Friday, April 01, 2011

Partindo

Depois de um mês em Barcelona, amanhã, bem cedo parto para Paris. Claro que foi uma experiência impar e já estou com saudades desta cidade extremamente cultural, de tomar uma cerveja na Plaza Catalunya e do céu azul.

Nesse tempo, às vezes tão curto e noutras, tão lento, conheci pessoas do mundo todo. Me perdi no bairro Gótico. Tive uma professora que sonha em morar em Porto Alegre. Esqueci a chave do apartamento e tive que esperar duas horas até que alguém chegasse. Traduzi a música “Se” do Djavan para um americano. Emagreci dois quilos.

Fui para Valência. Estive em muitos museus. Tomei cerveja com uma eslovena. Comi Tapas com um chinês. Morei num apartamento. Conheci brasileiros. Fui para Granada. Peguei o ônibus errado. Desci na estação certa depois de três erradas. Me chamaram de “guapa”. Me apelidaram de “La italina”.

Assisti a um show de flamenco. Tomei Sangria. Fui no cinema. Peguei chuva, muita chuva. Aprendi a gostar de Kiwi. Comi muito pão e pouco doce. Chorei no telefone, de saudade e lendo emails. Estranhei o fuso horário. Me atrasei. Não entendi o que a professora falou. Fiquei muito mal ao ver um colega japonês chorando porque toda a sua cidade foi destuída com o terremoto.

Tive pneumonia, tosse e muita febre. Fiquei dois dias de cama. Fui no hospital. Discuti com o médico. Fiz aulas particulares. Teve dias, que o que mais queria era ver alguém conhecido. Almocei torta de batata. Viajei de noite, cheguei de manhã e dormi um dia inteiro. Aprendi algumas palavras de catalão. Dei muita risada com uma colega árabe. Fui no cinema com uma alemã. Quase fui atropelada. Me perdi do guia numa excursão. Não aprendi a alugar as bicis. Fui elogiada na aula.

Falei com um grego na Sagrada Família. Visitei a casa de uma russa. Comprei livros em espanhol. Estudei. Matei aula. Senti raiva. Comprei uma camiseta do Barça. Pedi informação. Dormi até mais tarde. Conheci um artesão árabe que adora o Brasil. Uma alemã que viveu anos na Guatemala. Acordei super cedo. Procurei por novelas brasileira na TV. Quis voltar para o Brasil. Quis morar aqui muitos anos. Quero vim para Barcelona muitas vezes.

São Jorge

O nosso conhecido São Jorge, o santo guerreiro, é padroeiro da região de Catalunya. É possível ver a influencia dele em muitos locais de Barcelona, das obras do Gaudí aos prédios do governo. Além disso, há uma lenda muito bonita aqui sobre o “Sant Jordi”

A lenda conta que um feroz dragão tinha aterrorizados aos habitantes do reino, queimava os bosques, comia ao granado, destroçava os cultivos... Decidiu-se então que tinha que dar fim a essa ânsia destruidora e negociaram um acordo com o bicho guloso.

O pacto consistia que todos os dias entregariam ao dragão uma pessoa para saciar o apetite do monstro. Assim estiveram um tempo e pouco a pouco o reino se foi ficando com poucas pessoas. Para que não tivesse problemas, a vítima era escolhida através de uma eleição.

Um dia, foi a filha do rei quem deveria ser entregada ao dragão. Contra a vontade do rei, deixaram a princesa no lugar combinado e todo o povoado acompanhou o dragão chegando. Quando ele estava pronto para come-lá, um cavalheiro, montado num cavalo branco, atacou ao dragão. Esse guerreiro era São Jorge, que protegia a biblioteca do rei.

Brigaram por um longo momento e num dos lances do combate, São Jorge, fincou sua lança no ventre do dragão, matando-o no ato. Da ferida produzida no monstro, emanava muito sangue que quando entrou em contato com o solo, se converteu em rosas. São Jorge pegou uma daquelas fabulosas rosas e presenteou à princesa, aos gritos de alegria do povo.


Como no Brasil, 23 de abril é comemorado o dia de São Jorge, porém aquí é tradição, os homens presenteiam uma rosa as mulheres que lhe são importantes e elas, dão livros a eles.

Há muitas referências ao santo e à essa lenda na cidade de Barcelona, até mesmo na bandeira da Catalunya, que é vermelha e amarela. Contam que São Jorge, ainda com as mãos sujas de sangue, as passou em uma parede amarela, formando listras vermelhas, originando assim a bandeira da Catalunya.

Lendas à parte, eu adoraria que se celebrassem o dia de São Jorge assim no Brasil e com certeza ainda vou passar algum dia 23 de abril aqui em Barcelona.

Thursday, March 31, 2011

El Raval

De todos os bairros de Barcelona, sem dúvida o meu preferido é o El Raval, por toda a história e o que representa para a cidade. Além de ser do lado do bairro que eu vivo e quase todos os dias, passo por ali.

El Raval é um dos bairros mais antigos de Barcelona. Quando a cidade era cercada por muralhas medievais, que protegiam os nobres, os pobres chegavam e se instalavam ao lado dessas muralhas, foi isso que deu origem a esse bairro, que ainda hoje tem uma má fama na cidade.

Num de seus limites está a famosa La Rambla, ou seja, o bairro é muito bem localizado. Nasce na beira do porto e se estende até o prédio da Universidade de Barcelona, na Gran Via, uma das principais avenidas da cidade. Os nativos dividem esse bairro em três, o mal, o que está em processo de revitalização e o bom El Raval.

Esse sempre foi um lugar de prostituição e de fácil acesso às drogas, principalmente perto do porto. É possível enxergar marcas de sapatos nas paredes do início das Ramblas, que são marcas dos calçados com salto usados pelas prostitutas, ao longo de muitos anos, que se escoravam nesses prédios, que existem desde a época das muralhas.

Ainda se vê muitas garotas de programa e traficantes nas ruas próximas ao porto, esse é o El Raval mal, que nenhum cidadão aconselha um turista a conhecer.

A área de revitalização é o centro do bairro, que liga a parte boa e a má. Nessa região foi construída a Rambla de El Raval e é onde está um dos gatos do artista Fernando Botero. Há nas sacadas dos prédios, faixas escritas em catalão com frases do tipo: “somos um bairro digno” e “dignidade para El Raval”.

Mais ou menos nessa altura, porém com frente para a Rambla de Catalunya, está o mercado “La Boquería”, que o mercado público da cidade e um ponto turítico
superconhecido.

Atualmente, o bairro continua sendo morada de muitos imigrantes que chegam em Barcelona e eles se localizam, na sua maioria, nessa faixa do El Raval. Nas suas ruas podem ver-se comércios de todas as nacionalidades, tanto que durante muitos anos, foi popularmente conhecido como o Bairro Chinês. Porém, nos últimos anos, por causa da grande população paquistanesa, é chamado também Ravalkistão.

Na parte alta do El Raval, próximo à Gran Via, há uma das maiores concentrações de jovens, por causa dos prédios de diversos cursos da Univesidade de Barcelona, que estão situados no bairro, além da biblioteca pública.

Uma das faculdades está instalada no prédio que foi um hospital na época da Barcelona com muralhas e ele foi construído ali, porque os nobres não queriam doentes dentro de suas muralhas, sobrou então para El Raval.

O lindo Museu de Arte Contemporâneo de Barcelona também está nesse bairro. O MACB é um prédio de quatro andares, todo branco, que contrasta com todas as cores ao seu redor.

No El Raval bom, há muitos bares e restaurantes e, na minha opinião, as melhores lojas da cidade, são muitos os estabelecimentos de música, livrarias e lojas alternativas. Numa das ruazinhas do bairro está o conhecido bar “Ovelha Negra”, reduto de estudantes universitários e turistas, que leva esse nome por causa de sua localização.

As pessoas da Catalunya tem o hábito de preservar a história do lugar onde vivem, seja ela boa ou má. Há muitas tentativas para que essa história não seja esquecida. No final do bairro de El Raval, há no prédio que é o Centro de Cultura, uma parede toda espelhada, mais alta que sobe além do prédio e no final faz uma curva, como se fosse um arco partido no meio.

Com esses espelhos, de uma certa altura da praça que tem em frente, é possível enxergar todo o bairro de El Raval, até o mar. Essa é a maneira das pessoas que passam por ali não se esquecerem da história marginalizada que sempre teve esse local, do seu incrível poder de transformação e da importância que sempre teve para Barcelona.

Wednesday, March 30, 2011

Quando será que passa

Hoje você me doeu muito, demais da conta. Estou sempre pensando em você, mas já estou tão acostumada com a dor de não de ter, que nem lembro dela.

Estávamos brincando do jogo da garrafa na aula, para treinar o uso pretérito perfeito, até que minha professora perguntou se eu já tinha amado, “mas amar de querer passar o resto da vida junto, com tudo de bom e ruim.”

Por um momento tive vontade de dizer que não, mas ficaria visível que estaria mentira. Disse que sim, e claro que me perguntaram como tinha sido essa experiência e aí não sabia o que falar. Não sei como, me ouvi dizendo que não sabia, pois ainda doía.

Os colegas tentaram me ajudar. O Igor falou que viajar é uma ótima saída para deixar de amar, a Júlia disse que antes de eu me casar, sara. E a professora me garantiu, por experência própria, que sim, um dia passa.

Tem sido assim: às vezes escuto tua voz me falando sobre Barcelona, sinto teu perfume no ar. Quando vou atravessar a rua e para um homem do meu lado, geralmente penso que é você. Vejo um homem com óculos e reparo se o modelo é parecido com os teus, se um fumante segura o cigarro do mesmo jeito... E a dor tá lá, anestesiada.

Mas às vezes, quando acontece alguma coisa ou escuto palavras como amor, saudade, dor... Ela acorda, é como se arrancasem a casquinha da ferida e sangrasse de novo. Hoje eu sangrei muito de dor.

Logo depois desse jogo, a aula acabou. Eu não senti o gosto do sanduíche que almocei, não ouvi uma palavra do que foi falado na aula de cultura e chorei muito enquanto caminhava até o porto de Barcelona.

Gosto muito de passar as tardes no lá, vendo os barcos chegando e partindo, além do mar azul. Hoje fiquei lá até anoitecer e pensando se algum dia eu vou acordar sem que você me doa tanto.

Rumo ao Sul

“Um forasteiro chora duas vezes no sul: quando chega e quando vai embora.” (Bienvenido ao Sur)

Assisti ao filme italiano “Bienvenido ao Sur”, do director Luca Miniero. Infelizmente, penso que vai ser bastante difícil encontrar esse filme no Brasil, porém aqui na Espanha está passando nos cinemas de todo o país, com direito a propaganda em ônibus e tudo.

O filme conta a história de Alberto, um gerente de uma agência dos correos de uma cidade do norte da Itália, que quer conseguir uma tranferência para Milão. Mas acaba sendo mandado para uma cidade no sul do país, para desespero da sua esposa e dele.

Alberto, como todo bom cidadão do norte é cheio de estereótipos dos habitantes do sul, como em todos os países. Ele deve viver sozinho na nova cidade por dois anos, logo que chega acontecem inúmeras confusões por causa do julgamento que faz dos sulistas e vice-versa.

Claro que Alberto acaba gostanto da cidade e se adaptando, até melhor do que esperava. Mas esse filme me fez pensar sobre essa imagem que temos de pessoas de determinados lugares.

Como toda boa gaúcha sou tri bairrista, acredito que tudo no nosso Estado é melhor. Mas acredito, também, que cariocas, goianos, pernanbucanos e paranaenses também pensam que vivem no melhor Estado do Brasil.

Aqui na Espanha, isso não é diferente, cada região se denomina "a melhor". Nas aulas de cultura aprendemos que os sulistas, o povo da Andaluzia são os mais “vagabundos” e festeiros do país, isso porque vivem na praia e lá faz mais calor... Como no Brasil, lugar geográfico é um argumento para se “julgar” quem vive lá.

Ter ido pra Granada me vez perceber essa diferença entre o nordeste e o sul da Espanha. Os sulistas são, realmente, mais falantes e barulhentos. No filme, os Italianos do sul também tem essa fama de festeiros. Já no Brasil, a fama de festeiro não cabe aos gaúchos... Será por causa do nosso litoral sem formas?

