pele, noutras, bastante pesadas e arranhavam, isso quando não colocava todo o seu peso em cima de mim. Tinha certeza que as dores no corpo no outro dia seriam inevitáveis.
Tentei prestar atenção nos barulhos, nas vozes e carros na rua, nos latidos perdidos de algum cachorro dos prédios próximos, na respiração dele, na trilha sonora que era bastante anos oitenta. Tocou Like a virgin, da Madonna, e fiquei pensando nos momentos que nos remetem as nossas primeiras experiências. Aquele era um.
Não era minha primeira vez. Comecei cedo, com 15 anos, aconteceu logo depois do meu aniversário. Mas foi só essa semana, onze anos e quase vinte tatuagens depois que me dei conta do quanto se tatuar pode ser dolorido e sofrido.
Doeu, ardeu, sangrou. Não consegui parar de pensar, um minuto que fosse, no que estava fazendo. Era bom e eu queria, estava bem segura, mas isso não me impediu de pensar, na hora da dor, o motivo de estar ali.
Terminar antes da hora? Nem me passou pela cabeça, sabia que o final seria bastante prazeroso. E em alguns momentos a dor diminuía e eu até curtia. Era grande e era bom ser grande, mas pensava o tempo todo se o tamanho era o causador da dor e da ardência que sentia.
Ainda bem que ele era experiente, sabia o que estava fazendo e ao mesmo tempo, era preocupado e cuidadoso. Me perguntava se estava doendo ou muito rápido, se queria trocar de posição para ficar mais confortável...
Eu só mudava se ele pedisse, mas quando ia muito rápido e meu corpo se contraía por causa da sensação da pele estar rasgando, pedia para diminuir o ritmo. Às vezes, as mãos dele pareciam leves como plumas na minha pele, noutras, bastante pesadas e arranhavam, isso quando não colocava todo o seu peso em cima de mim. Tinha certeza que as dores no corpo no outro dia seriam inevitáveis.
Tentei prestar atenção nos barulhos, nas vozes e carros na rua, nos latidos perdidos de algum cachorro dos prédios próximos, na respiração dele, na trilha sonora que era bastante anos oitenta. Tocou Like a virgin, da Madonna, e fiquei pensando nos momentos que nos remetem as nossas primeiras experiências. Aquele era um.
Não era minha primeira vez. Comecei cedo, com 15 anos, aconteceu logo depois do meu aniversário. Mas foi só essa semana, onze anos e quase vinte tatuagens depois que me dei conta do quanto se tatuar pode ser dolorido e sofrido.
Wednesday, February 15, 2012
Voltas
Para ler ouvindo Eu Não Entendo, do Nenhum de Nós
“Você até parece um vício. Que largar é quase impossível. Exige muito sacrifício. E quando eu me considerava limpo. Vem você pra me oferecer mais.”
O improvável aconteceu e agora a vida está aí, se divertindo com o nosso amadorismo diante dela. Falar que não quer? Como? Se isso foi o que mais se desejou. Segundo alguns, o querer foi tanto que chegou a beirar a obsessão.
É bastante difícil levar a vida adiante quando a gente tem um sentimento que parece uma âncora. E é muito triste ter que se conformar e pensar como terminadas histórias mal resolvidas.
Esses casos mal terminados pesam a alma, povoam de pontos de interrogações lembranças banais e sempre serão recordadas com dor, por mais que o tempo pareça ter amenizado.
Agora que eu já estava no estágio de não mexer na casca da ferida para não provocar dor, de não falar, de não perguntar, de desviar caminhos, de ter certeza que nunca mais... Numa dessas voltas da vida, eis que o improvável, ou talvez o mais provável, aconteceu.
E veio com o sorriso mais lindo e a voz firme de quem quer impor a sua vontade. Chegou a hora de falar de coisas mal resolvidas, de parar de carregar âncoras e esperar que a vida permita que eu pinte as asas de um anjo que eu conheci.
“Você até parece um vício. Que largar é quase impossível. Exige muito sacrifício. E quando eu me considerava limpo. Vem você pra me oferecer mais.”
O improvável aconteceu e agora a vida está aí, se divertindo com o nosso amadorismo diante dela. Falar que não quer? Como? Se isso foi o que mais se desejou. Segundo alguns, o querer foi tanto que chegou a beirar a obsessão.
É bastante difícil levar a vida adiante quando a gente tem um sentimento que parece uma âncora. E é muito triste ter que se conformar e pensar como terminadas histórias mal resolvidas.
Esses casos mal terminados pesam a alma, povoam de pontos de interrogações lembranças banais e sempre serão recordadas com dor, por mais que o tempo pareça ter amenizado.
Agora que eu já estava no estágio de não mexer na casca da ferida para não provocar dor, de não falar, de não perguntar, de desviar caminhos, de ter certeza que nunca mais... Numa dessas voltas da vida, eis que o improvável, ou talvez o mais provável, aconteceu.
E veio com o sorriso mais lindo e a voz firme de quem quer impor a sua vontade. Chegou a hora de falar de coisas mal resolvidas, de parar de carregar âncoras e esperar que a vida permita que eu pinte as asas de um anjo que eu conheci.
Wednesday, February 08, 2012
O Palhaço

Finalmente, consegui assistir ao filme “O Palhaço”. Adoro filmes brasileiros, temas prosaicos, conflitos internos e enredos que se desenrolam sem presa, em longos planos sequencias, como a vida. E sim, sou fã do Selton Mello diretor, desde o Feliz Natal.
No filme, Benjamim (Selton Mello) e o pai, Valdemar (Paulo José) são a dupla de palhaços Pangaré & Puro Sangue do Circo Esperança (reparem no nome). Mais do que isso, eles que administram o circo. Só que para Benjamin, a vida está sem graça e além de ter que fazer graça para os outros, ele tem que se preocupar com o adiantamento dos músicos, o alvará da prefeitura, o sutiã para a Dona Zaira, o terreno arenoso e os documentos (identidade, CPF e comprovante de residência), que ele não tem e o impedem de comprar um ventilador, o que ao longo da história vira uma obsessão.
Logo no começo, fica claro a insatisfação do personagem. Porém, ele passa boa parte do filme adiando uma mudança, uma conversa, uma tentativa, um olhar pra si. E não agimos na vida assim, também? A maior parte do tempo fingindo estar tudo bem, outra boa parte criando coragem para sair da zona de conforto e alguns momentos, mudando...
E Benjamim muda, ou melhor, deixa de se mudar com o circo. Fica numa cidadezinha qualquer do interior, mora num quarto de hotel, tira os documentos, arruma um emprego, pega ônibus cedo, passa gel nos cabelos todos os dias, compra um ventilador, observa a vida de outro ângulo e volta. Volta porque na vida cada um faz o que sabe e ele saber ser palhaço.
Entre o enredo todo, é possível perceber as mudanças no humor do Benjamim pelas cores das cenas. As tomadas das apresentações do circo explodem em cores, muito vermelho, muito laranja, como as risadas que explodem da platéia, cada vez menor, mas que dão a certeza para as personagens e para os telespectadores (do circo e do cinema), que o picadeiro cumpre muito bem, a sua função.
Encerrado o espetáculo, a vida em torno do circo é marrom, bege, cinza, apática com o tempo passando indolente. Nas imagens amplas, que pegam todo o circo, este sempre se encontra no meio de grandes vales, com verde em volta, a cor que para muitos representa a esperança, lembram do nome do circo?
Já nas viagens entre uma cidade e outra, a monotonia e os rostos cansados dos artistas contrastam com movimento típico de uma mudança. São talvez, as cenas onde haja mais silêncio, as personagens só conversam se algo interrompe o trajeto.
Outra coisa que achei fantástica: a primeira cena é de uma mulher (artista do circo) que sai do picadeiro e vai até onde o Benjamim se maquia. A última é de uma menina (artista do circo) que também sai do picadeiro e vai até o “quarto” de Benjamim. Cenas iguais, mas totalmente diferentes, a do início remetia ao fim, ao fim de um espetáculo, de um tempo, de uma relação, de uma etapa de vida. A cena do final remete a tudo que ainda está por vir, novos ânimos, novos sorrisos, novos lugares, novos artistas e espetáculos.
O filme O Palhaço emociona. Pode não fazer dar gargalhadas, nem chorar, mas incomoda e na última cena, quando a menina entra no quarto, o sol vai junto e encontra as lantejoulas coloridas das roupas, a câmera capta isso e para ali, o filme acaba quando o sol refletido sai da tela, entra pela retina e o telespectador é obrigado a fechar os olhos. Talvez para assimilar o que se viu, talvez porque O Palhaço parecia não surpreender, talvez para olhar para si...
Friday, February 03, 2012
Característica incompatível com perfil exibido
Estava almoçando hoje com três colegas quando disse "gurias, vocês assistiram Mulheres Ricas esta semana?" Todas pararam e me olharam sem acreditar no que haviam ouvido. “Vocês não olham? Ah tem que ver, eu adoro, dou muita risada", continuei...
Pasmas, elas falaram que era absurdo uma pessoa como eu assistir a esse programa e pior ainda, gostar.
Mulheres Ricas é exibido nas segundas, às 22h30, na Band. É um reality show em formato documental que mostra o cotidiano de cinco mulheres milionárias. O programa estreou este ano e vem sendo bastante criticado por causa da ostentação das cinco mulheres num país tão desigual como o nosso. Mas convenhamos, isso não é problema delas. Mulheres Ricas está longe de ser um programa inteligente, mas vende e vende bem.
Agora qual é o problema de eu gostar desse programa fútil, inútil, por vezes, vazio? Por que não é o que esperam de mim? Uma das minhas colegas disse: “se fosse eu, que gasto mais do meu salário em roupas de marcas, seria normal, mas tu Rê! Ah, o mundo tá virado.”
Só que o mundo não tá virado. Tanto que ela, que teria tudo para ser fã, não assiste, o que é uma característica incompatível com perfil exibido pela minha colega. O que me surpreende também. Por que temos essa mania inconveniente de querer que o outro seja da maneira que nos percebemos?
Tenho uma amiga que é repórter de esportes num jornal de Porto Alegre e também tem um blog, onde escreve de tudo. Um dia, postou um texto falando sobre sua paixão por esmaltes (ela tem mais de 1.000, coleciona mesmo) e o povo reclamou, porque gostar de esmaltes não combina com aquela moça que entende tudo de futebol e faz kite surf nas horas vagas.
Somos um universo tão grande que certas características ou atitudes não deveriam incomodar ou constar no pacote “isso não combina com você”. Tudo combina com seres que são livres, certo? E tudo deveria ser considerado aceitável quando se tem consciência da liberdade, nossa e do outro.
Assisto TV muito pouco. Faz anos que não tenho uma no meu quarto e não faz falta. Notícias, acompanho pela internet, o tempo todo. Filmes, no cinema, computador e quase sempre, nos finais de semana estou sozinha em casa, com três televisões para escolher.
O único programa que não perco é Mulheres Ricas. Assistir uma atração com o único objetivo de me divertir, de não pensar, não vai mudar em nada minha opinião sobre as coisas. Não assistir por achar que não combina comigo, aí sim, mudaria e aí sim, não seria eu.
Pasmas, elas falaram que era absurdo uma pessoa como eu assistir a esse programa e pior ainda, gostar.
Mulheres Ricas é exibido nas segundas, às 22h30, na Band. É um reality show em formato documental que mostra o cotidiano de cinco mulheres milionárias. O programa estreou este ano e vem sendo bastante criticado por causa da ostentação das cinco mulheres num país tão desigual como o nosso. Mas convenhamos, isso não é problema delas. Mulheres Ricas está longe de ser um programa inteligente, mas vende e vende bem.
Agora qual é o problema de eu gostar desse programa fútil, inútil, por vezes, vazio? Por que não é o que esperam de mim? Uma das minhas colegas disse: “se fosse eu, que gasto mais do meu salário em roupas de marcas, seria normal, mas tu Rê! Ah, o mundo tá virado.”
Só que o mundo não tá virado. Tanto que ela, que teria tudo para ser fã, não assiste, o que é uma característica incompatível com perfil exibido pela minha colega. O que me surpreende também. Por que temos essa mania inconveniente de querer que o outro seja da maneira que nos percebemos?
Tenho uma amiga que é repórter de esportes num jornal de Porto Alegre e também tem um blog, onde escreve de tudo. Um dia, postou um texto falando sobre sua paixão por esmaltes (ela tem mais de 1.000, coleciona mesmo) e o povo reclamou, porque gostar de esmaltes não combina com aquela moça que entende tudo de futebol e faz kite surf nas horas vagas.
Somos um universo tão grande que certas características ou atitudes não deveriam incomodar ou constar no pacote “isso não combina com você”. Tudo combina com seres que são livres, certo? E tudo deveria ser considerado aceitável quando se tem consciência da liberdade, nossa e do outro.
Assisto TV muito pouco. Faz anos que não tenho uma no meu quarto e não faz falta. Notícias, acompanho pela internet, o tempo todo. Filmes, no cinema, computador e quase sempre, nos finais de semana estou sozinha em casa, com três televisões para escolher.
O único programa que não perco é Mulheres Ricas. Assistir uma atração com o único objetivo de me divertir, de não pensar, não vai mudar em nada minha opinião sobre as coisas. Não assistir por achar que não combina comigo, aí sim, mudaria e aí sim, não seria eu.
