Sunday, September 27, 2009

Orgulho de ter orgulho

Domingo passado foi 20 de setembro e eu desfilei, pela primeira vez, em comemoração a Revolução Farroupilha. Guerra que durou 10 anos e nos, gaúchos perdemos. Mas como somos um povo muito valoroso, aguerrido e bravo, todo ano, comemoramos. E viva o 20 de setembro.

Como todo gaúcho que se preza, viramos historiadores no mês de setembro. E foi em cima de um cavalo, durante o desfile que perguntei para o meu avô, que nunca estudou e mal sabe assinar o nome, mas entende muito de história, por que comemoramos uma guerra que perdemos. A reposta: “Porque perdemos de cabeça erguida. Lutamos durante 10 anos e nunca baixamos a cabeça, honramos nosso orgulho de gaúcho. E temos que honrar sempre.” Entendido.

Ontem, foi o churrasco de um ano de formatura. Na verdade um ano e um mês, não conseguimos reunir o povo antes. E que jornalistas são sempre muito ocupados. Bom, um terço da turma estava presente, os de fé, que foram em todas as festas e encontros pré-formatura.

Como ficou o churrasco eu não sei, mais o pão com alho estava perfeito, valeu Diego! Entre uma discussão e outra sobre a não obrigatoriedade do diploma e outras mazelas da nossa honrada profissão, tomamos cerca de 60 garrafas de cervejas. Cheguei em casa, às 15h de um sábado, bêbada.

Tirando isso, todos os que foram no grande evento estão trabalhando e ganhando uma mixaria, a grande maioria continuou estudando, fazendo especiliazação, mestrado ou até mesmo outra graduação. Um dos colegas presentes fez um curso em São Paulo, teve oportunidade de trabalhar numa revista da Abril, mas voltou pra cá, afinal como ele encheu a boca pra dizer: “eu sou gaúcho”.

Aí começou a discussão que levou mais tempo, sobre o nosso orgulho. Gaúcho é um povo orgulhoso e arrogante. Jornalistas são orgulhosos e arrogantes. Ficamos horas defendendo a nossa terra e a nossa profissão, chegamos a conclusão que ter nascido aqui é uma dádiva e que ser jornalista, uma benção. Sobre ser gaúcho e jornalista, só confirmamos nossas certezas, os melhores jornalistas do país saem daqui.

Quando o churrasco ficou frio, o pão acabou e já estávamos quase em coma alcoólico, fomos embora, sonhando com uma nova revolução que separe o nosso Estado do resto do Brasil. Nesse país os jornalistas serão obrigados a cursarem um curso superior, terão salários dignos e feriados. Fizemos quase toda uma Constituição para um novo país. Só esquecemos de marcar um novo encontro.

Thursday, September 17, 2009

Na noite passada eu ia chorar

A noite passada eu precisava chorar. Porque eu tava cansada. Porque me dá medo do que vem pela frente. Porque eu não gostei do jeito que você me tratou. Porque eu não sei bem o que tá acontecendo aqui dentro.

Eu precisava chorar. Tem tempo que eu não choro. E é bom, às vezes, colocar pra fora. Acordar o bicho que habita meu estômago e pelo visto, tá fazendo um retiro espiritual. Eu nunca mais chorei antes de pegar no sono.

Me programei para chorar assim que me deitasse na cama, no quarto escuro, com o rádio ligado num volume bem baixinho. Comecei a pensar na vida. Tá tudo tão bom, mas será que era assim que imaginei? Não sei. Não sei... O que planejo, vai rolar mesmo? Sei lá. Sei lá...

Eu tinha certeza que ia chorar na noite passada. Li e escrevi antes de me deitar, xeretei teu Orkut, fiz um passeio pelas lembranças e selecionei as que me fariam chorar. Mas eu tava tão cansada de tudo, que deitei e peguei no sono.

Saturday, September 12, 2009

Tempo, chuva, lembranças...

Estava dentro do trem hoje de tarde, pensando que tinha que escrever para o blog sobre a chuva. Aí passei pela Expointer e vi o parque de diversões sendo desmontado e lembrei que não escrevi o texto sobre domingo passado para o blog. Falta de tempo total. O tempo, tão bendito e tão maldito.

Domingo passado levei meu afilhado na Expointer, exclusivamente para ir ao parque de diversões. E foi de cabeça pra baixo no Kamikaze, quando a gente anda pela terceira vez e já consegue conversar enquanto o brinquedo dá as suas voltas que o Rockson, com toda a sabedoria dos seus 10 anos me olhou e falou: “Daqui uns anos é eu que vou trazer alguém no Kamikaze”.

Com certeza. Daqui uns anos ele não vai precisar da dinda pra nada. Daqui uns anos ele vai rir quando for num parque de diversões e ver um Kamikaze. Daqui uns anos, ele vai se dar conta da velocidade que o tempo passa por nós. E passa sem que percebemos, porque estamos ocupados.

Há uma semana eu queria escrever esse texto, que se fosse escrito domingo passado seria diferente, eu ainda estaria eufórica com o domingo no parque. Mas uma semana se passou, o trabalho continuou no seu ritmo frenético, a Assembleia Legislativa acatou o pedido de impeachment da governadora, surgiu mais trabalho nas aulas da pós, almocei com um amigo, tomei um porre, dormi fora de casa, marquei hora pra fazer uma tatuagem... E o texto mudou porque o tempo passou.

Sobre a chuva eu estava lembrando as coisas bacanas que fiz enquanto chovia loucamente lá fora. Foi debaixo de um dilúvio que eu fui sozinha num show da Tequila Baby, uns 10 anos atrás. Choveu forte antes de começar o show da Madonna. No meu primeiro dia de aula na Unisinos, cheguei encharcada. Caiu o mundo quando voltamos de Brusque nesse verão. E a primeira vez que eu andei no Kamikaze foi na Expointer, com a irmã mais velha do meu afilhado e estava chovendo.

Saturday, September 05, 2009

Não era bem assim...

Eu ando meio perdida. E não sei onde foi que me perdi. Meu coração parece em paz, embora eu chore quando escute Nando Reis. Porque tu também gosta de Nando Reis, mas não sei se gosta de mim.

E eu sinto uma saudade de conversar contigo, das tuas piadas inteligentes e das sem graça. Ah, esses homens que nos fazem rir. Eu adoro e me apaixono e me perco e me arrependo. Se bem que do jeito que eu sou, ia me arrepender de qualquer jeito. Se fosse assim ou não.

Eu sei o que quero, só não sei como agir. Eu sei que sou ciumenta, possessiva, neurótica e insegura, mas saber é o primeiro passo pra mudança. Você só precisa colaborar com o bom comportamento.

E pensar que você não o tipo que eu gosto, não é loiro, não tem olhos azuis. É baixinho, moreno, quase gordinho e meio infantil. Só que é inteligente, divertido, ambicioso, disciplinado, tem objetivo, gosta de ler, sabe cozinhar, era perfeito. Era.

Não era bem assim que eu pensei que fosse ser. Não era pra ter dado tanto papo. Não era pra estar gostando. Não era pra pensar tanto. Não era pra ficar tão ansiosa. Não era pra chorar ouvindo Nando Reis. Não era nem pra tá escrevendo pra você.

Sunday, August 30, 2009

O show acabou

Sexta-feira foi minha última aula de dança na Arte e Equilíbrio, escola onde dancei por quatro anos. A escola vai fechar, todas as turmas, exceto as de dança de salão, já encerraram as atividades. Dificuldade com grana, falta de alunos, falta de profissionais, incompatibilidade de horários, falta de incentivo para tudo que envolva a cultura e outras coisas levaram a isso.

Uma pena. Mais do que a escola onde dancei, foi ali que descobri que era capaz de dançar. Lembro a primeira vez que entrei lá, dos quadros na parede, do incenso que tava queimando, da moça que me atendeu, lembro principalmente, que gostei de estar lá. Lugar alto astral. Sai com a certeza que voltaria no sábado para uma aula experimental de dança do ventre.

E tinha certeza que não passaria daquela aula. Afinal, sempre fui dura como uma porta. A certeza continuou quando na primeira aula não consegui fazer a batida lateral (passo básico da dança do ventre), mas algo me fez voltar no outro sábado e me matricular. E já se passaram quatro anos.

Nesse tempo conheci pessoas que amam a dança, aprendi a mexer o corpo, passei a usar expressões típicas de bailarinas, comprei várias sapatilhas, passei a ter calos nos meus pés, dores musculares e me orgulhar disso, aprendi a escutar música árabe, estudar tempos musicais, perdi o medo do palco, fiz várias passagens de palco, me apresentei em vários lugares e percebi que eu não só sei dançar, como amo muito isso. E isso foi fundamental pra mim sair da depressão que me encontrava quando entrei lá pela primeira vez.

Agora vai ficar as lembranças das apresentações de finais de ano, que eram incríveis. Ah, o camarim, a bagunça que eram aqueles camarins, o gelo seco, as luzes, os aplausos, os amigos que eu fiz, a ansiedade da espera na coxia... Eu vou continuar dançando, claro, agora na academia da minha professora de dança do ventre e me apresentado em festivais de dança árabe, como fiz domingo passado.

Eu deixo de ser uma aluna da Arte e Equilíbrio e passo a ser uma dançarina do ventre. Só. Não tenho mais a responsabilidade de representar uma escola, nem a proteção de pertencer a uma. Fica uma saudade, a certeza de que quando eu contar pra alguém como eu comecei a dançar, a escola vai voltar a existir, porque faz parte da minha história.

Em qualquer festival, festa, jantar, evento que eu me apresentar, estará ali, uma aluna da Arte e Equilíbrio. E já que o show acabou, vamos estourar os balões e festejar, porque era isso que acontecia quando as cortinas fechavam e terminava o espetáculo para os expectadores. Para nós, dançarinos, ficava o sabor do dever cumprido, a maquiagem pra tirar e a purpurina que grudava no corpo e nos acompanhava durante dias.

"Você precisa amar a dança para aderir a ela. Ela não lhe dá nada de volta, nada além daquele único momento fugaz quando você se sente vivo" Merce Cunningham

Friday, August 21, 2009

Antes e depois

“Por que escrevo? Porque é a minha vingança contra todas as palavras e sensações que morrem todos os dias mostrando pra gente que nada vale de nada. Toma esse texto, o único lugar seguro e eterno pra gente.” Tati Bernardi

Eu estava tri bem. Com o meu emprego que eu adoro, minha pós em sociologia, minha dança do ventre, meu balé, o Pilates, a casa espírita, pintando meu cabelo regularmente todos os meses, fazendo minhas unhas toda a semana, indo no cinema, no Margs, na Redenção, saindo com as minhas amigas, indo fazer festa com as gurias de Buenos Aires, escrevendo, cantando alto as músicas do Nando Reis... Estava vivendo e feliz.

Nem sei te dizer quando foi que eu reparei. Eu sei que um dia você me olhou e eu senti um frio na barriga. E fazia tanto tempo que eu não sentia isso, que até gostei. Me peguei acordando 10 minutos mais cedo, só pra dar tempo de passar base, lápis e rímel. Percebi, também, que leio o teu signo antes do meu. E já me pesquisei na internet se leão combina com libra e, graças a Deus, os astros conspiram a favor.

Eu te achei tão diferente, tão surpreendente, tão diferente daquela primeira impressão. Conversei tanto, isso que sou de poucas conversas. E agora eu tô aqui com milhares de borboletas no meu estômago, sem saber o que fazer. Sem saber no que vai dá. Com medo de errar de novo, de possibilitar o erro. Tô aqui pensando se chorar, vai aliviar; se escrever, você vai ler; se insistir, vai dar certo; se não fugir, vou conseguir; se desistir, me arrepender...

Eu não sei o que vai acontecer. Não sei o que sinto, além do nó na garganta e de uma certa ansiedade. Antes, eu tava bem, agora já não sei, mas aprendi (cedo demais), que o durante sempre acaba, isso sempre passa. E depois que acabar, minha vida vai seguir exatamente como era antes, sem você.

Saturday, August 08, 2009

Mais um ano

Hoje é meu primeiro dia de idade nova. Eu nunca fui muito de aniversário. E essa história de envelhecer, de ver o tempo passar não me agrada muito. Só que eu tô bem, tô feliz, tô curtindo a vida adoidado. Então resolvi não reclamar tanto hoje, não lembrar de coisas e pessoas que de fato, não merecem serem lembradas. E entrar no clima.

Prefiro me concentrar no ano limpinho que tenho pela frente. E sinceramente, só quero que meu estado de espírito continue assim como tá. Livre, leve, solto e feliz. Só! De verdade! Tem muita coisa pra eu realizar, mas estou no caminho. Meu mantra atual é: o melhor está por vir!

Então é isso: felicidades pra mim! E pra você: tudo em dobro!