Tuesday, March 29, 2011

Granada

Quien no ha visto Granada. No ha visto nada. (Provérbio espanhol)

Passei o último final de semana em Granada, uma pequena cidade universitária no sul da Espanha. Granada tem uma população aproximada de 270.000 e está localizada na Serra Nevada. Além disso, foi uma das primeiras cidades da Europa colonizada por árabes e uma das últimas a ser dominada pelos católicos.

Granada é de fato, uma cidade muito pequena, mas linda. Há muitos bares e restaurantes e padarias e pizzarias e sorveterias e eu comi mais em três dias lá, do que em um mês em Barcelona. Além disso, no sul faz mais calor. Muitas vezes pensei que tinha errado de cidade, quando decidi vir para cá.

O melhor foi ver a influência árabe que estava presente no mercado de artesanato, na arquitetura (inclusive da catedral), na comida... Eu quase enlouqueci com a quantidade de lenços para dança do ventre e CDs de música árabe, turca, marroquina e egípcia. Várias vezes, enquanto caminhava pela cidade foi possível escutar música árabe vindo das lojas.

E havia muitas, mas muitas ciganas nas ruas de Granada. Era impossível chegar em um ponto turístico sem ter que passar por no mínimo, dez delas. Claro que elas queriam ler “la suerte”, mas não se vestiam como no Brasil, num primeiro momento e impossível diferenciar as ciganas das outras mulheres.

Alhambra

Mas o principal motivo que me levou a Granada, além de sua história, foi a Alhambra (que significa "a Vermelha" em árabe.) A Alhambra é um conjunto de construções feita pelos árabes que formavam uma cidade, que deu origem a Granada. Boa parte dos edifícios são de tijolos vermelhos, daí vem seu nome.

Em 1984, a UNESCO declarou a Alhambra como Patrimônio Cultural Mundial, mais do que merecido, pois trata-se de um rico e impressionante complexo, que tem palácios, mesquitas, castelos, fortaleza e jardins, muitos jardins, um mais lindo que o outro.

Claro que a maioria dos elementos que vemos lá são de origem árabe, mas também é possível perceber algumas características essencialmente cristãs, devido as muitas intervenções em edifícios e jardins, ao longo dos séculos.

Eu passei uma tarde na Alhambra e comprei o ingresso, pela internet, duas semanas antes, é muito difícil conseguir entradas para o mesmo dia. Fiquei deslumbrada com os palácios, principalmente os detalhes, as janelas, os pilares todos desenhados, é lindo demais. Fora isso, a Alhambra está construída em cima de uma montanha, de lá é possível ver a cidade e a serra nevada. Sem dúvida, foi um dos lugares mais bonito que já conheci.

Andaluzia

A Andaluzia é a região sul da Espanha que muitos acreditam ser a mais bonita, por cuasa da natureza exuberante. Cidades conhecidas como Granada, Sevilla, Málaga, Cádiz e Córdoba são da Andaluzia. Tradições como o flamenco, a paella e a siesta vem dessa região.

Dizem que o nome provém de Al-Andalus, nome que os muçulmanos davam à Península Ibérica no século VIII. Mas há também outra versão, não oficial, pois na região sempre houve muitos ciganos e quandos eles mudavam de lugar, levavam algumas tochas com fogos para iluminar o caminho, por isso “anda luzes”, que com o tempo se tornou Andaluzia.

Não sei qual versão é a correta, de qualquer forma, isso mostra bem a mistura que é o sul da Espanha, tanto que seu povo é considerado, ao mesmo tempo, o mais bairrista e os mais aberto. Contradições espanholas...

Wednesday, March 23, 2011

Comida, ônibus e outras coisas rotineiras

Tem muita gente me perguntando como é a comida aqui em Barcelona e a vida, em geral no dia a dia. Bom, a comida, tem muita variedade, mas quase tudo com carne ou com jámon, que é o presunto da Espanha. Então para mim, sobram poucas opções. Tem bares que vendem “bocadillo” em todas as esquinas, o bocatillo é o nosso baguete. Um dos mais famosos é o bacatillo de patata, que é pão com recheio de batata.

As tortillas de patatas também são super comuns aqui, que são umas tortas quentes de batata. Além disso, tem as tapas, que nada mais são do que os nossos aperitivos, e tem todos os tipos de tapas que se pode imaginar. Batata frita é uma tapa, por exemplo. E eles comem bastante saladas e frutas, mas tudo com muito óleo e fritura...

Tem inúmeras linhas de metrô e ônibus que cortam a cidade, em todas as paradas ou estações, há uma lista das linhas que passam por ali e os horários. Nas estações, há relógios avisando quantos minutos faltam para o próximo trem. É possível adquirir bilhetes com um número determinado de passagens, que vale tanto para ônibus ou para o metrô. Eu achei super prático, só é difícil se localizar nas estações que tem cruzamento de várias linhas, mas com o tempo fica mais fácil.

Aqui, as motos andam por cima das calçadas. Claro que até eu me dar conta disso, perdi a conta de quantas vezes quase fui atropelada. Mas as calçadas são largas e há espaço para todo mundo, demarcados por listas no chão, em horário de grande movimento, ninguém invade o espaço do outro. Em quase todas as esquinas há uma banca de revistas, que vendem de tudo, de cigarros a gravatas, menos revistas e jornais. A cidade é bastante limpa, incluindo os parques.

Em muitos lugares, por toda a cidade, há os postos de “bicing”, aonde é possível alugar uma bicicleta por algumas horas ou dia. Eu ainda não fiz isso porque não sei como se faz, já li as instruções várias vezes, mas não sei onde compro a tarjeta para pegar a minha bici. Bom, ainda tenho alguns dias para descobrir.

E há também alguns postos que alugam motos, onde teoricamente, qualquer pessoa como eu, que não sabe nem onde se liga uma moto, pode ir lá e alugar uma. As motos são mais fácis, tem uma banquinha onde assinamos um terno de resposabilidade e pegamos a chave da moto.

É isso, quando eu descobrir como se aluga uma bicicleta eu escrevo, caso eu não descubra, pensei em comprar um jogo de chaves de fendas e desaparafusar uma delas, já andei analisando os parafusos... Ou alugo uma moto mesmo.

Tuesday, March 22, 2011

Fiesta de las Fallas







No último final de semana estive em Valência, uma cidade ao sul de Barcelona. Dia 19, dia de São José, é celebrada a Fiesta de las Fallas, uma comemoração incrível que os valencianos fazem para festejar a chegada da primavera.

Os moradores da cidade se organizam durante todo o ano para construirem dezenas de gigantes esculturas de madeira e papel, geralmente sátiras de pessoas e animais, conhecidas como "fallas". Estas esculturas, construídas por equipes chegam alcançar mais de vinte metros de altura e são de encher os olhos, tamanha a beleza e perfeição.

As principais fallas ficam expostas nas praças e nos principais cruzamentos da cidade durante uma semana. No dia 19, uma miniatura de cada é levada para o museu das fallas, pois durante a noite, as esculturas principais serão queimadas.

Durante o dia 19, de hora em hora, há queima de fogos de artifício e a cidade fica cheia de turistas e moças com trajes típicos, “as falleras”. Eu vi inúmeros pais com seus filhos, jogando petardos (pequenos foguetes que estouram no chão), todos até muito tarde na rua. Às 22h acontece a “Cabalgata del fuego”, onde simbolicamente inicia a queima das fallas.

À 1h da manhã é queimada a última falla, na praça do Ayuntamiento, onde estão reunida todas as autoridades locais. Antes há um show pirotécnico lindíssimo e os fogos se mistura com as chamas das fallas, é um espetáculo lindo de se ver. Claro que dá pena de ver escultura tão lindas e bem feitas, muitas custam milhões de euros, acabar em poucos minutos.

Mas o clima em torno é de celebração, seja dos turistas que ficam impressionados diante do que veem ou dos moradores da cidades que cultivam essa tradição e acreditam que assim estarão iniciando uma nova etapa do ano, mais leves, com o espírito renovado.

Além das cores, vou ficar com a lembrança do cheiro de pólvora, das estrondosas explosões, das enormes torres em chamas, o cheiro das barraquinhas de “buñelos” e principlamente, da alegria das pessoas nas ruas.

Sunday, March 20, 2011

Notícias de um domingo que prometia

Eu fui para Valência ontem, numa excursão com a escola. Voltei hoje pela manhã, às 8h30, descia do ônibus em Barcelona. E tinha sol e céu azul, o domingo parecia que prometia. Só parecia, pois eu cheguei e fui dormir.

Eram 9h quando me deitei e sabem que horas sai da cama? Às 20h! Coisa boa, um dia a menos. Tá não caminhei no sol como eu gosto, mas também não passei frio e tive bons sonhos. Com minha família, minha professora de dança, até o Nando Reis apareceu no meu sonho para me animar.

Nem me dei o trabalho de arrumar minha cama hoje, pois daqui alguns minutos é para ela que eu vou voltar. Eu sei que se não estivesse tão doente, eu poderia estar me divertindo mais. Mas nada tira minha alegria quando risco um dia do calendário e penso “menos um”. Às vezes tenho vontade de pegar o primeiro avião e voltar!

Friday, March 18, 2011

Medo da bola

Estava lendo a coluna da Maria Ribeiro na TPM desde mês, onde ela fala sobre a sua infância e lá pelas tantas diz que tinha medo da bola nas aulas de educação física. Foi tão bom ler isso, tão bom saber que eu não fui a única a ter medo da bola.

Eu fui o pesadelo dos professoras de educação física que tive e essa disciplina, uma tortura para mim. Não sei porque cargas da água, essas aulas consistiam em: meninos jogando futebol e meninas jogando vôlei. Sim, eu não podia jogar futebol, para a minha tristeza. Mas vôlei também não jogava, por uma total falta de competência.

Era horrível, cada vez que via a bola vindo na minha direção, só pensava em sair correndo, nunca entendi o motivo das tais rotações e só acertei um único saque em toda a minha vida. Belo currículo, não? Foi na quinta série e lembro direitinho, porque saquei e ouvi gritos (coisa que meu colegas não faziam, porque já sabiam que eu iria errar) e depois a professora que eu não lembro o nome (às vezes, trauma gera o esquecimento), parou o jogo e nos deu uma aula sobre a importância de acreditar no impossível!

Claro que eu sempre matei muito as educações físicas, mas até chegar a esse ponto, muita história eu inventei. Eu estava sempre com cólica, sempre menstruada, sempre com dor de garganta, de dente... Só tive um professor que às vezes deixava a gente escolher o que quisesse jogar, o Chico, e aí eu jogava futebol.

Mas um dia ele chegou e disse: “hoje todo mundo joga volei.” Eu deveria ter uns 12 anos e não pensei duas vezes na hora de inventar alguma desculpa, fui até ele e disse que não poderia participar da aula porque estava com uma doeça raríssima, cancêr na próstata.

Pensei que tivesse acreditado, porque o “sor Chico” foi mais ator que eu e não riu, apenas me deixou ficar sentada os dois períodos. O tempo passou, veio as férias e graças a Deus, me livrei das aulas de educação física.

Um pouco antes de vim para Barcelona, encontrei o Chico, sua esposa e sua filha de três anos num supermecado, em São Leopoldo. Nos falamos e ele me disse bem sério que sua filha tinha uma doeça raríssima, que nunca poderia fazer educação física. Eu acreditei e lamentei, perguntei que doença era essa. “Câncer na próstata”, me disse. E mais de 10 anos depois, rimos muito dessa história.

Simplesmente July

Tenho uma amiga que conheci na pós-graduação, a Juliana, formada em história e funcionária do Incra, entre outras coisas. Às vezes, a Jú me dá cada puteada, dignas da minha mãe, mas não me importo, ela é uma das pessoas mais íntegra e correta que conheço.

Um tempo atrás, ela me ligou preocupada com as citações muito depressivas que eu estava colocando no Mosaico, as frases do Caio Fernando Abreu, e disse por fim, que não gostava dele e pronto. Ainda me mandou ler algo que me fizesse bem.