Thursday, January 19, 2012
A era do "faz parte"
Nunca curti muito escrever sobre política ou assuntos que estão em discussão no momento aqui no Mosaico. Primeiro, porque escrever sobre política ou assuntos do momento é o meu trabalho, faço isso todos os dias. Segundo, as posições que defendo, exponho quando necessário nas reuniões, plenárias, fóruns e eventos de comunicação que participo. Terceiro, meu compromisso no blog é com os meus devaneios, só.
Mas dessa vez, não da pra fugir. Sim, o assunto já tá enchendo o saco. Sim, é sobre o tal estupro do Big Brother, ou melhor, sobre tudo que isso gerou. Chegamos no fundo do poço do grotesco. O que aconteceu na casa mais vigiada do Brasil, a mistura de alguém passando dos limites e alguém que não mediu as conseqüências, infelizmente, pode ser visto em qualquer festa. O que entristece, mesmo, é a postura da Rede Globo.
Acabei de chegar de uma pizzaria, estávamos num grupo de 20 pessoas, todas adultas, comemorando o aniversário de uma amiga. Claro que falamos sobre isso e lamentavelmente, a discussão ficou em torno do “foi sexo, não foi”, “ela estava acordada e gostando”, “ela queria”... E isso me irrita, muito pior do que aconteceu é a Rede Globo, a maior grupo de comunicação do Brasil, teoricamente comandada por pessoas capazes de pensar e raciocinar, deixar isso ter acontecido. É um desrespeito com os participantes do programa, com os funcionários que cumprem ordens e com os telespectadores.
Onde estavam os produtores que acompanham os confinados 24 horas? Se alguém passa mal, se um resolver se matar, se outro beber demais e se afogar na piscina, eles vão intervir. E nessa situação, por que não intervieram? Talvez acender as luzes tivesse evitado... Mas acho que a produção e o tal do Boni vibravam com as possíveis manchetes do dia seguinte: “primeira festa do BBB acaba em sexo”, “Sexo na Casa”, “Recorde do BBB, sexo na primeira festa”...
Só que hoje tem Twitter, onde todo mundo expõe seus achismos e teve alguém que achou que a moça estava dormindo. Muitos acharam a mesma coisa... Tenho certeza que muita gente ficou sabendo da história pelo Twitter, como eu, e domingo a noite se prestou a assistir o programa e aí começou o “apogeu da chinelagem” como definiu o Juremir Machado. Para o Bial, o amor é lindo e o show tem que continuar!
Depois de muito auê nas redes sociais e, aposto como isso influenciou muito, o rapaz saiu do programa, sem maiores explicações. Até tentaram, mas se tem algo que a Globo não sabe fazer é se explicar. E vai ficar por isso mesmo... Os outros BBBs já criaram o Bambam, a gorda, a lésbica, o gay, a vovó... E se a situação não for esclarecida, essa edição criou o estrupador e a estrupada.
E a cabeça dessas criaturas, como fica? Penso que os dois foram vítimas de uma situação montada (festa e bebida liberada), de uma edição manipulada e de uma orientação, da direção, despreparada. E o público? O grande público que tem como único meio de informação e entretenimento, a televisão. Eles não tem acesso a internet e inúmeros artigos com os mais diversos pontos de vista, o que é bom, propicia uma reflexão... Esses brasileiros não merecem uma explicação da Rede Globo? Sério, tem gente que não sabe o motivo de um dos participantes simplesmente sumiu!
Absurdo? Sim, tão absurdo como o Brasil ser o único país do mundo a chegar a 12ª edição dessa bosta. Tão absurdo quanto incentivar o consumo de álcool se todos os dias, os meios de comunicação fazem campanha contra. Tão absurdo quanto sair em sites da Globo que a moça abusada “usava roupas insinuantes” quando são os produtores que determinam a roupa dos participantes nas festas...
Reality show já foi inovador, agora é lugar comum. Acredito que infelizmente essa postura é o reflexo da sociedade brasileira. Niilista, omissa, moralistas, machista, o país do jeitinho, do tanto faz, do deixa disso, do qualquer coisa serve, do faz parte... A gente aceita, fazer o que né?
Agora, a política ou o devaneio: é fundamental uma legislação para os meios de comunicação no Brasil, que inclua dos meios de produção aos produtos e a forma de distribuição. Isso não é censura, é uma maneira de qualificar a mídia brasileira e evitar que esses constrangimentos sociais aconteçam.
Quando não sabemos lidar com a liberdade, as coisas tem que ser centralizadas e determinadas sim! Quando se é educado a pensar que liberdade é “pode tudo”, não demora muito para isso virar libertinagem (querem exemplo melhor que o suposto estrupo no BBB?)
Há várias ações rolando na internet e posições dos movimentos sociais para que o Big Brother saia do ar, lamentável isso não chegar ao grande público. O Ministério das Comunicações tem o poder de tirar o programa do ar e de proibir uma futura edição (o que penso não terá coragem de fazer), mas gostaria muito que isso acontece. Ao menos o debate no próximo verão, seria mais qualificado.
Até lá a gente vai engolindo essa edição. Agora, se na primeira semana já alcançamos esse nível de baixeza, imaginem o que vem por aí, nos três meses de programa que restam. Seja lá o que for, faz parte.
Mas dessa vez, não da pra fugir. Sim, o assunto já tá enchendo o saco. Sim, é sobre o tal estupro do Big Brother, ou melhor, sobre tudo que isso gerou. Chegamos no fundo do poço do grotesco. O que aconteceu na casa mais vigiada do Brasil, a mistura de alguém passando dos limites e alguém que não mediu as conseqüências, infelizmente, pode ser visto em qualquer festa. O que entristece, mesmo, é a postura da Rede Globo.
Acabei de chegar de uma pizzaria, estávamos num grupo de 20 pessoas, todas adultas, comemorando o aniversário de uma amiga. Claro que falamos sobre isso e lamentavelmente, a discussão ficou em torno do “foi sexo, não foi”, “ela estava acordada e gostando”, “ela queria”... E isso me irrita, muito pior do que aconteceu é a Rede Globo, a maior grupo de comunicação do Brasil, teoricamente comandada por pessoas capazes de pensar e raciocinar, deixar isso ter acontecido. É um desrespeito com os participantes do programa, com os funcionários que cumprem ordens e com os telespectadores.
Onde estavam os produtores que acompanham os confinados 24 horas? Se alguém passa mal, se um resolver se matar, se outro beber demais e se afogar na piscina, eles vão intervir. E nessa situação, por que não intervieram? Talvez acender as luzes tivesse evitado... Mas acho que a produção e o tal do Boni vibravam com as possíveis manchetes do dia seguinte: “primeira festa do BBB acaba em sexo”, “Sexo na Casa”, “Recorde do BBB, sexo na primeira festa”...
Só que hoje tem Twitter, onde todo mundo expõe seus achismos e teve alguém que achou que a moça estava dormindo. Muitos acharam a mesma coisa... Tenho certeza que muita gente ficou sabendo da história pelo Twitter, como eu, e domingo a noite se prestou a assistir o programa e aí começou o “apogeu da chinelagem” como definiu o Juremir Machado. Para o Bial, o amor é lindo e o show tem que continuar!
Depois de muito auê nas redes sociais e, aposto como isso influenciou muito, o rapaz saiu do programa, sem maiores explicações. Até tentaram, mas se tem algo que a Globo não sabe fazer é se explicar. E vai ficar por isso mesmo... Os outros BBBs já criaram o Bambam, a gorda, a lésbica, o gay, a vovó... E se a situação não for esclarecida, essa edição criou o estrupador e a estrupada.
E a cabeça dessas criaturas, como fica? Penso que os dois foram vítimas de uma situação montada (festa e bebida liberada), de uma edição manipulada e de uma orientação, da direção, despreparada. E o público? O grande público que tem como único meio de informação e entretenimento, a televisão. Eles não tem acesso a internet e inúmeros artigos com os mais diversos pontos de vista, o que é bom, propicia uma reflexão... Esses brasileiros não merecem uma explicação da Rede Globo? Sério, tem gente que não sabe o motivo de um dos participantes simplesmente sumiu!
Absurdo? Sim, tão absurdo como o Brasil ser o único país do mundo a chegar a 12ª edição dessa bosta. Tão absurdo quanto incentivar o consumo de álcool se todos os dias, os meios de comunicação fazem campanha contra. Tão absurdo quanto sair em sites da Globo que a moça abusada “usava roupas insinuantes” quando são os produtores que determinam a roupa dos participantes nas festas...
Reality show já foi inovador, agora é lugar comum. Acredito que infelizmente essa postura é o reflexo da sociedade brasileira. Niilista, omissa, moralistas, machista, o país do jeitinho, do tanto faz, do deixa disso, do qualquer coisa serve, do faz parte... A gente aceita, fazer o que né?
Agora, a política ou o devaneio: é fundamental uma legislação para os meios de comunicação no Brasil, que inclua dos meios de produção aos produtos e a forma de distribuição. Isso não é censura, é uma maneira de qualificar a mídia brasileira e evitar que esses constrangimentos sociais aconteçam.
Quando não sabemos lidar com a liberdade, as coisas tem que ser centralizadas e determinadas sim! Quando se é educado a pensar que liberdade é “pode tudo”, não demora muito para isso virar libertinagem (querem exemplo melhor que o suposto estrupo no BBB?)
Há várias ações rolando na internet e posições dos movimentos sociais para que o Big Brother saia do ar, lamentável isso não chegar ao grande público. O Ministério das Comunicações tem o poder de tirar o programa do ar e de proibir uma futura edição (o que penso não terá coragem de fazer), mas gostaria muito que isso acontece. Ao menos o debate no próximo verão, seria mais qualificado.
Até lá a gente vai engolindo essa edição. Agora, se na primeira semana já alcançamos esse nível de baixeza, imaginem o que vem por aí, nos três meses de programa que restam. Seja lá o que for, faz parte.
Wednesday, January 11, 2012
Mano

Há 24 anos, eu ganhava um irmão e lembro exatamente do dia que meus pais chegaram do hospital com ele. Assim como recordo perfeitamente uma noite que faltou luz e ele acordou desesperado, gritando que estava cego. Da mesma maneira, que nunca vou me esquecer dele segurando três bolsas, duas mochilas e um balão, debaixo de chuva no meio do Beto Carreiro.
Meu irmão com todas as suas tatuagens e piercings ainda conserva uma ingenuidade rara nos dias de hoje, quase infantil. Ele não gosta de nada que lhe tire do caminho, da rota, da rotina, do planejado. É maniático com organização e hipocondríaco. Sempre quis casar e ter filhos, sempre namorou sério. É uma pessoa bem diferente de mim.
E sempre foi assim, às vezes vem, me pergunta alguma coisa, coça o cavanhaque, diz “é mesmo, mana?” e sai pensativo. Posso falar a coisa mais séria do mundo ou a maior bobagem, que a cena se repete. Apesar disso, meu irmão mudou muito no último ano, aprendeu a ler, mais que isso, aprendeu a gostar de ler.
Estudar nunca foi o forte dele, nunca pensou em faculdade, mas fez uns cursos do SENAI, conseguiu um bom emprego, está lá até hoje e se a vida segue mansa, pra ele está bom. Eu estava viajando quando a mudança ocorreu. Sei que começou lendo a Bíblia, um dia recebi um email da mãe falando “teu irmão está fazendo a festa com teus livros”.
Quando voltei, me deparei com um leitor voraz e lê coisa boa o menino: Marx, Voltaire, Rousseau, Durkheim, Nietzsche, Boaventura, Gramsci... Ah, é muito bom ver alguém se desalienando, além de ter uma pessoa dentro de casa para conversar sobre isso.
Às vezes ele vem, entra no meu quarto, pergunta se tenho algum polígrafo da pós sobre determinado assunto, lê, a gente conversa e ele diz “é mesmo, mana?” e sai pensativo, do mesmo jeito que fez a vida toda e que eu espero, faça até um de nos morrer.
“É mesmo, mana?” é a bússola de todo irmão mais velho. É o que dá sentido, é a minha chance de responder. Eu posso nunca ter para quem perguntar, mas sempre vou ter quem vai procurar as minhas respostas.
Quando a mãe chegou com o mano do hospital, eu sai correndo e ali naquele instante, ele saiu correndo atrás de mim.
Tuesday, January 03, 2012
2012
Então ano novo, qual é a tua? Já passaram três dias e estou te achando com cara de tudo igual. Aliás, me segurei para não escrever no dia 1º, corria o risco de fazer listinhas bobas com desejos e promessas que não se sustentam nem até o quinto dia útil.
Mas, teremos que conviver até que tu acabe em um ritual com fogos de artifícios, programas especiais na televisão e simpatias para atrair amor, dinheiro, emprego... Por quê? Por que essa necessidade do ser humano de ritos de passagem, de demarcar o tempo como se fosse algo concreto?
É por causa da nossa incapacidade de lidar com a infinitude do tempo e com a finitude das coisas, das pessoas, da vida, que você existe ano novo. É porque eu gosto de escrever e uma tela em branco é como um palco que se pode tudo, que estou conversando com você. Como se em algum lugar o jovem ano novo me lesse e o grande senhor tempo, também. E, quem sabe um dia, me mandem as respostas.
Talvez seja importante pensarmos em blocos de 12 meses, ao menos é um período razoável para tentar alguma coisa. Se der certo, o ano foi uma maravilha. Se der errado, ano que vem tudo será diferente e melhor. Simples, assim. O tempo, macaco velho em artimanhas e armadilhas, deve se divertir um bocado com as nossas esperanças, desejos e promessas renovadas a cada final de dezembro.