Monday, August 03, 2009

Passado

O Marcello, meu primo de Florianópolis, me mandou um e-mail pedindo ajuda pra fazer a árvore genealógica da família, pegar os dados do povo daqui. Como gosto dessas coisas, adorei a idéia. E pensei que seria divertido e trabalhoso. Só que tá sendo bizarro... e trabalhoso!

Minha mãe não tem certeza do nome do avô dela! Fora os tios, os primos que ninguém sabe “que fim levou”. Está sendo engraçado ouvir as histórias. Tenho um bisavô que vivia preso durante a segunda guerra porque quando bebia demais, falava bem do Hitler.

Tem um irmão da minha avó que teve o armazém mais conhecido de Esteio. Só que as pessoas não lembram o nome do cidadão. E meu avô tem vários irmãos de criação, só que a maioria morreu e ele tá fazendo confusão de quem é irmão legítimo, quem é de criação. Fora que quando eu ligo para os meus tios avós (cruzes!), eles começam com histórias e mais histórias, mas as informações que eu preciso, não lembram.

Tirando o divertimento momentâneo, me dá medo. Fico me perguntando em que momento as pessoas se perdem? Não só famílias, tios, primos. Amigos também. Por que algumas pessoas são extremamente importantes em algumas fases? Por que com o passar do tempo as pessoas vão ficando pra trás?

Parece que não conseguimos administrar tudo que a vida nos trás. Emprego, faculdade, amigos, namoros... fora as mudanças que acontecem. Dá a impressão que não cabe todo mundo numa vida só. Ou analisando de uma maneira bem prática, não temos tempo pra conviver com todo mundo, aí conforme as coisas vão acontecendo, as prioridades e as pessoas vão mudando.

Mas é estranho pensar que daqui alguns anos as pessoas que fazem parte da minha vida hoje, podem estar só na lembrança. E vão estar. Como a minha amiga Gabi está. E isso era impensável há uns três anos atrás. Às vezes eu me pergunto como a ela está. Daqui uns anos vou me lembrar dela e pensar “que fim levou a Gabi?”

E nós? Que fins irão nos levar?

Sunday, July 26, 2009

Tô Puta Mesmo

Eu tenho TPM, não que eu me orgulhe disso, mas tenho. É fato. Quando falo isso tem pessoas que torcem a cara, como se falassem “é manha”, tem algumas que falam “mas tu é tão novinha”... Eu nem respondo, apenas conto até 10, 24, 38, 57, depende da vez e do meu nível de irritação.

Mas que me dá uma vontade esganar um, ah dá! Qualquer um, do meu irmão ao cidadão que passa na minha frente na rua. Que ódio. Por que essa gente me olha? Não posso ficar em paz, quieta no meu canto. Eu irritada? Impressão. Eu estressada? Não sei aonde. Eu com TPM? Capaz. Capaz que vou dar o braço a torcer.

Sempre fui assim, caso o mundo não percebeu. E claro que o mundo não percebeu, esse bando de gente lerda e limitada. Ai que ódio!!! Hoje eu mato um. Ah, como eu queria cravar minhas unhas no pescoço de alguém e ficar lá segurando, até alcançar o nirvana. Falando em nirvana, hoje só quero rock no volume mais alto possível, que é pra eu poder gritar em paz.

Paz. Que paz é essa? Como ficar em paz com meus hormônios se rebelando em algum lugar dentro de mim? Com espinhas na cara e toda inchada? Que vontade quebrar uma balança. Tô com barriga e me sentido uma orca. E não posso nem olhar pra minhas pernas porque tô cheia de pontinhos roxos, maldita hora que resolvi tirar as varizes. Nem dá pra alguém eu posso com as pernas cheia de pontinhos roxos. Que ódio!

E esse nó na garganta!? Já não basta o inchaço, a irritação, as espinhas, a gula incontrolável, a auto-estima que já ultrapassou o chão e tá avistando a crosta terrestre. Ainda dá vontade de chorar. Aiiiiiiiiiiiiiiiiii que triste é o mundo, ao menos o nó na garganta vai passar... Não eu não vou chorar, não tenho motivo pra chorar. Merda, eu já to chorando. Ai, que ódio...

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72

Sunday, July 19, 2009

E se acontecer de novo?

Sempre ouvi que uma pessoa com depressão tem que se tratar a vida toda, ou boa parte dela. E sempre tive medo disso. Não gostaria de passar boa parte da minha vida tomando remédio pra sentir alegria e muito menos fazendo análise.

Eu ando tri bem. Feliz mesmo. Gosto da minha vida do jeito que tá, embora ainda tenha muita coisa pra fazer. Estou mais consciente. Curtindo, realmente, as pequenas coisas da vida. Por mais piegas que isso possa parecer.

Faço planos, consigo me imaginar com 30, 40, 55, 70 anos e sinceramente, acho que viver é bem legal. Muito legal! Tem um tempão que não choro. E nem tô me estressando tanto com as coisas, por mais incrível que isso possa parecer. Tô tri bem mesmo!

Pois é esse o problema. Às vezes no meio de uma gargalhada eu penso: “e se eu voltar a ser como era?”. Ou no ônibus, no meio de algum evento que eu esteja cobrindo, no cinema, caminhando no sol, andando de bicicleta, dançando, lendo... Do nada eu me pergunto: “e se acontecer de novo?”

Eu não sei em que momento da minha vida eu me perdi, então posso me perder de novo. E me dá medo. E eu penso será por isso a vigília constante e eterna das pessoas que tiveram depressão? A gente acaba pagando um preço caro por viver com consciência de que se é feliz.

Thursday, July 09, 2009

Simplesmente feliz

Assisti ao filme Simplesmente Feliz, do diretor Mike Leigh, o mesmo de Segredos e Mentiras. O filme é uma comédia sobre diversão, procura de amores e aproveitar a vida, que mostra a rotina de Poppy, interpretado pela Sally Hawkins, que é uma jovem professora de escola primária, e uma otimista incorrigível que dificilmente se chateia.

Poppy tem o dom de aproveitar ao máximo a vida e a vida dela não tem nada de extraordinário. Ela mora com uma amiga, tem duas irmãs mais novas, vai ser tia, planeja as aulas que dará para as crianças da escola, às vezes sai pra balada com as amigas, faz aulas na auto-escola, sai para beber com as colegas depois do serviço, faz ginástica numa cama elástica, começa um curso de flamenco, procura de um namorado e como todo mundo, tem problemas.

Mas ela está sempre rindo, sempre feliz. Sempre! E o filme mostra exatamente essa rotina de gente-normal-com-um-talento-nato-de-ser-feliz. Sem dúvida, o filme é monótono, porque não há nem um grande acontecimento. Quando a personagem arruma o tal namorado é natural, nada de encontros inesquecíveis, de grandes pretensões, histórias surreais, ele é só mais um personagem do filme e da vida da Poppy.

Simplesmente Feliz mostra a vida de uma pessoa normal e feliz. A vida é monótona sim, pode parecer sem grandes acontecimentos, não imaginamos o que as pessoas podem vir a se tornar quando surgem na nossa vida, trabalhar é cansativo, aprender a dirigir nem sempre é fácil, a irmã mais nova dá problemas, o cheque não tem fundo, a ressaca é horrível, mas é exatamente assim que a gente é feliz.

Wednesday, July 01, 2009

Salve a arte



No último final de semana participei da 9ª Feira Harem de Danças Árabes, realizada nos dias 26, 27 e 28 de junho, na Sociedade Libanesa em Porto Alegre.

No evento anual, promovido pela Escola Harem, acontecem shows e workshops. Nessa edição, a grande atração foi a dançarina do ventre russa Nour, considerada a maior estrela de dança do ventre do Egito e o cantor e dançarino egípcio Yasser Alswery.

Durante dois dias, fiz workshops de dança do ventre, dança folclórica árabe – o Dabke – e dança Beduína. Havia em torno de 100 participantes nos cursos e um clima muito bom, de celebração. Todas ali celebravam a arte.

Danças como o Dabke e a Beduína exige que os professores ensinem muito mais que coreografias ou passos ritmados, tem que ter todo um conhecimento da cultura, um entendimento dos significados dos passos.

Já em casa, assistindo o Fantástico, a matéria sobre os robôs que fazem serviços de humanos, me chamou atenção por causa do comentário da minha mãe, que um dia os robôs iriam dominar o mundo. Mas não vão, não. Tenho certeza disso depois desse final de semana.

Por mais cômodo que parece ser robôs que fazem funções básicas para nos, humanos. Sempre haverá a arte para nos lembrar que certas atividades são imprescindíveis para nos manter vivos. Nenhum robô poderá dançar por nos, nem fazer malabarismos e escrever poesias, bordar, interpretar, tocar flauta ou derbak ou guitarra...

Em épocas de grande avanço tecnológico sempre é bom lembrar que a arte é uma atividade essencialmente humana. Por mais cansativo que seja e por mais disciplina que possa exigir, é na arte que a gente extrapola o mundo, é dançando, cantando, fotografando que a gente celebra o ser humano.

Wednesday, June 24, 2009

E viva São João

Noite de São João
Kleiton e Kledir


Era noite de São João
E eu saia com meu irmão
De bigode de rolha
E chapéu novo em folha
Brim Coringa e alpargata

Toda noite de São João
Eu sonhava em pegar da mão
De uma prenda bonita
De vestido de chita
E Maria Chiquinha

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João


Toda noite de São João
A quermesse era um festão
Bandeirinhas no arame
De papel celofane
Pau de sebo e de fita

Era noite de São João
E depois de comer pinhão
Vinha pé-de-moleque
Puxa-puxa e um pileque
De caninha ou de quentão

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João


Era noite de São João
Cordeona com violão
Esquentavam as moça
E eu nesse bate-coxa
Não podia me segurar

Toda noite de São João
Eu voava que nem balão
Namorava as estrelas
Que são primas terceiras
E afilhadas de São João

Soltando foguete (tchê)
Pulando fogueira (há)
Era noite de São João

Wednesday, June 17, 2009

Não tem explicação

Hoje, o Supremo Tribunal Federal, STF, julgou a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Após ser adiado por duas vezes, o Recurso Extraordinário 511961 voltou à pauta da sessão plenária. O julgamento se dividiu entre as posições do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo, o Ministério Público Federal (MPF) e a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) com o apoio da Advocacia Geral da União.

O que aconteceu no país que mais parece uma pizzaria? Não é mais necessário ter diploma para exercer a profissão de jornalista. Uma profissão que lida diretamente com a sociedade, de tal importância, que é chamada de “o quarto poder.” Grosso modo, qualquer pessoa pode atuar como jornalista. O resultado foi 8x1 para eles. Há apenas um ministro de bom senso e coragem no STF.

Defender a necessidade do diploma de Jornalismo no exercício da profissão está longe de ser uma questão corporativa. Esse ataque à profissão jornalística é um atentado a liberdade e o fim da exigência da formação fere toda a sociedade em seu direito de ter informação qualificada. Hoje, retrocedemos muitos anos na história.

O procurador geral da República, Antonio Fernando de Souza, que defendeu o MPF e o Gilmar Mendes, afirmou que a exigência do diploma é um "obstáculo à livre manifestação de pensamento, garantida pela Constituição.” Ora, há espaços de opiniões em todos os veículos de comunicação. Qualquer cidadão pode e deve dar sua opinião e se quiser, torná-la pública. Existe espaço para isso.

Agora, notícia é coisa para jornalista. É óbvio que um médico tem mais conhecimento sobre saúde do que um jornalista, um advogado entende mais da legislação do que o jornalista e assim por diante. Isso é senso comum, não se discute. Agora o que um médico, um advogado, um dentista, um engenheiro entendem de lead, de critérios de noticiabilidade, de mídia tranning, de clipagem e taxação?...

Perceberam? Perceberam a burrada que a turma do Ministério cometeu? Os jornalistas sairão perdendo, claro. Mas pior será para a sociedade que poderá perder a certeza de receber uma informação qualificada feita por profissionais competentes. Além de essa atitude abrir vários precedentes, o relator do projeto, Gilmar Mendes, disse que regulamentações de outras profissões também serão revistas. Aonde vamos parar?

A democracia não tem explicação

Outro ponto importantíssimo nessa história absurda é que se a cassação do diploma é para endossar a “democracia”? Por que não se levou esse debate para a sociedade? Por que o MPF não foi para as ruas fazer a campanha contra o diploma e nós, a favor? Por que não se ouviu falar isso nos telejornais da Rede Globo? Por que não realizaram um plebiscito e deixarem a escolha nas mãos da sociedade?

Mas é a democracia, gente. Democracia, vivemos numa democracia, onde oito representantes de uma minoria, considerada a elite do judiciário brasileiro, resolve que a Nação não tem direito de receber informação decente, nem o de ter uma imprensa livre e autônima, feita por profissionais.