Mais um tempo depois, a Jú me liga pedindo nomes de livros do Caio, porque de tanto eu falar nele, ela foi atrás na internet e claro, adorou. E eu também, mais uma fã de Caio F. no mundo.

Semana passada, estava falando com ela no MSN, quando me disse estava pensando em fazer um blog. E fez, o Simplesmente July. E eu fiquei toda feliz, mais uma blogueira no mundo. No primeiro post, fala que foi eu que a inspirei, querida!

A última vez que falei com ela, alguns dias atrás, me disse que não pensava em outra coisa, a não ser escrever. É assim mesmo Jú e também, terá épocas que não saíra uma vírgula, por mais que você tente. Às vezes, o blog ficará jogado às traças, em outras ocasiões não irá nem acumular pó, de tanto que você irá escrever.

Seja lá como for, te desejo sorte e inspiração. Vida longa ao Simplesmente July.

Wednesday, March 16, 2011

I miss him

Estava jantando agora com a minha família espanhola. É divertido, dois espanhóis, um americano, um chinês e eu fazendo de conta que somos uma família, sem preconceitos, é claro. Assim, como em todos os lares, tem um membro antissocial, é a nossa hermana coreana não janta com a gente. E hoje teve “pasta” para agradar a brasileira com cara de italiana da família.

Conversamos um pouco em espanhol e um pouco em inglês e isso é sim, muito divertido. Até que o Kevin me perguntou: “Ruenata como és that word que so tien in portuguuuese?” Me faço de desentendida, abaixo a cabeça é falo: “What? No comprendo...” Aí o chinês fala com um inglês tão perfeito que todo mundo se surpreeende: “That word about a felling?” Continuo me fazendo de louca e enfio um monte de massa na boca. Roger e Montse percebem meu desconforto e falam que hoje estou faminta e mudam de assunto. Vamos hablar da chuva que não para!

Porém agora, a massa que estava uma delícia, se tornou amarga e trancou minha garganta. Meus olhos ficaram mareados, uma bateria de escola de samba surgiu na minha cabeça, tentei tossir, mas algo me trancou e só consegui enxergar o banheiro e vomitar até a alma. Depois tremi e fiquei com vergonha. Até a coreana apareceu para falar que isso era culpa do meu comportamento ocidental.

Kevin disse que foi o vinho que tomamos antes da janta. Montse me preparou um chá enquanto tomava banho, Roger saiu para comprar remédios. O chinês assistiu a tudo com seus olhos pequenos arregalados. Ele saiu do meu quarto agora pouco, veio saber se eu estava bem e me disse se esforçando para que eu entendesse: “It was because the word that only exist in portuguese”. Si, yo dije. I miss him.

Tuesday, March 15, 2011

Primeira série

Se tem uma coisa que eu recomendo para qualquer pessoa, de qualquee idade, é aprender um novo idioma. Pode ser apenas por alguns meses, mas estude pra valer, a gramática, os verbos, os pronomes, essas coisas chatas que tem em todas as línguas. Sim, é chato e cansativo.

Mas serve, justamente, para isso, para que percebemos o quanto temos que aprender. A sensação ao final de uma frase com sujeito, verbo e objeto é de objetivo alcançado. Hoje na aula, escrevi meu primeiro texto em espanhol, obviamente está digno de uma primeira série.

Publico ele abaixo. É bobinho, claro. Era para usar os verbos no pretérito indefinido. Está com todos os errinhos que cometi, não me importo, fiquei orgulhosa do meu primeiro texto. Até ganhei um "muy bien" da professora. Sim, começar a estudar um idioma é entrar de novo, na primeira série.

El fin del mundo

Año pasado, yo y tres amigos fuimos hasta Ushuaia, uma pequeña ciudad em sur del Argentina, conocida como “el fin del mundo”. Salimos del aeroporto de São Paulo hasta Buenos Aires. Después, cogemos al tren hasta Ushuaia. El viaje fue em um día porque nevó muchíssimo y el tren tuve que parar muchas veces.

Cuando llegamos a Ushuaia nos alojamos em um albergo juvenil, pero no tenía calefación y tuvimos mucho frío. Además, quedamos dos días dentro del albergue porque hubo una nevada, una gran parte de la ciudad quedo cerrada.

Solamente, em el tercer día salimos y jugamos em la nieve. Tambien anduvimos em el teleferico y practicamos esqui. iNos divertimos mucho!

Al outro día, tuvimos que volver a Brasil. Pasamos um día más dentro del tren hasta Buenos Aires. Allí paramos para comer churros y perdemos el avión. Por fin, después de “el fin del mundo”, pasamos uma noche em las calles da capital Argentina. Volvimos a Brasil em autobus, llegamos dos días después.

Monday, March 14, 2011

"Passantes"

No curso de espanhol tenho colegas da Itália, da Alemanha, da França e da República Tcheca. Apesar de inúmeras diferenças, somos parecidas, já que por algum tempo estamos vivendo longe de nosso país e de nossas casas. Sei pouca coisa delas e elas tão pouco sabem de mim.

Não penso que são pessoas as quais possa ter um grande amizade, embora vá me lembrar para sempre delas. Talvez daqui alguns anos vá forçar a memória para me certificar se a Jana era a loira eslovena ou a alemã morena.

E já percebi que essas pessoas, que sem fundamento nenhum denomino como passantes, pois estão como eu, passando por uma baita e diferente experiência de vida e estão passando pela minha vida, logo são passantes. Então os passantes são muito comuns numa situação como essa.

Outro dia sai sozinha para ver um show de Flamenco e terminei a noite na mesa de um bar com mais oito pessoas, todas estrangeiras, todas passantes. Erámos homens e mulheres que nos comportamos durante algumas horas como velhos amigos.

Bebemos, brindamos, conversamos e brincamos. E nunca tínhamos nos vistos antes. Nos despedimos com beijos e abraços e cada um vai embora sem saber nada do outro, sem compromissos de novos emcontros nem nada, no melhor estilo viver o momento.

No domingo estava olhando o mapa, procurando o Parque da Ciutadela, dentro do ônibus, quando chegou uma passante da Grécia, me perguntando onde descia para o mesmo parque. Acabamos indo juntas para o local, antes ainda paramos para almoçar. Chegando na Ciutadela, cada uma foi para um lado. Devo ter passado por ela no parque, mas não a vi.

Nesses encontros e despedidas não há lamentações ou coisas do tipo, sabemos e aceitamos a nossa condição de viajantes e de passantes. No começo, pensei que isso era orgulho ou até mesmo, arrogância, mas agora já sei que não é, é apenas resignação.

Tem uma professora que todo dia faz uma brincadeira com a gente. Todos os dias temos que nos apresentar, acrescentando uma nova informação. Ela diz que é para a gente praticar o vocabulário, se conhecer mais e não esquecermos uma da outra. Eu já penso que é para nos mesmas, não nos esquecermos de quem somos. Do que há de permanente enquanto passamos.

Sunday, March 13, 2011

Primeiras impressões: de Barcilo até Barcelona

Depois de uma semana em Barcelona já deu para sentir um pouco da cidade. Barcelona é capital da Catalunha e a segunda maior cidade da Espanha, perdendo apenas para Madrid. Com uma população de cerca de 1.621.537, a cidade é banhada pelo Mar Mediterrâneo.

Considerada capital européia do movimento modernista, a cidade abriga obras incríveis de Gaudí e Miró, além do museu Picasso, que conta com o maior acervo do artista. E também, em menos de uma hora de trem, se chega a Figueres, terra do Salvador Dalí, que abriga um museu em sua homenagem.

A cidade é antiga, mas soube dosar a medida certa de modernidade, avanço e preservação da sua história. Sua origem é do período da dominação romana e a grande Barcelona era apenas uma pequena colônia chamada Barcino.

O belo museu de História da Cidade de Barcelona (MHCB) ainda conseva numerosos vestígios da antiga colônia romana, como alguns fragmentos da muralha que circundava a cidade, o templo de Augusto, a necrópolis e restos de estruturas que se podem observar no subsolo do museu. No elevador do museu, escolhemos em qual século queremos desembarcar...

No século 13, com aconstrução da catedral da cidade, o vilarejo viveu um grande apogeu e se estendeu para além das grandes muralhas que o cercavam. Foi nesse época que Barcelona encontrou o mar e se tornou uma cidade de mercadores, navegantes e comerciantes.

O mais incrível disso tudo, é que as muralhas, as ruelas estremamente esrteitas, as fortalezas e os palácios medievais estão muito bem preservadas, ainda hoje. O bairro Gotic e o La Ribera formam o eixo da chamada “cidade velha”. Nessas ruazinhas a gente mal enxerga a luz do sol e a umidade prevaleçe, carro também não entra.

O bom mesmo foi andar a pé por esses bairros e me perder a vontade. Não tem como não se sentir um personagem épico nessa parte da cidade.

As igrejas de Barcelona

É impossível passar por Barcelona e não visitar ao menos três igrejas: a catedral, a igreja de Santa Maria del Mar e a Sagrada Família, todas são verdadeiras obras de arte.

A catedral abriga em torno do altar, inúmeras capelas, uma para cada santo que é popular na Espanha. Parece ser várias igrejas diferentes dentro de uma só. Além disso, a catedral tem um pátio e um jardim que são deslumbrante, com direito a patos andando soltos e fonte de São Jorge.

A igreja de Santa Maria del Mar fica dentro do labirinto que é o bairro de La Ribera, em frente tem uma pequena praça, onde os turistas fazem malabarismos para conseguir enquadrar na foto, a torre da igreja, que é imensa. Eu só consegui fotografar, há três quadras de distância. A torre é alta, pois também servia de farol para os pescadores.

Já a Sagrada Família se encontra no bairro de mesmo nome, já na parte “moderna” da cidade. Gaudí passou os últimos anos de sua vida se dedicando a essa construção, a obra está até hoje inacabada. E ainda assim é de uma grandeza assustadora. Toda a riqueza de detalhes e esculturas que temos na fachada não é um terço da beleza que se encontra dentro da obra.

Num primeiro momento, a Sagrada Família é clara e até um pouco fria por dentro. Pintada com cores suaves transmite uma sensação de sepúlcro, de um lugar de fato, sagrado, parece como toda igreja. Mas a Sagrada Família tem vitrais, muitos vitrais e eles estão dispostos de tal maneira, frente a frente, que quando a luz do sol bate numa das janelas, reflete em outra e assim por diante.

A igreja fica repleta de cores e sombras coloridas, deixando de ser sagrada para se tornar divina. O silêncio, que antes era pesado, fica leve, tamanha a leveza daquelas cores e genialidade daquela obra. Eu fui visitar uma igreja e me senti dentro de um arco-íris.

Para mim, essas igrejas são a cara de Barcelona. A representação perfeita dessa cidade de arquitetura fantástica. Medieval, intacta, moderna, prática, colorida e surpreendente.

Saturday, March 12, 2011

Estopim

Tenho tanta coisa para escrever sobre Barcelona, sobre os lugares que fui, a impressão dessa cidade, as pessoas únicas que já conheci... E cadê que eu escrevo? Sempre que começo, dou voltas e voltas e acabo sempre no mesmo lugar, com a tela em branco.

Amanhã faz exatamente uma semana que cheguei e desde então, não tinha derramada uma lágrima. Além disso, tenho dormido incrivelmente bem. A insônia que sempre me pega pela mãe e me leva noite a dentro tirou férias.

Porém, mais cedo ou mais tarde, eu ia desabar. E estou desabada agora, justo hoje, quando há um ano atrás te conhecia. Estou há horas olhando para esse note e tentado escrever alguma coisa, nem que seja pra você, quem sabe assim, eu consigo escrever o resto?

Quem sabe seja necessário um estopim? Você é meu estopim, porque você é meu tudo. E daí que estou na Europa? Que graça tem? Tudo o que eu faço, penso que é tão triste não poder te contar. Logo para você, que iria entender tão bem.

Ontem eu fui no porto, passei a tarde lá, sentada olhando o mar Mediterrâneo e os barcos passarem. Tenho consciência que sou uma pessoa de sorte por estar realizando esse viagem e mais, por ter sonhado com isso desde sempre.