De todas as coisas que ouvi na noite do dia 31, a mais original foi de uma tia, que me disse: “por favor, não entra em parafuso esse ano”. Fiquei pensando nisso, é um desejo bem diferente, duvido que ano que vem ela vá me falar a mesma coisa.
Então 2012, olhe e ajuste com cuidado os meus parafusos, mas se caso for necessário para minha evolução dar uma surtada, pode se distrair um pouco. Afinal, eu vou me virar né? Nem eu, nem você pensamos que chegaríamos até aqui.
Mas, teremos que conviver até que tu acabe em um ritual com fogos de artifícios, programas especiais na televisão e simpatias para atrair amor, dinheiro, emprego... Por quê? Por que essa necessidade do ser humano de ritos de passagem, de demarcar o tempo como se fosse algo concreto?
É por causa da nossa incapacidade de lidar com a infinitude do tempo e com a finitude das coisas, das pessoas, da vida, que você existe ano novo. É porque eu gosto de escrever e uma tela em branco é como um palco que se pode tudo, que estou conversando com você. Como se em algum lugar o jovem ano novo me lesse e o grande senhor tempo, também. E, quem sabe um dia, me mandem as respostas.
Talvez seja importante pensarmos em blocos de 12 meses, ao menos é um período razoável para tentar alguma coisa. Se der certo, o ano foi uma maravilha. Se der errado, ano que vem tudo será diferente e melhor. Simples, assim. O tempo, macaco velho em artimanhas e armadilhas, deve se divertir um bocado com as nossas esperanças, desejos e promessas renovadas a cada final de dezembro.
De todas as coisas que ouvi na noite do dia 31, a mais original foi de uma tia, que me disse: “por favor, não entra em parafuso esse ano”. Fiquei pensando nisso, é um desejo bem diferente, duvido que ano que vem ela vá me falar a mesma coisa.
Então 2012, olhe e ajuste com cuidado os meus parafusos, mas se caso for necessário para minha evolução dar uma surtada, pode se distrair um pouco. Afinal, eu vou me virar né? Nem eu, nem você pensamos que chegaríamos até aqui.
Monday, December 26, 2011
26.12
Pronto, passou. Natal de novo, só daqui um ano. Confesso que este ano não foi tão ruim, não doeu tanto, embora sempre doa... É incrível como essa época do ano acentua a saudade de quem já se foi.
Só fui ficar triste na tarde do dia 25, quando o mal estar da ressaca estava passando e me peguei procurando algum besterol americano no quarto do meu irmão, só para o tempo passar e eu não lembrar.
Mas o pinheiro imenso, que concentra tanta dedicação da minha mãe, não deixou eu não lembrar. O pinheiro da minha avó não era tão grande, mas era lindo, tinha um presépio que mais parecia a cidade de Belém, tamanha a criatividade da minha avó. Eu ficava encantada com aquilo. E esperava ansiosamente o Natal, porque era dia de estrear alguma roupa nova. Nos Natais da minha infância, eu sempre estava linda, e o meu espírito combinava com a roupa.
Depois o tempo passa, a gente percebe que não tem roupa nenhuma que disfarce o que se sente e o Natal se torna só mais uma data, um feriado, uma desculpa para encher a cara e falar algumas verdades para algum tio chato que só aparece nessa época do ano.
O tempo passa e a gente muda de lugar, de posição e de condição. De afilhada para dinda e vemos o irmão caçula virar o assunto da família pela maneira carinhosa que trata o enteado, certo que um dia ele será um bom pai. E tem o pai que não bebe mais porque tem pressão alta, o primo que no último Natal era um piá mal educado e apareceu com um mulherão a tiracolo, a tia que, finalmente, conseguiu engravidar, os integrantes novos da família, os que não estão porque já se foram, mas permanecem de alguma maneira...
O tempo passa e a gente se dá conta que rituais sempre vão existir, por mais que a gente tente fugir. As coisas mudam, mudamos de lugar, mas a vida, assim como o mundo, gira e gira e gira... Sempre vai chegar pessoas para ocupar o nosso lugar. O Ramon passou a noite toda encantado com o pinheiro da minha mãe... Isso que ele não viu o da bisavó dele, aliás, para o pequeno Ramon, ela será só um nome na árvore genealógica da família. Ele nunca vai ver o que eu considero o pinheiro mais lindo do mundo, queria que ele visse, ficaria tão encantado como eu já fiquei um dia.
Só fui ficar triste na tarde do dia 25, quando o mal estar da ressaca estava passando e me peguei procurando algum besterol americano no quarto do meu irmão, só para o tempo passar e eu não lembrar.
Mas o pinheiro imenso, que concentra tanta dedicação da minha mãe, não deixou eu não lembrar. O pinheiro da minha avó não era tão grande, mas era lindo, tinha um presépio que mais parecia a cidade de Belém, tamanha a criatividade da minha avó. Eu ficava encantada com aquilo. E esperava ansiosamente o Natal, porque era dia de estrear alguma roupa nova. Nos Natais da minha infância, eu sempre estava linda, e o meu espírito combinava com a roupa.
Depois o tempo passa, a gente percebe que não tem roupa nenhuma que disfarce o que se sente e o Natal se torna só mais uma data, um feriado, uma desculpa para encher a cara e falar algumas verdades para algum tio chato que só aparece nessa época do ano.
O tempo passa e a gente muda de lugar, de posição e de condição. De afilhada para dinda e vemos o irmão caçula virar o assunto da família pela maneira carinhosa que trata o enteado, certo que um dia ele será um bom pai. E tem o pai que não bebe mais porque tem pressão alta, o primo que no último Natal era um piá mal educado e apareceu com um mulherão a tiracolo, a tia que, finalmente, conseguiu engravidar, os integrantes novos da família, os que não estão porque já se foram, mas permanecem de alguma maneira...
O tempo passa e a gente se dá conta que rituais sempre vão existir, por mais que a gente tente fugir. As coisas mudam, mudamos de lugar, mas a vida, assim como o mundo, gira e gira e gira... Sempre vai chegar pessoas para ocupar o nosso lugar. O Ramon passou a noite toda encantado com o pinheiro da minha mãe... Isso que ele não viu o da bisavó dele, aliás, para o pequeno Ramon, ela será só um nome na árvore genealógica da família. Ele nunca vai ver o que eu considero o pinheiro mais lindo do mundo, queria que ele visse, ficaria tão encantado como eu já fiquei um dia.
Tuesday, December 13, 2011
Salvadores
Existem algumas pessoas que nos salvam e acredito que a maioria nem saibam disso. Meus amigos, não sei quantas vezes, já me salvaram. As pessoas não tem noção de como, às vezes, uma palavra é importante e nos faz mudar tudo.
Pode nem ser pessoas tão amigas, são conhecidos, são parentes distantes, são os que chegam na hora certa, no lugar certo e nos fazem continuar. Eu coleciono salvadores, sem eles, há tempos não estaria aqui.
Tem duas pessoas que conheci há pouco tempo. Uma mora em Porto Alegre, a outra, em Caxias do Sul. Uma é advogada, a outra, jornalista. Uma foi para o Beto Carrero comigo, a outra para Rio de Janeiro. Uma é solteira, a outra, casada. Ambas, já me salvaram.
O que me levou até o Beto Carrero, não foi meu afilhado, ele ficaria bem, indo com meu irmão e sua namorada. Mas tinha a minha colega do serviço novo, que mal conhecia, que tinha escutado uma conversa no telefone e disse: “posso ir junto, adoro uma indiada?” Ela foi e não só cuidou do meu afilhado, como cuidou de mim também e em nenhum momento me fez perguntas.
E quantas vezes eu chamei minha, até então colega, no MSN para dizer que eu não iria para o Rio. Que ela fosse sozinha, que conseguiria se virar, que eu não seria uma boa companhia, que eu estava me matando... Uns três dias antes, me disse que se eu não tivesse topado em ir, provavelmente ela também não iria. Percebi que apesar de nunca ter visto aquela moça, eu não poderia não ir. Eu que me matasse depois.
O primeiro abraço que eu dei nela, quando nos encontramos no aeroporto, não foi de “muito prazer”, foi de “muito obrigada”. E essa moça linda, uma verdadeira alemoa de Caxias, me salvou todos os dias. Foi por causa de uma conversa, lá em cima do Pão de Açúcar, que eu decidi levar minha vontade a sério e pensar, seriamente, em me mudar para o Rio.
Como disse antes, meus amigos me salvam muitas vezes. Porém, essas duas almas livres e generosas, já me conheceram num momento crítico e não saíram correndo quando se depararam com as minhas fraquezas. Então, tenho que ficar aqui, para quem sabe um dia, salvá-las também.
Pode nem ser pessoas tão amigas, são conhecidos, são parentes distantes, são os que chegam na hora certa, no lugar certo e nos fazem continuar. Eu coleciono salvadores, sem eles, há tempos não estaria aqui.
Tem duas pessoas que conheci há pouco tempo. Uma mora em Porto Alegre, a outra, em Caxias do Sul. Uma é advogada, a outra, jornalista. Uma foi para o Beto Carrero comigo, a outra para Rio de Janeiro. Uma é solteira, a outra, casada. Ambas, já me salvaram.
O que me levou até o Beto Carrero, não foi meu afilhado, ele ficaria bem, indo com meu irmão e sua namorada. Mas tinha a minha colega do serviço novo, que mal conhecia, que tinha escutado uma conversa no telefone e disse: “posso ir junto, adoro uma indiada?” Ela foi e não só cuidou do meu afilhado, como cuidou de mim também e em nenhum momento me fez perguntas.
E quantas vezes eu chamei minha, até então colega, no MSN para dizer que eu não iria para o Rio. Que ela fosse sozinha, que conseguiria se virar, que eu não seria uma boa companhia, que eu estava me matando... Uns três dias antes, me disse que se eu não tivesse topado em ir, provavelmente ela também não iria. Percebi que apesar de nunca ter visto aquela moça, eu não poderia não ir. Eu que me matasse depois.
O primeiro abraço que eu dei nela, quando nos encontramos no aeroporto, não foi de “muito prazer”, foi de “muito obrigada”. E essa moça linda, uma verdadeira alemoa de Caxias, me salvou todos os dias. Foi por causa de uma conversa, lá em cima do Pão de Açúcar, que eu decidi levar minha vontade a sério e pensar, seriamente, em me mudar para o Rio.
Como disse antes, meus amigos me salvam muitas vezes. Porém, essas duas almas livres e generosas, já me conheceram num momento crítico e não saíram correndo quando se depararam com as minhas fraquezas. Então, tenho que ficar aqui, para quem sabe um dia, salvá-las também.
Sunday, November 27, 2011
A sensibilidade que faz a diferença
Penso que é a sensibilidade que torna as pessoas mais, ou menos, humanas. No dicionário, essa característica é definida como a “capacidade de sentir”. Entenderam? Bingo!
Particularmente, eu prefiro fazer tratamento psiquiátrico para o resto da vida, porque caio em queda livre quando quem eu amo me rejeita, porque fico imensamente mal quando algum amigo me magoa, porque fico revoltada quando vejo algo que não me agrada, do que deixar de sentir qualquer coisa, simples ou complexa que a vida me ofereça.
Parece que os sensíveis sofrem mais, mas não. Não é questão de sofrimento, é questão de sentir e a nossa condição humana, nos permite não passar imune ao que nos toca.
Duas das palestras mais bacanas do curso do NPC não foram de Doutores em Comunicação, mas de pessoas com uma sensibilidade para a vida extremamente aguçada: o MC Fiell e o Marcelo Yuka.
Ambos, por não serem profissionais em comunicação, realizaram uma fala mais pessoal, relatando suas experiências. E foram nesses relatos, de um cara que escreveu um livro e criou uma rádio comunitária no morro da Santa Marta, do cara que tava no auge do sucesso quando por acidente, levou nove tiros e ficou paraplégico, que notamos a sensibilidade deles.
Para mim, claro que o mundo precisa de saúde, educação e segurança, mas como idealista que sou, desejo e defendo a sensibilidade no mundo. Só assim, nossos desejos serão de coração e as mudanças serão sólidas pois terão em seus alicerces, valores nobres.
Particularmente, eu prefiro fazer tratamento psiquiátrico para o resto da vida, porque caio em queda livre quando quem eu amo me rejeita, porque fico imensamente mal quando algum amigo me magoa, porque fico revoltada quando vejo algo que não me agrada, do que deixar de sentir qualquer coisa, simples ou complexa que a vida me ofereça.
Parece que os sensíveis sofrem mais, mas não. Não é questão de sofrimento, é questão de sentir e a nossa condição humana, nos permite não passar imune ao que nos toca.
Duas das palestras mais bacanas do curso do NPC não foram de Doutores em Comunicação, mas de pessoas com uma sensibilidade para a vida extremamente aguçada: o MC Fiell e o Marcelo Yuka.
Ambos, por não serem profissionais em comunicação, realizaram uma fala mais pessoal, relatando suas experiências. E foram nesses relatos, de um cara que escreveu um livro e criou uma rádio comunitária no morro da Santa Marta, do cara que tava no auge do sucesso quando por acidente, levou nove tiros e ficou paraplégico, que notamos a sensibilidade deles.