O que farão os milhares jornalistas registrados no Ministério do Trabalho? E as centenas de cursos de jornalismo que temos em atividade no país? E os professores universitários de comunicação? E os estudantes? Como debater salários justos para uma profissão que nem se quer é regulamentada? O que será do futuro de um povo que tem uma imprensa movida por interesses, incapaz de atuar na construção de uma sociedade plural e justa?

Friday, June 12, 2009

Dia dos Namorados

Meu príncipe encantado deve ter caído do cavalo, batido a cabeça, perdido a memória... Por isso não me encontra!

Wednesday, June 10, 2009

A arrogância e os gaúchos

Polêmica a declaração do ministro Nelson Jobim que "já criei a arrogância dos gaúchos"? Acho que não. Depois dessa declaração, dezenas de enquetes foram feitas e, a grande maioria dos gaúchos, acha que nós somos, de fato, arrogantes.

Eu concordo. Penso que a nossa arrogância vem do orgulho que ostentamos. Pode ser o maior roqueiro do mundo, mas se é gaúcho, sabe cantar os versos de "Querência Amada". Pode detestar política, mas enche a boca para falar do Getúlio Vargas, considerado por muitos, um dos melhores presidentes que o Brasil já teve. Não gosta de futebol, mas tem orgulho do Ronaldinho Gaúcho, do Pato, do Sobis, do Dunga, do Taffarel, do Falcão... E as mulheres? De Ieda Maria Vargas à Gisele Bündchem, o país e o mundo sabem de onde elas vieram.

A nossa arrogância vem disso. Da nossa história, dos heróis que cultivamos. Da grandeza de celebrar uma guerra (a dos Farrapos) onde nos perdemos. De cultivar hábitos que vem dos nossos avós. De vestir a melhor bombacha e ir passear na Redenção. De ser antiqualquer coisa, porque para todo gaúcho é 8 ou 80, não há meio termo. De defender nossas crenças e nossos custumes. De cantar o hino riograndense com a mão no peito e com a certeza que se nossas façanhas servisem de modelo a toda terra, teríamos outra sociedade.

Não achei a declaração do Jobim polêmica, seria se fosse dita por uma pessoa que não fosse gaúcha. Mas o ministro é daqui, de Santa Maria. Tão gaúcho quanto o gaúcho de Alegrete, gaúcho de Passo Fundo, gaúcho de Bagé, gaúcho de Porto Alegre, tão peculiares e tão iguais. Ele não criou a arrogância, já nasceu com ela, é quase inerente, nasceu no Rio Grande do Sul é um arrogante. Que sejamos todos arrogantes, pois reconhecer os nossos defeitos é típico de um povo cheio de virtudes.

Sunday, June 07, 2009

As mulheres e o futebol

Estava escutando o Pijama Show outro dia, e o Everton Cunha perguntava o que faz as mulheres gostarem tanto de futebol, atualmente? Fiquei pensando nisso, porque eu me incluo nesse time. Agora, será que gosto de fato de futebol?

Eu não perco minhas tardes de domingo olhando futebol, a não ser se meu time está jogando. Eu não coleciono camisas das mais diversas equipes, só tenho camisas do meu time. Eu não sei o calendário do campeonato brasileiro, só sei quando tem jogo do meu time. Sequer sei onde o Ronaldinho Gaúcho está jogando. Só sei quem está jogando no meu time.

Acho que antes de gostar de futebol, gosto do meu time! Penso que para nós, mulheres, o gostar de futebol, passa necessariamente pelo time que torcemos. Ao contrário dos homens. Lembro dos meus tios que assistiam jogos do Cruzeiro X Botafogo, do São Paulo X Vitória... Coisa que eu não faço e acho que a grande maioria do sexo feminino, também não.

A gente gosta sim de futebol e entendemos do esporte também, tão bem quanto eles. Mas para mim, o nosso lado emotivo e passional vem à tona também no quesito futebolístico. Eu gosto de futebol porque tenho um time para torcer, incentivar, vibrar junto... Não o esporte em si, e sim algo que mexe com os nossos sentimentos, que atende por um nome, no meu caso, Internacional, mas que poderia ser Botafogo, Palmeiras, Coritiba...

Thursday, May 28, 2009

Os livros que sou

Tava com um texto prontinho pra colocar no blog, sobre mulheres e futebol. Mas antes de postar fui olhar o blog da Jac. Tinha um post superlegal, com o resultado de um teste que ela fez. Lia o resultado e pensava “ela é assim mesmo”.

Resolvi fazer o tal teste também, chamado “que livro você é?” Capaz que eu não ia fazer. E como nada se cria, tudo se copia, também coloquei o meu resultado no blog.

E eu empatei no final, seria dois livros! Não que eu seja uma pessoa que vive em cima do muro, aliás, se tenho uma coisa que não sou é indecisa, mas sim, há uma infinidade de possibilidades e isso me encanta, me intriga, me assusta...

Bom, nada de devaneios agora. Não li nem um dos dois, mas obviamente já estão na minha lista. Para ser bem sincera, nunca tinha ouvido falar de nenhum desses livros. Confesso que não gostei de tudo que li, mas segundo minha mãe, o resultado bateu direitinho e no meu “eu mais interior”, lia o resultado e pensava “pior é que sou bem assim!”

Segue os livros que eu seria e o link do teste tá no blog da Jac.

"A paixão segundo GH", de Clarice Lispector

Você é daqueles sujeitos profundos. Não que se acham profundos – profundos mesmo. Devido às maquinações constantes da sua cabecinha, ao longo do tempo você acumulou milhões de questionamentos. Hoje, em segundos, você é capaz de reconsiderar toda a sua existência. A visão de um objeto ou uma fala inocente de alguém às vezes desencadeiam viagens dilacerantes aos cantos mais obscuros de sua alma. Em geral, essa tendência introspectiva não faz de você uma pessoa fácil de se conviver. Aliás, você desperta até medo em algumas pessoas. Outras simplesmente não o conseguem entender.

Assim é também "A paixão segundo GH", obra-prima de Clarice Lispector amada-idolatrada por leitores intelectuais e existencialistas, mas, sejamos sinceros, que assusta a maioria. Essa possível repulsa, porém, nunca anulará um milésimo de sua força literária. O mesmo vale para você: agrada a poucos, mas tem uma força única.

"O vampiro de Curitiba", de Dalton Trevisan

Descolado, objetivo e realista. Cult. Você deve se sentir mais à vontade longe de shoppings, da TV e de qualquer coisa que grite “cultura de massa”. Nada de meias palavras: a elas, você prefere o silêncio. Você não vê o mundo através de lentes cor-de-rosa, muito pelo contrário. Procura ver o mundo como ele é, entendê-lo, senti-lo. Às vezes, bate até aquele sentimento de exclusão, ou de solidão. Mas é o preço que se paga por ser um pouco "marginal". Não se preocupe, pois você atrai a admiração de pessoas como você: modernas no melhor sentido da palavra.

Em "O vampiro de Curitiba" (1965), Nelsinho protagoniza uma variedade de contos, nos quais ele busca satisfazer sua obsessão sexual vagando pelas ruas de Curitiba - paralelamente, esta cidade de contrastes se revela ao leitor. A temática e a forma já denunciam: este não é um livro para qualquer um. Tem que ter cabeça aberta para enfrentar a linguagem nua e crua de Trevisan, que é reverenciado pelo leitor capaz de driblar velhos ranços burgueses.

Thursday, May 21, 2009

O castelo do príncipe sapo

O norueguês Jostein Gaarder é o meu escritor preferido. Formado em filosofia, ele escreve sobre isso, mas para crianças e jovens, O mundo de Sofia e O dia do coringa são dele. Aproveitando, O dia do coringa é um dos meus livros favoritos.

Entre as coisas que leio porque gosto e as leituras obrigatórias para a pós, os livros do Jostein são um alento. Nas últimas semanas tive que ler muita coisa sobre Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim, leitura técnicas e densas, até que peguei infantil O castelo do príncipe sapo, para ler.

Em dois dias, vivi uma incrível aventura num castelo em que os guardas eram salamandras, uma rainha que sempre se esquecia de colocar a parte de cima da roupa, um duende muito sábio, um camareiro que era um lorde e sapos enormes loucos para virarem príncipes.

Tudo ciceroneado pelo príncipe Gregório Pegório, um menino de 7 anos que acabou de perder o avô e depois de uma amostra de "vida real", ele precisava de mergulhar num “faz-de-conta”.

Não foi o melhor livro que li do Jostein, mas como sempre é incrível. A partir de uma fantasia, ela fala da vida. Sempre é assim. Não sei como um “senhor” de quase 60 anos consegue bolar essas histórias dignas da imaginação do meu afilhado.

Uma das passagens mais legais do livro é quando Gregório se dá conta que o avô dele sempre vai estar vivo no mundo dos sonhos, porque é lá que mora o impossível. A outra parte que faz muito adulto pensar, é quando o duende fala para o menino se guiar sempre pelas ideias que nascem do coração porque os pensamentos maus nascem da cabeça.

Legal né? Fica a dica. Ah, e o livro com desenhos...

Wednesday, May 13, 2009

A merda da incoerência

Tirando os problemas estruturais que o mundo enfrenta como fome, miséria, pobreza, falta de condições dignas de se viver... Fora isso, o maior problema do mundo é a incoerência. Tanto individual, como coletiva.

Sempre admirei pessoas coerentes, não digo com os outros, com as tais regras impostas pela sociedade, me refiro aquela coerência quase íntima, aquela pessoal, de agirmos conforme pensamos. De viver de acordo com aquilo que achamos certo, ou não. Honrar na prática o discurso que proferimos, geralmente, com a boca cheia.

Cada vez menos encontro esse tipo de pessoa. Existem, conheço algumas, mas são poucas. E é dessa falta de coerência de cada indivíduo consigo mesmo que nasce esse moralismo vazio que a gente vê por aí, e desde sempre. É normal pais darem sermões para que os filhos não fumem com cigarro na mão, por exemplo...

E o que acontece numa sociedade cheia de indivíduos incoerentes? Se torna assim também. As instituições, que querendo ou não, formam muitas opiniões, acabam com um discurso teórico e uma prática contraditória. Aí crescemos com a impressão de que se contradizer é normal, que não dá nada falar uma coisa e fazer outra. Ou acreditar em algo e pregar o oposto.

Acredito que o dia que as pessoas deixarem de pensar tanto no que os outros vão pensar, teremos familiares, amigos, vizinhos coerentes, mais verdadeiros e consequentemente uma sociedade melhor, mais leve. Pode soar muito egoísta, mas acho fundamental ser coerente comigo, antes de qualquer coisa. Às vezes pensando no nosso próprio umbigo a gente está, no fundo, se libertando.

Monday, May 04, 2009

Aproveite o dia

Uma vez me falaram que um dia eu teria prazer em acordar cedo e aproveitar o dia. Não lembro do que respondi, até porque lembro pouco dessa época, nem mesmo lembro quem me disse isso. Acho que foi uma colega do trabalho...

Nessa época meu programa preferido era dormir. De dia, de preferência. Calculava diretinho: se saísse da cama às 14h, até me arrumar, dar um jeito no quarto, só sairia para a rua uma hora depois. Seriam poucas horas de tortura se por volta das 19h eu me escondesse atrás de um livro e lá ficasse até todos irem dormir. Aí sim, eu teria “paz” e poderia chorar.

Não fazia nada. Não tinha nada para fazer. Pior, não havia vontade. E até as correrias, trabalho, faculdade era só com o objetivo de passar logo, acabar o dia, o outro, mais um, a semana... Passar tudo rápido, no piloto automático pra eu não sentir nada. Não havia o que senti. Metade dos anos que passei na Unisinos não me lembro, não curti, não aproveitei, só passei.

Até que me peguei com alguma expectativa no dia seguinte, no outro e no depois. Voltei a planejar coisas. Até que toquei fora os antidepressivos, perdi a conta de quantos dias não choro e pasmem, estou satisfeita com a minha vida. Claro que gostaria de estar escrevendo esse texto num hotel cinco estrelas na França. Mas um dia estarei, e, escrevendo coisa bem melhor. É só uma questão de tempo.

A correria é a mesma, trabalho e faculdade, mas agora eu sinto, eu tenho vontades. Eu estou lá de fato, não só de corpo presente. Tenho consciência das coisas que estou vivendo. Ontem foi domingo e meu relógio despertou às 8h porque eu tinha um monte de coisas pra fazer. Andar a cavalo, ler, estudar pra prova, comemorar o aniversário de uma amiga, ler o jornal, fazer negrinho, comer pizza, dormir no sofá sem ser uma fuga...

Preciso honrar a frase que carrego no pé. Carpe Diem.