Mas ontem, no porto, me peguei dando gargalhadas sozinha. Que ironia, eu que sempre quis viajar, trocaria tudo isso por um abraço. Um abraço! E poderia passar o resto dos meus dias em qualquer província, que seria a mulher mais feliz do mundo e você, o homem mais amado.

Ao menos chorando, a saudade sai para fora um pouco e quem sabe assim, eu consiga escrever.

Monday, March 07, 2011

Primeira noite

Seis de março de 2011

Tinha sete anos quando dormi fora de casa pela primeira vez, passei uma semana na casa dos meus padrinhos, na rua de trás da minha. E na época, foi uma aventura e tanto! Depois, tinha 22 quando dormi fora do meu país, pela primeira vez. Foi em Buenos Aires e foram apenas três noites, estava de excursão para o show da Madonna.

Essa é minha primeira noite em Barcelona e a situação é outra. Vou passar dois meses fora de casa. Sempre imaginei como seria a primeira noite que estaria em um país distante, não apenas por passeio, mas para morar por um tempo. Pois, em março, o meu endereço será Calle Calábria, 86, 3-2. Ah, estou morando num apartamento.

Minha família, um casal, são professores universitários. Tem um rapaz americano e um coreano, também de intercâmbio. Meu quarto tem as paredes rosas, um espelho imenso, um roupeiro branco e uma janela minúscula, que dá para a parede do apartamento da frente. Ainda bem que tenho uma luminária, porque a luz é bem fraquinha.

Ainda assim, acho que vou passar muito tempo dentro desde quarto, espero que minhas vistas não cansem. Hoje, Já me perguntei várias vezes, porque trouxe apenas três livros? Espero deitar e dormir, hoje. Estou cansada e com dor de cabeça, faz bastante frio aqui e acho que logo estarei gripada.

Estou resistinto bravamente para me deitar. Quer coisa mais íntima que a cama da gente? Eu estou num país que não é o meu, numa família que não conheço e o pior, num colchão que não tem a forma do meu corpo e com travesseiro que não ter as marcas das minhas lágrimas.

Na casa dos meus padrinhos, aos sete anos, eu chorei e acabei passando as outras noites no quarto com as minhas primas. Em Beunos Aires, eu estava eufórica e já um pouco bêbada. E agora? Na primeira noite na Espanha e eu estou como estava antes da viagem... Apenas estou. Não tenho vontade chorar, não tenho vontade de rir. Estou aqui, só.

Sete de março de 2011

Acordei a pouco e para minha surpresa, dormi a noite inteira. Sem choros, sem perguntas do tipo “o que estou fazendo aqui?”, sem medos e inseguranças. Devo ter deixado a menininha covarde que mora em mim no Brasil.

Cheguei até a sonhar, com a minha vó e a minha prima. Achei estranho sonhar com as duas únicas pessoas, mais próximas de mim, que já morreram da minha família. Se bem que, por serem espíritos, elas são as únicas que podem me acompanhar aqui na Europa. Pensando nisso agora, me sinto muito bem acompanhada e pretegida, entendi porque não chorei.

Em trânsito

Estou escrevendo dia 05 de março de 2011, no aeroporto internacional de Garulhos, em São Paulo, indo para dois meses na Europa. Minha mãe já encheu os olhos d’água quando me deu tchau. Meu pai com o otimismo de sempre, só falava pra eu aproveitar cada segundo. Meu irmão saiu e nem me deu tchau, típico dele.

Amanhã, um primo e a namorada dele estão de partida para a Irlanda, onde ficarão por um ano, trabalhando e estudando. Na segunda, outro primo (irmão desse que vai para Irlanda), vai para uma missão religiosa, onde ficará por dois anos num país, que ele ainda não sabe qual é. Seu único contato com o mundo que será permitido é escrever uma carta por semana.

Quando lhe perguntei se ele não achava isso ruim, disse que não, que apenas se distanciando do meio e vivendo novas experiências, saberá o que de fato quer da vida. Durante um bom tempo, não vai ter tanta graça ir para Florianópolis, sem meus primos lá. E espero que quando retornarmos para o Brasil, estejamos mais certos do que queremos, mais verdadeiros, mais corajosos e principalmente, com o coração mais aberto.

Às vezes, é necessário ir para longe, em busca de nós mesmos. Não importa que essa busca se esconda atrás de um belo motivo: um tour na Europa, a busca de melhores condições de vida, a missão de divulgar o que se acredita. Chega um momento, que é necessário nos conhecer e quanto mais longe e distante de todos, melhor. Só com nós mesmos vamos nos enxergar.

Provalvelmente, quando conseguir postar esse texto, já terão se passados alguns dias e, quando menos esperarmos, chegará a hora de voltar e espero essa experiências tenha nos ternado melhores. Pessoas com olhares diferentes e, se permetir essa viver longe de tudo, já é um grande passo para se enxergar.

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

Friday, March 04, 2011

Considerações antes de partir

Não mudou em nada o que eu sinto por você. Te amo do mesmo jeito ou até mais, se você não sentisse algo por mim, teria ido me ver, pois seria muito fácil ir, me comer e continuar tudo igual. Mas não né? Você não foi. Sabe que não me senti tão mal como pensei que ficaria?

Só de saber que eu estava na mesma cidade que você, que você anda pelas ruas que eu estava andando, nossa, já agradeço ao mundo por essa oportunidade. Não tem problema nenhum eu ter ficado quase 20 horas trancada num quarto de um hotel muquifo, esperando um homem que eu sabia que não iria. Tem vezes que me odeio, mas já aprendi a me suportar, então encarei isso como uma boa oportunidade de pensar.

E como eu pensei. E não, não vou desistir de você. Desistir de você, seria desistir de mim.



Eu sempre imaginei que o dia que eu fosse viajar, estaria eufórica, que seria a pessoa mais feliz do mundo. Mas não. Daqui poucas horas estou embarcando para a Europa e não sei o que sinto em relação a isso.

Desde criança, sonho em viajar, mas nos últimos meses não pensava nisso como o sonho que iria realizar. Essa viagem era só uma desculpa para ver se eu continuava tocando o barco. Foi uma muleta. Algo que “inventei” para ter o que pensar.

Agora essa muleta é real e ainda não assimilei o que vai acontecer. Não estou indo para fugir de ninguém, nem de nenhuma situação, talvez eu esteja indo pra ver se consigo o distanciamento necessário e entender tantas coisas que acontecerem na minha vida no último ano.

Mudei muito. E só consegui realizar esse sonho de viajar agora, quando percebo que o que move minha vida não são os lugares para onde irei. O que move minha vida é o amor que eu sinto.



Estou indo para a Espanha amanhã. Fico lá até dia 02 de abril, depois faço um tour pela Europa e volto no final de abril. Sempre que possível, estarei escrevendo, gostaria muito de escrever coisas sobre os lugares para onde irei, mas não sei se vou conseguir, geralmente eu escrevo para sobreviver.

Monday, February 21, 2011

Percepções

Eu tô mole. Tontinha, com aquela sensação que temos depois de uns copos de caipirinha, cerveja... Mas não, ainda não tô bêbada, tenho uma noção distorcida das coisas, mas tenho consciência ainda. Algo está mais lento, mais devagar, não sei se sou eu ou o mundo.

Mas como sou metida a intelectualóide, quando bebo ou faço qualquer outra coisa que me tire da realidade, me sinto íntima do Aldous Huxley e quase entrando nas tais portas da percepção. Uma vez, tomei chá de cogumelo e vi o mundo verde e brilhante e isso era tão mais interessante do que vejo normalmente...

Ai, eu acho que deveria estar na praia com todo mundo e não gastando meu dinheiro numa lan house. Prefiro beber o meu dinheiro. Ai, eu tenho que viajar e não sei nem onde enfiei minha mala e nem meu passaporte. Ai, eu já fui mais organizada. Ai, será que vendem cerveja na lan house?

Tá, vou escrever sério agora. Acho que só inventei de viajar para pensar em algo, sei lá, pra ter uma porra de um objetivo qualquer. Mas depois de você, tudo é tão pequeno, que trocaria a Europa inteira por um abraço teu. O mundo todo por você. Merda, vou começar a chorar. Azar, bêbado chora mesmo. Pedi pro menino que atende comprar Smirnoff pra mim.

Estão achando que estou bebendo muito? Odeio gente moralista! Pensem que sou uma grande escritora, que nesse momento está digitando esse texto dentro de um quarto repleto de ursinhos de pelúcia, vestindo um pijama rosa. Até porque eu não bebo né? Ah, e sou virgem também. Estou me guardando como guardo as cervejas no fundo da geladeira.

Tá? Agora vou escrever sério de verdade. Eu bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo, bebo e não esqueço!

“Se for falar mal de mim, me chame! Sei coisas terríveis a meu respeito”. Clarice Lispector

Wednesday, February 16, 2011

Espero. Esperança. Esperando

Há momentos ou até mesmo dias, que sou tomada da mais genuína esperança. Mais do que isso, de uma certeza absurda e absoluta que um dia, assim do nada, você vai me mandar um email. Vai ligar. Vai falar que também sente saudade.

E eu vou poder olhar novamente dentro dos teus olhos e preencher tuas tatuagens com meus dedos. Espero você voltar pra gente discutir a arquitetura de Barcelona, pra falar sobre uma possível viagem à Turquia. Pra te dar colo. E te ninar. E te amar.

Isso não é viver de lembranças, é projetar um futuro. Isso não é falta de amor próprio, é excesso de amor. Porque eu te amo tanto, mas tanto, que não cabe em mim, não cabe num texto. Posso escrever o resto da vida pra você e, ainda assim não seria nem uma frase inteira.

Posso ficar te esperando para sempre porque sei que você vem. Isso não é ilusão, se fosse eu não teria certeza de que essa espera é necessária. Não sentiria o arrepio que sinto no meu corpo quando penso que vou te abraçar, de novo. E eu vou te abraçar!

"A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.” Arthur Schopenhauer

Sunday, February 13, 2011

Praia

Como a maioria dos gaúchos, ir para a praia no verão é um programa de bando, seja esse bando, de família ou amigos. Esse ano estou revivendo aquela função de alugar casa, ir com a família, esperar os trabalhadores da mesma no final de semana, dormir no chão, casa lotada, bagunça, o nosso nordestão e o mar chocolate.

Quando criança, as casas eram lotadas de tios e primos, o que parecia muito divertido. Porém, a gente cresce, prefere passar as férias com os amigos viajando para alguma praia de Santa Catarina. Mas este verão, está me fazendo refletir ao me deparar de novo com minha família numa casa alugada no reto litoral norte gaúcho.

Algumas coisas mudaram, os tios deram lugares a cunhadas e sobrinhos, primos continuam lá, mas agora com filhos. Percebo que por maior que seja uma casa, sempre tem alguém que vai dormir no chão. Meu irmão não vomita mais quando sente o cheiro do camarão e quem vai dormir na cama de cima do beliche, ainda é motivo de briga entre as crianças.

Ah e agora, estou dando o devido valor ao nosso litoral, pois como uma trabalhadora, encaro a Freeway na sexta de noite e no domingo de tardezinha, lamentando muito os finais de semana com chuva. A maconha e as cervejas continuam como itens principais nas férias da minha família, mas nesse verão, especialmente, a bêbada oficial sou eu!

Meu pai continua reclamando porque tem que sair da praia mais cedo pra ir buscar um frango assado para o almoço. A frase que minha mãe mais repete é: “não vim pra praia para cozinhar”, meu irmão continua passando o tempo todo dentro do mar, pegando jacaré, furando onda e ainda parece ser o único que se diverte, mesmo nos dias de chuva.

Foi, justamente, observando meu irmão que me dei conta disso. Fazia anos que não íamos para uma praia juntos e ele continua furando onda do mesmo jeito que fazia com 5, 6 ou 7 anos. Vendo essa cena no final de semana passado, fui transportada para o passado e também para o futuro.

Como as coisas mudam, daqui uns anos eu vou ser aquela tia, dos filhos do meu irmão, que chega nos finais de semana, bebi e tumultua a casa da praia. Mas como nem tudo muda, meu irmão vai continuar furando onda do mesmo jeito e se divertindo até nos dias de chuva.