Para mim, claro que o mundo precisa de saúde, educação e segurança, mas como idealista que sou, desejo e defendo a sensibilidade no mundo. Só assim, nossos desejos serão de coração e as mudanças serão sólidas pois terão em seus alicerces, valores nobres.
Peixe dentro da água
A semana do dia 14 ao dia 20 foi totalmente atípica e infinitamente, boa. Reuniu três coisas que amo: viagens, jornalismo e dança.
No início da semana, estava em São Paulo participando do 12º Festival Internacional das Escolas Luxor de Dança do Ventre. São três dias de workshops com bailarinos do mundo todo e na noite, tem apresentação de bandas árabes e de bailarinos brasileiros e internacionais.
O fantástico disso tudo é não se sentir um peixe fora da água, como normalmente acontece quando se gosta de algo que tem um mercado bastante restrito e que é, geralmente, deturpado. É ridícula e revoltante a reação de algumas pessoas quando falo que faço dança do ventre.
E são nesses eventos que encontramos pessoas que nos entendem. E ali que podemos falar de arabesquis, pliês, básico egípcio, mayas e robôs com a certeza de que seremos entendidas. E quando nos damos conta que o que leva as centenas de mulheres para este curso, é apenas o amor pela dança. Porque não é pela dor no corpo no final, os calos em baixo do pé, o chulé insuportável da sapatilha ou o mau jeito no músculo que resolveu incomodar que dançamos.
Diante da satisfação de acertar o passo e de se manter dentro do ritmo, as bobagens que a gente escuta se tornam tão pequenas e fora da realidade, que dá pena dessas pessoas que veem dançarinas do ventre como odaliscas, pois não imaginam o universo imensamente rico que estão perdendo.
E terminei a semana no curso 17º curso anual do Núcleo Piratininga da Comunicação: “Comunicação e hegemonia num mundo em ebulição”, no Rio de Janeiro. Durante os cinco dias do evento, tínhamos o dia cheio de debates interessantíssimos, com profissionais das mais diversas áreas.
Além de ter sido uma baita experiência para a minha carreira, pois eu nunca havia participado desse curso, foi também para a minha vida, a começar pela companhia e a certeza de que voltei do Rio com uma grande amiga.
Novamente, o mais incrível são as pessoas como a gente que estavam participando do curso. Uma vez, quando fazia a monografia da minha pós, que abordou a manipulação da mídia referente aos assuntos dos movimentos sociais, ouvi de um jornalista que havia estudado comigo na faculdade, se eu sabia que o tal trabalho significava que eu sempre trabalharia numa imprensa marginal.
Sim, eu sabia. E não, não me arrependo. Lá no curso, só tinha jornalistas de uma imprensa marginal e é muito bom saber que apesar de sermos poucos, estamos por todos os lugares do Brasil, lutando como se pode, fazendo milagres para conseguir uma notinha num grande jornal e o melhor, com a certeza de que se está do lado certo.
Eu sempre me senti um peixe fora da água, por inúmeros motivos. Talvez considere essa semana tão especial porque conheci um monte de pessoas que também são peixes fora da água, só que desta vez, estávamos compartilhando um lindo e comum aquário.
“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrário: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda”. Caio Fernando Abreu
No início da semana, estava em São Paulo participando do 12º Festival Internacional das Escolas Luxor de Dança do Ventre. São três dias de workshops com bailarinos do mundo todo e na noite, tem apresentação de bandas árabes e de bailarinos brasileiros e internacionais.
O fantástico disso tudo é não se sentir um peixe fora da água, como normalmente acontece quando se gosta de algo que tem um mercado bastante restrito e que é, geralmente, deturpado. É ridícula e revoltante a reação de algumas pessoas quando falo que faço dança do ventre.
E são nesses eventos que encontramos pessoas que nos entendem. E ali que podemos falar de arabesquis, pliês, básico egípcio, mayas e robôs com a certeza de que seremos entendidas. E quando nos damos conta que o que leva as centenas de mulheres para este curso, é apenas o amor pela dança. Porque não é pela dor no corpo no final, os calos em baixo do pé, o chulé insuportável da sapatilha ou o mau jeito no músculo que resolveu incomodar que dançamos.
Diante da satisfação de acertar o passo e de se manter dentro do ritmo, as bobagens que a gente escuta se tornam tão pequenas e fora da realidade, que dá pena dessas pessoas que veem dançarinas do ventre como odaliscas, pois não imaginam o universo imensamente rico que estão perdendo.
E terminei a semana no curso 17º curso anual do Núcleo Piratininga da Comunicação: “Comunicação e hegemonia num mundo em ebulição”, no Rio de Janeiro. Durante os cinco dias do evento, tínhamos o dia cheio de debates interessantíssimos, com profissionais das mais diversas áreas.
Além de ter sido uma baita experiência para a minha carreira, pois eu nunca havia participado desse curso, foi também para a minha vida, a começar pela companhia e a certeza de que voltei do Rio com uma grande amiga.
Novamente, o mais incrível são as pessoas como a gente que estavam participando do curso. Uma vez, quando fazia a monografia da minha pós, que abordou a manipulação da mídia referente aos assuntos dos movimentos sociais, ouvi de um jornalista que havia estudado comigo na faculdade, se eu sabia que o tal trabalho significava que eu sempre trabalharia numa imprensa marginal.
Sim, eu sabia. E não, não me arrependo. Lá no curso, só tinha jornalistas de uma imprensa marginal e é muito bom saber que apesar de sermos poucos, estamos por todos os lugares do Brasil, lutando como se pode, fazendo milagres para conseguir uma notinha num grande jornal e o melhor, com a certeza de que se está do lado certo.
Eu sempre me senti um peixe fora da água, por inúmeros motivos. Talvez considere essa semana tão especial porque conheci um monte de pessoas que também são peixes fora da água, só que desta vez, estávamos compartilhando um lindo e comum aquário.
“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrário: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda”. Caio Fernando Abreu
Tuesday, November 15, 2011
A necessidade de ter um hobby
Passei o final de semana no 12º Festival Internacional da Escola Luxor de Dança do Ventre, o maior evento desse tipo de dança no Brasil, são três dias de shows e cursos com dançarinos internacionais. Custou caro, mas é um investimento que vale a pena.
Não sou, nem vou ser dançarina profissional. Mas ter um hobby e investir nisso abrange muito a nossa qualidade de vida. Há dias eu não conseguia me focar em algo a ponto de deixar de pensar nos problemas e, por algumas horas consegui.
Todo mundo deveria ter um hobby. Tenho um tio que é artesão e passou a vida toda inventando arte, um trabalho criativo, sem chefes e horários a cumprir que permitiu criar as minhas primas. Mas quer ouvir ele falar de um assunto por horas com a impolgação de uma criança é falar de jardinagem.
Ele compra livros sobre o assunto, entende qual é o melhor tipo de terra e adubo para determinado tipo de planta. Aliás o jardim a casa dele é praticamente um pomar que está sempre florido.
A minha professora de dança do ventre passou os três dias do Festival mais preocupada com os tecidos que ela tinha comprado na 25 de março do que com os cursos. Depois da dança, o que ela mais gosta de fazer é costurar, principalmente com Pacthwork.
Não pretendo viver só da dança e, nem gostaria. Meu tio não vai virar jardineiro e nem minha professora, costureira. Mas é bom fazer algo, por mais que leve tempo e custe caro, pra gente mesmo. Há um prazer inexplicável em se dedicar a algo por puro prazer e um desejo irresistível e duvidoso de um dia largar tudo e viver só desse prazer.
Não sou, nem vou ser dançarina profissional. Mas ter um hobby e investir nisso abrange muito a nossa qualidade de vida. Há dias eu não conseguia me focar em algo a ponto de deixar de pensar nos problemas e, por algumas horas consegui.
Todo mundo deveria ter um hobby. Tenho um tio que é artesão e passou a vida toda inventando arte, um trabalho criativo, sem chefes e horários a cumprir que permitiu criar as minhas primas. Mas quer ouvir ele falar de um assunto por horas com a impolgação de uma criança é falar de jardinagem.
Ele compra livros sobre o assunto, entende qual é o melhor tipo de terra e adubo para determinado tipo de planta. Aliás o jardim a casa dele é praticamente um pomar que está sempre florido.
A minha professora de dança do ventre passou os três dias do Festival mais preocupada com os tecidos que ela tinha comprado na 25 de março do que com os cursos. Depois da dança, o que ela mais gosta de fazer é costurar, principalmente com Pacthwork.
Não pretendo viver só da dança e, nem gostaria. Meu tio não vai virar jardineiro e nem minha professora, costureira. Mas é bom fazer algo, por mais que leve tempo e custe caro, pra gente mesmo. Há um prazer inexplicável em se dedicar a algo por puro prazer e um desejo irresistível e duvidoso de um dia largar tudo e viver só desse prazer.
Wednesday, November 09, 2011
Saco!
Para ler ao som de “Ouro de Tolo” de Raul Seixas
Não é nada fácil ser eu. Assim, como imagino, não deva ser nada fácil ser você. Todo mundo tem perrengue, conta para pagar e dor de barriga na rua, quando não há nenhum banheiro por perto. E mesmo com tudo isso, a gente segue se equilibrando no abismo assustador entre o que a vida é e o que gostaríamos que ela fosse.
Cansa. Dói. Machuca. Viver é tão tedioso como um filme em plano sequência, um dia a gente sucumbe e deixa de achar graça na desgraça, ficamos mais chatos, mas compreendemos que certas inocências tem que serem perdidas.
Raul já dizia “mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado... eu acho tudo isso um saco!” Tenho escutado muito essa música e gritado bem alto (porque eu não sei cantar) que eu acho tudo isso um saco.
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
Mas ouro de tolos que somos, a gente sabe que quando olhamos no retrovisor, encontramos algumas boas histórias pra contar. Até que foi divertido e às vezes chegamos a pensar que a vida era uma comédia pastelão que passa na sessão da tarde. Há meia dúzia de pessoas que sentiremos saudade e que em diversos momentos nos despertaram o desejo de ser melhores, porque essas pessoas mereciam que fossemos melhores. Mas não somos.
O problema é que nada disso facilita a minha vida. Eu continuo achando tudo isso um saco! E você? É um saco pra você também?
Não é nada fácil ser eu. Assim, como imagino, não deva ser nada fácil ser você. Todo mundo tem perrengue, conta para pagar e dor de barriga na rua, quando não há nenhum banheiro por perto. E mesmo com tudo isso, a gente segue se equilibrando no abismo assustador entre o que a vida é e o que gostaríamos que ela fosse.
Cansa. Dói. Machuca. Viver é tão tedioso como um filme em plano sequência, um dia a gente sucumbe e deixa de achar graça na desgraça, ficamos mais chatos, mas compreendemos que certas inocências tem que serem perdidas.
Raul já dizia “mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado... eu acho tudo isso um saco!” Tenho escutado muito essa música e gritado bem alto (porque eu não sei cantar) que eu acho tudo isso um saco.
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
EU ACHO TUDO ISSO UM SACO!!!!
Mas ouro de tolos que somos, a gente sabe que quando olhamos no retrovisor, encontramos algumas boas histórias pra contar. Até que foi divertido e às vezes chegamos a pensar que a vida era uma comédia pastelão que passa na sessão da tarde. Há meia dúzia de pessoas que sentiremos saudade e que em diversos momentos nos despertaram o desejo de ser melhores, porque essas pessoas mereciam que fossemos melhores. Mas não somos.
O problema é que nada disso facilita a minha vida. Eu continuo achando tudo isso um saco! E você? É um saco pra você também?
Friday, November 04, 2011
O show que eu não fui
Foi o fim do mundo, quando aos 12 anos, não fui no show do Skank na Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo. Fiquei pra morrer, um ano depois, quando meus primos não me levaram num show do Planet Hemp, na praia. Com 19, tive minha primeira crise de pânico, minutos antes do The Calling subir no palco, me levaram para enfermaria e eu perdi o show. Ano passado, foi necessário nem pensar em ir ver o Paul McCartney, todas as minhas economias estavam direcionadas para a viagem à Europa.
Esta noite, eu deveria ter ido no show do Hanson. Fui no show deles há 11 anos atrás, no Gigantinho, em Porto Alegre. Foi meu primeiro show sozinha, acordei de madrugada e me plantei do lado da cama dos meus pais. Apesar de ter sido meu primeiro show sozinha, meu pai e meu irmão me acompanharam na fila e depois da apresentação já ter começado, compraram dois ingressos por R$ 10,00 de um cambista e assistiram tudo da arquibancada.
Depois disso, perdi a conta de quantos shows fui sozinha, mas é deste que lembro com mais carinho, porque além das lembranças daquele dia de outubro de 2000, o Hanson me rendeu uma amiga: a Mérilin Mereza. Há mais de uma década somos amigonas, mas só nos conhecemos mês passado. Começamos trocando cartas (as fotos que tirou do show queimaram e ela colocou um anúncio no jornal), mas como acompanhamos a evolução do mundo, passamos para e-mail, MSN, orkut, facebook...
Ela é uma das amigas mais presentes que tenho, acompanhamos (mesmo de longe) muitas mudanças nesses anos todos. Nós conhecemos mês passado, na Casa de Nazaré, onde nós duas estamos trabalhando e foi como tinha de ser, como reencontrar uma velha amiga. Combinamos de ir no show do Hanson hoje, mas eu não fui, e nem vou tentar resgatar o dinheiro do ingresso, vou guardar de recordação. Não foi o fim do mundo não ter ido, porque realmente não teria condições de agüentar um show com a crise de sinusite que eu estou.