Monday, April 27, 2009

Pela regulamentação da profissão de jornalista

De todos os textos que eu já li em defesa da regulamentação da profissão de jornalista, sem dúvida o que achei mais bonito é esse que reproduzo abaixo. O texto O acerto no erro, da jornalista Susana Vernieri, foi publicado no site do Sindicato dos Jornalistas do RS, no dia 16 de abril.

Faço das palavras da minha experiente colega, as minhas.

O acerto no erro

Susana Vernieri*

O prédio era destinado a ser um almoxarifado e foi transformado a fórceps em Faculdade. A sala de redação era recheada com máquinas de escrever antigas. As câmeras de TV eram pesadas e velhas. A ilha de edição, quase que analógica. O laboratório fotográfico, uma peneira. A biblioteca desatualizada. Nada parecia convidar a entrada naquela casa.

O atrativo era o erro. A liberdade de exercitar a falha. Não é teoria, técnica, arte que a Universidade de Jornalismo ensina, mas a possibilidade de se acreditar ser um humano. É esta sua justificativa maior. Dentro dela encontramos a geléia real da vida. O professor bom ensaia o espelho do futuro chefe exemplar. O ruim, nos alerta para os perigos do futuro. O coleguismo é amostra do que se poderá contar no ombro a ombro da jornada. Como norte de toda esta experiência está a tão desgastada palavra Ética.

O diploma serve para que se ateste perante a nós mesmos e aos outros, que empreendemos uma aventura ao centro da questão e estamos aptos a seguir viagem. Ele é documento imprescindível, passaporte para um mundo onde há menos tolerância para o erro. O espaço do profissionalismo não perdoa os fracos. A sociedade, muito em breve, irá cobrar do Supremo a decisão de acabar com a exigência do diploma para o exercício legal da profissão de jornalista caso isso venha acontecer. Toda população, em seu íntimo, quer uma Imprensa forte, pois sem palavra forte, o povo é escravo.

* Doutora pela Ufrgs, ex-professora de Jornalismo da Famecos, Fabico e Unisinos, trabalhou dez anos em Zero Hora

Tuesday, April 21, 2009

De porre

E esse tal de chop em litros não acaba mais. Já estamos no segundo canecão de 6 litros... Já devo estar, no mínimo, bem alegrinha, não paro de rir. Penso na minha amiga que foi embora pra Curitiba e sempre falou que queria me ver de porre. O momento chegou e ela não aqui. Me dá saudade. Sinto vontade de chorar...

Me recomponho a tempo, bêbada sentimental e chorona não dá. O namorado grisalho da minha amiga de 19 anos vai pagar mais seis litros de chop! Nós estamos em cinco, quantos litros será que dá pra cada uma? Ainda bem que a Tati é enfermeira...

A Lú vem com um copo cheio pra mim, dizendo “bebe porque a Clara tá tomando todas e tá dirigindo...” Cadê o cara que eu tava conversando? Como é mesmo o nome dele? Marcelo, Márcio, Mauro, Ma-alguma-coisa-que-já-me-esqueci. Ele tava de vermelho parece... Mas porque beijei o cara de camisa verde?

Saco! Preciso fazer xixi, onde é o banheiro? Espero que seja bem perto e que eu consiga ir até lá em linha reta! Por que cerveja engorda tanto se a gente toma um pouquinho e faz um monte de xixi? Claro que tem fila no banheiro. Preciso me escorar na parede. Minha vez. Sentei. Tá tudo girando! Coloco uns chicles na boca... Lavo o rosto. Acho que tô melhor.

Volto pra mesa. A Lú tá pra lá de Bagdá! Pior que eu! Já tá dando cerveja pra Clara, falando que a Tati tem que dirigir depois. Que dor nos pés, vou me sentar um pouquinho. Acho que o pior da bebedeira tá passando. Começa a tocar “Sandra Rosa Madalena”, eu levanto da cadeira num pulo e danço loucamente. Pego uma flor do enfeite da mesa e ponho na boca, bato um pé e as mãos. Tô mais bêbada que nunca.

O comedor velho da minha amiga tá com fome e é o único que não tá bebendo. Esperto ele, deve tá rindo da nossa cara. Bom, ele resolve pedir batatas fritas. Que bom, também vou comer alguma coisa e voltar pro meu estado normal. Não tem chocolate aqui pra vender. Dizem que chocolate é bom pra curar bebedeira. Vai uma Coca-cola mesmo.

Achei o Ma-alguma-coisa-que-já-me-esqueci, ele tá num camarote. Vou lá me sentar um pouco e tentar manter uma conversa de gente sóbria e inteligente. Ele diz que eu e minhas amigas já estamos no quinto canecão de 6 litros. Eu não acredito. Ele me diz que se ficar comigo é capaz de entrar em coma alcoólico. Palhaço! Levanto e vou dançar com as minhas amigas.

A Clara tem a gloriosa idéia de ir até o DJ pedir que ele toque alguma música da Madonna, já que todas nós nos conhecemos no show dela. O DJ toca “Like a Virgin” e diz que é em nossa homenagem. A gente agradece, caprichamos na dança e nos gritinhos de “uh” do refrão. “Like virgin, uh!”

Vou ver se acho o cara da camisa verde que fiquei. A Lú já tá desmaiada em cima de uma mesa. A Clara parece a mais sóbria de todas, mesmo sendo a que mais bebeu. O velho chato que come minha amiga começou a incomodar para ir embora, pois no outro dia tem que acordar cedo pra assistir a Fórmula 1. A Tati foi pra pista dance pegar um galeto. Eu não achei o cara da camisa verde e acabei no bar pedindo uma Smirnoff. O que é 500 ml de Smirnoff pra quem tomou litros e litros de chop?

Acabou? Cadê a música? Ih... Parou por quê? Por que parou? Fim de festa, game over. Mas recém é 5h30 da madrugada de domingo, se a noite é uma criança, o dia é um recém nascido. Como vou embora? Durmo na casa da Lú, que tá no banheiro vomitando ou encaro o trem às 6h da manhã? Que saco morar no interior!!!

Na saída o namorado mais velho e gente fina da minha amiga vem nos apresentar um amigo da terceira idade, é o gerente! Grande tiozão, além de bancar litros e litros de chop, é amigo do gerente! Grande gerente, o tio Pedrinho, nos deu um baita de desconto. Te procurar da próxima vez que a gente não pega fila? Claro, pode deixar. Vai ver ele pensou que a bebedeira iria nos deixar desmemoriadas... Coitado, não imagina o prejuízo que vai ter.

Tuesday, April 14, 2009

Loopings

É incrível como as coisas mudam em tão pouco tempo. Tem um livro do Paulo Coelho, que não me lembro bem qual é, talvez Veronika Decide Morrer ou O Demônio e a Srta Prym... que diz que as mudanças que ocorrem na nossa vida não precisam de mais de 7 dias para se concretizarem.

Há uma semana atrás eu encontrei um ex-professor da faculdade e falei da minha vontade de estudar Ciências sociais, que achava que tinha tudo haver com jornalismo, com a área que trabalho e que estava pensando em encarar o vestibular da UFRGS em 2010...

Ele me parabenizou pelo "projeto" e perguntou porque eu não fazia uma especialização, que não levaria tanto tempo... Viajando na Internet de noite fui ver as pós-graduações em Sociologia. Achei uma perfeita na PUC, que estava com inscrições abertas!

E adivinha: me inscrevi, passei na seleção e minhas aulas já começaram, semana passada mesmo. Me inscrevi no último dia! Nos 45 do segundo tempo! Agora, voltei a ser estudante, tô preocupada com a quantidade de textos (nada faceis) que tenho que ler e com a monografia que deve ser entregue até novembro do ano que vem. Que loucura.

Meu emprego foi a mesma coisa. Passei uns dias em Florianópolis, cheguei numa segunda de manhã, à tarde me ligaram pra fazer entevista. Na outra segunda já estava trabalhando. E já se passou um mês!

No fundo eu gosto das coisas assim, desses acontecimentos rápidos, eles nos tiram da inércia, da acomodação. Não dizem que a vida é feito uma montanha-russa? Então é desses loopings que eu gosto. A gente, ou a vida, até pode ficar de cabeça pra baixo, mas deixa aquela adrenalina tão boa...

Saturday, April 11, 2009

Águas paradas

Outro dia ouvi uma história bastante interessante sobre mágoa. Um senhor me explicou que a palavra mágoa vem da expressão "má água". E que as más águas são as que ficam paradas, não são renovadas e acabam apodrecendo. As nossas mágoas aconteceriam porque não renovamos nossas energias, ficamos remoendo sentimentos e como as águas paradas, acabam apodrecendo e nos fazendo mal.

Gostei da metáfora. O problema é que nem sempre conseguimos fazer as águas seguirem seu curso com uma certa rapidez. E digo mais, não é difícil essas águas formarem redemoinhos, que fazem nossos pensamentos ficarem rodando, rodando, rodando, a gente não sai do lugar e quando percebemos, perdemos um tempo danado e é aí que nos damos conta que a mágoa tá nos prejudicando.

Depois disso a gente começa a fazer questão de renovar as energias. E renovamos. E as águas retomam seu curso, mas a gente não esquece. Na Páscoa eu sempre acabo lembrando as águas paradas que já cultivei. É inevitável. E daí sempre acho que a mágoa tá lá, mais amena, mais serena (se é que isso é possível), mas tá lá!

Contraditório? Hum, acho que não. Fiz um esforço danado pra renovar as tais águas paradas, só que o aquário onde guardei os teus olhos azuis, eu escondi tão bem que não acho pra trocar a água.

Monday, April 06, 2009

Bioenergética

Correria nesses últimos dias e ressaca da gloriosa festa do glorioso centenário do meu glorioso Internacional (a redundância foi intencional).

Sábado, após a Marcha do Inter, fui no Namastê, um Centro de Terapias e Meditações, que fica na Rua da República, em Porto Alegre. Gastei um pouco no brechó, comi empadas indianas, fiz Reiki, troquei ideias com gente bacana e de cabeça aberta e fiz uma sessão de terapia bioenergética em grupo. Muito bom! A bioenergética é como uma sessão de análise com psicólogo, só que em vez de falar, a gente também faz exercícios, alongamentos, respiração adequada pra cada momento, dança, entre outras coisas

A filosofia da bioenergética é trabalhar com as nossas couraças musculares, tudo aquilo que nosso corpo vai somatizando e com o tempo, interfere na nossa energia. A terapia busca um melhor entendimento de si mesmo através de exercícios que troquem e renovem nossas energias e para isso, precisamos conhecer nosso corpo, para usá-lo a nosso favor.

Há sessões individuais e em grupo. Nas de grupo, o objetivo é a troca de energia entre os participantes. No final, depois dos exercícios e meditação, acabamos todos dançando e nos tocando. É estranho tocar um desconhecido, abraçar, encarar, pegar a mão, tocar nas pernas, fazer massagens nos pés... Estranho também é permitir um desconhecido faça isso sem nenhum constrangimento... Começa com todo mundo desconfiado e termina com todo mundo à vontade.

Não sei se foi a bioenergética, a caminhada pelo meu time, a gripe que me encontrava no sábado ou a junção de todo isso, mas no outro dia, o corpo todo doía. Mas era uma dor boa, um cansaço gostoso, uma satisfação estranha e uma leveza mansa que me deixava alerta a tudo que se passava ao redor. Eu estava com energia para encarar outra caminhada quilométrica e as correrias do dia-a-dia.

Monday, March 30, 2009

Na minha imaginação

Na minha imaginação eu tenho dinheiro para fazer um mestrado em Londres, aliás, mês que vem estou embarcando. Na minha imaginação eu estou fazendo ciências sociais na UFRGS e tenho algum cargo no DCE da federal (mais idealista e socialista, impossível). Na minha imaginação eu não tenho um furinho de celulite na minha bunda. Eu nasci assim: com o cabelo preto e com esses seios que nunca irão sentir a lei da gravidade.

Na minha imaginação eu tenho tempo de ler todos os livros que gostaria. Ontem mesmo terminei o interminável “O Capital”, do Karl Marx. Na minha imaginação eu vou me casar com o príncipe Andrea de Mônaco, vou morar naquele país chiquérrimo, ser uma princesa de verdade e ter um ou dois amantes, que deverão ser o Leonardo Di Caprio e o Nelsinho Piquet.

Na minha imaginação eu falo seis línguas, incluindo esperanto. Já fui a primeira dançarina do Bellydance Ballet. E todo ano sou convidada para dançar no Emirados Árabes. Passei seis meses incríveis viajando como ativista do Greenpeace. Já escrevi alguns livros. Sou amicíssima do Jorge Furtado, Zeca Camargo, Nando Reis e da Xuxa. Na minha imaginação ele sempre volta...

O quê? Tô viajando demais? Então vamos para as coisas mais acessíveis...