Tuesday, February 08, 2011

Cara ótima

Parece que ando com a cara boa, ao menos é que andam dizendo por aí, meus amigos e até a psicóloga. Outro dia ela me disse que eu estava “mais leve, sem o peso do mundo nos ombros”.

Talvez seja verdade, ou pode ser culpa do álcool e da cevada que ando ingerindo diariamente, sábio quem falou: “decepção não mata, ensina a beber”. Estou saindo mais também, procurando os amigos, falando, dando risadas...

E daqui a pouco chega a viagem né? Então também estou ocupada pensando nessa grande realização. E tenho bastante trabalho no serviço, hoje o dia foi puxado e apesar de tudo, minha cara está ótima!

...

Mentira. Tudo mentira. Eu tive que me segurar para não chorar de saudade no terraço do Palácio Piratini, no pátio da Assembleia Legislativa, dentro do carro do meu chefe, quando liguei o rádio e tocava Pink Floyd e quando deu o teu nome para o personagem do texto que fiz na aula de espanhol.

Eu queria tanto te abraçar! Ainda amo tanto você. Ainda paro no meio de um texto pra chorar. Ainda dói tanto. Ainda fico arrepiada quando me lembro de ti. Ainda passo as noites acordada, pensando se você pensa em mim. Ainda não sei que fim dar no meu corpo.

Mas apesar de tudo isso, eu estou com uma cara ótima.

“De algum secreto lugar me vem a força para erguer a xícara, acender o cigarro, até sorrir quando alguém me diz: ‘Você hoje está com a cara ótima’, quando penso se não doeria menos jogar-me de um décimo primeiro andar” Lya Luft

Wednesday, February 02, 2011

Não lembrar

Estava ouvindo a música Doesn’t remind me do Audioslave, escutava e prestava atenção na letra, que enumera várias coisas que não o faz lembrar de nada. As situações citadas são bem simples como observar as pessoas, ver o colorido das roupas no sol, andar por um lugar desconhecido, ouvir rádio...

Fiquei pensando como às vezes é necessário não lembrar e isso não é de forma alguma, esquecer. É apenas, por alguns instantes, não lembrar, é desviar um pouco o foco do nosso cérebro, da nossa vida, do alvo principal, é quando o mundo exterior invade o nosso interior e nos leva para fora.

Acredito que essas “invasões externas” são bastante comuns na vida de todo mundo, mas penso que é muito difícil nos darmos conta disso. Como quando estamos caminhando apressados e de repente, num vôo rasante, uma mosca azulada quase bate no nosso nariz. Neste instante, a gente não lembra de nada, nem para onde estávamos indo. Mas também não nos damos conta disso, pois para isso é necessário pensar e estamos ocupados demais lembrando de coisas, que muitas vezes, gostaríamos de esquecer.

Eu desejava listar algumas coisas que quando me invadem me fazem não lembrar de nada, mas não me veio nada na cabeça, a não ser, a tal mosca azul. É muito ruim quando tudo nos faz lembrar algo ou alguém que ainda nos dói, a gente pensa em como seria bom inverter esse processo de invasão. Ao invés de não lembrar, trazer a lembrança para a realidade.

Monday, January 24, 2011

O gato por dentro




Quando eu voltei de Santa Maria, na manhã seguinte da minha morte, tinha um homem, um Policial Militar sentado do meu lado. Ele percebeu o meu choro contínuo e por vezes, alto.

Logo que ele se sentou, tirou um livro da mochila, O gato por dentro. Um livro pequeno no tamanho, no número de páginas, nos capítulos. Uma obra fácil de ler nas quatro horas que duraria a viagem, mas ele não conseguiu, não deve nem ter passado da metade. Ele ficava vários minutos olhando para a mesma página e ouvindo o meu choro.

Várias vezes, ele me ofereceu o livro. Noutras, lia para mim, uma ou outra parte e me olhava e desistia e voltava a olhar para as páginas, sem ver. Apenas no viaduto que dá acesso a rodoviária de Porto Alegre, que o homem falou comigo. Disse que o autor do livro, William Burroughs, tinha sofrido muito, mas que conseguiu reverter isso e escreveu obras primas. Eu respondi que não conhecia esse escritor e que não gostava de gatos, muito menos, de livros sobre gatos.

O fato é que eu tinha certeza que nunca ia me esquecer desse livro, nem da capa, nem dos trechos que aquele homem lia para mim, embora não lembre do rosto dele e nem ter movido uma palha para achar esse livro.

Na madrugada do último sábado, estava pegando uns livros da Fabi, no quarto dela. Já tinha selecionados uns dois, quando ela puxa um da pilha e fala “esse é ótimo, tu vai adorar!” Era O gato por dentro e na hora meu porre passou. Fiquei de cara. O gato de olhos verdes, desenhado na capa, me encarava enquanto eu sentia o nó na garganta apertar. Expliquei para a minha amiga que já nos conhecíamos e contei a história.

Agora, esse livro está aqui na minha frente, ao lado do monitor do computador. Faltam poucas páginas para eu terminá-lo, mas às vezes demoro muito, fico olhando perdida para uma mesma página, ouvindo um choro de dois meses atrás. Pensando sobre esse pequeno livro, lembro que ele me velou, o gato foi minha única testemunha e agora, voltou, trazendo flores para o meu túmulo.

“Uma esperança. Uma chance. A oportunidade perdida. A esperança morrendo. Um grito que persegue o único que pode ouvi-lo quando já está longe demais para ser escutado, uma tristeza dolorosa e arrebatadora. Este é um sofrimento sem testemunhas. ... Esse sofrimento pode matar.” (O gato por dentro, William Burroughs)

Wednesday, January 19, 2011

Tatuagens

Eu tenho mais tatuagens do que anos de vida. São 13 estrelas, quatro frases, seis borboletas, uma fada, uma lua, um sol, o símbolo do infinito e a palavra liberdade. Não me imagino sem elas, muito pelo contrário, penso em fazer mais. Provavelmente, as próximas serão o Pequeno Príncipe, no braço, e o Yin Yang, na nuca.

A primeira, a fada, eu fiz alguns dias antes de completar 15 anos, foi presente de aniversário e minha mãe me acompanhou até o estúdio. Meus pais não têm tatuagens e meu pai, nem gosta muito, mas eles nunca me proibiram de fazer. E eu nunca tive problema nenhum por causa delas.

Desde criança me imaginava com tatuagens, sempre achei lindo, seja em homem ou em mulher. Claro que tem alguns desenhos que eu não faria, mas isso vai da pessoa... Por isso, acho absurdo que no mundo que vivemos ainda haja esse tipo de preconceito. Fico pensando se há alguma atividade que uma pessoa tatuada não possa executar, por influência da tatuagem, e não identifico nenhuma.

Tem gente que diz que é agressivo. Novamente, vai de cada um, mas penso que há coisas como a violência gratuita, os casos de pedofilias, a impotência do serviço público diante da imposição da natureza, que agridem muito mais do que desenhos e cores na pele alheia.

Se existem ainda alguns redutos profissionais que não aceitam, de modo algum, a tatuagem, aí cabe à pessoa decidir se irá se tatuar ou não e, arcar com as conseqüências.

Agora, no caso dos salva vidas que desencadeou toda essa discussão, acho absurdo, beirando o ridículo. Tem lugar melhor para exibir as tatuagens do que a areia da praia? E há melhor lugar para um dragão tatuado do que o braço de um salva vida sarado?

Thursday, January 06, 2011

Histórias de novela

Nunca fui das mais noveleiras, mas como no Brasil basta ler as capas de revistas para a gente saber o que acontece nas novelas, sempre sei o que se passa. Algum tempo atrás eu costumava caminhar de tardezinha, aí até chegar em casa, tomar banho, comer... Eu só dava uma olhada na novela das 20h, que começa às 21h.

Agora como não tenho feito nada de útil na minha vida e cansei até de caminhar, tenho olhado mais assiduamente as obras primas da Rede Globo e é incrível como em todas tem várias histórias de amor ditas como impossíveis. Na Araguaia, a que menos acompanho, sei que tem um triângulo amoroso entre o mocinho, a mocinha rica e uma índia que sofre pra caramba.

Na outra, a Tititi, tem a adolescente que perdeu a virgindade e se apaixonou pelo galinhão. Tem a modelo que largou o namorado para seguir a carreira, mas ainda morre de amores por ele. Tem uma loirinha apaixonada por um rapaz comprometido com uma moça que trata ele mal. E o cara que brigou com a namorada, passou meses em Londres e acabou voltando porque não conseguia esquecer a guria.

E a Passione então? O que é o velhinho que passou mais de trintas anos amando a mulher que abandonou ele no altar? E eles se encontraram anos depois em outro país. E tem a italianinha, garota de programa, que atravessou o oceano para encontrar o cara que ela ama. A Felícia que passou anos fechada para a vida, amando seu primeiro e único namorado, eles também se encontraram anos depois e estão tentando continuar... E Melina que a vida toda amou o Mauro, viajou, voltou, casou com outro, separou, aprontou horrores só para ter uma chance com ele.

Essas são apenas as histórias que eu lembro. Na Malhação deve ter mais um monte de exemplos desse enredo, versão teen. Nas novelas do SBT, Record, Band, nas mexicanas, nas que acabaram e nas que virão, também. E é claro que todos vão acabar bem e felizes para sempre, nas novelas todo mundo acaba junto de quem se ama.

Por mais idiota que seja, me dá um aperto no peito quando assisto essas cenas. Minha história daria um bom enredo de novela, mas infelizmente é vida real e na vida real nem sempre o final é feliz.

Monday, January 03, 2011

Foi só um sonho

Na primeira noite de 2011, quer dizer, primeiro dia, porque fui dormir depois que o sol já tinha nascido, tive um sonho lindo. Sonhei que estávamos eu, a Daiani (a outra jornalista da CUT) e alguns dirigentes da Central em algum lugar que eu não sei qual é, para cobrir um ato, uma manifestação, uma reunião ou sei lá o que...

Os dirigentes entraram em uma sala e quando eu olhei para dentro dessa sala, ele estava lá, lindo, com o uniforme do Instituto Geral de Perícias. E no sonho eu pensei em como ele é perfeito. Aí ele veio na minha direção, já sem o uniforme, mas com uma camiseta azul que realçava a pela morena dele.

Ele sorria. Aquele sorriso que eu tanto amo, porque o deixa com ares de menino. Enquanto ele vinha, eu sentia meu coração saltar pela boca. Então ele me abraçou e ficamos abraçados o sonho todo, às vezes, mudávamos de posição, mas não nos desgrudávamos. E fazíamos carinho um no outro. Às vezes, a Daiani vinha, falava alguma coisa com a gente e nós ríamos muito. Estávamos felizes.

Mas o sonho não tinha som. Ao menos não enquanto ele estava comigo, ali o sentido principal era o tato. Porque eu sentia o calor da pele dele, a espessura da camiseta, o suor no pescoço quando eu mexia minha cabeça... Não sei quanto tempo durou o sonho, mas o abraço durou mais da metade do sonho. Até na hora que ele explicava alguma coisa sobre a máquina fotográfica do serviço, eu estava colada nele...

Nisso apareceu um dos secretários da CUT, chamando a imprensa. A gente se despediu, ele me beijou e desejou bom trabalho. Eu e a Daiani entramos para cobrir o ato, a manifestação, a reunião ou sei lá o que... O sonho acabou e eu ainda dormi mais um pouco.

Quando acordei, assustada, não lembrava onde estava (na casa de praia de uma amiga). Mas ainda podia sentir ele e logo comecei a chorar de saudade quando me dei conta que fora só um sonho. Sonhar com quem se ama assim é tão bom e tão cruel.

Se é verdade que nos sonhos os espíritos se encontram, eu tive o melhor sonho que eu poderia ter, porque nem que seja em outro plano, a gente esteve junto e ele estava feliz. E eu passei o dia com o peito apertado de saudade. Lembrando desse abraço tão real, mas que nem aconteceu.