Quanto ao Hanson, não são mais minha banda preferida, mas ainda escuto os dois CDs que tenho deles, o primeiro Middle Of Nowhere, que tem o sucesso MMMBop e o segundo e ótimo, This Time Around. Quando estou triste, sempre ponho para tocar A Song to Sing e sinceramente, preferia ter continuado apaixonada pelo Zac Hanson, teria sido mais seguro.
Seria muito bom ter ido com a Mérilin no show do Hanson. Seria simbólico! Mas como o destino não falha, daqui alguns anos eles voltam e nos vamos. Por enquanto, vou mandar um email pra ela me enviar as fotos do show. Afinal, amigas são pra isso.
Esta noite, eu deveria ter ido no show do Hanson. Fui no show deles há 11 anos atrás, no Gigantinho, em Porto Alegre. Foi meu primeiro show sozinha, acordei de madrugada e me plantei do lado da cama dos meus pais. Apesar de ter sido meu primeiro show sozinha, meu pai e meu irmão me acompanharam na fila e depois da apresentação já ter começado, compraram dois ingressos por R$ 10,00 de um cambista e assistiram tudo da arquibancada.
Depois disso, perdi a conta de quantos shows fui sozinha, mas é deste que lembro com mais carinho, porque além das lembranças daquele dia de outubro de 2000, o Hanson me rendeu uma amiga: a Mérilin Mereza. Há mais de uma década somos amigonas, mas só nos conhecemos mês passado. Começamos trocando cartas (as fotos que tirou do show queimaram e ela colocou um anúncio no jornal), mas como acompanhamos a evolução do mundo, passamos para e-mail, MSN, orkut, facebook...
Ela é uma das amigas mais presentes que tenho, acompanhamos (mesmo de longe) muitas mudanças nesses anos todos. Nós conhecemos mês passado, na Casa de Nazaré, onde nós duas estamos trabalhando e foi como tinha de ser, como reencontrar uma velha amiga. Combinamos de ir no show do Hanson hoje, mas eu não fui, e nem vou tentar resgatar o dinheiro do ingresso, vou guardar de recordação. Não foi o fim do mundo não ter ido, porque realmente não teria condições de agüentar um show com a crise de sinusite que eu estou.
Quanto ao Hanson, não são mais minha banda preferida, mas ainda escuto os dois CDs que tenho deles, o primeiro Middle Of Nowhere, que tem o sucesso MMMBop e o segundo e ótimo, This Time Around. Quando estou triste, sempre ponho para tocar A Song to Sing e sinceramente, preferia ter continuado apaixonada pelo Zac Hanson, teria sido mais seguro.
Seria muito bom ter ido com a Mérilin no show do Hanson. Seria simbólico! Mas como o destino não falha, daqui alguns anos eles voltam e nos vamos. Por enquanto, vou mandar um email pra ela me enviar as fotos do show. Afinal, amigas são pra isso.
Thursday, November 03, 2011
Fim de tarde
Hoje, depois que cheguei do hospital, fiquei sentada no pátio, curtindo o entardecer e vendo o sol se pôr. Que nem os velhos fazem nos fins de tarde. Vi as vizinhas vindo da caminhada e me lembrei que alguns anos atrás eu chegava do serviço e tinha energia para caminhar... Me tornei uma velha com 26 anos.
Fiquei ali sentada vendo o céu azul acabar no verde das árvores. Estava lendo a biografia da Clarice Lispector. Se um tiver uma filha, ela vai se chamar Maria Helena ou Clarice, por causa da escritora.
Mas eu não terei filhos, nem enteado, nem marido. Nem serei escritora como a Clarice. Como uma velha num fim de tarde, cheguei no fim da linha. Já estive em poços bem fundos, mas nunca um fundo do poço foi tão fundo como este. Se o paraíso existe, o meu terá céu azul e árvores verdes.
Fiquei ali sentada vendo o céu azul acabar no verde das árvores. Estava lendo a biografia da Clarice Lispector. Se um tiver uma filha, ela vai se chamar Maria Helena ou Clarice, por causa da escritora.
Mas eu não terei filhos, nem enteado, nem marido. Nem serei escritora como a Clarice. Como uma velha num fim de tarde, cheguei no fim da linha. Já estive em poços bem fundos, mas nunca um fundo do poço foi tão fundo como este. Se o paraíso existe, o meu terá céu azul e árvores verdes.
Sunday, September 18, 2011
Meia vida
Recentemente, conheci e passei a conviver com algumas pessoas novas. O Juliano de cara me ganhou, é inteligente, querido, piadista, tira sarro dele mesmo. Me chamou a atenção o fato dele reclamar muita da sua profissão, para minha surpresa quando perguntei o motivo de tanta frustração, a resposta foi “ah querida, tive que agradar papai e mamãe e segui a carreira deles.”
E tem mais, ele tem uns quarentas anos, é homossexual e está sempre falando na Paulinha, sua filha. Claro que eu perguntei como é se descobrir gay depois de ter uma família formada e a resposta: “eu sempre soube que era gay, mas antes de assumir, tive que agradar a sociedade.”
Não sei se admiro ou se sinto dó de pessoas assim. E o Juliano não é o único não, aliás, ele faz parte de uma maioria de pessoas que passam a vida agradando os outros e esquecendo de si, sacrificando suas vontades e desejos.
O próprio Juliano tem uma colega no trabalho que também não está feliz com sua profissão. O sonho dela é ser designer de jóias, mas como vai largar um emprego, uma profissão tradicional, um futuro promissor por causa de um desejo. Todo dia, ela chega com colares, brincos, anéis, pulseiras lindíssimas, tudo feito pela própria. E quando alguém a elogia, mais do que vergonha, há culpa na sua voz. Será que o futuro brilhante será permeado por culpa de não ter feito o que se quis?
Nos últimos meses, devido a sentimentos que me mudaram, observei muito as pessoas e infelizmente o discurso de “corra atrás do que você quer, vá ser feliz”, não é a pratica da maioria. Conheço muitas gente assim, pessoas incríveis e que eu amo, mas que vivem pela metade.
Viver não é fácil para ninguém, mas imagino que viver sendo o que não é, deve ser ainda pior. Procuro ser o mais fiel possível a mim e ainda assim, acho a vida uma barra pesadíssima. Tenho uma amiga, de verdade, que diz que sempre pagamos o preço pelas nossas escolhas e pagamos mesmo, mas penso que no final das contas, quem foi verdadeiro ganha um bom desconto.
E tem mais, ele tem uns quarentas anos, é homossexual e está sempre falando na Paulinha, sua filha. Claro que eu perguntei como é se descobrir gay depois de ter uma família formada e a resposta: “eu sempre soube que era gay, mas antes de assumir, tive que agradar a sociedade.”
Não sei se admiro ou se sinto dó de pessoas assim. E o Juliano não é o único não, aliás, ele faz parte de uma maioria de pessoas que passam a vida agradando os outros e esquecendo de si, sacrificando suas vontades e desejos.
O próprio Juliano tem uma colega no trabalho que também não está feliz com sua profissão. O sonho dela é ser designer de jóias, mas como vai largar um emprego, uma profissão tradicional, um futuro promissor por causa de um desejo. Todo dia, ela chega com colares, brincos, anéis, pulseiras lindíssimas, tudo feito pela própria. E quando alguém a elogia, mais do que vergonha, há culpa na sua voz. Será que o futuro brilhante será permeado por culpa de não ter feito o que se quis?
Nos últimos meses, devido a sentimentos que me mudaram, observei muito as pessoas e infelizmente o discurso de “corra atrás do que você quer, vá ser feliz”, não é a pratica da maioria. Conheço muitas gente assim, pessoas incríveis e que eu amo, mas que vivem pela metade.
Viver não é fácil para ninguém, mas imagino que viver sendo o que não é, deve ser ainda pior. Procuro ser o mais fiel possível a mim e ainda assim, acho a vida uma barra pesadíssima. Tenho uma amiga, de verdade, que diz que sempre pagamos o preço pelas nossas escolhas e pagamos mesmo, mas penso que no final das contas, quem foi verdadeiro ganha um bom desconto.
Wednesday, August 31, 2011
Agosto, 31
Então, chegamos no último dia do mês do cachorro louco e ao que tudo indica, sãos e salvos. Sobrevivemos a piora na crise econômica mundial, ao frio gaúcho, as chuvas que pareciam não ter fim, aos desgostos mensais e pessoais, sustos, surpresas e delírios, ao contra cheque (que é o mais louco dos cachorros que nos latem), aos atrasos e desencontros, aos trancos e barrancos, ataques de fúria, euforia e marasmo total. E eu, leonina agostina, sobrevivi a mais um aniversário.
Que venha setembro com a primavera e o sol em libra. E para lembrarmos que nem sempre agosto é assim, tão ruim, deixo um texto do amado Caio Fernando Abreu, publicado em 06 de agosto de 1995, no jornal O Estado, de São Paulo. Porque, afinal, conseguimos fazer essa travessia com sucesso.
Sugestões para atravessar agosto
Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.
Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.
Que venha setembro com a primavera e o sol em libra. E para lembrarmos que nem sempre agosto é assim, tão ruim, deixo um texto do amado Caio Fernando Abreu, publicado em 06 de agosto de 1995, no jornal O Estado, de São Paulo. Porque, afinal, conseguimos fazer essa travessia com sucesso.
Sugestões para atravessar agosto
Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.
Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.
Sunday, August 21, 2011
Aninha
De todas as minhas amigas, a Ana é a mais diferente de mim, sempre foi. Nos conhecemos no nosso primeiro emprego, na prefeitura de São Leopoldo. Ela estava terminando o ensino médio e queria fazer engenharia. Eu estava no primeiro semestre de jornalismo e com 17 anos, não tirava meus all stars e raramente sai a noite, quer dizer, minha balada era ir no bar BR3, onde podia ir com camiseta de banda e tênis. Enquanto a Ana, aos 16 já se equilibrava em cima de salto fino, adorava uma balada e tinha identidade falsa para poder entrar aonde quisesse.
Hoje, ela mora em Curitiba, está no último semestre de engenharia e namora o mesmo cara que ela estava ficando na primeira vez que fui visitá-la. Entre a prefeitura e a capital do Paraná muita coisa aconteceu. Fomos em festas, shows, cinemas, MC Donalds, caminhávamos nas tardes de domingo, íamos de ônibus para o shopping de Novo Hamburgo, de trem para o shopping de Canoas, mudamos de emprego, nos encontrávamos na universidade, enfrentamos uma viagem de ônibus num 29 de dezembro para passar o réveillon na Ilha do Mel.
Vi a Aninha passar no vestibular, entrar na UFRGS, brigar com o pai, reclamar dos irmãos e bêbada algumas vezes. Ela também foi testemunha de muitas coisas na minha vida e esteve comigo num dos piores momentos da minha vida, quando me afundei na primeira crise de depressão que tive, aos 19 anos. A Ana poderia ser só uma colega de trabalho ou uma parceira para festas, mas acabou sendo a única das minhas amigas que esteve do meu lado quando eu, com certeza, não era a pessoa mais animada do mundo.
Desde que ela foi embora, algumas coisas mudaram, ela emagreceu e aprendeu a gostar de malhar, eu me formei e aprendi a gostar de sair de noite. Na última sexta, saímos para beber (ela veio visitar os irmãos em Porto Alegre), falamos do futuro, dos nossos trabalhos, da formatura dela e do passado. Pela primeira vez, ela me viu um pouco bêbada e lá pelas tantas, me perguntou “tu lembra que tu foi a primeira pessoa a falar comigo lá na prefeitura?”
Eu lembro, claro que lembro, até da roupa que ela usava. Eu estava na sala do lado e volta e meia olhava para aquela menina gordinha que seria minha nova colega e que, erroneamente, chamávamos de “espiã”, até que não aguentei e pensei que deveria ir lá dar as boas vindas para ela. E fui.
Tuesday, August 16, 2011
Nostalgia: de Meia Noite em Paris a Smurfs
Semanas atrás, assisti "Meia Noite em Paris" do Woody Allen. No filme, o roteirista Gil (Owen Wilson) é um cara nostálgico. E de tanto desejar viver em épocas passadas é transportado para a era do ouro parisiense e passa a conviver com o francês Jean Cocteau, ouvir Cole Porter tocar piano e bater altos papos com Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, T.S. Eliot e outros que ele admira.
Sim, eu gostei do filme. O que mais me chamou atenção foi a nostalgia, para mim ela é a personagem principal. Mais do que voltar no tempo, quem nunca desejou viver em outra época? Woody Allen tem insights fantásticos sobre o inevitável vazio que a nostalgia gera. Para ele, não vale a pena idealizar o passado porque a vida é ruim assim mesmo, não importa a época.
Para mim, esta nostalgia vem do fato de não termos a capacidade de assimilar a contemporaneidade. Inseridos num contexto, não conseguimos enxergá-lo por completo, simples assim. Por exemplo, minha geração, usuária de Facebook, Twitter, Orkut e afins, não tem noção do quanto o surgimento dessas ferramentas vai significar no futuro. Talvez muitos dos nossos filhos e netos vão desejar viver na época dos primeiros usuários de redes sociais.
Essa semana, fui assistir “Smurfs” e o cinema estava lotado de adultos que, como eu, acordavam cedo na década de 80 só para não perder o desenho.