Na minha imaginação eu sempre tenho algum troco na carteira. Minha internet nunca cai e eu sempre acordo de bom humor e bem disposta. Na minha imaginação eu estou estudando para entrar na UFRGS. Voltei a fazer italiano e consegui terminar de ler “on the Road”. Na minha imaginação eu vou ir no show do Oasis e não acho caro pagar R$ 40,00 para ver a exposição do corpo humano com cadáveres de verdade. Na minha imaginação eu sempre tenho inspiração, não sinto nenhuma dor nas aulas de balé e arraso na dança do ventre. Na minha imaginação ele sempre volta...

Mas é só na imaginação mesmo...

Monday, March 23, 2009

A evolução da espécie

Cerca de um mês atrás:
- Tem cinco anos que eu não dirijo, então tenha paciência e não grita!
- Tá, nunca vi, tirou a carteira e tem medo de dirigir. Liga o carro e pode ir.
- Meu Deus!
- Vira, vira a direção! O que tu tá fazendo! Vai devagar!
- Ai, eu não lembro direito! Não grita! Ai meu Deus.
- Meu Deus digo eu! Olha o que tu fez?!
- Ah, deixei o carro apagar...
- Claro pisou no freio com o pé esquerdo! Nunca vi disso!
- Eu disse que não lembrava, porra!
- Ah, tu vai voltar pra auto-escola!

Duas semanas atrás:
- Pisa devagar e larga a embreagem.
- Tá. Ai meu Deus!
- Isso. Agora freia. Arranca. Põe uma segunda. Freia. Arranca. Freia...
- Que saco isso!
- Tu tem que aprender... Então anda mais um pouco e põe uma terceira... Freia. Arranca. Não deixa o carro apag...
- Ih apagou!
- Tá vamos de novo. Tu vai subir a lomba.
- Que lomba? Não vou não!
- Sobe!!!!!!!!!!
- Ai meu Deus!!!!!!!!!!!!
- Agora tu tem que parar na esquina!
- Qual esquina?
- A que tu acabou de passar!
- Ih nem vi!
- Tem que andar mais devagar! Nunca vi, não sabe dirigir, mas sabe correr! Agora vira a aqui... Devagar, olha a árvore! Vira, vira!
- Ufa!
- Olha o cara de bicicleta!
- Ele que vá pra calçada!

Semana passada:
- Vamos no mercado. Pela avenida e na volta passamos pelos bombeiros.
- Pô são 19h! Não dá pra ir por onde não tem movimento? Tem muito carro nas ruas.
- Não. Tu não tem que ter medo dos outros carros. Tu já tá dirigindo bem, até...
- Sim, mas só ando onde não tem movimento e eu quase bati na árvore e atropelei os guris que estavam na rua ontem e tu sempre fala que corro demais...
- Mas tu já colocou o carro na garagem direitinho!
- E tu queria que eu voltasse pra auto-escola! E só tu não gritar...
- Eu não grito, é tu que fica histérica. Vamos lá...
- Fecha o vidro que eu não quero ouvir ninguém me xingando.
- Quem vai te xingar?
- Todo mundo que vê que eu estou em pânico.
- Procura um lugar pra estacionar. Veio bem, estacionou direitinho!
- Nossa, tô suando!

Ontem:
- Já tá dirigindo bem melhor!
- Será que até o final do ano, tô andando sozinha?
- Claro! É só tu não correr.
- Mas eu não corro...
- Amanhã a gente vai para algum lugar distante, deserto.
- Pra quê?
- Pra ti dar uns cavalinhos de pau!
- Ah é pai...
- Vai sim, não quis voltar pra auto-escola...

Wednesday, March 18, 2009

Elaboração

No dicionário, elaborar é “preparar gradualmente e com trabalho. Formar, organizar. Tornar assimilável”. De uns tempos pra cá tenho pensado muito que pra ser feliz ou ao menos tentar, é fundamental aprender a elaborar as coisas que acontecem na nossa vida.

Ano passado produzi um documentário sobre a ditadura militar. Entrevistei três gaúchos, ex-exilados políticos: Flávia Schilling, Flávio Tavares e o Flavio Koutzii. Eles passaram anos sem poder entrar no Brasil e sofreram os mais diversos tipos de torturas. As sequelas existem, mas ao serem perguntados como conseguiram depois de tudo, tocar a vida? Os três falaram em elaborar.

Os planos podem ter mudado, a vida seguiu e sabe-se lá como acontecia a tal elaboração (o que imagino ser um processo lento e de longo prazo). Os três são pessoas bem resolvidas, inteligentes e felizes. Um deles falou que é necessário elaborar até um não recebido do pai quando se é criança.

Acabei de ler um texto sobre dor de amor e lá pelas tantas estava escrito: “é necessário tempo para poder elaborar o que aconteceu e aí estar pronto para viver novamente.” Hum... Então elaborar está extremamente ligado com virar a página... Aquela história de que temos que se lembrar do nosso passado, sem ficar preso a ele.

Tento, mas não sei se tenho conseguido elaborar minha vida. Às vezes acho que sim, noutras, não. Isso que nunca fui torturada, nunca enfrentei grandes tragédias, não tenho traumas... Tenho um vazio, a falta de alguma coisa que não sei o que é... E não sei até que ponto uma coisa interfere na outra.

Friday, March 13, 2009

Quinta-feira

Trecho do livro "Comer, rezar, amar", de Elizabeth Gilbert:

... o patrono das crianças nascidas em quintas-feiras é Shiva, o Destruidor, e o dia tem dois espíritos-guias animais: o leão e o tigre. A árvore oficial das crianças nascidas em quintas-feiras é a figueira-de-bengala. Seu pássaro oficial é o pavão. Quem nasceu em uma quinta-feira é sempre o primeiro a falar, sempre interrompe todos os outros, pode ser um pouco agressivo, tende a ser bonito ("um homem-objeto ou uma mulher-objeto"), mas, de forma geral, tem um caráter decente, com uma memória excelente e um desejo de ajudar os outros.

Hum... Será verdade? Eu nasci numa quinta-feira.

Friday, March 06, 2009

Primeiro dia de aula

Ontem foi meu primeiro dia de aula de balé, na turma de balé para adultos iniciantes. Sim, eu resolvi aprender balé clássico com 23 anos. Ou seja, com uns 15, 18 anos de atraso. O que segundo a professora, se eu não quiser ser a 1ª bailarina do Bolschoi, não é problema.

Eu e meus colegas (uma moça e um rapaz) estávamos tensos e nervosos, como em qualquer primeiro dia de alguma coisa nova. A professora falou inúmeras vezes: relaxem, relaxem, relaxem... Depois de exercícios básicos de balé, ficamos um bom tempo fazendo alongamento para relaxarmos.

No final, tinha adorado a aula. Engraçado é que essa dança nunca me atraiu, nem quando criança, não achava bonito e tinha certeza de que não era pra mim. Só que de uns anos pra cá, por causa da dança do ventre, comecei a me interessar.

Com o balé, me tornaria uma dançarina do ventre melhor. A postura, os giros e a ponta de pé (dança do ventre também é feita na ponta do pé, só que descalço) melhorariam. Ontem, apesar do objetivo bem específico na minha cabeça, estava tensa. Balé assusta pela disciplina, rigidez e dedicação que exige em seu aprendizado.

Não pretendo ser a 1ª bailarina do Bolschoi, aliás, acho que nunca vou me apresentar dançando balé, mas e se eu não me adaptar com essa postura tão rígida, diferente da dança que já estudo quatro anos? Bom se eu não me adaptar eu paro e a postura, os giros e a ponta de pé na dança do ventre ficam como estão.

Hoje eu acordei com dor no corpo todo (a professora disse que isso aconteceria). Dói os ombros, os braços, a barriga, as pernas, a bunda, até meu dedão do pé direito está doendo! Parece que fiz uma aula de musculação e excedi no peso. E pensar que foi o balé, essa dança (aparentemente) tão leve e delicada, que me deixou assim. Mas pior é pensar que foi só a primeira aula!

Agora preciso comprar uma sapatilha mais resistente, ensaiar umas posições de ponta de pé (tivemos tema de casa), dar uma pesquisada na história dessa dança, tomar relaxantes musculares,torcer para (um dia) ficar com um corpo de bailarina e aceitar que com 23 anos na cara me rendi ao balé.

Wednesday, March 04, 2009

Guri

Deus do céu, me senti uma corruptora de menores. Apesar dele não ser, exatamente, menor de idade. Mas a recém entrou na faculdade “estou no primeiro período”. E curte música sertaneja! Esse sertanejo novo, tal de universitário. Na balada começou a tocar Deep Purple, eu estava cantarolando e ele me pergunta “que música é essa?”!

Ele é novinho, com o tempo vai ficar no ponto, pensava o tempo todo. Logo eu, que gosto de homens mais velhos... Antes de entrar no carro dele, quer dizer, da mãe dele, me certifico se o moço sabe dirigir. “A carteira é provisória, mas claro que sei”. Um guri com carteira provisória, carro da mãe, CDs de sertanejo e lindo de morrer me levando sei-lá-pra-onde numa madrugada de sábado em uma cidade que eu não conheço. Que perdição!

Ah! Vamos num baile de carnaval no clube da cidade... Ele quer me exibir para os amigos tão piás quanto ele. Que situação. Ele é novinho, ele é novinho, ele é novinho (virou mantra). Pena que não vou ver ele “virar homem”, ter o orgulho dos 20, a certeza dos 30 e o charme dos 40...

Uma vez ouvi minha tia falar que uma mulher tem que ficar com homens mais velhos, mas em alguns momentos, abrir exceções e se entregar aos mais novos, porque só eles nos olham com encantamento, nos acham mulherões e não tem medo de demonstrar uma certa insegurança... Me senti uma corruptora de menores, mas antes de qualquer coisa, eu era a turista querendo diversão com um nativo.

Thursday, February 19, 2009

Curitiba e Floripa

Passei o final de semana passado em Curitiba. Fui visitar uma amiga que está morando lá e sábado (14) estava fazendo aniversário. Então uni o útil ao agradável e lá fui eu passar frio naquela cidade até então desconhecida. E que frio passei! Eu e a Ana nos divertimos e rimos muito. Ela disse que foi o melhor aniversário da sua vida. Que bom! Quanto a cidade, Curitiba é limpíssima, organizada e bem sinalizada, agora, achei o trânsito um caos total, medo até de atravessar a rua. Para fechar com chave de ouro (ou com mais uma história que vai render muitas gargalhadas), minha amiga errou feio o caminho do aeroporto no domingo à noite. E eu nunca tinha visto ela tão nervosa. Estava louca pra rir (um pouco porque também fiquei nervosa com medo de perder o vôo), mas não ri, ela iria ficar puta comigo. Não é por mal, mas é inevitável. E também sei que ela sempre vai dar risada quando se lembrar que eram 3h da manhã (lá a balada começa e termina cedo), quando me encontrou sentada no corredor do prédio que mora, sem sandália, com frio e com medo de entrar em casa e acordar os pais dela... A sorte foi que cheguei antes dela, porque eu estava com a chave. Mas isso é outra história.

Comprei o falado livro “Comer, rezar, amar”, de Elizabeth Gilbert. Estava louca para ler já tem um tempo, mas ando com medo de best sellers, desde que comprei o último e detestei, no caso, “O Código da Vinci”. Queria algo para ler em Florianópolis, onde irei passar a semana do carnaval. Claro que não resisti e já comecei a ler. As primeiras 40 páginas já me conquistaram, inclusive marquei passagens que sei que vou reler várias vezes. E como é bom o cheiro de livro novo.

Estou indo passar a semana em Florianópolis com meus pais. Faz muito tempo que não viajo com eles. Acho que vai ser divertido. Meu irmão vai ficar por causa do trabalho, coisa inédita. Quero só ver, ainda hoje ele perguntou o que faz com as roupas sujas!? E lá tem meus primos e meus tios. As férias em Floripa sempre renderam boas lembranças. E quando eu voltar, tenho que dar um jeito na vida, porque viver só de frila tá me deixando louca, é muita insegurança. Quero um emprego de verdade, com tudo que tenho direito, férias e décimo terceiro, por exemplo. E sim, com muito trabalho também.

Tuesday, February 17, 2009

Fresca

Dificilmente alguém irá me ver sem as unhas pintadas. E sem rímel. Sem meus anéis também. É mais fácil esquecer de colocar roupa do que dos anéis. Talvez eu seja um pouco fresca.

Não me considero feminista. Espero direitos iguais. Mas quero que os homens não deixem a gentileza de lado. Que troquem a lâmpada, que abrem a porta do carro e que puxem a cadeira para a gente sentar. Acho que ser tratada como sexo frágil, de vez em quando, tem lá seu romantismo e dá menos trabalho para as mulheres. Talvez eu seja fresca.