Será que ele também sonhou comigo? Será que a Daiani sonhou com nós? Será que o abraço foi de despedida ou reencontro? Não sei... Só sei que ganhei o melhor abraço de ano novo que poderia ganhar e desde então, quando deito na cama e fecho os olhos, lembro dele vindo, lindo e sorrindo, na minha direção. Vai que eu tenha sorte e um dia desses, ele venha de novo, me abraçar.

“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.” Clarice Lispector

Thursday, December 30, 2010

Sem planos para o ano novo

Parece que essa virada de ano, pela primeira vez, eu não vou entrar meia noite afora louca para me lembrar de todas as simpatias possíveis para atrair amor, saúde, dinheiro, prosperidade... Não comprei calcinha nem roupas novas para a noite do dia 31, coisas que sempre fiz, teve um ano que usei sete calcinhas, uma por cima da outra.

2010 foi cheio, muita coisa aconteceu e muita coisa boa. Eu vivi uma das melhores fases da minha vida, já sai de 2009 feliz. Mas foi esse ano que me dei conta que certos fantasmas tinham, de fato, ficado para trás e me permitir viver sem assombrações.

Sinceramente, entre janeiro e maio, várias vezes, eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. Eu amei também, muito, como eu nunca pensei que fosse possível amar alguém. Na verdade, ainda amo e pela maneira como me arrepio cada vez que penso nisso, ainda vou amar por muito tempo.

Eu mudei muito, muito mesmo (sim, foi tudo muito mesmo). Diversos valores e opiniões que eu defendia, caíram por terra, o que foi positivo. Agora o melhor, foi ter me dado conta que para amar como eu amo, eu tive que passar por um longo processo, que provavelmente tenha começado quando eu nasci.

Foi depois de 25 anos de vida que eu me senti feliz e plena. Minha vida não estava do jeito que tinha sonhado, mas as coisas estavam melhores do que eu imaginava. Sabia que o restante viria na hora certa. Hoje, eu penso que para amar é necessário estar feliz, porque só a felicidade nos fornece o desprendimento necessário para se doar para o outro. E amor, para mim, é doação.

O que vem depois disso, se o amor vinga ou não, se tem tristeza, lágrimas, se as coisas não saem como a gente quer... É outra história. É por isso que eu não espero nada de 2011. Tenho alguns compromissos, claro, mas planos e listas de pretensões, não tenho. Isso é bom, tira um pouco o peso desse ano que entra e a gente acaba vendo isso tudo como uma troca de calendário.

Durante boa parte do ano eu desejei ser merecedora de viver o amor que eu sinto. Se eu fosse pedir algo à meia noite de hoje, seria isso. Só que, apesar de tudo, eu apenas vou agradecer ter sido tão feliz e amar da maneira que amo. Isso valeu muito mais que o ano, valeu a vida!

Presentes

Até que essa finaleira de ano, tão cheio para mim, me reservou algumas boas surpresas. Tenho mais dois livros, clássicos, na minha biblioteca. O Pequeno Príncipe, que foi o último que comprei em 2010 e Fragmentos, do Caio Fernando Abreu, que ganhei da Fabi, ontem.

E depois de tanta busca para passar a virada de ano em qualquer lugar e com o menor número de pessoas possíveis, vou para a praia com duas amigas queridas. Depois de tentar pousadas no litoral, acampamentos no meio do mato, retiros em centro de meditação e convento, Rainha do Mar é o meu destino. Na verdade, corro um grande risco de passar a virada dentro de um ônibus na freeway, mas até isso vou achar ótimo.

Hoje meus tios amados de Brusque passaram o dia aqui em casa. O Daniel sempre foi aquele tio arriado, que ensina palavrões para os sobrinhos. Quando eu era criança, ele era o meu fornecedor oficial de Barbies e ainda é o colorado mais fanático que eu conheço.

A Tati tem a risada mais gostosa que eu já ouvi e uns braços que faz toda mulher morrer de inveja, nada balança ali. O Wesley é o filho deles, o guri tá virando homem, tanto que da próxima vez que ver ele, só restará o homem.

Dia bom, de lembrar, de rir, de conversar, de casa cheia, de bagunça em volta da mesa, de matar as saudades... E é tão bom lembrar que ainda é possível matar alguma saudade, quando uma saudade absurda me consome todos os dias.

Tuesday, December 28, 2010

Dez minutos

Eu sempre tive insônia. Pelo menos desde criança era mais fácil ficar até tarde acordada e dormir pela manhã. Até hoje, acho que esse é o melhor horário para o sono. Quando tinha meus 13, 14, eu só dormia depois que o Pijama Show acabava, lá pelas 3h, claro que sempre cochilava nas aulas, mas nunca me importei com esses cochilos estudantis...

Só que minha falta de sono era sempre no início da madrugada, eu ia para cama tarde. Geralmente saia da internet em torno da 1h da manhã e lia alguma coisa até as 2h30, 3h e quando caia na cama, dormia.

Agora não, minha insônia mudou, piorou, está ainda mais torturante. Ando me deitando mais cedo, logo depois da meia noite e durmo logo. Mas 10 minutos depois, eu acordo. Fico uns minutos acordada e pego no sono. Logo depois acordo e quando vou olhar no relógio, se passaram 10 minutos.

É sempre assim, os exatos 10 minutos. Eu durmo, acordo, entro em pânico com a insônia, pego no sono e... acordo de novo. Sigo desse jeito até de manhã. Assim tem sido as minhas noites. E que horror, que angustia. A noite demora muito mais para passar.

Já decorei os horários de toda a noite. Sei quando os cachorros começam a latir, os pássaros a contar. Escuto meu irmão levantar, ele sair, meu pai levantar, meu vizinho espirrar (ele espirra sempre às 6h50!) Ouço o pai abrir a garagem, o barulho do carro dos vizinhos... Sei os programas das rádios na madrugada. Em 10 minutos dá pra se ouvir muita coisa.

O pior de tudo é que eu nunca desejei tanto dormir. Dormir e dormir, de preferência para sempre. E isso é o que eu mais ouço, a voz impiedosa dentro de mim, me mandando dormir pra não viver, pra não lembrar, pra não chora... Aí o sono vem e me leva com ele, mas me devolve logo, 10 minutos depois. Às vezes acho que é só pra não sonhar.

Friday, December 24, 2010

Então é Natal...

E daí? Eu detesto Natal e essa orgia capitalista, ouviu Papai Noel? Isso inclui você. Lamento, mas não gosto de você. Não sei por que, num país tropical como o nosso, a gente insiste nessa cultura fajuta de Papai Noel? Em cada esquina do centro de Porto Alegre a gente topa com um velho gordo, fantasiado de vermelho, coberto de suor em todos os poros. Coitadas das criancinhas que tem que sentar no seu colo...

Bom, vamos ao que interessa. Eu não vou pedir nada, não se preocupe, cinismo tem limite. Essa cartinha é só um desabafo de uma menina que há muito já se desiludiu com a vida. Por que escrevo para o senhor? Porque saber que tu foi uma invenção do marketing da Coca-cola é a primeira desilusão da vida de muita gente.

Ah sim, como você já deve imaginar, eu não fui uma boa menina. Fiz menos sexo do que gostaria. Tomei menos porres do que imaginei. Comprei menos livros do que desejava e mais do que minha conta bancária permitia. Dormi bastante, sim, mas dormir é como sexo, nunca é demais. Esse ano eu também capotei de carro, mas não morri. Viu como sou arteira?

Mas pensando bem velho barbudo, tem uma coisa que quero te pedir e acho que você vai até gostar. Vai se fuder, faz favor! Ah, o que? Tem alguém falando na TV que Natal é o aniversário de Jesus?

Nunca me convenceram que ele nasceu neste dia. Isso é só mais uma convenção da “santíssima” igreja católica e de algum papa lunático. Por que alguém acha mesmo que o todo poderoso iria nascer com o sol em capricórnio? Seria muito azar e ele não teria sido amor e bondade como dizem.

É velho Noel, não adianta apelar, eu não gosto de Natal.

Monday, December 20, 2010

Tanto faz

Tem coisa mais chata e parada que tanto faz? Tanto faz se tem sol ou chuva. Tanto faz se será cedo ou tarde. Tanto faz se dará certo ou não. Tanto faz doce ou salgado. Tanto faz insistir ou desistir. Há essas alturas... Tanto faz.

Estou numa fase tanto faz na minha vida. Sobre a minha viagem? Tanto faz se vou no inverno, se vou conhecer a Europa, se vai ser legal ou bom pra mim... Sobre o resto das coisas, é a mesma coisa...

Cansei da vida, por isso essa fase. Tanto faz é deixa rolar, não quero participar de nada mesmo. Hoje faz um mês que morri e me pergunto o que será que vem depois do tanto faz?

Tô cansada. Queria conseguir explicar para as pessoas por que viver me dói tanto. Mas as pessoas também têm seus problemas e suas dores. Quando a gente menos espera os transtornos vem à tona.

Tanto faz viver ou não, depois que a gente morre, as coisas deixam de ser singulares. É tudo uma coisa só, morosa, torturante e enlouquecedora.

Sunday, December 19, 2010

Tentando

"Depois de tão complexos exames voltávamosa novas reuniões a fim de aprendermos como de preferência devíamos ter agido para evitar o suicídio, quais deveriam ter sido os atos diários, os empreedimentos, senão nos afastáramos do raciocínio inspirado no dever, na fé em nós mesmo e no paternal amor de Deus! Em vários casos, a solução para os problemas, que abriram as portas para o abismo, ancontrava-se a dois passos de distância do sofredor; surgiria o socorro enviado pela providência ao seu filho bem amado, dentro de alguns dias, de poucos meses, bastando vontade, paciência e coragem moral, necessário ao seu progresso espiritual! Então concluímos com decepcionante surpresa que fácil teria sido a vitória a te´a felicidade, se buscáramos no amor divino a inspiração para os ditames da existência que desgraçadamente destruíramos".

Esse é um trecho do livro "Memórias de um Suicida", de Yvonne Pereira. Conta a triste histótia de um espírito que se matou... O livro tem quase 300 páginas e eu não estou nem na metade. Mas vou ler tudo, além do livro ser bom, eu preciso me salvar!!!

Wednesday, December 15, 2010

SOS

Eu preciso me salvar. Preciso fazer algo para que eu continue. Eu tô quase desistindo. Eu preciso que me enterrem antes que eu me mate.

Ando nas ruas olhando para o alto, para os prédios, pensando qual a altura para ser fatal? Embora não reze mais para eu morrer, nem isso eu consigo.

Já não tenho mais metade das minhas coisas. Metade da metade eu dei a outra, eu coloquei no lixo. Minha mãe fica feliz que eu estou me desapegando, ela diz que a gente tem que tirar o lixo velho para entrar o lixo novo. Mãe, não vai mais ter lixo, eu prometo. Nem eu, também.

Ontem eu peguei a pinça e puxei um corinho em cima da unha do dedo indicador direito, o que eu mais uso, o que mais bate. Ficou um daqueles cortezinhos chatos, que doem a cada batida. Mas essa dorzinha não é suficiente. Então coloquei o dedo no álcool, doeu um pouco, depois amorteceu.

Eu dei minha cama hoje, para um senhor que estava passando na rua, parecia ser um pai de família e bem simples. Olhei pra ele e perguntei: “o senhor quer uma cama?”, ele pensou um pouco e disse que sim. Então pedi pra ele entrar e pegar. Ele pediu pra usar o telefone, pra pedir ajuda para levar a cama, eu falei que “tudo bem, não ajudo porque tenho que terminar a faxina.” Minutos depois, o sogro dele chegou com uma Brasília, levaram minha cama e uns ursinhos de pelúcia que sobraram da infância.

Meu pai tá preocupado, trouxe um colchão velho que tem na garagem pra mim dormir. Por mim, tanto faz, não vou mais dormir. Semana passada, eu roubei R$ 500,00 da conta bancária da minha mãe. Peguei um ônibus para o interior, depois um táxi e voltei, noutro ônibus. Estava me procurando. Não me achei. Eu não sou mais eu.

Quero ir embora para um convento, para um mosteiro, para o Rio, para São Paulo, para Macapá, para Tóquio, para a Islândia, para um SPA, para um circo, para um presídio, para uma comunidade que tome Santo Daime. Eu preciso me salvar.