Sim, eu gostei do filme. Como toda obra de algo que já existe há muito tempo, o filme é cheio de referências à cultura contemporânea, de Kate Perry a Obama. E faz questão de explicar para quem, por um acaso, descobrir os anõezinhos azuis agora, que eles foram criados pelo Peyo, na década de 50.
Os dois são filmes inteligentes. Se é em Smurfs que se espera a maior dose de fantasia, é em um filme do Woody Allen que alguém entra num carro e é transportado ao passado. Se é em Meia Noite em Paris que esperamos lições de morais sobre vida, é numa animação que encontramos críticas a sociedade e a inversão de valores que vivemos.
Em ambos, saímos nos perguntando se “dá para voltar no tempo”? Não precisa ser para descobrir que a Era de Ouro era uma merda para quem estava lá, já está bom assistir Smurfs todo dia.
Sim, eu gostei do filme. O que mais me chamou atenção foi a nostalgia, para mim ela é a personagem principal. Mais do que voltar no tempo, quem nunca desejou viver em outra época? Woody Allen tem insights fantásticos sobre o inevitável vazio que a nostalgia gera. Para ele, não vale a pena idealizar o passado porque a vida é ruim assim mesmo, não importa a época.
Para mim, esta nostalgia vem do fato de não termos a capacidade de assimilar a contemporaneidade. Inseridos num contexto, não conseguimos enxergá-lo por completo, simples assim. Por exemplo, minha geração, usuária de Facebook, Twitter, Orkut e afins, não tem noção do quanto o surgimento dessas ferramentas vai significar no futuro. Talvez muitos dos nossos filhos e netos vão desejar viver na época dos primeiros usuários de redes sociais.
Essa semana, fui assistir “Smurfs” e o cinema estava lotado de adultos que, como eu, acordavam cedo na década de 80 só para não perder o desenho.
Sim, eu gostei do filme. Como toda obra de algo que já existe há muito tempo, o filme é cheio de referências à cultura contemporânea, de Kate Perry a Obama. E faz questão de explicar para quem, por um acaso, descobrir os anõezinhos azuis agora, que eles foram criados pelo Peyo, na década de 50.
Os dois são filmes inteligentes. Se é em Smurfs que se espera a maior dose de fantasia, é em um filme do Woody Allen que alguém entra num carro e é transportado ao passado. Se é em Meia Noite em Paris que esperamos lições de morais sobre vida, é numa animação que encontramos críticas a sociedade e a inversão de valores que vivemos.
Em ambos, saímos nos perguntando se “dá para voltar no tempo”? Não precisa ser para descobrir que a Era de Ouro era uma merda para quem estava lá, já está bom assistir Smurfs todo dia.
Monday, August 08, 2011
Feliz idade
Foi por pouco, por muito pouco. Mas cheguei aos 26, de todas as minhas idades, sem dúvida essa foi a que esteve mais a perigo. O último ano foi deverás difícil. Sou uma sobrevivente. Sobrevivi a uma saudade que, de fato, não me matou, mas me endureceu muito. E, por outro lado, me tornou muito mais sensível à vida.
Sei que no céu, por trás de toda essas nuvens cinzas, lá no infinito do universo, o Sol e Vênus estão em conjunção em Leão, o que pressagia um bom para quem aniversaria durante essa semana. Deixei de acreditar em muitas coisas no último ano, mas no universo e em suas andanças invisíveis, eu persisto crendo.
Não quero e nem gosto de festas, aliás, continuo achando o dia do nosso aniversário extremamente triste. Mas há um ano novinho na minha frente e ainda bem, aniversário é só um dia.
Também não vou pedir nada, mas desejo sim, dias melhores. Dias de mais amor e menos saudade. Dias de mais presença e menos ausência. Dias de mais leveza e menos dores. Dias de mais choros bobos de alegria do que choros desesperados de angústia. Dias de mais vida!
Sei que no céu, por trás de toda essas nuvens cinzas, lá no infinito do universo, o Sol e Vênus estão em conjunção em Leão, o que pressagia um bom para quem aniversaria durante essa semana. Deixei de acreditar em muitas coisas no último ano, mas no universo e em suas andanças invisíveis, eu persisto crendo.
Não quero e nem gosto de festas, aliás, continuo achando o dia do nosso aniversário extremamente triste. Mas há um ano novinho na minha frente e ainda bem, aniversário é só um dia.
Também não vou pedir nada, mas desejo sim, dias melhores. Dias de mais amor e menos saudade. Dias de mais presença e menos ausência. Dias de mais leveza e menos dores. Dias de mais choros bobos de alegria do que choros desesperados de angústia. Dias de mais vida!
Sunday, August 07, 2011
D.R.
Eu já escrevi muito para o senhor, não é? Só que essa é a última. Você perdeu minha confiança e minha fé. Eu também perdi, pode acreditar. O fato é que, por enquanto, nossa relação acabou. Não acredito mais em ti. De verdade, gostaria de acreditar, mas não rola mais, minha crença é tão falsa como uma nota de dois reais.
Não se preocupa, não vou cair no lugar comum de te culpar e pensar que “Deus quis assim”, “Deus sabe o que faz” e “se Deus quiser”... Você é uma perfeita desculpa esfarrapada para as pessoas justificarem suas vidas medíocres. Não quero isso para mim, se caso me der conta da vida medíocre que levo quero ter a grandeza de saber que foi tudo por mim causa, minha única e máxima culpa. Não vou meter mais nada no teu cú.
Essa noção de que agora é tudo por minha conta e risco me concede uma liberdade incrível e também, uma responsabilidade assustadora. Afinal sempre vivi debaixo da tua asa e agora não tenho mais ninguém para justificar minhas escolhas erradas, minhas pisadas na bola e afins...
Conheço algumas pessoas que vivem muito bem sem você. Tenho pensado muito nelas, pois, como todo mundo, preciso de exemplos bem sucedidos. E são pessoas felizes, inteligentes e com uma fé absurda nelas mesmas. Penso que você, se é que existe, no fundo deve se orgulhar muito de nos, que conseguimos a carta de alforria de Deus, afinal somos uma preocupação a menos.
Bom querido, é isso. Por enquanto, é melhor cada um no seu canto. Um dia, talvez, num futuro distante, se você estiver afim e eu também, a gente pode tomar um chopp por aí e discutir a relação.
Não se preocupa, não vou cair no lugar comum de te culpar e pensar que “Deus quis assim”, “Deus sabe o que faz” e “se Deus quiser”... Você é uma perfeita desculpa esfarrapada para as pessoas justificarem suas vidas medíocres. Não quero isso para mim, se caso me der conta da vida medíocre que levo quero ter a grandeza de saber que foi tudo por mim causa, minha única e máxima culpa. Não vou meter mais nada no teu cú.
Essa noção de que agora é tudo por minha conta e risco me concede uma liberdade incrível e também, uma responsabilidade assustadora. Afinal sempre vivi debaixo da tua asa e agora não tenho mais ninguém para justificar minhas escolhas erradas, minhas pisadas na bola e afins...
Conheço algumas pessoas que vivem muito bem sem você. Tenho pensado muito nelas, pois, como todo mundo, preciso de exemplos bem sucedidos. E são pessoas felizes, inteligentes e com uma fé absurda nelas mesmas. Penso que você, se é que existe, no fundo deve se orgulhar muito de nos, que conseguimos a carta de alforria de Deus, afinal somos uma preocupação a menos.
Bom querido, é isso. Por enquanto, é melhor cada um no seu canto. Um dia, talvez, num futuro distante, se você estiver afim e eu também, a gente pode tomar um chopp por aí e discutir a relação.
Tuesday, August 02, 2011
Sobre guarda chuvas e outras coisas que se perdem
Para ler ouvindo "O Que Se Perde Enquanto Os Olhos Piscam", do Teatro Mágico
Quantos guarda chuvas a gente perde ao longo da vida? E para onde vão esses objetos? Por que imaginem a quantidade de sombrinhas e guarda chuvas que, de uma hora para outra, se vêem longe das mãos de seus donos. Deve haver um lugar no paraíso só para eles, assim como um céu só para cachorros.
Ou será que eles acabam evoluindo e viram guarda sóis coloridos? Bem melhor proteger crianças, mulheres branquelas e velhinhos do sol do que passar a vida sendo esquecido por aí. Guarda chuva quando não é perdido, comete suicídio quebrando haste por haste... Vida longa não são com eles.
E as canetas que desaparecem dentro da minha bolsa? Colocar uma caneta na bolsa e praticamente tocá-la no lixo, com a diferença que eu fico me achando uma louca, porque claro que tinha uma caneta dentro da minha bolsa! E quando eu preciso dela, ela some... Certos objetos adoram nos fazer de bobos.
Mas nada, nada se compara a um livro que lia no trem. Foi o sumiço mais estranho que já presenciei, porque ele estava, obviamente, em minhas mãos, até que o celular tocou. Um aparelho que nunca levava comigo e que nunca havia tocado antes. Mas tocou e estava na bolsa, que estava no meu colo. Enquanto ouvia uma das vozes que mais amo me fazendo uma proposta totalmente inesperada, gaguejei, o coração acelerou, a pressão oscilou e o livro sumiu.
Sim, eu consegui perder um livro dentro de um trem lotado. A última lembrança que tenho dele é que antes de sumir, apertou meu dedão, enquanto se fechava e ia na direção da minha bolsa. Mas ele foi embora, não ouvi nenhum barulho dele caindo. Meu livro sumiu, simples assim. Ainda bem que era um livro de crônicas, já pensou se eu ficasse sem saber o final da história?
Seja lá aonde vão os objetos perdidos, na área destinada a mim, tem várias sombrinhas, muitas canetas e um livro, que reina absoluto e volta e meia me faz questionar minha sanidade. Inclusive, vou discutir isso com o meu psiquiatra na próxima sessão.
Quantos guarda chuvas a gente perde ao longo da vida? E para onde vão esses objetos? Por que imaginem a quantidade de sombrinhas e guarda chuvas que, de uma hora para outra, se vêem longe das mãos de seus donos. Deve haver um lugar no paraíso só para eles, assim como um céu só para cachorros.
Ou será que eles acabam evoluindo e viram guarda sóis coloridos? Bem melhor proteger crianças, mulheres branquelas e velhinhos do sol do que passar a vida sendo esquecido por aí. Guarda chuva quando não é perdido, comete suicídio quebrando haste por haste... Vida longa não são com eles.
E as canetas que desaparecem dentro da minha bolsa? Colocar uma caneta na bolsa e praticamente tocá-la no lixo, com a diferença que eu fico me achando uma louca, porque claro que tinha uma caneta dentro da minha bolsa! E quando eu preciso dela, ela some... Certos objetos adoram nos fazer de bobos.
Mas nada, nada se compara a um livro que lia no trem. Foi o sumiço mais estranho que já presenciei, porque ele estava, obviamente, em minhas mãos, até que o celular tocou. Um aparelho que nunca levava comigo e que nunca havia tocado antes. Mas tocou e estava na bolsa, que estava no meu colo. Enquanto ouvia uma das vozes que mais amo me fazendo uma proposta totalmente inesperada, gaguejei, o coração acelerou, a pressão oscilou e o livro sumiu.
Sim, eu consegui perder um livro dentro de um trem lotado. A última lembrança que tenho dele é que antes de sumir, apertou meu dedão, enquanto se fechava e ia na direção da minha bolsa. Mas ele foi embora, não ouvi nenhum barulho dele caindo. Meu livro sumiu, simples assim. Ainda bem que era um livro de crônicas, já pensou se eu ficasse sem saber o final da história?
Seja lá aonde vão os objetos perdidos, na área destinada a mim, tem várias sombrinhas, muitas canetas e um livro, que reina absoluto e volta e meia me faz questionar minha sanidade. Inclusive, vou discutir isso com o meu psiquiatra na próxima sessão.
Monday, August 01, 2011
Sob o sol de Leão*
Neste exato momento há uma conspiração favorável no universo. Favorável a tudo e a todos que sejam de bem e do bem. O Sol está em Leão, assim como Vênus e a Lua, que se fazendo Nova, dá coragem para que novos e necessários ciclos sejam começados. E Mercúrio, o mestre da comunicação, do intelecto, o mensageiro entre os mundos, está na sua casa, Virgem.
Essa conjunção é boa para nos, leoninos, que fazemos a festa desde o final de julho, para os virginianos que não sofrerão tanto com o inferno astral e para todos, de maneira geral, pois seremos menos atingidos pelas angústias agostianas.
É bom um céu assim, especialmente, na primeira semana de agosto, esse lendário mês de desgostos e cachorros loucos. Que esse céu tão solar, tão leonino, traga enfim, as boas novas, para aquietar meu coração que tem Vênus em Câncer e, portanto, não sabe lidar com o final das coisas e tem um medo danado de novos começos.
Que a conspiração astral amenize minha ansiedade Libriana e que esse meu ascendente não exerça o seu domínio, tão fortemente, sobre mim. Como eu não vou enlouquecer considerando todos os “e se...” e os “mas e se...” que a vida me oferece? Acreditem, minha Lua em Touro nada ajuda nessa hora.
Que o dia 8, com toda a sua forma de infinito e seus círculos contínuos (que nascem, morrem e renascem) me façam perceber que estamos quase no final do ano. Depois de Leão, só temos que esperar Virgem passar para que a Balança e os sedutores librianos nos tragam as flores e o clima primaveril. Quem sabe aí a gente entenda o favorável universo do hoje e colheremos os frutos. Que serão saborosos.