Fazer o quê se eu tenho medo de baratas? Tá, é pavor mesmo. Esses insetos não são nojentos. São assustadores, apavorantemente assustadores. Eu encaro leão, cobra, assaltante, trânsito caótico, moralismo de gente chata, pagode e balada com música eletrônica... Mas da barata eu saio correndo, sempre. Sei que sou fresca.

Faço drama por pouca coisa. Tempestade em copo da água. Não gosto de sair de casa quando aparece alguma espinha no meu rosto. Morria de vergonha por não ter peito. Acho saia a roupa mais feminina do mundo. Sonho com contos de fadas... Sou fresca, sim, mas sem muita frescura.

Tuesday, February 10, 2009

Ironic



Acabei de chegar do show da Alanis Morissette, realizado no Pepsi on Stage (infelizmente!). Adorei o show, achei ela uma simpatia e detestei o calor que me fez consumir litros e litros de água e Pepsi, pois chegou uma hora que minha pressão estava no pé! Fazia tempo que não via tanta gente passando mal num show. Ali no Pepsi, foi a primeira vez.

E desta vez levei a máquina! Tô cansada de ir em show bacana e voltar sem nenhuma foto. A ironia? As fotos ficaram ruins... Essa que está aqui é a melhorzinha. Ah, mas é um saco ir num show sozinha, ter que cuidar da bolsa, do dinheiro, do celular, não poder ir no banheiro porque não tem ninguém pra guardar o teu lugar, nem ninguém pra comentar o que está vendo... E ainda ter tirar foto.

Me concentrava em tirar fotos mais ou menos (sim, meus talentos fotográficos são bem limitados) ou me concentrava em curtir o show! Não preciso nem dizer o que eu prefiro... Abaixo, a letra da minha música preferida da canadense.

Ironic

An old man turned ninety-eight
He won the lottery and died the next day
It's a black fly in your Chardonnay
It's a death row pardon two minutes too late
Isn't it ironic... don't you think

It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought... it figures


Mr. Play it Safe was afraid to fly
He packed his suitcase and kissed his kids good-bye
He waited his whole damn life to take that flight
And as the plane crashed down he thought
"Well, isn't this nice."
And isn't it ironic ... don't you think

It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought... it figures


Well life has a funny way
of sneaking up on you when you think everything's okay and everything's going right
And life has a funny way
of helping you out when you think everything's gone wrong and everthing blows up in your face

A traffic jam when you're already late
A no-smoking sign on your cigarette break
It's like 10,000 spoons when all you need is a knife
It's meeting the man of my dreams
And then meeting his beautiful wife
And isn't it ironic... don't you think
A little too ironic.. and yeah I really do think...

It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought... it figures


Well life has a funny way of sneaking up on you
And life has a funny, funny way of helping you out
Helping you out

Sunday, February 08, 2009

Seis coisas sobre mim



A Nina me chamou para participar do Meme "Seis Coisas Sobre Mim". Esse é o segundo que participo. Colo o selinho (não sei se é obrigatório, mas é bonitinho), depois escrevo seis coisas sobre mim e por fim, indico os links de seis blogs de amigos que farão o mesmo.

1. Sou quieta, na minha, gosto de observar e de ouvir e, depois escrever...

2. Cada vez escuto menos rádios FMs (com exceção da Gaúcha), não gosto de quase nenhuma música que toca (salve as da Ipanema). Confio mais nos meus CDs;

3. Não gosto de dirigir, é muito estressante e me acho muito distraída pra isso;

4. Adoro cachorros. Uma das minhas alegrias é uma vira-lata, puríssima, que atende por @.cao;

5. Sempre tenho que ter um livro que ainda não li em casa, pra saber que terei o que ler quando acabar o que estou lendo no momento. Por isso, às vezes compro um livro e só leio meses, anos depois;

6. Odeio limpar a casa, varrer, tirar pó... Só gosto de lavar louça.

Aí estão os seis amigos blogueiros que vão continuar o Meme:

Fabiana - Vicissitude do Ser
Júnior - Clandestino
Jac - Velhos vícios
Lú - Después te explico
Vanessa - Carismática da insolência
Tati - Tatiele shape

Friday, January 30, 2009

Ele

Pela pose de homem sério, ele deixa escapar uma criança. Uma criança curiosa e observadora, que faz pergunta do tipo: “Será que existe algum Francisco que não seja chamado de Chico?”

Ele rouba Todynho do sobrinho e ainda compra brinquedos. E não tem o menor receio de afirmar que sim, os brinquedos são para ele. Não vê a hora de chegar em casa para montar o tal brinquedo novo.

Por trás dos óculos, há um distraído. Aquele tipo de distraído que está sempre concentrado nas coisas subjetivas e não nas práticas, por isso nunca lembra onde largou o celular, a carteira, a chave do carro... Aliás, será que o carro foi fechado?

É do jeitinho que eu gosto (loiro de olhos azuis!) Ele gosta de praia, detesta maconha e não come lentilha. É colorado e adora aviões. Toma chá numa caneca vermelha, tem uma letra quase indecifrável e uma mesa bagunçada...

Eu não sei o motivo, mas ele é o tipo de pessoa que eu gostaria de ter na minha vida.

Sunday, January 18, 2009

Escuta

Estava lendo uma reportagem sobre o silêncio na edição 83 da revista TPM. Na abertura da matéria, há um frase do Guimarães Rosa (autor do Grande Sertão: Veredas) assim: “A gente quer se afastar de si próprio... Por isso é que muito se fala. (...) O silêncio é a gente mesmo, demais.” Grande sacada!

Isso mesmo. O silêncio nos obriga a conversar com nós. A excelente reportagem, que ouviu psicólogos, sociólogos e pessoas que estão em constante comunicação, afirma que nos dias atuais é cada vez mais raro vivermos off. Falamos pessoalmente, nos telefones, nas mensagens de celular, na internet e em todas as outras coisas que o meu analfabetismo tecnológico desconhece (graças a Deus!).

Acredito que o momento de polifonia que vivemos é o reflexo da nossa realidade. Andy Warhol já previa os 15 minutos de fama e o mundo levou a sério. Todo mundo tem que fazer barulho. Afinal existe melhor maneira de chamar atenção? Temos que falar, gritar, berrar, sermos vistos, apelar, imitar o que vimos e tentar de alguma maneira lançar moda, tendências, durar mais do que os efêmeros 15 minutos.

Só tentativa. Nessa ânsia toda, quem nos escuta? Não era assim a tal torre de Babel, todos falam, cada um uma coisa, muito se ouve, pouco se escuta, nada se entende... E matamos o que não entendemos, prematuramente até, pois falta tempo de tentar e querer entender.

E o pior de tudo, é que com essa confusão toda, desaprendemos a ouvir, perdemos esse hábito primário e acabamos por não escutar nem a gente mesmo. No final fica o silêncio, mas o silêncio vazio. O silêncio que não nos oferece nem uma conversa com nós mesmo e só mostra o como somos insignificantes.

Thursday, January 15, 2009

Dias felizes

Quinta-feira era dia de almoçar na casa da minha vó. Ela sempre fazia massa pra mim, às vezes a Rafa aparecia, mas o dia oficial dela era na quarta. O cheiro e o gosto da comida da Dona Helga são algumas das lembranças mais fortes que levo comigo. E nunca, nenhuma massa vai ter aquele gosto.

Era dia de educação física na escola, a professora selecionava três alunos que poderiam escolher os colegas que jogariam no seu time. A Vanessa sempre me escolhia, mais por piedade do que por qualquer talento meu com o vôlei. E quando ela me escolhia, me livrava de sobrar e ver o colega que ficava com as sobras, de cara feia. E eu sentia uma satisfação incrível, pois sabia da minha inabilidade.

Verão. Imbé. Minha dinda comprava camarão. Ela e minha mãe faziam o camarão. Meu irmão passava mal, por que o bicho vinha na casca e ele, até hoje, fica mal por causa do cheiro. Meu pai chegava do mercado com as cervejas e os refris. Eu observava tudo, pra lembrar. Pra não esquecer.

Verão de novo, só que anos depois, em Mariluz. Éramos todos adolescentes. Eu, o primo Júnior (que trocava as praias de Floripa pelo nosso litoral, sempre igual), a Jaque, meu irmão, os outros primos (Tiago, Marcelo, Márcio). Os vizinhos. Showzinhos na noite, muitas risadas...

Uma madrugada, depois de passear no centrinho, estávamos sentados na varanda e para um fusca azul lotado de jovens, uma moça pergunta “onde é que eu tô?” O Jú, sem pestanejar, responde “dentro de um fusca azul!” Gargalhadas geral. O fusca azul segue seu caminho, sem saber onde está. A mãe abre a porta e nos manda ir pra cama. Vamos, dando risada.

Não consigo pegar no sono. Tô cansada, mas um cansaço gostoso. Estou em Buenos Aires. Primeira vez que saio do Brasil. Estranho. Bom. Gostoso. Me sinto livre, apesar de ter atravessado só uma fronteira. Lá fora é outra lingua, outra cultura, outros ares e tudo, novidade.

Hoje. Escrevo. Como ontem e, provavelmente, amanhã. É uma maneira de eternizar lembranças, de melhorá-las. De diminuir a solidão, de encarar a rotina e diminuir a monotonia. Imaginar como será, lembrar de como foi e viver de novo. No resto do dia, ou em todos eles, eu observo.

Friday, January 09, 2009

Lágrimas

Havia dias que pensava em escrever sobre como faz tempo que não choro. Teve épocas que eu passava o dia esperando a noite para poder chorar em paz. Ou chorar para ter paz. Eu sinto raiva, eu choro. Eu sinto alegria, eu choro. Eu sinto tristeza, eu choro. Eu sinto saudade, eu choro. Eu sinto medo, eu choro...

E às vezes eu choro só pra ver se o constante nó na garganta passa. Ele passa, mas acaba voltando. Sempre volta. E eu gosto de chorar, alivia a alma. Se dá rugas, não sei, prefiro rugas à uma alma pesada. Ando, de fato, sem grandes nós no peito, embora tenho me preocupado muito com o meu futuro profissional. E fazia tempo que eu não chorava.

E faz tempo que não durmo direito, sem sono, pensando na morte da bezerra e me perdendo na conta dos carneirinhos (eu nunca fui boa com números). E desde criança tenho uma tendência notívaga. Gosto dos ruídos que só ouvimos no silêncio da noite.

Meu quarto é o mais da frente na minha casa, então escuto tudo que se passa na rua. Um sussurro vira um grito, o miado de um gato vira um uivo, um carro que passou a 40km/h se torna um carro que passou voando. Estranho o tamanho que as coisas tem nessa hora.

Durante a noite a gente sente o peso das coisas e, choramos. Ontem o nó na garganta foi pra cama comigo, às 2h 40 da manhã, sem o menor sinal de sono. Deitei e chorei. Chorei como a tempos não chorava, até as 4h da manhã, quando o nó na garganta começou a dar lugar ao sono.

Hoje acordei mais leve e com o motivo do choro na cabeça. Ele tem medo de estragar a amizade. E eu? Eu não vou mais escrever sobre o tempo que eu não choro. Escrevo sobre o nó na garganta que aperta o peito e molha os olhos, enquanto a escuridão da noite faz suas revelações.

Saturday, January 03, 2009

A reforma

Em geral, não gosto de reformas. E essa reforma ortográfica, por favor, ninguém merece! Acho um absurdo ter que reaprender a escrever. Considero a língua um patrimônio da humanidade, que deveria ser intocável.

Sei-lá-quem resolveu mudar tudo para padronizar o idioma português, por causa da globalização. Ótimo, só que dentro do global tem que haver espaço para o local, porque sem isso, perde-se a identidade de uma região. Não acredito que as diferenças na escrita nos países de língua portuguesa sejam tantas para precisar de uma padronização. E essas diferenças se devem ao contexto e a localização geográfica de cada país.

Eu andei pelas livrarias atrás de guia de português já com a reforma. Não achei. Tampouco existem dicionários com o tal padrão. E os livros? Ninguém soube me dizer se as editoras já estão imprimindo com as novas regras. Já pensaram na confusão. Bem por cima, sei que caíram os hífens, os tremas e alguns acentos. Mas não sei quais hífens, nem quais acentos direito. E para piorar, tem as exceções, como sempre.

E como será para quem está sendo alfabetizado agora? Aprende que tal palavra não vai acento, mas ao pegar na biblioteca da própria escola um Monteiro Lobato, tá lá tal palavra acentuada. Se nem os adultos estão gostando e entendo essa tal reforma, imaginem as crianças. E os coitados dos vestibulandos, depois de anos na escola, tem que esquecer das aulas de gramáticas. Não será fácil (não sei se em fácil o acento permanece ou não...).