Tuesday, December 14, 2010

Sempre ele

Abaixo tem umas frases do Caio Fernando Abreu. Sempre que eu estou mal, que eu não me entendo, que me perco em mim, recorro ao Caio. Ele sempre sabe o que se passa comigo, melhor que eu. Então eu me encontro, me entendo...

E me faz bem, parece uma luzinha minúscula no final do túnel. Parece que eu vou sobreviver, que eu vou sair ilesa, que realmente isso tudo vai passar. E eu penso, também, que talvez um dia eu escreva coisas que fazem as pessoas pensarem: “sim, tem saída. Apesar dessa canoa furada, sobreviveremos.”

“Vontade só de dormir, dormir muito, para nunca mais acordar. (...) Só tenho passado, o presente é esta viscosidade o futuro não existe. Ah, eu queria ter um objetivo na vida, uma coisa que sugasse todas as minhas forças, conduzisse todos os meus gestos e todas as minhas palavras. Não tenho nada, só este vazio.” Caio F.

“Cada vez mais frias, e os dias estão cada vez mais duros, e eu tento, tento tanto disfarçar essa dor no me peito e esse nó na garganta, mais chegou o ponto em que eu já não sou mais forte o suficiente, já estou consumida pelo desejo quase incontrolável de desaparecer, pra sempre.” Caio F.

“Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim.” Caio F.

“E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua viva, há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo. Mas não se tem, nem se terá.” Caio F.

Sunday, December 12, 2010

A fé não dá respostas, ela impede as perguntas

Li essa frase sábado e desde então estou pensando... No meio de tantas dúvidas que está minha cabeça, ela me deu uma luz. Eu não tinha respostas porque eu nem sequer perguntava. Eureka!!! Agora a certeza de que não há respostas para minhas perguntas, me mata.

Eu já tive depressão e nem naquela fase, que sem dúvida foi a pior da minha vida, eu estava assim, sem fé. Sábado mesmo, eu me diverti um monte, ri pra caramba, mas
às vezes, no meio da risada eu me pergunto pra quê tudo isso?

Enquanto eu via o espetáculo Exotiquè, do Tholl, pensava como é triste quando nada nos abala, nada muda. O show é lindo, super bem montado e interpretado. Mas aquelas pessoas tão lindas, tão maquiadas, devem ser também tão sofridas, provavelmente tiveram que abrir mão de muita coisa... Será que valeu a pena? Em que momento eles morreram e se obrigaram a renascer?

Eu já perdi a vontade de viver antes. Simplesmente não me imaginava com 25, 30, 32, 47 anos... Não fazia planos porque não queria viver. Agora, mesmo morta, eu consigo me imaginar num mestrado, viajando, morando no Rio ou quem sabe em BH. Posso passar um tempo num SPA, num convento, num hospício... Posso chegar aos 98 anos.

Sei que posso continuar sem fé. Sem querer. Sem vontade e até mesmo sem entender. Só que será uma vida vazia ou uma vida cheia de nada.

Friday, December 10, 2010

Passagens na bolsa

Eu sempre pensei em viajar. Geralmente quando alguém me pergunta(va) qual meu sonho, era isso que eu respondia. Ainda é. Só que eu sempre quis também estudar fora, morar mesmo em outro lugar, e não apenas fazer turismo.

Meus pais nunca tiveram grana para me bancar num intercâmbio, quando era mais nova. Depois veio a faculdade e a mensalidade da mesma. A formatura e alguns meses sem emprego, depois veio um trabalho e o salário, mas veio também uma pós-graduação e novamente, a mensalidade.

Desde que eu comecei a trabalhar, eu sempre guardei boa parte do que ganhava. Paguei meu silicone, paguei minha pós e as minhas pequenas viagens nesse período. Claro que às vezes, tinha que ser socorrida pelo meu pai, mas garanto foram poucas vezes e ele sempre se orgulhou disso.

Agora é a hora de ir para mais longe. Eu sempre imaginei que o dia que tudo isso se concretizasse, que eu comprasse as passagens, que eu tivesse certeza que em pouco tempo eu iria pegar um avião e desembarcar em algum lugar do mundo, seria um dos dias mais felizes da minha vida.

Esse dia foi hoje, mas nem de longe foi o dia mais feliz da minha vida. Eu já paguei um curso e a hospedagem na Espanha, já fiz meu roteiro e comprei um programa para conhecer algumas cidades européias, meu passaporte está pronto há anos, as férias excepcionais que tirarei no serviço estão aceitas e acertadas. E hoje, eu comprei as passagens.

Dia 5 de março, embarco para Barcelona. Agora tá tudo certo, é oficial. Agora, já dá pra falar pra todo mundo. Agora é só esperar e vai passar logo, porque o tempo passa voando e logo já será o dia 5 de março.

Enquanto caminhava pela Av. Independência, indo trabalhar, com as minhas passagens na bolsa, eu me perguntava onde estava aquela felicidade toda que sempre tinha imaginado e esperado naquele momento. Não teve pulos, gritos, telefonemas eufóricos para contar a novidade, nada disso...

Eu era só uma mulher apressada, entre a triste e a estressada, que se dava conta dessas ironias da vida. Eu pensava nas coisas, bem poucas, que eu desejo muito mais que essa viagem. Eu trocaria isso tudo por tão pouco...

Monday, December 06, 2010

Qualquer lugar

Que mania estranha essa que alguns seres da espécie humana tem, de querer fugir para qualquer lugar. Lugar que não se sabe. O que importa é mudar, é fugir, é não reconhecer o contexto. Quem sabe, assim a novidade se torne maior que a atual realidade.

Como aquela música do Tim Maia que diz "pensei até em me mudar. Lugar qualquer que não exista o pensamento em você." Como a gente faz pra fugir da gente mesmo? Será possível mudar de lugar e tudo mudar? Será só uma ilusão? Às vezes eu penso que tudo é ilusão, inclusive viver.

Eu queria sair de mim, isso sim. Ir para um lugar, qualquer lugar, onde eu não estivesse, onde eu não me encontrasse. Ou até mesmo, onde me tornasse uma estranha.

Embora eu já tenha me tornado uma estranha. Esse ser descrente, não sou eu. Essa mulher que quer casar e ter filhos, não sou eu. Mas por outro lado, a pessoa que acreditava em Deus e cartomantes, também não era eu. A mulher que sempre se imaginou sozinha, também não era eu.

Eu não me reconheço mais. O que nos une, a de ontem e a de hoje, é o que sentimos. Só isso. Por isso, sim, eu penso em me mudar. Pra um lugar qualquer onde não exista o pensamento em você e muito menos a consciência do eu.

Quase um Haikai

Tômara que na próxima vida eu volte pedra. Às vezes, ser humano é demasiadamente desumano.

Monday, November 29, 2010

Mais sobre a fé ou a falta de...

Pior do que perder a fé nas coisas, sejam elas abstratas e espirituais, é perder a fé em si, nas coisas práticas e diárias. Não ver sentido em levantar da cama todas as manhãs. Não acreditar nem que exista um amanhã e que as coisas podem melhorar.

Eu não consigo mais planejar nada. Outro dia comentei sobre fazer mestrado com um colega do serviço, eu sempre pensei em continuar estudando, mas me pareceu tão estranho. Fazer mestrado pra quê? Para contribuir com as pesquisas acadêmicas? Ninguém liga pra isso. Pra satisfazer uma vontade minha? É só pra manter minha cabeça doentia ocupada.

Eu não entendo porque uma pessoa que de repente, se tornou tão vazia como eu, ainda respira. Inspirar, encher os pulmões de ar, expirar... Pra quê? Por quê? Qual é o sentido dessa porra toda?

Ainda hoje uma amiga me disse que é a esperança, a fé (seja lá no que), que nos faz levantar da cama e ir em frente, de cabeça erguida. A única coisa que me impulsiona é que todas as manhãs eu penso que é um dia menos desta tortura toda. Um dia isso tudo vai acabar.

Sunday, November 28, 2010

Sem fé

“...não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”Caio Fernando Abreu.

Eu sempre fui uma pessoa crente e sempre achei importante crer em algo. Mas alguma coisa mudou e me faz questionar tudo, de Deus ao vegetarianismo. Eu me sinto vazia de fé. As coisas perderam o sentido.

Astrologia, Feng Shui, I – Ching, trânsitos planetários, cartomantes, Pais de Santos... Não acredito mais nisso. E podem ser coisas superficiais, mas que me faziam bem. Meu quarto foi planejado com o Feng Shui, sabia de cor em qual signo a lua se encontrava e como os planetas estavam no dia. Eram coisas que me davam um sentido.

Conspiração do universo, energia positiva, pensamento premonitório... Faziam eu pensar em coisas boas. Só. Agora não me pegam mais. Nada mais me pega. Eu que sempre andei com a cabeça na lua, cai na terra de cabeça.

Anjos, mentores espirituais, Kardecismo, Deus... Sinceramente? Não sei. Tudo não passa de um grande ponto de interrogação dentro de mim. Tem uma semana que eu não oro mais, eu tentei, mas não consegui, foi quando percebi algo estranho. Desde o dia que morri não consigo mais orar, não creio mais no poder da oração.

Eu não queria que isso tivesse acontecido, é triste não encontrar um sentido nas coisas. Talvez eu vire uma adepta do racionalismo. Não iria estranhar, quando a gente perde a fé, a gente perde também, a capacidade de se surpreender com a vida. Não vou estranhar nem se me der vontade de comer uma boa e sangrenta carne assada.

Twittando

Agora eu tenho um twitter (@re_remachado). E daí né? Mais uma inutilidade pessoal numa era de inutilidades coletivas. Não basta ter amigos, temos que ter seguidores!

Foi a Fabi e o Cris que me convenceram a fazer um, isso há duas semanas. No dia, perguntei: “mas o que eu vou twittar?” Mesmo com essa dúvida, eles me convenceram e eu prometi. Demorei, mas cumpri.

Não sei mexer direito naquilo e continuo sem saber o que escrever lá, ainda mais com tão poucos caracteres... Ando tão de saco cheio da vida. Não preciso twittar isso e, nem as pessoas merecem, ficarem lendo minhas chatices, já basta aqui.

Sei lá, tô no twitter agora, até quando não sei...

Saturday, November 27, 2010

Missa de 7º dia

Eu morri há sete dias. Isso aqui é uma celebração, como uma missa de 7º dia. Nunca entendi o motivo do 7º dia após a morte, nem agora... Bom, eu que acreditava que o corpo morria e o espírito continuava vivinho da silva, estou perdida e sem entender.

Como assim, a alma morreu e o corpo continua? Meu corpo está tentando manter as aparências, tanto que ainda fico em pé! Ainda trabalho, como, converso, leio, escrevo... Deve ser como aquela sensação que pessoas mutiladas têm quando sentem dor nas partes do corpo que não existem mais...

Há exatos sete dias eu estava morrendo. Porque na verdade eu não morri assim, de uma hora para outra. Eu fui morrendo, lentamente, lá em Santa Maria. Dizem que as pessoas pressentem quando vão morrer e de fato, é verdade, quando eu embarquei no ônibus sabia que seria uma viagem sem volta.

Eu estava feliz, não uma felicidade eufórica (que sentia no sábado de manhã, último dia da minha vida). Mas uma felicidade branda, que se contenta com pouco, de quem sabe que tentou até o último minuto.

Morri durante a madrugada, confortável, deitada numa cama, de banho tomado, coberta com edredons, com ar condicionado ligado e abraçada no homem que eu amo. Eu chorei, peguei no sono e não acordei mais.

Meu corpo levantou, foi colocado num taxi, entrou num ônibus para Porto Alegre e chorou os quase 300 quilômetros. Chorei a minha própria morte, o amor que me deu sentido, a saudade que quase me enlouqueceu e a minha alma que estava morta e tinha ficado para trás.

Eu morri há sete dias, num apartamento em Santa Maria. Foi numa noite agradável, estrelada e de lua linda e cheia no céu. Eu morri feliz.