*Inspirado em Zero grau de Libra, de Caio Fernando Abreu
Essa conjunção é boa para nos, leoninos, que fazemos a festa desde o final de julho, para os virginianos que não sofrerão tanto com o inferno astral e para todos, de maneira geral, pois seremos menos atingidos pelas angústias agostianas.
É bom um céu assim, especialmente, na primeira semana de agosto, esse lendário mês de desgostos e cachorros loucos. Que esse céu tão solar, tão leonino, traga enfim, as boas novas, para aquietar meu coração que tem Vênus em Câncer e, portanto, não sabe lidar com o final das coisas e tem um medo danado de novos começos.
Que a conspiração astral amenize minha ansiedade Libriana e que esse meu ascendente não exerça o seu domínio, tão fortemente, sobre mim. Como eu não vou enlouquecer considerando todos os “e se...” e os “mas e se...” que a vida me oferece? Acreditem, minha Lua em Touro nada ajuda nessa hora.
Que o dia 8, com toda a sua forma de infinito e seus círculos contínuos (que nascem, morrem e renascem) me façam perceber que estamos quase no final do ano. Depois de Leão, só temos que esperar Virgem passar para que a Balança e os sedutores librianos nos tragam as flores e o clima primaveril. Quem sabe aí a gente entenda o favorável universo do hoje e colheremos os frutos. Que serão saborosos.
*Inspirado em Zero grau de Libra, de Caio Fernando Abreu
Monday, July 25, 2011
Sinais
Na estação aeroporto do trensurb entram dois rapazes. O trem está lotado, mas eles param perto de mim. Pela maneira como se tocam e pela cumplicidade que há em seus olhares, imagino que são namorados.
Um deles, o mais falante, ostenta uma pele bronzeada e tem na mochila a etiqueta de uma agência de viagem. O outro é mais quieto e não trás nenhuma bagagem, apenas um copo de milkshake do Bob’s vazio. Chovia muito, estamos todos um pouco molhados.
Na estação Niterói, a gente consegue sentar, eles num banco de frente para mim. O moreno olha para tudo com uma curiosidade de quem está em um lugar pela primeira vez, o outro tem um ar preocupado como se perguntasse “será que ele está gostando?”
Enquanto olho os pingos de chuva na janela, começo a pensar nos meus amigos gays e percebo que aquele casal é um sinal. Um sinal de vida, de que devemos ter esperança, de que as coisas vão dar certo.
O celular do “turista” toca e eu escuto um pouco da conversa: “sim, cheguei bem. Tá frio, bastante frio, mas o Giovani disse que esses dias estava congelante. Sim, sim estamos indo para a casa dele, vou passar para ele...”
Pergunto da onde ele é, me responde com um sorriso que é do Rio de Janeiro, o que explica aquele tom de pele lindo. Então, passo a ter certeza de que é um sinal. Num fim de tarde chuvoso, há um carioca sentado na minha frente, num trem lotado. Um carioca, como o homem que amo. E outro, chamando Giovani. É um sinal, eu sei que é. É a vida subjetiva me mandando mensagens subliminares.
Conversamos um pouco. Quando vou descer, eles olham para mim e me desejam “todo o amor do mundo”. Sim, agora não há dúvida, é um aviso de que tudo dará certo e que eu terei sim, todo o amor do mundo.
Um deles, o mais falante, ostenta uma pele bronzeada e tem na mochila a etiqueta de uma agência de viagem. O outro é mais quieto e não trás nenhuma bagagem, apenas um copo de milkshake do Bob’s vazio. Chovia muito, estamos todos um pouco molhados.
Na estação Niterói, a gente consegue sentar, eles num banco de frente para mim. O moreno olha para tudo com uma curiosidade de quem está em um lugar pela primeira vez, o outro tem um ar preocupado como se perguntasse “será que ele está gostando?”
Enquanto olho os pingos de chuva na janela, começo a pensar nos meus amigos gays e percebo que aquele casal é um sinal. Um sinal de vida, de que devemos ter esperança, de que as coisas vão dar certo.
O celular do “turista” toca e eu escuto um pouco da conversa: “sim, cheguei bem. Tá frio, bastante frio, mas o Giovani disse que esses dias estava congelante. Sim, sim estamos indo para a casa dele, vou passar para ele...”
Pergunto da onde ele é, me responde com um sorriso que é do Rio de Janeiro, o que explica aquele tom de pele lindo. Então, passo a ter certeza de que é um sinal. Num fim de tarde chuvoso, há um carioca sentado na minha frente, num trem lotado. Um carioca, como o homem que amo. E outro, chamando Giovani. É um sinal, eu sei que é. É a vida subjetiva me mandando mensagens subliminares.
Conversamos um pouco. Quando vou descer, eles olham para mim e me desejam “todo o amor do mundo”. Sim, agora não há dúvida, é um aviso de que tudo dará certo e que eu terei sim, todo o amor do mundo.
Wednesday, July 20, 2011
Enchendo os pulmões de ar
Medo. Estou com medo, apavorada na verdade. A vida está se encaminhando para algo que quero muito, mas com essa possibilidade veio, também, um medo danado.
De perder o controle antes da hora, de ter a faca e o queijo na mão e acabar me cortando ou pior, de deixar o queijo mofar. De me sabotar, de achar que não mereço tanto e jogar tudo fora. Sim, porque a maioria das pessoas abre mão de ser feliz, a maioria não tem a consciência de que merecemos ser felizes.
Existe um ditado árabe que diz: "quando Deus quer enlouquecer alguém, ele realiza todos os seus desejos". Então, estou há um passo da loucura, logo eu, que até Deus estou contestando. Mas se tudo der certo, vou me tornar a pessoa mais crédula do mundo e passarei meus dias louvando o senhor e, só isso, já será uma loucura total.
Não vou negar que esse medo dos últimos dias tem feito eu me sentir viva e penso que isso é bom. Sentir a adrenalina correndo pelo corpo, o coração acelerado... Preciso dar longas respiradas, enchendo bem os pulmões de ar, para conseguir realizar as tarefas banais do dia.
Me sinto em cima de um prédio bem alto, pronta pra me atirar na feliz adrenalina da loucura plena de viver um desejo realizado. Porém, se Deus realmente não existir ou não estiver disposto a se divertir comigo enlouquecida, desta vez, a queda vai ser fatal.
"E de pensar nisso tudo, eu, homem feito. Tive medo e não consegui dormir..." Legião Urbana
De perder o controle antes da hora, de ter a faca e o queijo na mão e acabar me cortando ou pior, de deixar o queijo mofar. De me sabotar, de achar que não mereço tanto e jogar tudo fora. Sim, porque a maioria das pessoas abre mão de ser feliz, a maioria não tem a consciência de que merecemos ser felizes.
Existe um ditado árabe que diz: "quando Deus quer enlouquecer alguém, ele realiza todos os seus desejos". Então, estou há um passo da loucura, logo eu, que até Deus estou contestando. Mas se tudo der certo, vou me tornar a pessoa mais crédula do mundo e passarei meus dias louvando o senhor e, só isso, já será uma loucura total.
Não vou negar que esse medo dos últimos dias tem feito eu me sentir viva e penso que isso é bom. Sentir a adrenalina correndo pelo corpo, o coração acelerado... Preciso dar longas respiradas, enchendo bem os pulmões de ar, para conseguir realizar as tarefas banais do dia.
Me sinto em cima de um prédio bem alto, pronta pra me atirar na feliz adrenalina da loucura plena de viver um desejo realizado. Porém, se Deus realmente não existir ou não estiver disposto a se divertir comigo enlouquecida, desta vez, a queda vai ser fatal.
"E de pensar nisso tudo, eu, homem feito. Tive medo e não consegui dormir..." Legião Urbana
Friday, July 15, 2011
Dá pra voltar no tempo?
Tenho uma memória de elefante, sou capaz de reviver dias inteiros que já aconteceram, sei as datas e até horas. Por exemplo, recordo o dia 15 de junho de 1992, o dia que minha avó morreu, como se fosse ontem. Quando minha mãe foi fazer minha matrícula na primeira série e me levou junto para me mostrar a escola. Quando soube que tinha passado no vestibular e resolvi ir pra casa a pé, de tão feliz que estava. O dia da minha formatura, a missa da minha formatura, minha chegada em Barcelona, a noite que capotei de carro.
Claro que isso são coisas marcantes, mas tem as banais, os dias comuns que deixam suas digitais na eternidade. O dia que o tio Roni trocou de carro e levou todos os sobrinhos para tomar sorvete, ainda sinto a força dos meus dedos no banco quando ele falava: “gurizada, vou ligar o turbo!”
Uma noite na praia, caçando vagalumes com meu irmão. Uma brincadeira de esconde esconde na casa dos meus avós, que acabou porque uma prima pulou a janela do quarto e sujou toda a cama da vó, de barro. A bagunça na hora do almoço com os tios e primos de Florioanópolis, nas férias de inverno de 1994. Um luau na Guarda do Embaú, em 2004. Uma tarde na faculdade editando o programa de Tele II. Depois de anos, a subida até o Cristo Redentor, em 2009, (Gi, eu estava emocionadíssima!) O porre na festa do Congresso da CUT-RS. Coisas assim...
Acordo e penso: “bah hoje é 06 de fevereiro, em 1993 estava em Tramandaí e de noite eu ficaria deslumbrada diante de vagalumes dentro de um copo”. É assim, as coisas vem na garupa do elefante que é minha memória.
Agora são 15h30 e há um ano, em 15 de julho de 2010, eu estava feliz, muito feliz. Há essa hora estava saindo do trabalho, já tinha participado de uma reunião de funcionários da CUT e ido comprar TNT amarelo para a amiga Juliana colocar na mesa do chá de casa nova dela, que foi no final daquela tarde. Estava indo para um hotel no centro de Porto, onde encontraria o homem que amo.
Eu veria ele chegar, lindo. Iria para o chá da minha amiga com a Gi, arrumaríamos as mesas com a Ju, depois a Gi me ajudaria a ver quais salgadinhos não tinham carne. No início da noite, voltaria e sairíamos para beber. Lembro que enquanto a gente caminhava até um bar, pensava “não acredito que ele está aqui, comigo”. Ele me observou colocando as luvas e me disse: “tu é a segunda pessoa que conheço que usa luvas sem tirar os anéis.” E a gente riu. Eu estava feliz, ele parecia feliz.
Essa não foi a última vez que nos vimos, mas foi a última em que parecíamos felizes. É clichê se eu falar que se soubesse disso, teria abraçado mais, beijado mais? Eu morro de saudade dele, todos os dias eu morro um pouco e me supero muito.
Mas hoje, eu acordei com aquele desejo impossível de voltar no tempo de verdade e não através dessas lembranças tão próximas, tão densas e até palpáveis. Por favor máquina dos filmes da sessão da tarde, me leve de volta! Eu tenho pouco tempo para que esse milagre aconteça! Daqui um pouquinho, lá pelas 16h20, verei ele descendo do carro e estarei de novo no melhor lugar do mundo: os braços dele.
Claro que isso são coisas marcantes, mas tem as banais, os dias comuns que deixam suas digitais na eternidade. O dia que o tio Roni trocou de carro e levou todos os sobrinhos para tomar sorvete, ainda sinto a força dos meus dedos no banco quando ele falava: “gurizada, vou ligar o turbo!”
Uma noite na praia, caçando vagalumes com meu irmão. Uma brincadeira de esconde esconde na casa dos meus avós, que acabou porque uma prima pulou a janela do quarto e sujou toda a cama da vó, de barro. A bagunça na hora do almoço com os tios e primos de Florioanópolis, nas férias de inverno de 1994. Um luau na Guarda do Embaú, em 2004. Uma tarde na faculdade editando o programa de Tele II. Depois de anos, a subida até o Cristo Redentor, em 2009, (Gi, eu estava emocionadíssima!) O porre na festa do Congresso da CUT-RS. Coisas assim...
Acordo e penso: “bah hoje é 06 de fevereiro, em 1993 estava em Tramandaí e de noite eu ficaria deslumbrada diante de vagalumes dentro de um copo”. É assim, as coisas vem na garupa do elefante que é minha memória.
Agora são 15h30 e há um ano, em 15 de julho de 2010, eu estava feliz, muito feliz. Há essa hora estava saindo do trabalho, já tinha participado de uma reunião de funcionários da CUT e ido comprar TNT amarelo para a amiga Juliana colocar na mesa do chá de casa nova dela, que foi no final daquela tarde. Estava indo para um hotel no centro de Porto, onde encontraria o homem que amo.
Eu veria ele chegar, lindo. Iria para o chá da minha amiga com a Gi, arrumaríamos as mesas com a Ju, depois a Gi me ajudaria a ver quais salgadinhos não tinham carne. No início da noite, voltaria e sairíamos para beber. Lembro que enquanto a gente caminhava até um bar, pensava “não acredito que ele está aqui, comigo”. Ele me observou colocando as luvas e me disse: “tu é a segunda pessoa que conheço que usa luvas sem tirar os anéis.” E a gente riu. Eu estava feliz, ele parecia feliz.
Essa não foi a última vez que nos vimos, mas foi a última em que parecíamos felizes. É clichê se eu falar que se soubesse disso, teria abraçado mais, beijado mais? Eu morro de saudade dele, todos os dias eu morro um pouco e me supero muito.