E para quem lida com a palavra escrita todos os dias? E para os professores que corrigem redações? Quanto tempo eles não iram perder, porque agora não é só corrigir, é corrigir com as novas normas, que eles não aprenderam, diferente de tudo que eles corrigiram até agora.

E falam que isso não vai mudar a maneira de falar. Eu acredito que com o tempo, muda sim. Bóia não tem mais acento. Sabemos como se fala boia, mesmo sem acento, porque aprendemos assim. E as crianças que aprenderão tudo nas novas regras? Falarão boia como se fala sem o acento, até porque elas não vão saber que já houve acento em bóia. Ou os professoras vão explicar que já houve acento e tem que ter uma entonação tal no o de boia? Imaginem quanto trabalho e quanta confusão!

Não sei se isso pega. Sinceramente, gostaria que não pegasse. Por mim, todo mundo que fala português, aqui ou no Timor Leste, se faria de louco e escreveria como sempre escrevemos. Por enquanto, peço desculpas antecipadas pelos erros de português que vou cometer. Afinal, depois de anos na escola e de uma faculdade, ainda não aprendi minha língua mãe.

Tuesday, December 30, 2008

Considerações de final de ano

2008 foi inesquecível. Será sempre lembrado como o ano da minha formatura. Ainda tá fresquinho, dia 23 de agosto. Espero nunca me esquecer dessa data, nem do que senti nesse dia. Em outros aspectos, também tenho bons motivos para me lembrar com carinho do ano que está indo embora.

Sai do país, pela primeira vez. Fui pra Buenos Aires ver o show da Madonna, fiquei lá quatro dias e conheci pessoas e lugares incríveis. Além de ter visto um puta show, foi algo do tipo como-uma-virgem-celebrando-a-música-como-uma-oração.

Fui a vários shows legais! Mas Fito Paez tá na liderança dos melhores, como sempre. Li excelentes livros. As apresentações da dança foram bem bacanas. Minha roupa azul (que passei meio ano planejando) ficou linda. Tatuei um sol nas minhas costas.

Fui pra Guarda e até que enfim conheci o tal do Vale, que em minha opinião, não valeu o esforço. Meu primo mais distante e, ao mesmo tempo, mais próximo, passou um tempão aqui e curtimos um monte! De acampamento Farroupilha a uma cobertura investigativa no Fórum de Porto Alegre.

Apesar de ter me formado e saído do meu estágio tive experiências bem bacanas com os frelas que peguei. A cobertura da 13ª Marcha dos Sem foi memorável, nunca vou esquecer o que vi naquele 16 de outubro. Nem das pessoas que conheci na CUT.

Fiquei mais próxima da minha família. Acordei mais cedo em boa parte do ano. Ganhei um cavalo e aprendi a montar. Fui pra Ilha do Mel com os amigos. Tirei dois sisos e perdi boa parte do juízo. As poucas festas que fui, valeram a pena. Engordei, emagreci e larguei de mão a academia...

Não foram só boas lembranças não. Mas as ruins decidi não escrever. Um presente pra mim. Depois de anos fazendo terapia e tomando antidepressivos, me libertei. Sim, estou mais leve. As lembranças ruins estão aqui sim, mas não vou supervalorizá-las. Que venha 2009!

Sunday, December 28, 2008

Wish list/2009

- Arrumar um emprego de carteira assinada;

- Desfrutar de todos os direitos de um emprego (que eu como estagiária, nunca tive, e agora como free lancer, não tenho);

- Voltar a estudar italiano;

- Começar um curso de espanhol;

- Fazer balé (pra melhorar minha postura na dança do ventre);

- Participar de mais apresentações de dança;

- Começar o pilates;

- Andar mais de bicicleta;

- Desfilar com meu avô (e a Cléopatra) no dia 20 de setembro;

- Deixar o medo e a preguiça de lado e começar, de fato, a dirigir;

- Aprender a fazer tricô;

- Viajar;

- Ir a lugares que nunca estive antes;

- Ir a vários shows legais;

- Deixar minha franja crescer;

- Juntar grana pra fazer um curso no exterior;

- Manter meu quarto mais organizado;

- Dormir menos...

Monday, December 22, 2008

Então é Natal

Não gosto de Natal. Acho que nunca gostei, embora lembre com carinho dos natais da minha infância, nas casas das minhas avós. Só que o tempo passa, algumas pessoas vão embora, a gente cresce e as coisas mudam. Não vejo mais graça no Natal. Acho triste.

Passo a noite de Natal com um baita nó na garganta. E meus pais nem ligam mais se, do nada, começo a chorar. Fico mal mesmo. Não queria, queria entrar na onda, nem que fosse na do consumismo desenfreado, mas também não consigo. Claro que compro presentes. São as regras do jogo e também não tenho o direito de acabar com o Natal dos outros.

Vou falar o quê para o meu afilhado? “Olha Rockson, a dinda não gosta de Natal e não concorda com esse consumismo, então tu não vai ganhar presente nenhum, até porque Papai Noel não existe é só uma baita invenção desse mundo capitalista...” Não dá né?

E para os meus pais? “Pai, mãe vocês sempre me dão tudo que eu quero, assumem minhas dívidas quando minha grana acaba. Mas como vocês sabem, detesto Natal. Ah tá, eu sei que vocês aturam o meu mau-humor natalino e todos os meus chiliques nos outros 364 dias do ano, mas fazer o quê? Vocês são meus pais e Natal, dizem que é uma data familiar, então vocês tem que me aturar, sem nenhuma lembrancinha.” Também não dá...

Então é Natal. Desejo a todos que me aturam virtualmente um feliz Natal! Sinceramente gente, podem acreditar! Até porque escrever, às vezes, é mais fácil que viver, mas nem por isso deixa de ser verdade. Ah, mas ano novo eu gosto! Só que isso é assunto pra outro post!

Thursday, December 18, 2008

O bom das biografias

Este ano, apesar do TCC que me obrigou a ler livros específicos sobre rádio, li bastantes biografias. Teve uma época que não gostava de biografias, achava enfadonho, tive sorte com as que li esse ano e em todas eu aprendi coisas que adorei saber. E acho que isso é o melhor das biografias, sempre nos ensinam algo, seja da pessoa biografada ou de uma época.

A vida e principalmente o relacionamento aberto de Sartre e Simone de Beauvoir estão em Tête-à-tête, de Hazel Rowley. Pasmem, a libertária Simone era uma ciumenta de plantão e o Sartre tinha um complexo de feiúra que as 12 anos o fez prometer a si mesmo que teria todas as mulheres que quisesse. E teve.

A biografia de Nelson Rodrigues, O Anjo Pornográfico, escrita pelo Ruy Castro foi, sem dúvida, a que mais me surpreendeu. Nunca li nenhum livro de Nelson Rodrigues, mas virei sua fã, o cara passou por inúmeras tragédias familiares (o assassinato do irmão, a morte do pai logo em seguida), teve várias tuberculoses, passou fome... Toda a sua família era ligada ao jornalismo, seu irmão Mário Filho foi um dos maiores cronistas esportivos do país, sendo o grande responsável pela construção do Maracanã e criando o que hoje é o Campeonato Brasileiro de Futebol. Bom, o Nelson nunca escreveu um palavrão em nenhuma de suas obras e foi um homem cheio de pudores.

Logo depois do Nelson, engatei a leitura de Chatô: o rei do Brasil, de Fernando Moraes, biografia do Assis Chateaubriand. O homem que criou e dirigiu a maior cadeia de imprensa do Brasil aprendeu a ler apenas aos 12 anos, se formou em direito e era um baita visionário, entre os seus negócios estavam dois laboratórios de medicamentos. Um deles é a Bayer, que existe até hoje. Ah, era dele a revista O Cruzeiro que revolucionou a imprensa brasileira.

Um dos livros que ganhei de formatura foi O Mago, a biografia do Paulo Coelho, de Fernando Moraes. Ali narra sua trajetória em busca do seu grande sonho: ser um escritor conhecido no mundo todo (exatamente o que é hoje). Paulo também atuou como ator e diretor de teatro e empresário de uma gravadora de discos. O melhor de tudo foi saber como ele conheceu o Raul Seixas. O maluco beleza era advogado e largou tudo para virar cantor “seguindo seu verdadeiro dom”, o que deixou Paulo muito impressionado. Em seu diário, Paulo escreveu que Raul foi a primeira pessoa que ele conheceu que não teve medo de viver seu sonho.

Recentemente li, por um acaso, Os sonhos não envelhecem: Histórias do Clube da Esquina, de Márcio Borges e foi um achado. Sabia pouquíssima coisa do Clube da Esquina, e que turma mais talentosa, são amigos até hoje! Logo quando o Milton Nascimento saiu de Minas Gerais para morar no Rio Janeiro, jurava que durante a noite o Cristo Redentor fazia caretas para ele. Muito tempo depois, seus amigos descobriram que era durante a noite que ele usava drogas...

E depois de muito tempo querendo ler o começo da auto-biografia Simone de Beauvoir, em Memórias de uma moça bem-comportada, consegui. Ali a grande pensadora conta sua vida até os vinte e poucos anos. Opiniões sobre seus pais opressores, sobre sua irmã mais nova, a amiga Sasa, o primo Jacques e Sartre. Aliás, a primeira vez que Sartre convidou Simone para sair, ela não foi, mandou sua irmã no lugar.

Por fim, a biografia que mais aprendi foi a da última rainha do Egito. Li As memórias de Cleópatra, de Margaret George, composto por três volumes: As filhas de Isís, Sob o signo de Afrodite e O beijo da serpente. Nossa, a história dela e do Egito é fascinante. Descobri que o mês de julho assim se chama por causa do imperador Julio César e agosto, devido ao imperador Augusto. Cleópatra entre outras coisas, perdeu sua mãe ainda criança, mandou matar sua irmã por ciúmes, casou-se com seu irmão, teve filhos com Julio César e Marco Antônio, tomava banho de leite, amava cavalos, tinha um jardim só com plantas venenosas, construiu seu próprio mausoléu, tinha pavor de cobras e escolheu morrer picada, justamente, por uma por considerar uma morte rápida e que não mudaria sua beleza. A parte mais bonita da história, mas que nunca foi de fato comprovada, é que ela entrou escondida, enrolada num tapete, no quarto de Julio César.

... não é a toa que essas pessoas viveram histórias dignas de serem biografadas.

Sunday, December 14, 2008

O encosto

Já se passaram bons anos, mas é incrível como tem épocas que lembro direto de você. Deve ser os espíritos de dezembro ou porque você entrou na minha vida em janeiro, “como um presente de natal atrasado”, se definiu, certa vez.

É. Eu era bem bobinha. Bem fácil de enrolar. Achava que um homem (!) de 21 anos nunca olharia para uma menina de 18. Ainda mais um homem (!) como você. Mas olhou e encarou, e eu nunca mais esqueci do azul do teu olho. Denso, profundo, escuro...

Você me tornou uma pessoa mais dura, mais desconfiada e um pouco triste, até. Aquele ódio que tinha por reprimir tudo o que sentia, passou. Só ficou uma magoazinha de quem nunca conversou para resolver a situação. Aquela magoazinha que tá lá no canto dela e só quando a gente cutuca a ferida, vem à tona, dando até nó na garganta.

Por que ainda lembro tanto de ti? Não te culpo. Se alguém errou, foi eu, que criei expectativas demais. Hoje eu compreendo e aceito que as pessoas não mandam nos seus sentimentos e, nem sempre o que elas dizem sentir são verdade.

Estou tão bem, que os 15 quilos que tu levou de mim, já voltaram. O tamanho da minha circunferência abdominal voltou a me preocupar. E ainda assim você continua na minha cabeça, depois de tanto tempo. Às vezes na rua, parece que te enxergo em todos os lugares. Até com outros homens eu penso em você. No que você está fazendo agora...?

Será que você se lembra de mim. Acho que não... Mas gostaria que você lembrasse. Só por ego. Sabe que eu não sinto saudade. Isso não é saudade. É um incomodo. Apesar da dureza, estou melhor agora. Queria até que você visse... Será que você me reconheceria?

Às vezes eu sonho contigo (ainda), acordo de noite e me pergunto se o teu telefone ainda tem o mesmo número...

Wednesday, December 10, 2008

Stick and Sweet

Assiti ao último show da turnê da Madonna - Stick and Sweet – em Buenos Aires, que irá virar um DVD. Não sou fã incondicional dela, mas sempre falei que antes de morrer, teria que ir num show da Madonna. Depois que o show acabou, entendi o motivo. Certas coisas, a gente só vê uma vez na vida!

O show dessa turnê é um espetáculo! Falar que é um show, é pouco. É um grande show! Antes do espetáculo começar, há apenas uma caixa no palco. Depois que começa, tudo muda! A tal caixa, se transforma em imensos telões que mudam de lugar toda hora.