Tuesday, November 23, 2010

Trilha do meu momento

Vale de Lágrimas
Lulu Santos


Deixa eu lhe dizer
O que eu passei
Desde que você
Se desapegou de mim

Eu zanzei pelas ruas,
um molambo
Sonâmbulo,
insone e insano
Queria me atirar no mar
Só para me afogar
Que ainda é melhor
Que ser um devedor
Nas contas do amor
Preferia um deserto atravessar
Sob o sol e as noites sem luar
Do que dar meu braço a torcer
Que você não está
Que você não vem
Faça-me um favor
Volta para mim

É o que sei dizer,
nada mais
Senão me repetir

Que zanzei pelas ruas,
um molambo
Sonâmbulo,
insone e insano
Queria me atirar no mar
Só pra me afogar
Que ainda é melhor
Que ser um desertor
Dos campos do amor
Preferia um deserto atravessar
Sob o sol e as noites sem luar
Do que dar meu braço a torcer
Que você não está
Que você não vem
Faça-me um favor
Volta para mim

É o que sei dizer,
nada mais
Senão me repetir
Outra vez

Preferia um deserto atravessar
Sob o sol e as noites sem luar
Do que dar meu braço a torcer
Que você não está
Que você não vem
Faça-me um favor
Volta para mim

Thursday, November 18, 2010

Pedaços

Eu ando em pedaços. Às vezes eu tenho que correr atrás de algum pedaço que avança pelo caminho. Em outras, que tenho que parar e esperar os pedaços que ficaram para trás.

Estar em pedaços cansa. Pois tenho que fazer um esforço sobre humano para parecer inteira. É quase uma mentira e, uma mentira que deforma a alma. Dói muito, dói tudo. Até sorrir machuca.

Por hora, estou conseguindo manter alguns pedacinhos juntos e em pé, eles desmoronam sim e várias vezes ao dia. Em inúmeros momentos eu penso: “deu, agora eu vou desmoronar!”

Mas sempre tem uma ou outra parte que resiste. É uma tortura, um esforço físico e mental. Eu tenho que manter a ordem do caos. Eu tenho que viver, morta por dentro.

Monday, November 15, 2010

A Feira





Acho que todos os anos eu escrevo alguma coisa sobre a Feira do Livro. Esse ano, para não perder o hábito, não será diferente, embora tenha sido bastante diferente. Eu tinha pensando em passar longe da praça da Alfândega, contenção de gastos total por causa da viagem. Só que comprei três livros e meio, mais um guia de viagem de Barcelona, ou seja, gastei mais do que queira...

Os livros: Marilyn últimas sessões, de Michel Schneider, que foi o maior achado da feira, a biografia da Marilyn Monroe por R$ 13,00! Olhares Cruzados, que tem vários artigos de intelectuais europeus e latino-americanos sobre a questão da identidade nesses dois continentes. O extraordinário Poder da Intenção, livro de auto-ajuda que trouxe pra mãe, mas não nego, talvez dê uma olhada, estou apelando para tudo...

O meio livro: Clarice na cabeceira, vários contos da Clarice Lispector apresentados por diversas pessoas (Adriana Falcão, Lya Luft, Malu Mader, Mônica Waldvogel, entre outros). É meio livro, porque rachei com Fabi, vimos na banca, nos olhamos e levamos. Eu vou ler primeiro, mas realmente, comprar meio livro é engraçado, hehehe. Com quem ele vai ficar depois?

Falando na Fabi, foi com ela e com o Cristian (que eu conheci hoje), que fui na feira. Bom, a Fabi: só ela pra me aturar, pra me tirar de casa e me fazer rir. O Cris: gente fina, elegante e sincera. Libriano com ascendente em gêmeos.

O melhor de tudo é que tomamos umas cervejas e fizemos planos. Eu até consegui rir, embora não tenha esquecido. Uma hora vi um livro lindo (e caríssimo) sobre fotografia, bah, que vontade meu deu de comprar pra dar pra ele...

Vamos aos planos de ordem prática e real. Vou sair da Era Paleolítica que vivo e vou fazer um twitter, essa semana, escrevo sobre isso aqui no blog quando der esse passo gigantesco para mim, mas mínimo para a nossa modernidade atual, hahahaha.

Agora o melhor de tudo, lá por junho, julho de 2011, eu, Fabi, Cris e quem mais for parceiro, vamos passar uns dias em Buenos Aires. Coisa boa né? Melhor ainda é alguém com a mente suicida que eu tenho, fazer planos, às vezes isso é tão difícil...

No final das contas, foi um bom dia. Não me fez esquecer de nada, não amenizou a saudade, mas consegui respirar ares diferentes... Adorei a tarde, as minhas aquisições e a companhia.

Wednesday, November 10, 2010

Que seja doce




Essa frase “que seja doce” virou quase um mantra pra mim, porque é singela e densa ao mesmo tempo. Está num verso do Caio Fernando Abreu, ele que sempre foi tão bom em descrever sentimentos e coisas abstratas, merecia estar na minha pele.

Dizem que por trás de cada tatuagem, de cada desenho no corpo, tem uma marca na alma. E na minha tem o desejo de que as coisas sejam doces. Que a vida seja doce. E também, é para não esquecer que muita coisa na minha vida já foi doce, por isso essa tatuagem está num lugar que eu possa enxergar sempre.

Essa é a quarta frase que tenho tatuada. Eu gosto de frases, porque gosto de livros e histórias. Assim como gosto de mantras e letras de música. Como gosto, principalmente, de tudo que contêm esses sinais gráficos que chamamos de letras, é através delas que me comunico melhor, que tento me salvar.

Espero que cada pessoa que ler meu braço fique com essa frase na cabeça, que seja doce, que seja doce, como um pedido lançado ao universo ou uma pequena prece em meio há tantos devaneios que passam pela nossa cabeça. Não importa o que, importa sim, é nos darmos conta da doçura das coisas. Mais do que nunca, eu preciso que seja doce!


“Que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”
Caio Fernando Abreu

Monday, November 08, 2010

Futuro bom

Queria beijar você para o resto da minha vida e eu não iria enjoar. Queria também, ver teus cabelos ficarem brancos e notar que você está engordando e, mesmo se eu reclamasse, pode ter certeza que ainda te acharia o homem mais lindo do mundo. E toda vez que te visse de óculos e gola alta, falaria que você está muito sexy.

Eu te daria colo, ombro, ouvidos e todo o resto, do corpo e da alma. Cuidaria de você com gripe, dor de cabeça, tosse e até mau humor crônico, e seria a mulher mais feliz do mundo por isso. Agradeceria todo dia, ter o privilégio de viver com o homem que amo.

Não, não há nem um pouco de exagero nisso, há sim, muita lucidez. Tem a consciência branda de quem percebeu o porquê se nasceu, os caminhos que percorreu, de quem, de uma hora para outra ou lentamente, se deu conta do sentido de tudo. Você chegou e me explicou muita coisa, me deu um sentido.

Por mais que eu pense em me atirar na frente de um caminhão para acabar com a saudade infinita que sinto de você, é justamente, a necessidade de matar essa saudade que me faz continuar, que me levanta da cama, todos os dias.

Porque eu amo tanto você, que um dia a gente vai se encontrar, a tal força que move o universo e faz as coisas darem certo me levarão até você. Às vezes, dá medo de nunca mais te ver, mas eu penso que nem o diabo seria tão desumano assim.

Até porque ele já deve se divertir bastante com essa situação, um dia ela vai cansar e me largar de mão. Nesse dia algo vai acontecer. Nesse dia eu vou ter a certeza que valeu a pena acreditar em todo o amor que eu sinto.

Preciso tanto aproveitar você
Beijar teus olhos, olhar tua boca
Ouvir palavras de um futuro bom

(Palavras de um futuro bom - Jota Quest)

Saturday, November 06, 2010

Comer, Rezar, Amar

Já tem tempinho que fui assistir ao filme Comer, Rezar, Amar, inspirado no livro da americana Elizabeth Gilbert. E prefiro o livro que li enquanto estava em Florianópolis, em fevereiro de 2009. O filme é maçante e monótono.

Se no livro sobra emoção, no filme, falta. E faltou também o amigo que tocava violão que ela conheceu em um dos países que visitou, não lembro qual (esse personagem não mudaria a história, mas simpatizei com ele...). E não precisava aquela cena que o brasileiro Felipe dá um selinho no filho, que justifica isso como um comportamento natural do caloroso povo brasileiro.

Claro que alguma coisa no filme iria faltar, já é extenso, com quase duas horas de duração e nunca consegue colocar todo um livro no cinema. O filme não conseguiu mostrar que a grande viagem aconteceu, de fato, no interior da personagem. Já o livro trás passagens interessantes sobre o que Liz pensa sobre o amor, a depressão, a felicidade...

É um trecho que fala sobre a felicidade que reproduzo aqui. Um belo trecho, pois se ser feliz fosse tarefa fácil, só nascer já bastaria e viver seria secundário. Mas não, é necessário viver e sempre alerta e atento, prestando atenção em tudo pra perceber onde está, de fato, a nossa felicidade. Ou o que nos move em direção a ela.


“...as pessoas tendem a pensar universalmente que a felicidade é um golpe de sorte, algo que talvez lhe aconteça se você tiver sorte suficiente, como o tempo bom. Mas não é assim que a felicidade funciona. A felicidade é conseqüência de um esforço pessoal. Você luta por ela, fez força para obtê-la, insiste nela, e algumas vezes viaja o mundo à sua procura. Você precisa participar o tempo todo das manifestações de suas próprias bênçãos. E, uma vez alcançado um estado de felicidade, nunca deve relaxar em sua manutenção, deve fazer um esforço sobre-humano para continuar para sempre nadando contra a corrente rumo a essa felicidade, para permanecer flutuando em cima dela. Se não fizer isso, seu contentamento interno irá se esvair. É muito fácil rezar quando se está passando por um momento difícil, mas continuar a rezar mesmo quando a sua crise já passou é como um processo de selamento, que ajuda sua alma a se aferrar às coisas boas que conquistou.” Elizabeth Gilbert - Do Livro Comer, Rezar, Amar.

Wednesday, November 03, 2010

Saudade mata

Eu sinto tanta saudade, mas tanta saudade que falta o ar, dói a cabeça, o peito, o estômago e dá nó na garganta. Às vezes dá calafrios, noutras tonturas e quase sempre, fica a certeza que eu vou morrer de tanta saudade.

Se eu enfartar, ter uma parada cardiorrespiratória, cair de tontura e arrebentar minha cabeça, morrer de gastrite, de câncer, de pancreatite, com um AVC, se eu acabar esquizofrênica, bipolar ou me atirar pela janela, a causa será só uma: saudade.

Saudade mata a gente, sim, de uma maneira cruel e lenta. Porque as horas se arrastam e o tempo não passa, mas quando percebemos passou muito tempo e a gente se pergunta como conseguimos viver assim? E percebemos que não foi vida, foi meia vida, porque boa parte de nos já morreu.

Ela vai matando aos poucos, sem muito alarde. Mata o sono, com isso a vontade de levantar da cama de manhã também vai embora. Saudade acaba com a atenção, o rendimento no trabalho cai, vozes de pessoas ao nosso lado parecem ruídos que vem de longe, as pessoas se tornam cada vez mais distantes, paisagens ficam desfocadas e as cores ficam com tons de cinza.

As risadas ficam escassas e os sorrisos, tristes. Os olhos se perdem fácil e a visão não absorve o que realmente enxerga. A firmeza das pernas escapam entre os músculos firmes e bambeiam, porque saudade mata a gente e com muita dor.

Por fim, as vontades somem. Nenhuma fica, vão todas embora, uma a uma, algumas resistem mais tempo que as outras, mas a saudade leva todas elas pela mão... A gente assiste tudo e morre mais um pouquinho cada vez que uma vontade se vai.

Quando só fica o vazio, a saudade mata porque começa a roer e a corroer a falta, o nada... Saudade mata a gente, sim, porque quanto mais pensamos numa maneira de acabar com ela, mais forte ela se torna, mais presente fica. O alimento da saudade é a dor que ela mesma causa.

A saudade nos mata, mas deixa o nosso corpo zanzando por aí, aos pedaços, murcho e oco, a gente só não voa, porque a saudade é pesada. Tem o peso do amor que nos falta.