Mas hoje, eu acordei com aquele desejo impossível de voltar no tempo de verdade e não através dessas lembranças tão próximas, tão densas e até palpáveis. Por favor máquina dos filmes da sessão da tarde, me leve de volta! Eu tenho pouco tempo para que esse milagre aconteça! Daqui um pouquinho, lá pelas 16h20, verei ele descendo do carro e estarei de novo no melhor lugar do mundo: os braços dele.
Assinale a justificativa correta
Eu ando de saco cheio de tudo, o que não é nenhuma novidade. Incrível é estar tranqüila porque sei que é o meu inferno astral. Daqui uns dias, assim que o sol ingressar em Leão, vai passar.
Caso no próximo mês, eu continue assim, não esquecem que agosto é o mês do cachorro louco, que a bruxa anda solta e todas as coisas que ouvimos a vida toda da cultura popular, acabam influenciando no nosso comportamento.
Com certeza, em setembro, com a chegada da primavera, tudo ficar mais ameno. Se bem que o pólen das flores solto no ar dá alergia e as pessoas acabam ficando meio de saco cheio até com a estação mais bonita do ano.
Mas assim eu vou e o tempo vai passando, busco desculpas esfarrapadas pra enfrentar a dor. Um dia quando eu me der conta, já terá passado muitos anos, muitos infernos astrais, agostos e primaveras. E eu terei sobrevivido.
E muito provavelmente não terei achado a justificativa correta para estar quase sempre de saco cheio. Minha vida está longe de ser monótona e tenho consciência da grandiosidade desse mistério que é a vida. Muito das minhas dores se devem ao fato de eu não querer e não achar normal viver uma vida pela metade. Ando tão de saco cheio porque viver me dói muito.
Caso no próximo mês, eu continue assim, não esquecem que agosto é o mês do cachorro louco, que a bruxa anda solta e todas as coisas que ouvimos a vida toda da cultura popular, acabam influenciando no nosso comportamento.
Com certeza, em setembro, com a chegada da primavera, tudo ficar mais ameno. Se bem que o pólen das flores solto no ar dá alergia e as pessoas acabam ficando meio de saco cheio até com a estação mais bonita do ano.
Mas assim eu vou e o tempo vai passando, busco desculpas esfarrapadas pra enfrentar a dor. Um dia quando eu me der conta, já terá passado muitos anos, muitos infernos astrais, agostos e primaveras. E eu terei sobrevivido.
E muito provavelmente não terei achado a justificativa correta para estar quase sempre de saco cheio. Minha vida está longe de ser monótona e tenho consciência da grandiosidade desse mistério que é a vida. Muito das minhas dores se devem ao fato de eu não querer e não achar normal viver uma vida pela metade. Ando tão de saco cheio porque viver me dói muito.
Wednesday, July 13, 2011
Casa de Nazaré
Há uns 10 anos atrás eu fazia trabalho voluntário com crianças, era um projeto da escola que estudava. Eu fazia o que mais gostava: ler. Eu lia histórias para crianças que ainda não estavam alfabetizadas e era o máximo. Lia de tudo, de Monteiro Lobato a Anne Frank, até o Mito da Caverna, do Platão eu li e acreditem, aquelas crianças de 5 e 6 anos entendiam muito bem.
Mas foram por alguns meses apenas e logo entrei na faculdade, porém nunca esqueci como me sentia bem com elas. E pensei muito nisso enquanto estive na Europa, não sei se porque estava totalmente sozinha ou porque me dava conta que eu poderia viajar pra qualquer lugar, eu não esqueceria certas coisas e nem deixaria sentimentos de lado. Então acreditava que quando voltasse, tinha que fazer coisas que me fizessem bem.
Eu pensei muito nisso, que conviver com crianças me faria bem. Na minha última semana lá fora, recebi um email de um ex chefe que dizia mais ou menos assim: “Quando tu volta? Tu vai voltar né? Me avisa, tem um lugar que quero que tu conheça, acho que tu vai gostar.” Uma semana depois que cheguei no Brasil, fui conhecer esse lugar, a Casa de Nazaré – Centro de Apoio ao Menor. Na outra semana comecei a trabalhar lá. É longe, na vila Nossa Senhora das Graças, no bairro Cristal, mas é incrível.
Quando esse amigo me enviou o email, a intenção era ver se eu topava fazer algum trabalho voluntário na entidade, só que nesse meio tempo, o funcionário que cuidava da administração do site da Casa saiu. Então, me tornei assessora de comunicação da Casa de Nazaré. Faço uma das poucas coisas que sei fazer e o melhor, rodeada de crianças.
A Casa de Nazaré atende mais de 500 crianças e jovens por dia. Há turmas de berçário, maternal e jardim, além das turmas de trabalho educativo que são para as crianças em idade escolar, que freqüentam a entidade no contra turno e os projetos sociais para os jovens de 12 a 16 anos, como teatro, violão, informática...
Há muito trabalho e pouca estrutura, mas é incrível saber que lá na ponta os beneficiados serão essas pessoas. Quase sempre almoço lá e outro dia ouvi de uma menina de 4 anos que “tem que comer repolho porque faz bem para pele”. Por mais que não esteja contando histórias para essas crianças, estou convivendo com elas, com centenas delas. E isso me faz um bem danado.
Eu que ando tão descrente de tudo, volto a ter esperança no ser humano, me faz acreditar que com tanta gente boa no mundo, é impossível as coisas não darem certo. Trabalhar lá não me faz esquecer da vida, muito pelo contrário, a realidade vem como um soco no estômago todos os dias.
Quando ouço uma criança falar, com a maior naturalidade, que o pai está preso e a mãe foi comprar crack. Quando entra uma educadora na minha sala perguntando se eu vou entrar na vaquinha para comprar um tênis para uma criança que apareceu de chinelo e meia, num dia que fazia 5ºC. Ou quando uma grávida de 13 anos me pergunta quantos filhos eu tenho e me olha horrorizada com a resposta negativa, porque essa é única realidade que ela conhece.
Não faço trabalho voluntário, sou funcionária e ganho por isso, embora quando fale para as pessoas o valor do meu salário, ouça gargalhadas e quase sempre a sentença: “isso é trabalho voluntário”. Mas eu ganho essa esperança que disse acima, quando entro no refeitório e tem dezenas de carinhas lindas, com a boca suja de feijão, me sorrindo. Tem alguns que entram na minha sala para me entregar um desenho, na maioria das vezes é eu que estou desenhada e quase sempre, não me reconheço. Quando a gente perde a fé, são gestos assim que nos sustentam.
Eles não entendem o que faz uma assessora de imprensa, me chamam de tia, de profe, de sora, de Rê ou de ingrata (graças ao Latino). Eles também não entendem porque eu trabalho na sala da direção (o rapaz que cuidava do site era instrutor de informática). Devo ser uma grande incógnita para eles e para muita gente que acha absurdo eu acordar de madrugada, pegar trem e ônibus para trabalhar numa creche. Mas com certeza, a maior beneficiada nessa história toda, sou eu.
“Eu fico com a pureza da resposta das crianças”- Gonzaguinha
Mas foram por alguns meses apenas e logo entrei na faculdade, porém nunca esqueci como me sentia bem com elas. E pensei muito nisso enquanto estive na Europa, não sei se porque estava totalmente sozinha ou porque me dava conta que eu poderia viajar pra qualquer lugar, eu não esqueceria certas coisas e nem deixaria sentimentos de lado. Então acreditava que quando voltasse, tinha que fazer coisas que me fizessem bem.
Eu pensei muito nisso, que conviver com crianças me faria bem. Na minha última semana lá fora, recebi um email de um ex chefe que dizia mais ou menos assim: “Quando tu volta? Tu vai voltar né? Me avisa, tem um lugar que quero que tu conheça, acho que tu vai gostar.” Uma semana depois que cheguei no Brasil, fui conhecer esse lugar, a Casa de Nazaré – Centro de Apoio ao Menor. Na outra semana comecei a trabalhar lá. É longe, na vila Nossa Senhora das Graças, no bairro Cristal, mas é incrível.
Quando esse amigo me enviou o email, a intenção era ver se eu topava fazer algum trabalho voluntário na entidade, só que nesse meio tempo, o funcionário que cuidava da administração do site da Casa saiu. Então, me tornei assessora de comunicação da Casa de Nazaré. Faço uma das poucas coisas que sei fazer e o melhor, rodeada de crianças.
A Casa de Nazaré atende mais de 500 crianças e jovens por dia. Há turmas de berçário, maternal e jardim, além das turmas de trabalho educativo que são para as crianças em idade escolar, que freqüentam a entidade no contra turno e os projetos sociais para os jovens de 12 a 16 anos, como teatro, violão, informática...
Há muito trabalho e pouca estrutura, mas é incrível saber que lá na ponta os beneficiados serão essas pessoas. Quase sempre almoço lá e outro dia ouvi de uma menina de 4 anos que “tem que comer repolho porque faz bem para pele”. Por mais que não esteja contando histórias para essas crianças, estou convivendo com elas, com centenas delas. E isso me faz um bem danado.
Eu que ando tão descrente de tudo, volto a ter esperança no ser humano, me faz acreditar que com tanta gente boa no mundo, é impossível as coisas não darem certo. Trabalhar lá não me faz esquecer da vida, muito pelo contrário, a realidade vem como um soco no estômago todos os dias.
Quando ouço uma criança falar, com a maior naturalidade, que o pai está preso e a mãe foi comprar crack. Quando entra uma educadora na minha sala perguntando se eu vou entrar na vaquinha para comprar um tênis para uma criança que apareceu de chinelo e meia, num dia que fazia 5ºC. Ou quando uma grávida de 13 anos me pergunta quantos filhos eu tenho e me olha horrorizada com a resposta negativa, porque essa é única realidade que ela conhece.
Não faço trabalho voluntário, sou funcionária e ganho por isso, embora quando fale para as pessoas o valor do meu salário, ouça gargalhadas e quase sempre a sentença: “isso é trabalho voluntário”. Mas eu ganho essa esperança que disse acima, quando entro no refeitório e tem dezenas de carinhas lindas, com a boca suja de feijão, me sorrindo. Tem alguns que entram na minha sala para me entregar um desenho, na maioria das vezes é eu que estou desenhada e quase sempre, não me reconheço. Quando a gente perde a fé, são gestos assim que nos sustentam.
Eles não entendem o que faz uma assessora de imprensa, me chamam de tia, de profe, de sora, de Rê ou de ingrata (graças ao Latino). Eles também não entendem porque eu trabalho na sala da direção (o rapaz que cuidava do site era instrutor de informática). Devo ser uma grande incógnita para eles e para muita gente que acha absurdo eu acordar de madrugada, pegar trem e ônibus para trabalhar numa creche. Mas com certeza, a maior beneficiada nessa história toda, sou eu.
“Eu fico com a pureza da resposta das crianças”- Gonzaguinha
Friday, July 08, 2011
Seguindo a canção
Eu estou tentando com todas as minhas forças mas, às vezes, viver me exige tanto esforço. E daí se meus problemas por causa de um coração partido são ínfimos perto de problemas mundiais como fome, violência e miséria? São meus problemas! E muitas vezes não me deixam dormir e continuar caminhando e cantando e seguindo a canção.
Acredito que eu querer ficar bem e buscar objetivos para continuar já é uma grande coisa, mesmo tendo abandonado a terapia e jogado os remédios o lixo. Cansei de tomar droga liberada e com receita, para ser feliz. Como diz minha mãe, a gente tem que caminhar com as próprias pernas, e estou fazendo isso. Vou tropeçando, reclamando, chorando, mas vivendo, no final das contas.
Estou me focando, mais do que nunca, em juntar grana para comprar um apartamento ano que vem. É um plano bem real e aceitável, o que mostra a minha maturidade. A infantilidade vem quando eu penso que preciso de um apartamento com dois quartos e me pego pensando como vou mobiliar esse quarto que será para o enteado lindo e fofo que um dia eu vou ter.
Boa parte de mim sabe que isso é uma ilusão. Mas é justamente a parte iludida que me faz querer continuar, viver e ficar bem. Porque quando ele voltar e ele vai voltar, vai me encontrar melhor do que eu era. Sim, é só por ele que eu sigo ensaiando a canção de todo dia.
Acredito que eu querer ficar bem e buscar objetivos para continuar já é uma grande coisa, mesmo tendo abandonado a terapia e jogado os remédios o lixo. Cansei de tomar droga liberada e com receita, para ser feliz. Como diz minha mãe, a gente tem que caminhar com as próprias pernas, e estou fazendo isso. Vou tropeçando, reclamando, chorando, mas vivendo, no final das contas.
Estou me focando, mais do que nunca, em juntar grana para comprar um apartamento ano que vem. É um plano bem real e aceitável, o que mostra a minha maturidade. A infantilidade vem quando eu penso que preciso de um apartamento com dois quartos e me pego pensando como vou mobiliar esse quarto que será para o enteado lindo e fofo que um dia eu vou ter.
Boa parte de mim sabe que isso é uma ilusão. Mas é justamente a parte iludida que me faz querer continuar, viver e ficar bem. Porque quando ele voltar e ele vai voltar, vai me encontrar melhor do que eu era. Sim, é só por ele que eu sigo ensaiando a canção de todo dia.
Subscribe to:
Posts (Atom)