As coisas aparecem e somem do palco num piscar de olhos. Os dançarinos (que dão um show extra), um ringue de boxe, um carro, uma esteira, um piano, uma cabine de DJ e a própria Madonna, que não pára um só minuto. Não dava pra entende aquele show, como as coisas aconteciam naquele palco, com tamanha velocidade...

Depois de cada performance de deixar o público de queixo caído, ela tem fôlego para mais. Pula corda, dança o tempo todo, toca guitarra, troca de roupa, rebola e surpreende, sempre surpreende. A mulher é um arraso!

A música, ali, é secundária. Não é um show de música, é um show da Madonna. Sim, ela faz playback em algumas músicas e não é ela que toca a guitarra daquele jeito. Mas depois do profissionalismo, da exatidão de cada passo de dança, da respiração ofegante (mas não pesada), das surpresas a todo instante, ela está perdoada.

Um show grandioso, um espetáculo inesquecível, uma turnê arrasa quarteirão de um ícone do pop... Durante duas horas eu fui transportada para um mundo mágico, onde tudo é possível, e quando acordei desse sonho, entendi porque tinha que ir ao show da Madonna.

Sunday, November 30, 2008

Festa dos Continentes

Foi hoje a apresentação do espetáculo de final de ano da escola de dança Arte e Equilíbrio, da qual faço parte. O tema desse ano foi Festa dos Continentes, 23 coreografias foram apresentadas, sendo cinco de dança do ventre, cerca de 50 pessoas integraram o espetáculo, entre elenco, professores e apoio técnico.

Pela primeira vez, o evento aconteceu no Teatro Municipal de São Leopoldo, restaurado e reinaugurado esse ano. O local tem uma grande estrutura de back stage. São quatro camarins e uma grande coxia – pela primeira vez, não nos esprememos junto com homens e crianças em um só camarim. O palco é excelente, grande, permitindo movimentos de locomoção sem que os bailarinos fiquem se batendo. A iluminação e a acústica também me surpreenderam pela qualidade.

Mas o melhor de tudo é a confraternização e união de todos os dançarinos. Não são os familiares na platéia que mais vibram. Somos nós! Que ficamos escondidos na coxia, espiando as apresentações enquanto não chega nossa vez de pisar no palco. As meninas do balé, o pessoal do street, os guris do hip hop, a turma da dança de salão, as odaliscas...

Todo mundo se ajuda! A trocar de roupa entre uma música e outra, cuidar do tempo, acalmar o colega, olhar o ensaio que acontece rapidinho no corredor atrás do palco, a lembrar da marcação, contar a música e principalmente, aplaudir. Ninguém ali é profissional. Alguns dançam muito bem, outros nem tanto, mas todos sobem no palco dando o melhor de si. Somos nós que mais nos aplaudimos. Aplaudimos o amor pela dança, a iniciativa, a coragem de subir no palco, a arte.

Clap, clap. Clap, clap. Clap, clap...

Thursday, November 20, 2008

O gato comeu

- Cadê?
- Cadê o quê?
- Tudo...
- Tudo o quê?
- Nada!
- Tu é louca né?
- ...
- O que tu tá procurando na janela?
- Tudo!
- Mas tudo o quê!?
- Ai. A poesia, ora...
- A poesia!? Que poesia!?
- Toda a poesia...
- Tu tá lendo Mário Quintana ou Cecília Meireles e esqueceu o livro em algum lugar? Tu acha que tu perdeu o livro aqui? Num quarto de motel?
- Ai não é dessa poesia que tô falando?
- Mas tu é louca! Do que é então?
- ...
- Fala!
- É a poesia da vida...
- O quê!?
- A poesia da vida, das coisas banais... Cadê?
- Meu Deus! Sei lá, o gato comeu!
- Que gato!? Você nem é tão gato assim. E eu quero a poesia...
- Mas tu mesmo, está sempre falando que sexo não tem nada a ver com amor!
- Eu sei!
- Então, vem, sai da janela.
- Cadê?
- A tal poesia?
- Não, a minha calcinha.

Thursday, November 13, 2008

As perguntas de Galeano

Ruy Carlos Ostermann e Eduardo Galeano

O escritor uruguaio, Eduardo Galeano foi a grande atração da 54ª Feira do Livro desta quinta-feira (13). Ele participou do talk-show Encontros com o Professor, apresentado por Ruy Carlos Ostermann, no teatro Dante Barone da Assembléia Legislativa e depois autografou seu livro “Espelhos – Uma história quase universal.”

No bate-papo de uma hora, o intelectual falou de sua vida, de seus livros e das perguntas que carrega consigo. Tirou do bolso um minúsculo caderno que faz anotações quando está na rua. Contou que aos 22 anos já era diretor de um jornal em Montevidéu, onde fazia de tudo, inclusive o horóscopo. “Adorava fazer o horóscopo, me divertia e sempre induzia as pessoas aos pecados”, declarou aos risos. Galeano lembrou que antigamente os jornalistas tinham entusiasmo com a profissão, coisa que não se vê hoje em dia.

Um observador nato que se definiu como “um averiguador das coisas pequenas escondidas na grandeza.” Falou da importância de ter olhos e ouvidos atentos ao mundo, de questionar, de raciocinar, de educar, de ler de tudo, até as paredes. Ele que sempre se interessou muito por grafismos e grafites, encontrou numa parede a frase: “toda virgem passa por diversos Natais, mas nunca tem uma noite boa”.

Com um grande senso de humor, o escritor falou de sua desconfiança com as máquinas: “sempre achei que elas bebem e fazem festa durante a noite. De dia, quando precisamos, não funcionam direito, pois estão de ressaca.” Tem pouco tempo que passou a utilizar o computador, acredita que o prazer de escrever a mão é insubstituível.

Autor do clássico “As veias abertas da América Latina”, o senhor que nasceu em 1940 e ostenta cabelos totalmente brancos, não tem vergonha de falar das dúvidas mais infantis que carrega consigo - e que todos temos - por mais absurdas que elas sejam. Em certo momento questionou: "a humanidade seria uma obra-prima de Deus ou uma piada do Diabo?"

Inteligentíssimo, Galeano tem uma das qualidades que mais admiro nas pessoas, é um contestador. De suas perguntas, faz livros. Da história esquecida, arte. Se Galeano fosse uma pulga, seria dessas que vivem nas pontas dos pêlos, para não perder nada que acontece ao seu redor, como diria Jostein Gaarder.

Depois de rir das sacadas inteligentes, de ouvir histórias e de ficar quase uma hora na fila, sai de lá feliz da vida, com o meu livro autografado, um elogio: “belos olhos” e com a certeza de que o escritor pode ser tão surpreendente quanto seus escritos.

Saturday, November 08, 2008

Vontade de sei lá o que...

Caminho pela casa, abro a geladeira, olho... Caminho mais um pouco, pego um livro, dou uma lida... Vou pra rua, volto, passo pelo quarto do meu irmão, tento um contato imediato com o ser de moicano que está deitado na cama. “Sai fora”, ele me diz. Eu saio.

Às vezes dá uma inquietação. Uma vontade de alguma coisa que não sei o que é. Sair correndo, talvez. Correndo e gritando. Ou ficar parada. Parada e observando. Ficar vendo a vida passar embaixo de uma sombra. Não! Viver. Correr embaixo de sol de 40ºC.

Dá uma tristeza de saber que quando eu morrer, não terei lido um monte de livros que gostaria. Dá uma alegria em ver o céu azul, o sol brilhando e eu ter mandado arrumar minha bicicleta. Dá uma preguiça pedalar na subida da lomba.

Vou comer algodão doce e me irrito ao perceber que o vendedor está tão bêbado que não consegue pegar o algodão cor de rosa (que está bem em cima) e, sou obrigada a conhecer o sabor do algodão verde. Não é ruim, mas eu queria o rosa!

Rir e chorar. Tudo ao mesmo tempo e agora, porque eu sou exagerada e imediatista. Não quero saber. Nem lembrar. E esquecer também não. Vou deixar “a vida me levar”. Mas só por um instante porque prefiro pensar que planejo alguma coisa. Ah, quer saber? Vou escrever.

Wednesday, November 05, 2008

God bless you

Ainda bem que estou viva e presenciei essas eleições americanas. Ainda bem que o Obama venceu! Como a grande maioria do mundo, eu torci por ele. Pois é um visionário, qualidade que acho fundamental em qualquer pessoa que se propõe a ser um líder e que, infelizmente, falta em muitos políticos.

Gosto do sorriso largo e da austeridade para tratar de assuntos sérios. Principalmente da mente aberta para tratar de assuntos que são tabus numa sociedade moralista. De preferir negociações à guerra, de se preocupar com políticas de preservação ambiental, de achar que impostos não podem ser iguais para todos...

E sim, gosto de sua história. Um homem que não teve uma família convencional, mas soube manter uma referência familiar, que foi alfabetizado na Indonésia, cresceu no Hawaí, viajou para o Quênia para conhecer suas raízes, optou por advogar pelas famílias pobres, foi professor universitário, construiu uma família e aos 47 anos chegou a presidência dos Estados Unidos da América, só pode ser um idealista.

Idealistas acreditam. Acho que essas eleições mostraram que o mundo ainda está repleto de idealistas. Ou no mínimo, de pessoas esperançosas. Penso que o Barack Obama é a cara do novo mundo, desse futuro tão falado, dessa nova era, a era de Aquarius...

É estranho o presidente dos Estados Unidos ter Hussein no nome. Mas é um novo mundo batendo na nossa porta, saindo das telas de TV e mostrando que podemos ser mais tolerantes. Ao menino que cresceu na paz do Hawaí, ao homem idealista e ao primeiro presidente negro dos EUA, eu desejo apenas uma coisa:

God bless you!

Tuesday, November 04, 2008

Quatro anos

Foi há quatro anos que tudo começou. Estava no show do The Calling, em Novo Hamburgo, era a terceira ou quarta música, quando senti uma dor no estômago, a vista nublou e eu senti um medo inexplicável. Pânico. Pavor. Paralisei. Não lembro como cheguei no banheiro, mas lembro da mão de uma moça tocando água no meu rosto... Liguei para o meu pai ir me buscar, eu não podia ficar ali porque estava com muito medo!

Naquela noite não dormi, nem nas que se seguiram. Foi a primeira crise de pânico. Tempo depois, estava saindo da Unisinos, era final de semestre, só tinha ido pegar a nota e esperava o ônibus. O ônibus não vinha e não vinha e eu comecei a ficar com um medo danado. De novo não... O medo, o tremor no corpo todo, o pânico, a certeza que algo muito ruim vai acontecer. Não lembro como cheguei em casa, mas lembro da cara do meus pais.

Nesse meio tempo eu levei um pé na bunda de quem acreditava ser o primeiro homem que gostava de mim. Uma prima da minha idade morreu e eu percebi como a vida pode ser cruel. Sai do meu primeiro estágio, de dois anos e, me deparei com dias ociosos. Não sei o motivo, se foi um desses fatos isolados ou a soma de tudo... Mas passei a não sair da cama, não havia nenhum motivo para sair da cama, além do medo que eu sentia.

Matava aula direto, meus pais não me deixavam sozinha, perdi 15 quilos e muito tempo. Não sei o que fiz nos meses que fiquei assim... Depressão? Tratamento psicológico? Remédio? Bem capaz, afinal eu não era louca. Depois de muita conversa, aceitei que tinha algo de errado acontecendo e comecei a tomar remédio, fazer análise... Me esforçar pra voltar a ser o que era. Ou ao menos, sentir algo parecido com felicidade, que certamente, eu já havia sentido.

Com o tempo, as crises de pânico pararam, voltei a comer, arrumei um emprego, comecei a me ocupar, a não ter medo, larguei o remédio, ganhei alguns quilos, voltei a dar gargalhadas, chorei muito, fiz inúmeras perguntas, diminui o número da terapia, percebi várias coisas e a tristeza foi indo embora... Mas eu ainda tinha um receio. E se voltar acontecer? E se sentir medo de novo? E se... E se...

Mas agora, depois de quatro anos, acho que voltei a sentir algo bom, que eu tô achando que é felicidade. Nesse tempo todo, eu quase não sai, só ia a shows, morrendo de medo, mas ia. Baladas, se já não gostava antes, aboli por completo... Festinhas de amigos, reuniões familiares, raríssimas. Não sei quando comecei a sair de novo, foi esse ano... Acho que a formatura influenciou e ajudou.

O fato é que hoje sinto vontades. De sair, de ir no cinema, de ir pra praia, de gastar horrores de feira do livro, de visitar minha tia, de beijar na boca, de caminhar, de conhecer gente, de viajar, de conversar... Hoje fui na psicóloga, por um único motivo, lhe dar um abraço de aniversário!